Vácuo

Leia na crônica de Fernanda Torres

Pulei o Carnaval 2017. Literalmente. Não fui à avenida, não assisti ao desfile das escolas pela TV, não acompanhei a apuração. Também não fui ao Centro me acabar nos blocos. Trabalhei no sábado e no domingo de folia em São Paulo. A caminho do Sesc Anchieta, o táxi me deixou na esquina, o quarteirão estava fechado para o trânsito costumeiro. Em meio às ruas vazias, arrastei minha malinha, já pronta para a ponte aérea, ouvindo o baticum de um bloquinho mequetrefe que passou por mim fagueiro. Na contramão da orgia, acenei e continuei o périplo até o teatro.

De volta ao Rio, caí dura na cama, ouvindo o eco dos bailes pela Guanabara. Meu cônjuge telefonou, estava na serra, para onde eu rumaria no dia seguinte. Queria comentar o Oscar. Continuei meu sono, indiferente à premiação. Não assisti a La La Land, não vi ­Moonlight, não vou ao cinema há séculos. Algo de muito estranho anda me acontecendo.

O Carnaval tardio, somado ao calor fustigante que lasseia a alma desde dezembro, empurrou o início do ano para meados de março. Já estamos em pleno 2017, mas o espírito continua de molho, à espera de um acontecimento.

Henrique Meirelles decretou o fim da recessão em alguma semana perdida de fevereiro. Deve ter razão para isso, embora eu ainda não perceba qual. A safra recorde encalhou nas rodovias, o celular do meu filho foi roubado no Aterro, meu marido quase foi assaltado a mão armada em frente à garagem de casa e o Rio faliu de vez. A Lava-Jato avança, agora, para cima dos partidos que achavam que sairiam ilesos da debacle, Temer vai ao dentista com Yunes. Trump confirma ser a piada de mau gosto que prometia durante a campanha eleitoral. E eu experimento essa sensação de afastamento da realidade, um desejo de restringir a vida ao que ela tem de concreto. O hoje, o amanhã, o almoço com a família, o mergulho no mar.

Passei o Carnaval produzindo estilingues. Fiz dois. Catei a madeira no meio da floresta, tirei a casca e desbastei o galho até que a haste se ajustasse à mão. Fixei a borracha, o couro, escolhi pedras pequenas e roliças com os filhos, para treinar a mira contra um tronco rombudo. Plantei rúcula, berinjela e orégano, semeei pimenta e cenoura, chequei as mudas de árvores nobres que havia plantado no mês anterior. Caminhei, remei, fui picada por mosquito. Vivi.

Posterguei as causas. Atire a primeira pedra quem nunca fez o mesmo. Pode usar meu estilingue.

Terminei o Carnaval sabático em Ilha Grande. Ilha Grande é mesmo grande. Tem o dobro de Fernando de Noronha. Ilha Grande é um continente alheio ao continente. Quem nasce lá migra de um lado para o outro, como se atravessasse um oceano. Chovia sobre a República de Mangaratiba. Os trovões castigavam o condomínio onde a gangue de Sérgio Cabral construiu casas de praia com carpete, tevê no banheiro e corrimão dourado nas escadas. Uma bregalhada duty free movida a lancha off-shore que acabou em Bangu 8.

Lá, do outro lado da baía, os caiçaras vagam livres, pescando com linha, assando peixe, cientes de que a riqueza da vida está ali, nas coisas simples.

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