Hebe

13 outubro 2012 | 8 comentários

A primeira imagem que tenho da Hebe é de alguns anos antes de conhecê-la pessoalmente. Década de 50, ela muito loira e linda, cruzando as ruas de São Paulo num conversível branco.

Imagem inesquecível, semelhante às que víamos nas revistas com as atrizes americanas de cinema. Já naquela época as pessoas paravam no meio-fio e acenavam para ela, que buzinava como resposta. Já era popular, admirada e querida. Já era alimento de algumas intrigas. Já produzia um sem-número de lendas ao seu redor. Já era considerada rica. Já exibia casacos de pele e joias ao desfilar nas noites paulistanas. Já era cortejada, invejada e criticada. Criticada até mesmo por estar loira. E, por causa disso tudo, muitas vezes sofria e chorava. Outras se indignava e rebatia com furor. Mas, na maioria das vezes, deixava para lá.

E já ria. E como ria!

Não há quem não tenha uma história a contar sobre ela. Sejam aqueles que a conheceram de perto e com ela trabalharam ou se relacionaram, como amigos e parentes; sejam telespectadores dos seus programas, contados aos milhares; sejam frequentadores fiéis do seu auditório. Afinal, são muitos anos de convívio com essa mulher que atravessou o tempo fazendo sempre a mesma coisa e conseguindo que essa coisa fosse sempre diferente e cada vez melhor. Um velho programa novo a cada semana.

Ainda que jornais e revistas tenham esgotado suas tiragens com belas e fartas matérias, agora que morreu, a Hebe mesmo permanece inesgotável.
Fui, por três anos, um dos diretores do programa que ela fazia nos anos 60 na TV Record. A audiência era total e absoluta. Foi lá que se consagrou o sofá no centro do palco. Naquele programa, o desfile de entrevistados foi o maior, o mais expressivo da televisão brasileira, desde a sua inauguração, há sessenta anos. Nenhuma personalidade, nacional ou internacional, deixou de sentar-se ao lado dela. Fosse quem fosse, estando em São Paulo, estaria naturalmente no seu programa: artistas, esportistas, políticos, cientistas, celebridades de qualquer área — todos beijavam sua mão, riam com ela, admirando a alegria, o carisma, a jovialidade e a disposição para a vida que ela exibia escandalosamente. Um luxo de mulher.

Era um tempo de dura competição dentro da TV Record. Como não tínhamos concorrentes externos que nos ameaçassem, concorríamos internamente, cada um de nós defendendo com todo o vigor os programas que assinava. Nessa época, já formávamos a Equipe A de produção: Tuta Carvalho, Raul Duarte, Nilton Travesso e eu. E éramos responsáveis por programas como O Fino da Bossa, Bossaudade, Esta Noite Se Improvisa, Corte Rayol Show, Família Trapo, Show do Dia 7 e… Hebe. Era ela a mais popular entre todos os artistas da casa. E esses artistas eram — nada mais, nada menos — Roberto Carlos, Elis Regina, Ronald Golias, Jô Soares, Chico Anysio, Renato Corte-Real, Agnaldo Rayol, Chico Buarque, Caetano e Gil. Entre as personalidades internacionais, lembro-me bem do doutor Christian Barnard, que fez o primeiro transplante de coração, e do astronauta Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar na Lua. A todos tratava com a mesma simpatia e carinho. E já usava a expressão “gracinha” como uma das suas marcas. O selinho viria muito depois.

Hebe foi a mais luminosa das estrelas brasileiras. A mais duradoura e a mais feliz. Tive a sorte de ter sido também seu amigo e seu compadre, já que ela batizou minha filha Maria Carolina.

Uma lenda adormece, mas não morre. E, por mais que se conte, sempre haverá o que contar. Como as histórias de amor.
Descanse em paz, comadre.

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Mosaico

29 setembro 2012 | 5 comentários

Que rei sou eu?

O velho Chico Viola, o rei da voz Francisco Alves, já sabia que a coroa real era de lata e que a memória não se transfere de uma geração a outra. Rei ontem, anônimo hoje. Esta semana, precisamente o dia 27, marcou o sexagésimo aniversário da morte do cantor num desastre na Via Dutra. Seu enterro foi consagrador como sua vida. Quem sempre conseguiu reunir milhares de admiradores em praça pública foi levado ao São João Batista por milhares de órfãos da sua bela e potente voz. Eu o vi cantando, arrebatador, no Largo da Concórdia, em São Paulo. Vendo-o sobre um palco, aplaudido entre lágrimas por homens e mulheres, não se podia evitar a emoção.

Voz de cantor de opereta, como a de Vicente Celestino, o avesso do refinado Mário Reis, com quem gravou em dueto. Mais tarde, todos eles foram superados pelo incomparável Orlando Silva, o verdadeiro “cantor das multidões”. De nenhum deles se ouve mais uma única nota musical. Nem no rádio nem na televisão. Um dos maiores sucessos de Chico Alves, lançado no Carnaval de 1945, quando ele já era chamado de “o rei da voz”, ironizava uma coroa real com os versos:

Que rei sou eu
Sem reinado e sem coroa
Sem castelo e sem rainha
Afinal que rei sou eu?

***

Felicidade

O canal Viva reprisa, desde segunda-feira, uma novela que escrevi em 1991, Felicidade, que marcou, entre muitos eventos, a estreia de Vivianne Pasmanter na TV, ao lado do Tony e da Maitê, em interpretações memoráveis. Revi o primeiro capítulo, emocionado com tantas presenças queridas, muitas delas já desaparecidas do mundo dos vivos, como Cláudia Magno, Yara Cortes, Marly Bueno, Serafim Gonzalez, Ariclê Perez, Benjamin Cattan, Castro Gonzaga, Miguel Magno, Paulo Pinheiro e Sandra Bréa, que faz na novela sua última aparição na TV. Felicidade marca também a estreia de Denise Sarraceni como diretora-geral de uma novela, mostrando, desde então, seu talento para comandar uma grande equipe. Essas reprises do canal Viva nos levam a uma saudável lembrança de acontecimentos da vida pessoal de cada um de nós. Por exemplo: em 1991, quando a novela estreou, em outubro, minha mulher estava grávida do nosso filho Pedro, que nasceu em dezembro daquele ano e, portanto, caminha para seus 21 anos dentro de dois meses. Saudade de Felicidade, um trabalho que eu fiz com a Elizabeth Jhin, o Marcus Toledo e a Eliane Garcia.

Tatuagem

A crônica que deixei neste espaço há duas semanas rendeu alguns comentários de leitores que encontrei nas minhas andanças pelas ruas do Leblon. O mais curioso deles foi de uma jovem que exibiu para mim e para minha mulher, na fila da pipoca do cinema, a frase “Tô carente” tatuada na nuca. Minha mulher sorriu, complacente, e eu fiz uma observação óbvia e tolamente paternal:

— Não acha que essa confissão te expõe muito?

— Claro que sim — disse a jovem. — Deixa eu te contar o melhor dessa história. Há dois anos, numa festa, mostrei a tatuagem para um rapaz, que imediatamente mostrou a dele, no peito: “Te pego no colo, neném”.

E riu com as amigas que a acompanhavam.

— Nossa, que coincidência! — disse eu. — Parece cena de novela.

— E olha: dei sorte. Ele me pega no colo até hoje!

***

50 Tons de Cinza

Não li o romance, ou melhor: não li de carreirinha, como o Zeca Diabo de O Bem-Amado, do Dias Gomes. Li saltando algumas páginas, como faço sempre que leio um livro por dever, já que está muito comentado por causa de um grande sucesso, e não por escolha espontânea, quando perseguimos um autor e tudo o que ele escreve. Ou por interesse pelo tema que sabemos estar sendo abordado naquela obra. Mas enfim… Não posso dizer que li, mas também que não li. Li mais ou menos. Não achei mal escrito nem pouco merecedor da colossal vendagem. Também ficou claro que os homens correram atrás do livro, tanto quanto as mulheres. Só que de maneira envergonhada. E desdenhosa. O livro incomodou e fez alguma sombra nas relações íntimas de alguns casais. Uma desconfiança. Vendo o interesse da mulher, que não consegue deixar o livro um minuto sequer, muitos maridos devem pensar: “Será que ela espera o mesmo de mim? Que vai começar agora a procurar por um Christian Grey, acreditando ser uma Anastásia Steele ainda não revelada, mas que finalmente encontrou como modelo?”.

Uma dúvida dessas gera insegurança e pode acabar com uma relação até então calma, conformada e, por que não dizer, hipócrita.

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Tatuagens

15 setembro 2012 | 2 comentários

Eu estava descendo a escada rolante do shopping e ela seguia dois degraus à minha frente. E nos seus ombros eu vi, tatuado, o sinal de aspas que se abria no ombro esquerdo e se fechava no direito. Entre um e outro, nenhuma mensagem ou palavra. Nada se via ou se lia naquele espaço. Eram, portanto, aspas que se abriam e se fechavam sobre coisa nenhuma.

Acabei de descer, perdi a jovem de vista, mas não conseguia esquecer aqueles dois sinais. Ocorreu-me que — para fazer graça, quem sabe? — estaria se colocando entre as aspas para ser vista como uma pessoa diferente. Ela própria uma citação de algo que ninguém deveria saber, a não ser ela mesma. Ou nem ela.

Segui meu caminho, comprei o que tinha de comprar e me instalei num café. Numa mesa mais adiante eu vi uma outra jovem, pendurada no celular, que exibia no tornozelo a tatuagem de uma pomba branca com um ramo de oliveira preso ao bico. Outros jovens passavam diante de mim. E muitos, alguns discretamente, outros nem tanto, deixavam à mostra uma tatuagem. Lembrei que, na minha adolescência, tatuagem era uma exclusividade de marinheiros e presidiários, além de muito frequente nas histórias em quadrinhos, como as do Popeye e sua âncora tatuada nos braços.

Uma vez participei de um grupo amador de teatro que promovia espetáculos em presídios. Numa das apresentações, um dia de muito calor, os presos estavam sem camisa, sentados no chão do pátio, e todos eles, sem exceção, exibiam tatuagens nos braços e no peito. Nos braços, a mais comum era um coração flechado, onde se podia ler um nome de mulher. Já no peito, a que se via em quase todos era um coração — sem a flecha — em que se lia “amor de mãe”.

Àquela época a única pessoa tatuada que conhecíamos no bairro em que eu morava era um empregado de posto de gasolina, Genésio. Mas ele também, soubemos depois, era um ex-presidiário.

Estava eu voltado para essas longínquas e inocentes lembranças quando vi a jovem entre aspas se aproximar do café, acompanhada de uma outra, aparentemente da mesma idade. Conversavam animadamente e riam do que falavam. Ocuparam a mesinha ao lado da minha e, como o lugar era pequeno, quase nos esbarrávamos. Tanto olhei para elas e tanto elas surpreenderam meu olhar que achei melhor explicar a minha curiosidade.

— Desculpe — disse eu —, mas desci a escada do shopping alguns degraus atrás de você e vi suas aspas tatuadas nos ombros. Nunca tinha visto nada igual.

— Ah — sorriu ela —, todo mundo se interessa por elas e me pergunta a razão.

— E você pode dizer qual é?

— Bem, eu acho aspas um sinal muito bonito. Graficamente bonito, entende?

— Concordo, mas…

— Mas o que eu quis mesmo, de verdade, foi fazer uma provocação. Que cada pessoa que olhasse imaginasse alguma frase, um conceito ou mesmo uma única palavra, para colocar entre as aspas.

— Foi o que eu imaginei — exclamei com aquele sorriso de quem acertou e por isso se acha o máximo!

— Que estou aberta a sugestões, entende?

E as duas, maliciosamente, riram ainda mais.

— Uma vez um rapaz me disse que colocaria entre as aspas dos meus ombros o verso do Vinicius: “Que me perdoem as feias, mas beleza é fundamental”.

— Você gostou?

— Se gostei? Gostei tanto que vivemos juntos dois anos. Só acabou porque um outro me disse que colocaria: “Viver bem é a maior vingança”.

— Com esse você deve ter vivido mais tempo.

— Ah, por esse eu me apaixonei perdidamente, vivo com ele até hoje. Já dura cinco anos!

Pagaram a conta, deram tchau e se foram, sempre rindo, alegres, felizes, soltas como uma pipa ao vento.

Eu fiquei olhando as duas, sorrindo diante da velocidade com que pensavam e falavam, de como agiam e riam. E de como pareciam se livrar, sem dificuldade, do peso dos sentimentos. Quem sabe até do amor. Talvez estivesse ali, na juventude tatuada, abrir aspas: “a alegria de viver”. Fechar aspas. Sem pensar em vingança.

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Para casar…

31 agosto 2012 | 3 comentários

…basta estar viúva. A reflexão é parte de um diálogo do Memorial de Aires, de Machado de Assis, escrito em 1908, o mesmo ano em que ele morreu. Além do último, o Memorial é certamente o mais melancólico dos seus romances, sentindo-se, a cada linha, a tristeza que o devorava, ainda e para sempre abalado com a morte, pouco tempo antes, de Carolina, esposa devotada com quem viveu, por 35 anos, uma rara felicidade conjugal.

Pois bem: estávamos no Café Severino. Falávamos sobre viúvos e viúvas, assunto inspirado na viuvez, desde a semana anterior, do nosso amigo Tide, um vigoroso homem de 70 anos, de quem morrera a esposa, Madalena, a Madá, que desaparecia aos 54. Vínhamos todos da missa de sétimo dia e, depois dos cumprimentos de pesar, fomos ao Café, deixando o viúvo na companhia de uma cunhada que o amparava e consolava. Éramos quatro naquele momento: Raul, Carla e seu marido, Gabriel, e eu. Assim que nos sentamos e a Antonia veio nos atender, o Raul atacou com a sua irritante objetividade:

— O Tide está rijo, nem parece ter 70 anos. Aposto que até dezembro vai estar casado outra vez.

— Não acredito — disse eu. — Eles eram muito agarrados, viviam felizes. Vai ficar viúvo para sempre ou, no mínimo, por dez anos!

O Raul riu e lascou:

— Dez anos? E vai jogar fora o fogo que tem hoje? Vai esperar que ele esfrie?

— Você não acredita em fidelidade, é? — perguntou o Gabriel.

Antes que o Raul respondesse, Carla atacou:

— Eu só acredito na fidelidade dos cães!

Carla é terrível, e o marido sabe disso muito bem. Continuaram:

— Se fosse viúva e não viúvo, eu acho até que ela já estaria de olho em alguém no velório!

— Por que não? — desafiou Carla.

— Para você fidelidade não é importante!

— E é? — desafiou ela mais uma vez.

— Me dá até medo — fechou o marido. — Se eu morrer, já viram, né?

— Não apenas se você morrer, queridinho. Vivo mesmo. É só bobear comigo.

O duelo era cortante e perigoso, um rastilho para uma briga de casal. Intervim:

— Ei, Carla, sossega.

— Ela fala assim só para me irritar.

— Vai esperando que é só para irritar — ameaçou ela, rindo.

E até a Antonia, que estava colocando na mesa o café, o leite e os pãezinhos de queijo, riu e piscou, cúmplice, para a endiabrada Carla. Foi aí que eu me lembrei da frase do Machado citada no início desta crônica: “Para casar, basta estar viúva”. Carla tentou reanimar a discussão:

— Acho os homens engraçados. Não são fiéis nem quando a mulher está viva, vão ser quando ela morre? Papo furado. Sejam menos hipócritas, queridos, por favor.

— Vamos parar por aqui — disse eu. — A viuvez é apenas um estado civil.

Carla encerrou o papo com essa pérola:

— Mais do que um estado civil, a viuvez é um estado de espírito.

Subitamente, olhamos todos em direção à entrada do Café e lá estava o Tide, o inconsolável viúvo de sete dias, a nos olhar, lacrimejante, como a nos pedir compreensão e afeto. Nós nos levantamos prontamente e fizemos com que ele se acomodasse entre a gente. Antonia se manifestou:

— Sinto muito, seu Aristides. Gostava muito da dona Madalena.

— Obrigado, Antonia.

— Café puro ou com leite?

— Uísque. Puro.

Trocamos olhares. Antonia veio com a garrafa e serviu uma dose.

— Três doses — pediu ele.

Antonia hesitou alguns segundos, serviu e recebeu novo pedido:

— Deixa o litro.

E virando-se para nós:

— Obrigado pela presença de vocês na missa. Pelo carinho e amizade.

Levantou o copo, num brinde sem palavras, e bebeu o scotch de um único trago.

— Conte com a gente — disse eu.

Passaram-se não mais que dez minutos e eis que a consoladora do sétimo dia apareceu no Café, procurando o Tide com os olhos.

— Me dão licença. É a minha cunhada. Tenta me consolar, mas a coitada está mais inconsolável do que eu.

Passou a mão no litro de scotch e foi com a cunhada para uma outra mesa. Ficaram ali, trocando palavras de conforto.

Carla sorriu e eu pensei: essa cena vem a calhar no momento em que celebramos o centenário de Nelson Rodrigues! Empurrei a xícara de café com leite e pedi à Antonia:

— Me vê um copo, Antonia. Vou de uísque também.

— Gelo e água?

— Puro!

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Entre grampos e bordados

03 agosto 2012 | deixe seu comentário (0)

Quando eu e minhas irmãs, ainda crianças, passávamos temporadas na casa da minha avó portuguesa, mãe do meu pai, meu avô já não vivia e essa minha avó já era velha. A conversa com os netos, hóspedes provisórios, ficava a cargo de duas tias solteironas, gordas e bonitas.

Chamávamos essa casa de colégio interno, já que a disciplina por lá era rígida. Os pitos (que era como se chamavam essas conversas) acabavam sempre em palmadas ou castigos específicos, sendo que, no meu caso, os dois se aplicavam. Entre esses o mais temido era o de ficar sem a sobremesa no jantar.

O ritual era simples: as tias, ora uma, ora outra, chamavam o culpado ao quarto, fechavam a porta e repetiam um discurso punitivo. Durante essa falação, baixávamos a cabeça, contritos, pedíamos desculpas e prometíamos não repetir as faltas.
Já na nossa casa, onde morávamos com os nossos pais e na companhia da outra avó, a de coração de manteiga, mãe da minha mãe, o ritual era diferente. E brando. Vó Leonor queixava-se, mais do que censurava. E essa operação realizava-se sempre enquanto ela penteava minhas duas irmãs, colocando grampos em seus cabelos. Pedia a uma delas:

— Sente-se aqui, queridinha.

Chamávamos a esse momento de “a hora dos grampos”. E eu, então, o único menino da casa, esgueirava-me pelos cantos da sala e desaparecia. Mas não ia longe. Quase sempre ficava atrás da porta semiaberta para escutar o que falavam. E de lá ouvia coisas como:

— Fiquei sabendo que você, na matinê do Rialto, sentou-se ao lado do Chiquinho. Sozinha com ele no escuro do cinema.

— Mas vó — protestava a neta culpada. — Eu não estava sozinha!

— Você foi ao cinema com sua irmã, eu sei, mas pediu que ela sentasse num outro lugar, longe de você.

Minha irmã mais velha fechava a cara e os olhos faiscavam, podendo-se ver a raiva que sentia da nossa irmã mais nova, que ela sabia ser a autora da denúncia. Depois passava por ela e dizia entredentes:

— Traidora. Você me paga!

E podia-se ouvir, mais tarde, as duas brigando no quarto, entre empurrões e puxões de cabelo. Não mais do que isso.

Quando era comigo, o sermão acontecia durante a sessão de limpeza de dentes e orelhas. E o corte das unhas.

— Como é que você teve coragem de pôr fogo no rabo do gato do vizinho?

— Não foi no rabo, vó, foi no cordão que a gente amarrou no rabo dele — dizia eu, certo de que a explicação me absolveria.

— E que acabou queimando o pobre bichano. Que maldade! Você sabe que o Menino Jesus não gosta de crianças que judiam dos bichinhos de Deus?

Eu baixava os olhos, arrependido sim, devo dizer, mas louco para sair dali e aprontar mais alguma. E, como tudo que eu aprontava era na rua, em companhia dos meus companheiros, que formávamos como um bando de pequenos delinquentes, o meu castigo era sempre o mesmo: ficar apenas de cueca — e às vezes sem ela — na janela do quarto, olhando a tão desejada rua. Minha avó escondia as minhas calças, impedindo-me de sair.

Essa era a parte dos grampos, numa época em que a palavra não se ligava às escutas telefônicas de hoje, mas apenas aos ganchinhos de metal usados para prender os cabelos femininos.

Mas outra conversa acontecia, essa entre adultos, e que nós, crianças, também ficávamos ouvindo atrás da porta. Era quando minha avó e minha mãe bordavam, uma de frente para a outra.

Minha mãe falava. E eram, quase sempre, queixas do meu pai. Do seu descaso por ela, principalmente. Não entendíamos tudo, na nossa pouca idade e total inexperiência, mas, como minha mãe — também quase sempre — chorava, concluíamos que ela estava magoada e cheia de razão.

A essas sessões terapêuticas entre nossa mãe e a mãe dela chamávamos de “a hora do bordado”. Mais tarde, já adulto, compreendi que era, no fundo, a hora da verdade, em que o mundo feliz e sonhador da minha pobre mãe, ao lado do meu pai que não sonhava, começava a desmoronar para sempre. Custei a aceitar a ideia de que minha mãe era infeliz.

Quando morreram, ele em 1990, com 88 anos; ela em 1992, com 92 anos, assistiam à televisão de mãos dadas, dando a impressão de terem vivido em permanente lua de mel.

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