De médico e de louco…

28 abril 2012 | 4 comentários

 

Marcamos no Café Severino a comemoração pelo retorno do Gustavo ao nosso grupo. Nosso amigo de muito tempo, Tavinho andou arredio, devido a um turbulento divórcio que enfrentou por mais de um ano e que o deixou deprimido. Com isso, afastou-se de tudo e de todos, indo morar um largo tempo em Petrópolis. Agora, dissipadas as negras nuvens da turbulência e já vivendo novamente em paz, eis que ele retornava a nós e ao nosso reino. Não é a primeira vez que um divórcio penaliza algum membro do nosso grupo. Afinal, todos nós já cruzamos a faixa dos 60 anos e contabilizamos mais de um casamento, à exceção de alguns poucos, como Carla e Gabriel, ambos na casa dos 30. Eles fazem parte da nova geração de frequentadores da nossa roda de vinho e grana padano. Gosto dessa presença jovial, pois impede que as reuniões fiquem lacrimosas, cheias de recordações, e que os assuntos mais frequentes sejam os incômodos na lombar e na cervical, além do medo do diabetes e a comparação entre os níveis de colesterol e glicose. Com a mocidade, fala-se da vida, não de doença e morte.

Mas nessa tarde, mesmo com a presença deles, o assunto perigoso voltou a imperar, enquanto nós cinco esperávamos a chegada da turma toda, inclusive do festejado Gustavo.

— Minha glicose está em 105 — anunciou o Raul.

— É alta. Você já está diabético — sentenciou Alfredo, que é um assumido hipocondríaco.

— Pré-diabético — corrigiu Raul, já um pouco irritado.

— Acima de 99… — tentou argumentar o Alfredo, com um sorriso maldoso.

Raul cortou:

— Ah, não vai atacar de médico, que você, até onde eu sei, é funcionário aposentado da Caixa Econômica.

E tentou encerrar a discussão:

— O importante é a saúde como um todo. O fundamental é sentir-se saudável. E é como eu me sinto. Caramba! Você só sabe falar em doença!

Alfredo contra-atacou:

— Só me diz uma coisa: o seu colesterol quanto está?

Olhei o Raul e percebi que ele estava a ponto de apelar. Antes que eu pudesse fazer alguma coisa, o Alfredo puxou da carteira os resultados do seu último hemograma, propondo um sinistro desafio:

— Vamos comparar os nossos hemogramas! Você tem o seu aí?

— Claro que não. Não sou louco como você!

— Pelo menos sabe de cor os principais índices?

E enumerou alguns:

— Eritrócitos, hemoglobina, leucócitos e plaquetas. Vai, me diz. Aposto que você está anêmico!

Raul saltou da cadeira. Houve uma inquietação no café, já se prevendo uma luta de moleques entre homens da terceira idade, o que seria, no mínimo, ridículo.

— Chega — bradou ele, batendo com a palma da mão na mesa.

— Calma — disse eu. — Estamos aqui para festejar. Daqui a pouco chega todo mundo e vocês…

Mas Raul emendou, virando-se para o Alfredo, o indicador quase encostando no rosto do amigo:

— Que você seja hipocon­dría­co, não tenho nada com isso. Que veja em você todas as doenças, imaginárias ou não, o problema é seu. Mas colocar doenças nos outros, aí não está certo!

E voltou a sentar-se, bufando. Um tempo de silêncio. Olhei o casal jovem. Gabriel passava os olhos num jornal, indiferente à contenda, e Carla olhava a cena, sorrisinho maroto nos lábios. Percebendo que a reunião estava agonizando por sua culpa, Alfredo amenizou:

— Me desculpem. Acho que exagerei. Vou embora. Vou ver um carro para comprar, que o meu já está num bagaço de dar pena. Rateando. Como um coração a ponto de enfartar. Quem é que tem uma sugestão para me dar? Pensei numa Pajero esporte…

Foi quando Carla, sempre tão tímida e até um pouco cerimoniosa, cortou em cima, numa voz suave e com os olhos brilhando:

— Por que você não compra uma ambulância?

A gargalhada foi geral, contaminando o Raul e o próprio Alfredo. Nesse mesmo momento, começaram a chegar os velhos amigos, com Gustavo à frente, sorridente, feliz.

E fez-se a paz no reino do Café Severino.

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Horário nobre

14 abril 2012 | 5 comentários

Alguns anos atrás, considerava-se nobre na televisão o horário que começava às 19 e se estendia até as 22 horas. Hoje, todos sabem, esse tempo é medido das 18 horas à meia-noite. É quando o espaço comercial é mais caro e, consequentemente, os programas considerados mais importantes são apresentados. É também onde se encontra o nicho que abriga a teledramaturgia, principalmente as novelas e, no caso da TV Globo, o Jornal Nacional. A classificação é absolutamente comercial, já que o Programa do Jô, que às vezes entra depois da meia-noite, faz dessa hora tardia uma hora nobre. Assim também o Altas Horas, do Serginho Groisman, e as entrevistas da Marília Gabriela, para citar mais dois exemplos, entre os poucos casos que podem ser lembrados. E, ampliando a classificação para as emissoras a cabo, vamos encontrar o Estúdio I, da Maria Beltrão, e o Sarau, do Chico Pinheiro. Dois programas imperdíveis, apresentados na Globo News.

Era esse — o do horário chamado nobre na TV — o assunto abordado naquela tarde, no Café Severino, enquanto degustávamos um bom tinto californiano que o Raul trouxera de casa. E, a cada gole que bebíamos, ele perguntava com ansiedade:

— Não é mesmo maravilhoso? Safra 2007, a melhor dos últimos vinte anos!

E tínhamos de concordar com ele, já que o precioso líquido descia pela garganta como uma fita rubra de veludo.

Ah, como são bons esses encontros de amigos, em que todos se manifestam sem egoísmo, dando e recebendo informações que enriquecem generosamente a relação de amizade, diria mesmo de amor! E essa exclamação de alegria quase juvenil me leva novamente a mencionar o Estúdio I, com sua pauta variada, na qual convivem, democraticamente, esporte, saúde, economia, literatura, tecnologia, cultura, comportamento… Tudo passa por ali, despretensiosamente, como em nossos encontros no Café Severino. Só não temos, entre nós, uma Flávia de Oliveira, um João Paulo Cuenca e um Artur Xexéo, para citar apenas três entre os muitos nomes estrelados do programa da Maria Beltrão. Mas no Severino, como no Estúdio I, todos ensinam, todos aprendem, sem que ninguém tenha a pretensão de saber mais do que o seu parceiro de roda.

Da mesma maneira, o tema me levou ao Sarau, no qual Chico Pinheiro faz um trabalho que emissora nenhuma de televisão está fazendo: o de exibir o talento, a força, a vitalidade permanente da música brasileira. Vejo o programa duas vezes, pois não perco as reprises.

Bato palmas para os dois: Maria e Chico, que reinam, gloriosos, com seus programas, fazendo da hora em que se apresentam dois exemplos do verdadeiro horário nobre da televisão. Só levamos uma vantagem sobre eles: a degustação de bons vinhos durante nossos encontros.

Já no finzinho da tarde, a garrafa vazia e os primeiros frequentadores da noite chegando, o Raul fazia graça com o tema da reunião:

– Fora da TV, o exemplo também pode ser aplicado. Querem encontros mais nobres do que esses que fazemos durante a tarde?

Falar sobre televisão não está entre meus assuntos favoritos, ainda que eu viva de escrever e dirigir programas há mais de meio século. Talvez porque no Brasil a TV seja um tema dominante, que excede. Não apenas nas conversas familiares, e nem restrita às colunas especializadas, aos cadernos de entretenimento. Não. A TV reina em toda a mídia. Pode até ser bom para nós, que trabalhamos nessa área e vemos assim a valorização do nosso ofício, mas e o leitor de jornais e revistas? Não é empobrecedor, sem nobreza, encontrar numa primeira página de jornal a informação de que uma atriz trocou de namorado? E, na mesma semana, ver estampada nas revistas essa mesma notícia, com a foto da atriz na capa? Muitas vezes, a mesma foto?

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