Criança diz cada coisa

17 setembro 2011 | 3 comentários

Diz e faz, acrescentarão vocês, com razão. Quem tem criança por perto sabe o que elas são capazes de dizer e fazer.

— Mas não se sabe muito sobre o que elas realmente pensam ­— comentou o Raul, numa das nossas reuniões, interrompendo o que eu tentava contar sobre um pequeno diálogo que eu e minha mulher ouvimos, sem querer, enquanto almoçávamos num restaurante da Zona Sul.
— Posso continuar o que eu estava contando?
— Vá em frente, mas resuma um pouco, que você, quando conta alguma coisa, dá tantas voltas que às vezes até esquece o que começou a contar.

A crítica procede. Sou um tanto pro­lixo, como minha mãe também era.

— Conte logo — exigiu a Flavinha.
— Quem aqui se lembra do Pedro Bloch, que era médico pediatra, especializado em foniatria? — perguntei.

Todos se lembravam, já que éramos, no mínimo, sessentões.

— Eu me lembro de uma peça que ele escreveu, As Mãos de Eurídice, que o Rodolfo Mayer representou milhares de vezes por esse Brasil afora — falou o Milton.
— A peça fez sucesso em mais de cinquenta países — acrescentou a Flávia.
— Fui vizinho do Pedro Bloch — informou o Léo. ­— Era um homem que sabia contar uma história, principalmente sobre crianças.

O Léo tinha razão, e faço aqui um parêntese ao me lembrar de que uma vez, nos anos 60, levei Pedro Bloch a um programa que eu fazia na TV Excelsior com a Bibi Ferreira. Era ao vivo, o auditório cheio, e, quando ele começou a contar suas histórias, as pessoas, na plateia, ficaram encantadas. Um sucesso. A entrevista, planejada para ter dez minutos, acabou durando mais de meia hora — encerrando-se com dificuldade, pois ninguém queria que ele saísse do palco. Era um homem aparentemente carrancudo, mas que se revelava, em poucos minutos, uma das mais doces e sorridentes criaturas humanas. Escreveu peças de teatro, todas de sucesso, em que pesem as restrições que os críticos lhe faziam. As Mãos de Eurídice foi uma delas, mas eu assisti a muitas outras: Irene, Um Cravo na Lapela, Os Inimigos Não Mandam Flores e — como esquecer — Dona Xepa, que também virou novela e filme.

— Vamos lá: vai contar ou não?
— E o que é que tem o Pedro Bloch com isso?
— Ele era irmão do Adolfo, da Manchete?
— Acho que era primo.
— Deixe ele contar.

E eu então, finalmente, contei o que havia começado uma hora antes: numa mesa ao lado da nossa, no restaurante em que eu estava com a minha mulher, uma família almoçava também. Marido e mulher, uma filha de 4 ou 5 anos e os avós da menina, que logo percebemos serem os avós paternos. A conversa da menina, o que ela dizia, já havia chamado a nossa atenção. Como as mesas, no pequeno restaurante, eram muito próximas, ouvia-se tudo, involuntariamente. Sorríamos diante do que a criança falava com muita vivacidade. E já pagávamos a conta quando se deu, na mesa da família, o diálogo seguinte:

— Eu queria casar com o vovô — disse a menininha.
— Comigo? — perguntou o avô, rindo da tirada infantil.
— Por quê? — quis saber a avó, rindo também.
— Porque eu queria ser mãe do meu pai.

***

Aí está por que me lembrei do velho autor, que ouvia essas coisas surpreendentes e geniais no seu dia a dia e as publicava nos livros e nas revistas. Os livros já não são reeditados, o que é uma pena, mas no Google há uma coleção dessas histórias. Pincei lá uma das mais significativas, reproduzindo as palavras de Pedro Bloch:
“Uma professora de creche observava as crianças de sua turma desenhando. Ocasionalmente, passeava pela sala para ver os trabalhos de cada criança.

Quando chegou perto de uma menina que trabalhava intensamente, perguntou o que desenhava. A menina respondeu:

— Estou desenhando Deus.

A professora parou e disse:

— Mas ninguém sabe como é Deus.

Sem piscar e sem levantar os olhos de seu desenho, a menina respondeu:

— Saberão dentro de um minuto”.

Encerrando, quero dizer que acredito piamente que ela realmente soubesse. Acredito piamente que todas as crianças sabem como é Deus. E que, se prestarmos atenção no que fazem e dizem, aprenderemos com elas a reconhecê-lo também.

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Colecionando sonhos

07 setembro 2011 | 1 comentário
 
 
 
 

 


 
A crônica “Sonhos”, que escrevi para este espaço há quinze dias, suscitou alguns comentários de amigos que fui encontrando no correr da semana. O assunto é de grande magnitude e não há quem não se debruce sobre ele, sendo que no mundo moderno, digamos assim, Freud e Jung foram os grandes responsáveis pelo interesse despertado. E aí os gregos, sempre eles, voltaram, com seus deuses,  à convivência com a humanidade mortal. Virou moda. Ouvi gente, que mal sabia distinguir entre duas vogais, falar em complexo de Édipo, de Hécuba, de Electra… e dando significado aos sonhos.

Melhor assim, quando entra na moda algo que nos remete à antiga Grécia, berço da civilização europeia.
A razão de muitas vezes falar e escrever sobre o tema é que sou um guardador de sonhos.  Colecionador, se preferirem. Sonhos meus e dos outros: amigos que me contam, desconhecidos que me abordam, narrativas sonhadas que leio nos livros e nas entrevistas. Vou passando esse material para um caderno, e minha coleção está se avolumando. Nem todos me interessam, claro, mas posso garantir a vocês que, entre os que merecem a minha atenção e passam a ter lugar na minha coleção, há sonhos ricos, verdadeiras obras-primas da criatividade do sonhador. Estou pensando em reunir esses relatos num livro, o Livro dos Sonhos, com o subtítulo: Para Todos, Até Mesmo para Psicanalistas. Quem sabe não coloco esse livro entre os meus planos para 2012?

Já tenho escrito aqui sobre um dos meus autores preferidos: o argentino Adolfo Bioy Casares (1914-1999), amigo e parceiro de Jorge Luis Borges (1899-1986), condição honrosa para ambos, mas que acabou por ofuscar um pouco o seu nome, em favor do outro. Bem, dirão alguns, Borges é maior, é melhor etc., mas todo juízo de valor é subjetivo. E relativo. Borges é um admirável poeta, o que Bioy não é, pelo menos não no que existe publicado até agora de sua poesia. Mas é um mestre das narrativas breves, ao lado de Borges. Como memorialista com senso de humor e sem autopiedade, ele é mais abrangente do que o autor de Ficções, precisamente por ser o narrador de pequenas lembranças, fatos corriqueiros e banais. Ele engrandece o que é pouco e menor, iluminando as áreas escuras da memória, não com uma lâmpada de 1 000 volts, mas com uma pequena vela, trêmula, hesitante. Sim, concordo, Bioy não é tão abrangente e universal como Borges. Não é um gênio, enfim, como seu melhor amigo, mas um ourives do pensamento que se transforma em palavras.

De seu livro De Jardines Ajenos, que foi motivo de uma crônica aqui publicada em 2006, transcrevi uma coleção de pequenas e precisas observações que ele faz sobre a condição humana. São como parábolas. Agora, diante de mais uma de suas obras, Descanso de Caminantes, que pertence aos seus diários íntimos, encontro, em suas 500 páginas, dezenas de sonhos que ele teve (ou terá inventado?), transcritos admiravelmente. Bioy Casares é um grande narrador de sonhos.

Quanto a mim, não me considero um bom sonhador das horas dormidas. Quando acordo, eu me lembro pouco do que vivi no mundo dos sonhos. Em menos de dois ou três minutos, já me esqueci totalmente de tudo. Às vezes são sonhos interessantes, originais, que gostaria de lembrar para contar à minha mulher, que tem sonhos claros, compactos, de fácil transmissão, mas os meus vão se diluindo na memória, até desaparecer totalmente. Uma pena. 

Para encerrar a crônica, já que acabou o meu espaço, deixo um dos sonhos de Bioy Casares, na parca tradução que ouso fazer:
“Sonho que nos amamos. Subitamente, acordo, e lhe digo:

— Que vergonha. Dormi.
— Eu também — ela me diz.
— Vamos recomeçar então?
— Vamos, claro — ela me responde.
E, ao recomeçar,  desperto realmente e me encontro em meu quarto, na minha cama. Sozinho”.
Boa semana, leitores.
Voltaremos a Bioy Casares.

   
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Colecionando sonhos

03 setembro 2011 | deixe seu comentário (0)

A crônica “Sonhos”, que escrevi para este espaço há quinze dias, suscitou alguns comentários de amigos que fui encontrando no correr da semana. O assunto é de grande magnitude e não há quem não se debruce sobre ele, sendo que no mundo moderno, digamos assim, Freud e Jung foram os grandes responsáveis pelo interesse despertado. E aí os gregos, sempre eles, voltaram, com seus deuses,  à convivência com a humanidade mortal. Virou moda. Ouvi gente, que mal sabia distinguir entre duas vogais, falar em complexo de Édipo, de Hécuba, de Electra… e dando significado aos sonhos.
Melhor assim, quando entra na moda algo que nos remete à antiga Grécia, berço da civilização europeia.
A razão de muitas vezes falar e escrever sobre o tema é que sou um guardador de sonhos.  Colecionador, se preferirem. Sonhos meus e dos outros: amigos que me contam, desconhecidos que me abordam, narrativas sonhadas que leio nos livros e nas entrevistas. Vou passando esse material para um caderno, e minha coleção está se avolumando. Nem todos me interessam, claro, mas posso garantir a vocês que, entre os que merecem a minha atenção e passam a ter lugar na minha coleção, há sonhos ricos, verdadeiras obras-primas da criatividade do sonhador. Estou pensando em reunir esses relatos num livro, o Livro dos Sonhos, com o subtítulo: Para Todos, Até Mesmo para Psicanalistas. Quem sabe não coloco esse livro entre os meus planos para 2012?
Já tenho escrito aqui sobre um dos meus autores preferidos: o argentino Adolfo Bioy Casares (1914-1999), amigo e parceiro de Jorge Luis Borges (1899-1986), condição honrosa para ambos, mas que acabou por ofuscar um pouco o seu nome, em favor do outro. Bem, dirão alguns, Borges é maior, é melhor etc., mas todo juízo de valor é subjetivo. E relativo. Borges é um admirável poeta, o que Bioy não é, pelo menos não no que existe publicado até agora de sua poesia. Mas é um mestre das narrativas breves, ao lado de Borges. Como memorialista com senso de humor e sem autopiedade, ele é mais abrangente do que o autor de Ficções, precisamente por ser o narrador de pequenas lembranças, fatos corriqueiros e banais. Ele engrandece o que é pouco e menor, iluminando as áreas escuras da memória, não com uma lâmpada de 1 000 volts, mas com uma pequena vela, trêmula, hesitante. Sim, concordo, Bioy não é tão abrangente e universal como Borges. Não é um gênio, enfim, como seu melhor amigo, mas um ourives do pensamento que se transforma em palavras.
De seu livro De Jardines Ajenos, que foi motivo de uma crônica aqui publicada em 2006, transcrevi uma coleção de pequenas e precisas observações que ele faz sobre a condição humana. São como parábolas. Agora, diante de mais uma de suas obras, Descanso de Caminantes, que pertence aos seus diários íntimos, encontro, em suas 500 páginas, dezenas de sonhos que ele teve (ou terá inventado?), transcritos admiravelmente. Bioy Casares é um grande narrador de sonhos.
Quanto a mim, não me considero um bom sonhador das horas dormidas. Quando acordo, eu me lembro pouco do que vivi no mundo dos sonhos. Em menos de dois ou três minutos, já me esqueci totalmente de tudo. Às vezes são sonhos interessantes, originais, que gostaria de lembrar para contar à minha mulher, que tem sonhos claros, compactos, de fácil transmissão, mas os meus vão se diluindo na memória, até desaparecer totalmente. Uma pena.
Para encerrar a crônica, já que acabou o meu espaço, deixo um dos sonhos de Bioy Casares, na parca tradução que ouso fazer:
“Sonho que nos amamos. Subitamente, acordo, e lhe digo:
— Que vergonha. Dormi.
— Eu também — ela me diz.
— Vamos recomeçar então?
— Vamos, claro — ela me responde.
E, ao recomeçar,  desperto realmente e me encontro em meu quarto, na minha cama. Sozinho”.
Boa semana, leitores.
Voltaremos a Bioy Casares.

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