Vermelho Russo

Leia na crônica de Fernanda Torres

Seis da manhã da sexta-feira de protestos pelo Brasil, e eu me encaminhava para o Aeroporto do Galeão com o meu filho pequeno. Havíamos planejado uma viagem curta com um mês de antecedência, que acabou coincidindo com o dia D da greve geral.

Na Linha Vermelha, no sentido oposto, um bloqueio de pneus queimados interrompia o caminho dos que pretendiam chegar ao Centro. Jamais esquecerei do engarrafamento de faróis que terminava diante da barricada flamejante, anunciando a jornada de manifestações que paralisaria diversas metrópoles do país.

Dois dias antes, eu havia comparecido à estreia de Vermelho Russo, filme de Charly Braun, sobre a temporada em Moscou de Martha Nowill e Maria Manoella Teixeira, duas atrizes brasileiras que decidiram enfrentar dois meses de um curso sobre Anton Tchecov, na cidade que foi berço do revolucionário método Stanislavski de interpretação.

Eu já havia lido com imenso prazer o diário de Martha na revista Piauí, que deu origem ao roteiro, e tinha curiosidade de saber como Braun dera corpo à temporada russa das duas jovens.

O diretor refaz a experiência narrada por Martha dois anos depois do ocorrido, sem perder o caráter documental da trama. Braun mistura a vida pessoal das atrizes com os desafios que enfrentam em cena. Conforme avançam nas aulas, Helena e Sônia, personagens de Tio Vânia, se confundem com Martha e Manoella, provocando mudanças profundas, tanto na amizade que as une quanto na personalidade de cada uma. Uma colcha costurada com enorme sensibilidade, que elucida, para o leigo, o processo de construção de um personagem e o caráter transformador do teatro.

O instrumento do ator é o próprio corpo. “Mas como se transformar em outro sem deixar de ser você mesmo?”, pergunta o magistral professor. Esse duelo, entre a crise do personagem e a do intérprete, é o contraponto que serve de inspiração para o que se vê na tela.

Braun também realiza um retrato íntimo e inusitado da Rússia, primeiro, através do olhar de turista das duas protagonistas, e, depois, pelas figuras secundárias da trama, como a atriz aposentada da recepção e a idosa do asilo de artistas em que Martha e Manoella se hospedam.

Vermelho Russo é um filme altamente sofisticado, sobre o desafio de ser verdadeiro em cena e fora dela, mas foi ignorado pela crítica especializada daqui. Para meu espanto, o bonequinho de O Globo dormiu e Inácio Araújo dedicou uma resenha morna na Folha de S.Paulo. A semana conturbada também não ajudou no lançamento, e Vermelho Russo corre o risco de passar despercebido. Se resistir duas semanas em cartaz, será muito. Mas é uma obra que merece ser vista, se não agora, depois, nas plataformas pay per view.

Talvez, nestes tempos de convulsão social, crise econômica e competição violenta de mercado, uma obra delicada e existencial como essa não tenha vez. Mas isso não apaga a enorme qualidade de Vermelho Russo. Se ainda existir espaço na sua vida entre uma passeata e outra, entre um tiroteio e outro, ou entre um Super­-Homem e um Wolverine, vale arriscar uma tarde de graça e elevação no cinema.

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