Para casar…

31 agosto 2012 | 3 comentários

…basta estar viúva. A reflexão é parte de um diálogo do Memorial de Aires, de Machado de Assis, escrito em 1908, o mesmo ano em que ele morreu. Além do último, o Memorial é certamente o mais melancólico dos seus romances, sentindo-se, a cada linha, a tristeza que o devorava, ainda e para sempre abalado com a morte, pouco tempo antes, de Carolina, esposa devotada com quem viveu, por 35 anos, uma rara felicidade conjugal.

Pois bem: estávamos no Café Severino. Falávamos sobre viúvos e viúvas, assunto inspirado na viuvez, desde a semana anterior, do nosso amigo Tide, um vigoroso homem de 70 anos, de quem morrera a esposa, Madalena, a Madá, que desaparecia aos 54. Vínhamos todos da missa de sétimo dia e, depois dos cumprimentos de pesar, fomos ao Café, deixando o viúvo na companhia de uma cunhada que o amparava e consolava. Éramos quatro naquele momento: Raul, Carla e seu marido, Gabriel, e eu. Assim que nos sentamos e a Antonia veio nos atender, o Raul atacou com a sua irritante objetividade:

— O Tide está rijo, nem parece ter 70 anos. Aposto que até dezembro vai estar casado outra vez.

— Não acredito — disse eu. — Eles eram muito agarrados, viviam felizes. Vai ficar viúvo para sempre ou, no mínimo, por dez anos!

O Raul riu e lascou:

— Dez anos? E vai jogar fora o fogo que tem hoje? Vai esperar que ele esfrie?

— Você não acredita em fidelidade, é? — perguntou o Gabriel.

Antes que o Raul respondesse, Carla atacou:

— Eu só acredito na fidelidade dos cães!

Carla é terrível, e o marido sabe disso muito bem. Continuaram:

— Se fosse viúva e não viúvo, eu acho até que ela já estaria de olho em alguém no velório!

— Por que não? — desafiou Carla.

— Para você fidelidade não é importante!

— E é? — desafiou ela mais uma vez.

— Me dá até medo — fechou o marido. — Se eu morrer, já viram, né?

— Não apenas se você morrer, queridinho. Vivo mesmo. É só bobear comigo.

O duelo era cortante e perigoso, um rastilho para uma briga de casal. Intervim:

— Ei, Carla, sossega.

— Ela fala assim só para me irritar.

— Vai esperando que é só para irritar — ameaçou ela, rindo.

E até a Antonia, que estava colocando na mesa o café, o leite e os pãezinhos de queijo, riu e piscou, cúmplice, para a endiabrada Carla. Foi aí que eu me lembrei da frase do Machado citada no início desta crônica: “Para casar, basta estar viúva”. Carla tentou reanimar a discussão:

— Acho os homens engraçados. Não são fiéis nem quando a mulher está viva, vão ser quando ela morre? Papo furado. Sejam menos hipócritas, queridos, por favor.

— Vamos parar por aqui — disse eu. — A viuvez é apenas um estado civil.

Carla encerrou o papo com essa pérola:

— Mais do que um estado civil, a viuvez é um estado de espírito.

Subitamente, olhamos todos em direção à entrada do Café e lá estava o Tide, o inconsolável viúvo de sete dias, a nos olhar, lacrimejante, como a nos pedir compreensão e afeto. Nós nos levantamos prontamente e fizemos com que ele se acomodasse entre a gente. Antonia se manifestou:

— Sinto muito, seu Aristides. Gostava muito da dona Madalena.

— Obrigado, Antonia.

— Café puro ou com leite?

— Uísque. Puro.

Trocamos olhares. Antonia veio com a garrafa e serviu uma dose.

— Três doses — pediu ele.

Antonia hesitou alguns segundos, serviu e recebeu novo pedido:

— Deixa o litro.

E virando-se para nós:

— Obrigado pela presença de vocês na missa. Pelo carinho e amizade.

Levantou o copo, num brinde sem palavras, e bebeu o scotch de um único trago.

— Conte com a gente — disse eu.

Passaram-se não mais que dez minutos e eis que a consoladora do sétimo dia apareceu no Café, procurando o Tide com os olhos.

— Me dão licença. É a minha cunhada. Tenta me consolar, mas a coitada está mais inconsolável do que eu.

Passou a mão no litro de scotch e foi com a cunhada para uma outra mesa. Ficaram ali, trocando palavras de conforto.

Carla sorriu e eu pensei: essa cena vem a calhar no momento em que celebramos o centenário de Nelson Rodrigues! Empurrei a xícara de café com leite e pedi à Antonia:

— Me vê um copo, Antonia. Vou de uísque também.

— Gelo e água?

— Puro!

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Entre grampos e bordados

03 agosto 2012 | deixe seu comentário (0)

Quando eu e minhas irmãs, ainda crianças, passávamos temporadas na casa da minha avó portuguesa, mãe do meu pai, meu avô já não vivia e essa minha avó já era velha. A conversa com os netos, hóspedes provisórios, ficava a cargo de duas tias solteironas, gordas e bonitas.

Chamávamos essa casa de colégio interno, já que a disciplina por lá era rígida. Os pitos (que era como se chamavam essas conversas) acabavam sempre em palmadas ou castigos específicos, sendo que, no meu caso, os dois se aplicavam. Entre esses o mais temido era o de ficar sem a sobremesa no jantar.

O ritual era simples: as tias, ora uma, ora outra, chamavam o culpado ao quarto, fechavam a porta e repetiam um discurso punitivo. Durante essa falação, baixávamos a cabeça, contritos, pedíamos desculpas e prometíamos não repetir as faltas.
Já na nossa casa, onde morávamos com os nossos pais e na companhia da outra avó, a de coração de manteiga, mãe da minha mãe, o ritual era diferente. E brando. Vó Leonor queixava-se, mais do que censurava. E essa operação realizava-se sempre enquanto ela penteava minhas duas irmãs, colocando grampos em seus cabelos. Pedia a uma delas:

— Sente-se aqui, queridinha.

Chamávamos a esse momento de “a hora dos grampos”. E eu, então, o único menino da casa, esgueirava-me pelos cantos da sala e desaparecia. Mas não ia longe. Quase sempre ficava atrás da porta semiaberta para escutar o que falavam. E de lá ouvia coisas como:

— Fiquei sabendo que você, na matinê do Rialto, sentou-se ao lado do Chiquinho. Sozinha com ele no escuro do cinema.

— Mas vó — protestava a neta culpada. — Eu não estava sozinha!

— Você foi ao cinema com sua irmã, eu sei, mas pediu que ela sentasse num outro lugar, longe de você.

Minha irmã mais velha fechava a cara e os olhos faiscavam, podendo-se ver a raiva que sentia da nossa irmã mais nova, que ela sabia ser a autora da denúncia. Depois passava por ela e dizia entredentes:

— Traidora. Você me paga!

E podia-se ouvir, mais tarde, as duas brigando no quarto, entre empurrões e puxões de cabelo. Não mais do que isso.

Quando era comigo, o sermão acontecia durante a sessão de limpeza de dentes e orelhas. E o corte das unhas.

— Como é que você teve coragem de pôr fogo no rabo do gato do vizinho?

— Não foi no rabo, vó, foi no cordão que a gente amarrou no rabo dele — dizia eu, certo de que a explicação me absolveria.

— E que acabou queimando o pobre bichano. Que maldade! Você sabe que o Menino Jesus não gosta de crianças que judiam dos bichinhos de Deus?

Eu baixava os olhos, arrependido sim, devo dizer, mas louco para sair dali e aprontar mais alguma. E, como tudo que eu aprontava era na rua, em companhia dos meus companheiros, que formávamos como um bando de pequenos delinquentes, o meu castigo era sempre o mesmo: ficar apenas de cueca — e às vezes sem ela — na janela do quarto, olhando a tão desejada rua. Minha avó escondia as minhas calças, impedindo-me de sair.

Essa era a parte dos grampos, numa época em que a palavra não se ligava às escutas telefônicas de hoje, mas apenas aos ganchinhos de metal usados para prender os cabelos femininos.

Mas outra conversa acontecia, essa entre adultos, e que nós, crianças, também ficávamos ouvindo atrás da porta. Era quando minha avó e minha mãe bordavam, uma de frente para a outra.

Minha mãe falava. E eram, quase sempre, queixas do meu pai. Do seu descaso por ela, principalmente. Não entendíamos tudo, na nossa pouca idade e total inexperiência, mas, como minha mãe — também quase sempre — chorava, concluíamos que ela estava magoada e cheia de razão.

A essas sessões terapêuticas entre nossa mãe e a mãe dela chamávamos de “a hora do bordado”. Mais tarde, já adulto, compreendi que era, no fundo, a hora da verdade, em que o mundo feliz e sonhador da minha pobre mãe, ao lado do meu pai que não sonhava, começava a desmoronar para sempre. Custei a aceitar a ideia de que minha mãe era infeliz.

Quando morreram, ele em 1990, com 88 anos; ela em 1992, com 92 anos, assistiam à televisão de mãos dadas, dando a impressão de terem vivido em permanente lua de mel.

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Conversa mole

21 julho 2012 | 3 comentários


Conversa mole, lero-lero, papo furado, seja lá o que for e que o Aurélio e o Houaiss arrolem como sinônimos, o que eu sei é que muitas vezes o que eu quero mesmo é isto: contar pequenos casos, sentimentais ou anedóticos, que me chegaram através de livros, jornais, família, amigos… É como conversa de caipira, cigarro de palha no canto da boca, agachado ao pé da fogueira, “para esquentar o frio”, como eles dizem. Conheci um em Bragança Paulista, interior de São Paulo, chamado Zé Pinto. Começava qualquer assunto com:
— Como eu ia dizendo…
Um dia eu cortei, só para provocar:
— Ia dizendo o quê, Zé, se você ainda não falou nada?
E ele, com naturalidade:
— E o que eu falo pra dentro não conta?
***
Quantas coisas, das mais gigantescas obras-primas a um pequeno episódio ou mesmo uma única frase, uma faísca de pensamento, nos encantam e se tornam inesquecíveis para nós? Pensando nisso, lembrei-me de algumas que li e de outras que vivi ou me contaram, que deixo aqui para os possíveis leitores.
Gosto muito, por exemplo, de um curto diálogo entre uma jovem argentina e um juiz reproduzido por Adolfo Bioy Casares no livro Descanso de Caminhantes:
— Nome?
— Fulana de tal.
— Nacionalidade?
— Argentina.
— Sexo?
— Autodidata, porque meu marido nunca me ensinou nada.
***
Do mesmo Bioy Casares, uma outra pequena obra-prima, que nos faz lembrar de O Caso do Vestido, poema de Drummond: um homem apaixonou-se por uma mulher e saiu de casa, deixando esposa e filhos. Dois anos depois, voltou e encontrou a família à mesa, para o jantar. Olhou e deu à mulher um embrulho.
— Trouxe isto.
Ela abriu. Era uma pizza.
***
A avó da minha mulher frequentava uma igreja evangélica no Catete. Era muito querida por todos os fiéis. Um dia um deles deu a ela os óculos que usava:
— Operei a catarata. Não preciso mais deles.
E ela passou a usá-los sempre que ia ao culto. Um dia uma das filhas a encontrou por lá e admirou-se:
— Óculos, mãe? Mas você nunca precisou!
E ela, falando baixinho:
— Eu sei, mas foi o seu Nelson que me deu de presente. Fico sem graça de não usar. Vai parecer desfeita, pouco-caso.
***
Quem me contou essa foi meu amigo Marcelinho, garantindo ser verdade. Uma jovem grávida conversa com uma amiga:
— Vou ter meu filho na Perinatal de Laranjeiras.
— Já reservou lugar?
— Não. Acha que precisa?
— Claro! Na hora você não encontra vaga.
— Ah, isso é o de menos, eu vou de táxi.
***
Fiquei sabendo noutro dia, nem sei de que maneira, que no Japão só os professores não precisam curvar-se diante do imperador. Imediatamente, minha admiração pelo país asiático aumentou, tal como aumentou meu desapontamento com o nosso país, que até hoje não deu a eles o tratamento que merecem.
***
Voltando ao caipira Zé Pinto, lembro-me de que uma vez eu e alguns amigos o encontramos dentro da igreja, na pracinha da pequena cidade. Ele estava acompanhado de uma mulher, com quem conversava baixinho. Ficamos do lado de fora da matriz, esperando que ele saísse. Meia hora depois, eis que ele aparece, mas sozinho. Aproximamo-nos.
— Namorando dentro da igreja, Zé?
— Não é namorada. É a minha mulher.
— Mas sua mulher não morreu no ano passado?
— Que é que tem? Morreu, mas sempre volta pra conversar comigo sobre os filhos.
Eu e os meus amigos trocamos um olhar de espanto e incredulidade. Ele completou:
— Era muito apegada às crianças. Quer saber se tomaram vacina, se estão indo à escola…
E foi embora, resmungando e nos deixando sem palavras. Entramos na igreja e não encontramos a mulher.
***
Para encerrar, uma definição para mitologia, mas que serve para muitas histórias que ouvimos ou contamos: “Essas coisas não aconteceram nunca, mas existiram sempre”. É de Salústio, muitos anos antes de Cristo.

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Brilho e brilhareco

09 julho 2012 | 1 comentário

A fama nada mais é do que a soma de todos os mal-entendidos que se reúnem em torno de um nome”, escreveu o poeta Rainer Maria Rilke. Se todos atentassem para essa reflexão crítica, muitos não lutariam tanto e nem todos dariam tudo para alcançar a categoria de celebridade. Os grandes artistas podem até desejar o brilho, mas nunca o brilhareco, que nada mais é do que a fama atualmente. Célebre hoje, anônimo amanhã, quando os mal-entendidos crescerem ao redor de outra pessoa.

Era sobre isso que falávamos no Café Severino, na última segunda-feira. E tudo começou quando a Carla e o marido chegaram, vindos do cinema, depois de assistirem ao último filme de Woody Allen, Para Roma, com Amor.

— Para mim — disse ela —, mesmo que o filme fosse ruim, estaria salvo com a presença do Alec Baldwyn. Nossa, que homem!

— Pois tire o cavalinho da chuva — provocou o Nestor. — Ele acaba de se casar com a professora de ioga, uma linda mulher de 30 anos.

— Mulher? — perguntou o marido de Carla. E ele mesmo respondeu: — Uma menina perto daquele velhote.

— Tá morrendo de ciúme! — divertiu-se a Carla.

— Ciúme, eu? Você é que fica maluca quando eu falo da Penélope Cruz.

— Você não fala, você baba! É diferente!

— Ei, calma, eu nem sabia que a Penélope estava no filme. Vou correndo ver — interrompeu o Raul. — Me amarro nessa espanhola.

— Uma quarentona — interveio a Suzana, há muito tempo ausente das nossas reuniões.

— Ainda que fosse sessentona — suspirou o Gabriel.

— Eu vi o filme — disse o Rubinho. — Para mim ele vale pelo personagem Leopoldo Pisanello, interpretado genialmente pelo Roberto Benigni.

E aí toda a turma caiu em cima dele, já que até hoje não se esquece de que foi esse mesmo Benigni que nos tirou o Oscar com A Vida É Bela, concorrendo com Central do Brasil, do Waltinho Salles, infinitamente melhor.

— Ah, isso é nacionalismo barato! — sentenciou o Raul.

Selando a paz, levantamos um brinde ao Baldwyn, à Penélope e ao Waltinho, pedindo a Gabriela que nos trouxesse mais uma garrafa do tinto chileno.

A conversa enveredou por outros assuntos e a reunião terminou em paz. Na noite do mesmo dia fui ver o filme com minha mulher, e o personagem Pisanello ilustra realmente a discussão daquela tarde: um homem que se vê, subitamente, famoso. Irrita-se inicialmente com essa notoriedade, mas acaba gostando do que ela lhe proporciona, decepcionando-se no final. Com isso, lembrei-me de muitos nomes que experimentaram esse brilhareco e que, hoje, nem recordamos o que faziam. E, por oposição, lembrei-me também do Chico Buarque e de muitos outros que vivem discretamente e nunca caíram na tentação que leva ao brilhareco. O Chico era contratado da TV Record desde a vitória no festival de MPB em 1966. Tinha prestígio sem deixar de ser popularíssimo. Levá-lo ao programa da Hebe para dar uma entrevista era obra de paciência, tarefa que muitas vezes coube a mim, um dos diretores do programa. Eu conversava com ele, tentando convencê-lo. Ele resistia. Argumentava que não tinha o que dizer. Quando aceitava e comparecia ao programa, sentava-se no sofá e ficava monossilábico diante de uma plateia que o amava. Só não trancava a boca e ficava totalmente calado porque a Hebe provocava, charmosíssima como sempre. Algumas vezes colocava a mão no rosto dele e perguntava ao público: “Ele não é uma gracinha?”. Diante da concordância de todos com aplausos e gritos, Chico ficava rubro, sem saber onde enfiar as mãos, sem saber o que fazer com os pés. E essa recusa em ser contemplado como uma celebridade fazia dele um artista ainda mais admirado.

Como ainda hoje.

***

É de Glenn Gould a frase que extraí de uma de suas declarações sobre a fama e que encerra esta crônica: “Eu sinto que ao artista deveria ser permitido o anonimato”.

Tenho certeza de que o Chico assinaria embaixo dessa reflexão do genial pianista canadense.

Isso é brilhar.

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Olhos verdes

25 junho 2012 | 5 comentários

Olhos encantados, olhos cor do mar,
Olhos pensativos que fazeis sonhar!
Os versos são do poeta Vicente de Carvalho, um dos últimos parnasianos brasileiros, que foi popular na minha juventude e hoje está esquecido. O poema Olhos Verdes estava no meu repertório de declamador de festas de aniversário, tentando impressionar as meninas e, às vezes, fazendo chorar senhoras mais sensíveis. Sim, a minha geração impressionava com poesia. Magnetizávamos, hipnotizávamos, conquistávamos à custa dos poetas.

 

Olhos pensativos que falais de amor!

 

Mas onde estão elas, hoje em dia? Onde se escondem as mulheres de olhos verdes? Não me refiro a atrizes e modelos, celebridades femininas que povoam as revistas, os filmes e as passarelas do mundo. Nessas nunca temos certeza se é natural a cor esmeralda estampada ao redor das pupilas. Refiro-me a mulheres comuns, alcançáveis, atingíveis, que podemos encontrar nas ruas, no metrô, nas plateias dos teatros e na fila da pipoca na entrada dos cinemas. Não as vejo em lugar algum. Sumiram as mulheres de olhos verdes, paixão do meu tempo de rapaz? Saíram de moda, por acaso? E logo agora que o verde está estampado em todos os lugares? O verde das nossas colossais florestas, menos colossais a cada ano. Dona Margarida, minha professorinha do curso primário, não falava floresta, falava mata, apontando a bandeira brasileira. O verde das nossas matas. A cor do abismo, como os olhos verdes de uma mulher que enfeitiçou um vizinho, levando-o a abandonar a família com seis filhos!

Será que alguma menina da minha classe tinha os olhos da cor das nossas matas?Olhos tentadores da mulher amada!Naquela época já não era muito comum encontrar olhos verdes andando nas ruas, como simples mortais. E, acreditem ou não, namorar uma garota de olhos verdes matava de inveja os amigos. E, se ainda por cima fosse loira, era de atrair também a atenção dos adultos:
— Vi você no cinema, com uma loirinha de olhos verdes! Parabéns.E a gente sorria, modesto, negando de mentirinha a honra da conquista:
— Somos apenas bons amigos.Não, essa frase hipócrita não existia ainda. Apenas sorríamos com modéstia e, se possível, ruborizávamos.

Olhos cismadores que fazeis cismar!Virávamos celebridades no bairro. Eu tive uma namoradinha com esses atributos. Loirinha, de olhos verde-claros. Era de Santa Catarina. Acrescentava com orgulho:
— De Florianópolis.
Nos dias de hoje, certamente diria Floripa, alcunha que ainda não fora criada para a capital. Chamava-se Clarice. Assim mesmo, com C, como a Lispector. Eu desfilava com ela diante dos amigos babões. Carregava-a como a um troféu. Quando ela viajou para Florianópolis, com os pais, prometeu voltar em um mês. E mais: que aceitaria casar-se comigo quando estivéssemos na idade adulta. Afinal, tínhamos naquele momento da despedida minguados 16 anos. Mas Clarice só voltou dois anos depois: linda, loira, olhos verdes e recém-casada com um oficial da Marinha. A partir de então, sempre que eu jogava batalha naval, um joguinho que estava na moda, afundava com violência os cruzadores e encouraçados da frota inimiga. Mais ou menos um ano depois, ela cruzou comigo numa matinê do Cinema Rialto e piscou de leve os olhos verdes. Eu me animei:

— Nosso casamento ficou na promessa, hein?E ela, despachadinha e enganosa:
— Por quê? Eu ainda não morri!
Olhos abençoados, cheios de promessa.Vivemos nesta semana a euforia do verde. Das nossas matas e dos olhos da mulher amada. Nas ruas, nas passeatas e em muitas caras pintadas que protestam. A Rio+20 está na capa de todas as revistas, nas páginas de todos os jornais, no rádio e na televisão. O parco resultado dessa festa cívica cor de esmeralda será cumprido? Ou ficará na promessa, como a da minha namoradinha de 16 anos? Ainda não sabemos. Mas não podemos esquecer que o verde é também a cor da esperança. E essa não podemos perder.
Olhos pensativos que fazeis sonhar,
Olhos cor do mar!

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