Lembranças
17 fevereiro 2012 | 8 comentários
Éramos quatro em volta da mesa. O cenário era o Café Severino, nos fundos da Livraria Argumento. Como sempre acontece nos encontros que cultivam lembranças, às vezes se ouvia um suspiro de saudade. Afinal, somos todos setentões. Nessa tarde, por causa da semana do Carnaval, alguém lamentava a proibição do lança-perfume.
— Por culpa de uma dúzia de idiotas!
— Já não era apenas uma dúzia, quando foi proibido, mas uma multidão.
— Uma multidão de idiotas, então. Eu sempre usei para conquistar as garotas.
— Você. Nós. Mas não a maioria.
Do lança-perfume se passou a outras proibições que foram sendo feitas no correr do tempo, como a das armas de brinquedo.
— Quem, entre nós, quando criança, não se fantasiou de caubói no Carnaval, com dois revólveres na cintura? E, até onde eu sei, ninguém virou bandido.
— No Natal era um presente muito desejado pela garotada. Revólveres de espoleta enfiados em cartucheiras, idênticos aos de verdade. Mas isso acabou sendo politicamente incorreto.
— A verdade é que as proibições são ditadas pelos maus exemplos do uso.
— Às vezes fico pensando se na nossa infância éramos todos bons meninos ou apenas exceções.
— Éramos exceções, fruto de uma boa educação familiar.
No balaio das proibições, alguém se lembrou dos cigarros de chocolate, que também desapareceram.
— E dizer que meu pai, tão zeloso dos bons costumes, trazia para mim os cigarrinhos e ria quando eu fingia fumar, soltando fumaça de vento.
— E você fumou depois que cresceu?
O outro hesitou, ficou sem graça por um momento, mas acabou entregando:
— Na verdade, comecei bem cedo, com 12 ou 13 anos, e fumei até os 50, parando por causa de uma bronquite, mas não acho que foram os cigarros de chocolate que me levaram aos de verdade. Naquela época até quem não fumava fingia fumar.
Sorri ao me lembrar da foto que tenho em meu escritório, feita na Praça da República, em São Paulo, em que eu apareço ao lado dos amigos Bento Prado Jr., Flávio Rangel e Cyro del Nero. Atrás dessa foto, pode-se ler a data: 1º de setembro de 1956. Estamos de pé, os quatro na mesma posição, cada um com um cigarro entre os dedos, inclusive o Cyro, que não fumava nem nunca fumou. Sim, era chique, fazia parte do figurino.
E do lança-perfume e do cigarro passamos aos balões que soltávamos, iluminando o céu da nossa infância, e que foram proibidos por causa dos incêndios. E dos balões das festas juninas chegamos à Páscoa, lembrando que os ovos de chocolate puro, feitos com açúcar, foram quase banidos do mercado, substituídos pelos produtos dietéticos, já que engordar também passou a ser politicamente incorreto.
— E o álcool? — lembrou alguém.
Meu pai colocava um dedo de vinho no meu copo, enchia de água com açúcar e eu brindava com os adultos. Hoje, se um pai faz isso num restaurante, chamam a polícia!
Posso garantir que a conversa ainda iria longe, se não fôssemos interrompidos pela Silvia, que nos avisou que o café estaria fechado para obras durante o Carnaval. E assim, entre velhas lembranças, fomos saindo em direção às nossas casas, em busca do calor familiar, este jamais proibido.
***
Perdi um segundo filho há uma semana. Muitas das mensagens de solidariedade que venho recebendo vieram de pessoas que não conheço, que gentilmente se apresentaram como leitores desta crônica quinzenal. E, por essa razão, reservei este espaço para o meu agradecimento chegar até elas. Um pequeno poema do Drummond está tatuado no meu coração desde a morte do meu primeiro filho, em 1988. E é lá, nesse ferido coração, que meus rapazes repousam para sempre. Com os dois versos do poema Cemitério de Bolso encerro a crônica de hoje:
“Do lado esquerdo carrego meus mortos.
Por isso caminho um pouco de banda”.
Obrigado a todos.

