Menino ou menina?
26 maio 2012 | 7 comentários
Antigamente as crianças nasciam com mãos e olhos fechados. Lembro-me de que uma vez, diante de um recém-nascido, meu tio Carlos, que se achava engraçado, encontrou uma resposta para as mãozinhas fechadas:
– Já se nasce pão-duro!
Em poucos dias, olhos e mãos iam-se abrindo para o mundo, propiciando comemorações familiares. Vivi esses momentos felizes com o nascimento dos meus dois primeiros filhos. Fui às lágrimas com minha mulher, de 17 anos no primeiro e 18 no segundo. E eu, respectivamente, com 19 e 20 anos. Quanta saudade!
Hoje as crianças já nascem prontas, só faltando mesmo falar, o que não deve estar muito longe de acontecer. Vivemos tempos vorazes, que a natureza acaba acompanhando. Receio que um dia o iPhone seja mais lembrado do que a viagem à Lua!
Mas voltemos aos bebês e a uma historinha que a Priscila, namorada do meu afilhado Bruno, contou aqui em casa.
Uma amiga dela ficou grávida. Fez os ultras de praxe e tanto o marido como a família e alguns amigos ficaram sabendo o sexo do bebê, menos ela. Não quis.
– Quero ter a surpresa!
Um capricho? Pode ser. Mas, em questões sensíveis como essa, o direito de saber é tão legítimo quanto o de ignorar.
Para o quarto do bebê tudo já estava escolhido: cortinas, mobiliário e objetos de decoração permaneciam separados nas lojas especializadas, aguardando apenas a definição.
– Se menino, levo isto; se menina, levo aquilo.
Quanto à cor das paredes, a escolha de praxe: azul, se menino; se menina, rosa.
O marido, a família e as amigas argumentavam que ela não teria tempo de mandar pintar o quarto, se esperasse o bebê nascer. A decoração também correria risco, diziam. Ia acabar faltando alguma coisa, não ficando tão caprichado, etc. etc. Em meio a toda essa aflição foi que a melhor amiga da futura mamãe, já escolhida para comadre, encontrou a solução salvadora:
– Vamos combinar uma coisa. Eu vou ser a madrinha e já prometi que vou dar de presente o quarto do bebê, seja ele menino ou menina. Certo?
– Certo, mas e daí?
– Daí que então você me dá a chave do quarto e deixa tudo por minha conta.
Todos respiraram aliviados. E foi assim que foi feito. A madrinha combinou com o pintor a cor das paredes, buscou nas lojas o berço, a cortina, a roupa de cama e os objetos de decoração, tudo de acordo com o sexo do bebê. A operação toda se desenrolou com perfeição, sem correr riscos, já que a jovem grávida ficou na casa dos pais durante o último mês de gestação.
Tudo pronto, a inspirada madrinha trancou o quarto e deu a tarefa como terminada.
A história poderia acabar aqui, mas temos ainda dois dedos de prosa, como se dizia antigamente. Dois intrometidos dedos do acaso, digo eu.
Sentindo as dores do parto iminente, marido e mulher entraram no carro e rumaram para a casa de saúde, passando antes no apartamento em que moravam, distante uma quadra.
Cheios de pressa, temendo que o bebê nascesse no caminho, entraram pela porta dos fundos. Pois bem: bastou que dessem dois passos e os olhos da jovem grávida fixaram-se nas latas vazias de tinta, que o pintor do quarto deixara num canto da área de serviço.
Latas vazias de tinta… cor-de-rosa!
Pois é. Tanto cuidado e faltando tão pouco… Claro que algumas lágrimas rolaram, mas uma hora depois, no quarto da casa de saúde, rodeadas de flores, mãe e filha sorriam, felizes.
Para os que podem pensar ser essa uma obra de ficção, Priscila — devidamente autorizada — revela os nomes verdadeiros dos que viveram essa história real:
MÃE………………….Flávia Letícia
PAI……………………Gustavo Gabriel
MADRINHA……..Viviane
BEBÊ………………..Letícia
Assim mesmo, como nos letreiros de filmes e de novelas de televisão.

