Risco elevado

08 março 2013 | 2 comentários

 

Minha avó e meus primos paternos moravam na Tijuca. Como meus pais trabalhavam no teatro nos fins de semana, eu e meu irmão costumávamos migrar do Jardim Botânico, onde cresci, para a Rua Padre Elias Gorayeb, nos dias de folga da escola.

E foi num sábado, 20 de novembro de 1971, que a notícia do desabamento do Elevado Paulo de Frontin transformou o percurso familiar em um pesadelo infantil. Estávamos nos preparando para sair quando a imagem insólita da laje de concreto colapsada sobre vinte carros, um ônibus e um caminhão, todos esmigalhados como uma folha de papel, emudeceu a família diante da televisão. Por questão de hora, não acontecera conosco. Desde então, a angústia de cruzar a Avenida Paulo de Frontin sob a sombra do minhocão me acompanha.

Voltei à rotina de gravações no Projac. O trânsito anda calmo, mas as novas medidas de segurança do Elevado do Joá provam que o belo traçado de asfalto está com as pernas bambas. O carro reduz para os 60 km/hora permitidos, enquanto a imaginação vaga em meio a elucubrações catastróficas. Fantasio um desmoronamento de filme pelo retrovisor, por vezes, considero a possibilidade de o chão se abrir de supetão e desenho a curva do carro no ar, a queda no mar e as notícias no dia seguinte.

Eu adoro o Elevado do Joá, as curvas sinuosas que acompanham a encosta, a altura abissal e o verde das ondas a bater nas rochas. É uma visão e tanto. Mas, desde que a precariedade e a má conservação do viaduto se tornaram evidentes, meus olhos abandonaram a paisagem para se concentrar nos vergalhões enferrujados, no concreto carcomido e na finura dos alicerces. Raramente vejo operários empenhados na recuperação da via. As colunas estão embrulhadas para a obra, mas a mão de obra é bissexta.

Estou inclinada a tomar o desvio tortuoso, porém seguro, do Morro da Joatinga. Mas a necessidade luta contra a vontade. O elevado cumpre uma função estética seriíssima no meu caminho para o trabalho, é o meu respiro, minha imensidão. A vista é o grande deus do carioca. Por isso esqueço de entrar à direita e arrisco a vida pelo exuberante horizonte.

Uma velha represa, acho que na China, ameaçava romper-se. Em caso de tragédia, as localidades vizinhas ao anunciado desastre sumiriam do mapa com a primeira enxurrada. Ao serem sondados sobre a preocupação de viver nas cercanias de uma barragem condenada, os habitantes próximos ao colosso confessaram não pensar no assunto. O medo aumentava na razão inversa do risco de óbito. As localidades afastadas, que teriam tempo para fugir das águas, demonstravam grande ansiedade com o problema.

A rotina banaliza o risco. Tento, como os chineses em perigo, relevar, esquecer, mas tremo toda vez que olho a viga.

Estive na abertura do elegantíssimo MAR, Museu de Arte do Rio. O evento contou com um pool de panelaços na porta. Quando cheguei, achei que a causa da revolta fossem os royalties do petróleo — a presidente estava presente na cerimônia —, mas uma repórter informou que os manifestantes escolheram o dia da inauguração da obra de dezenas de milhões de reais com o objetivo de chamar atenção para o estado de conservação dos teatros do Rio de Janeiro, muitos fechados por falta de equipamentos de segurança. Depois, soube que havia diversos grupos protestando por diferentes motivos de que não me recordo agora. O fato é que o encontro dos trios formou um baticum ruidoso que acompanhou os convidados noite adentro.

Não ligo o MAR ao abandono dos teatros públicos e tenho dúvidas se estaríamos melhor sem ele. Minha impressão é que não teríamos nem uma coisa nem outra. A parceria que viabilizou o MAR, pelo que percebo, se organizou de maneira a que o museu, uma vez erguido, possa caminhar com as próprias pernas.

Mas o buzinaço da classe teatral atenta para uma questão relevante. Não basta construir, é preciso manter; projetos futuros e passados. O MAR e o Teatro Carlos Gomes, a Perimetral e o Joá. O cobertor é curto, mas existem casos emergenciais.

Sem a providência divina, há precedentes, o Elevado do Joá periga cair antes da Copa.

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Sem bloco

23 fevereiro 2013 | 3 comentários

Escrevo na noite de domingo 17 de fevereiro, a última antes da volta a tudo. Amanhã começam a escola, a gravação, as contas, a obra, o ano.

De tarde, fui até Ipanema para me despedir do verão.

A notícia de que os blocos de Carnaval já haviam encerrado os trabalhos em 2013 foi devidamente ignorada por uma turba de foliões que lotou a Vieira Souto à espera de um baticum. A desobediência cívica era composta de Peter Pans, piratas, odaliscas e rapazes de peruca, sainha e cerveja na mão. De 50 em 50 metros rolava uma aglomeração. Alguns ensaiavam um pandeiro modesto, de vez em quando se ouvia um “Beija! Beija!”, nada capaz de incendiar a grande maioria dos passantes, que continuavam a perambular pela orla.

Ipanema parecia um infinito bloco dos sem-bloco.

A quem perguntava, o senhorzinho da barraca de coco respondia que não tinha bloco. Ria e repetia: “Não tem bloco! Não tem bloco!”. O policial confirmou. “Não tem bloco. Aliás, tem um”, ele disse, “que está para sair desde de manhã do Leblon, o Galinha qualquer coisa, mas continua estacionado lá.”

O mesmo fenômeno eu vi acontecer nos dias oficiais da bagunça, a farra começava e acabava cedo, abandonando uma procissão de perdidos no espaço a vagar pelo calçadão.

Quando eu já ia me despedindo da praia, o Galinha do Meio-Dia, que o policial acreditava parado no Posto 11, apareceu. Tinha uma formação clássica, não era grande nem pequeno, com uma Nega Fulô e um naipe de metais afinadíssimo. A seleção de marchinhas, o Viemos do Egito, o sol se pondo atrás dos Dois Irmãos, e aconteceu o momento mágico.

Um dos participantes se aproximou, era sócio-fundador, e bradou com justiça: “Bloco bom é assim! Odeio esse negócio de trio”. E foi-se embora a pular. Dei razão a ele.

Todo Carnaval tem de ter calvário. Neste ano, acompanhei de corpo presente, na Sapucaí, o drama dos cogumelos do carro alegórico da floresta germânica da Unidos da Tijuca. A geringonça pegou fogo na entrada, acho que não chegaram a subir labaredas, mas o fumacê foi grande. Quando o vi, no último recuo da bateria, já lhe faltavam alguns cogumelos; os bombeiros os haviam resgatado durante o desfile.

Os que sobraram se esforçavam para não comprometer a escola, mas a coreografia da escultura humana, que Paulo Barros sabe fazer como ninguém, exigia que os duendes fechassem o tampo do cogumelo, se abaixassem dentro do carro enfumaçado, se levantassem novamente, balançassem a chapeleta ainda reclusos, voltassem a sentar-se, para só então abrirem o topo para respirar.

Posicionado no meio da terceira fileira, um duende não se sentia bem. Todo em verde-musgo e de mangas compridas, vinha enterrado até a cintura em um praticável elevado. Ofegante, com os botões abertos e o chapéu nas mãos servindo de abano, comentava com o companheiro ao lado que não estava aguentando o rojão; pronto, já estava na hora de desaparecer novamente na estufa de fumo, levantar-se, balançar-se, sentar-se e, só então, ter direito ao ar fresco. Quando chegava o momento de se esconder no casulo, o coitado procurava ser o último a entrar e o primeiro a sair. No fim, seu cogumelo nem se fechava mais.

Cruzei com um bombeiro veterano, o Suarez, no dia seguinte ao incidente. Suarez havia participado do resgate de sete duendes. “Quando a gente via os jurados, se jogava para o outro lado do carro e tirava o pessoal por lá, depois voltava para o lado de cá, para não prejudicar a escola.”

A ala das baianas rodopiava atrás de nós dois. “Só alegria!”, dizia ele, com certa ironia, “mas tem de acompanhar, dar aguinha, suquinho, gelo, senão começa a cair uma atrás da outra. E para respirar com essa roupa na hora do sufoco? Só abrindo com a faca! É só alegria!”. Durante a noite, eu o vi atravessar o samba com uma meia dúzia de baixas.

Deste Carnaval guardarei, além do exuberante navio fantasma do mesmo Paulo Barros e das duas baterias da Mangueira, a via-crúcis do duende da Unidos da Tijuca, o bombeiro Suarez e o Galinha do Meio-Dia.

Adorei ficar no Rio. Até daqui a um ano.

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Bloco de rua

08 fevereiro 2013 | deixe seu comentário (0)

Sou do tempo em que não se brincava Carnaval nas ruas do Rio de Janeiro. A minha percepção de moça era de que a ditadura militar, tão reativa às manifestações populares e às aglutinações públicas, era a culpada pelo fenômeno. Não sei. O fato é que a cidade passou um longo período muda. Fora a Sapucaí e a Rio Branco, as opções a portas fechadas eram bailes de clube e orgias romanas.

O Cacique de Ramos, o Bola Preta e a Banda de Ipanema faziam parte da resistência.

Meu espírito de foliã desabrochou tarde, em um esplendoroso Carnaval em Salvador. A velha sociofobia se rendeu aos shows peripatéticos. Na Bahia, não se ouve somente música de Carnaval. É claro que existem o axé e os refrões irresistíveis, como o da água mineral, mas ver Carlinhos Brown reger a Timbalada no Guarani, interpretar Zé Ramalho, Gil atacar o repertório de Londres e Baby e os seus, em uma peregrinação de um dia inteiro, fazerem uma retrospectiva histórica da carreira da diva foram grandes surpresas do Baco à baiana.

E mais Ivete, Ben Jor, Marisa, Caetano, o Gandhi, o Ilê e os Apaches. Imperdível.

Os fracos, que têm por costume voltar para casa antes das 10 do dia seguinte, acordavam para descobrir que haviam partido no momento culminante da festa. A grande ameaça do Carnaval soteropolitano é o sono.

Na época, o Rio era um deserto. Tímidos blocos arriscavam sair, mortos-vivos de Michael Jackson, morrendo à míngua nas vielas vazias. Havíamos perdido o rumo.

Hoje, o Bola Preta bateu o Galo da Madrugada, do Recife, em número de foliões e Preta Gil teve de ser transferida para o Centro. A profusão de adeptos tumultua a orla e faz xixi nos canteiros. O prefeito Eduardo Paes, amante da folia, enfrenta os dilemas da organização. No meio da semana, um cortejo saiu sem autorização e engastalhou o tráfego de Botafogo. A guarda entrou em contato com a prefeitura: reprime ou não reprime? O prefeito mandou seguir. Ia fazer o quê? Botar todo mundo em cana?

O Carnaval carioca guarda o tom do improviso. Em Salvador, comandos de quatro soldados baixam o cacete de maneira cirúrgica para garantir paz na procissão de eufóricos. O Rio é amador.

Os blocos cariocas soam canhestros aos ouvidos do meu amigo baiano, o violonista e compositor Cézar Mendes. Salvo exceções, e ele deu como exemplo os naipes dos metais da Banda de Ipanema, Cézar constata que na Bahia, ao contrário do Rio, os músicos são profissionais. Virtuoses, diz ele. E se escuta bem mesmo longe das caixas. Aqui, quem vem no rabo da bagunça mal entende o que se canta na frente, em um agudo estourado, como uma buzina estridente.

A observação me fez pensar que, talvez, a motivação primeira do Carnaval do Rio não seja a música. O Simpatia, o Que M. é Essa?, o Me Beija que Eu Sou Cineasta são como o Baixo Gávea, a Guanabara e a Lapa, salões ambulantes, fiéis à tradição do chope e do filé- aperitivo. Entendi, ouvindo a crítica do baiano, que o que puxa a parada no Rio é a boemia.

Carioca tem horror a visita, mas gasta as horas perambulando pelos bares e calçadas. A cidade é a sala, habemus esquinas. É a esse caráter que devemos a volta do Carnaval.

O renascimento passa por um instante glorioso. Os blocos cresceram, mas ainda não viraram um negócio. Em dez anos, o Monobloco fechará o Aterro e a guerra ambiental dos jardins da orla contra os Napoleões de Boulevard provocará a proliferação desenfreada da iúca, planta dura em formato de agulha capaz de cegar o incauto. Tapumes de madeira farão um curral do percurso e o abadá, tomara que não, será permitido.

Venha o que vier, espero que a informalidade resista. Espero, também, que, além dos botequins, a paixão pelas churrascarias evolua para a fundação do Espeta as Carnes, do Picanha Nobre e do Estou em Brasa.

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Dolce far niente

25 janeiro 2013 | 3 comentários

 

A extraordinária reconstituição do período que vai do retorno de Júlio César à capital do Império Romano até a vitória de Otávio Augusto sobre Marco Antônio, na série Roma, da HBO, deve muito ao talento de artistas e artesãos italianos. O requinte dos figurinos, da maquiagem e dos cenários exprime a alta qualidade da mão de obra da Bota, invejada e almejada desde a Antiguidade. Mas o projeto enfrentou sérios problemas financeiros devido à diferença entre a jornada de trabalho praticada na Europa e a dos Estados Unidos.

Os italianos não compactuam com o “time is money” dos americanos. Os técnicos de Hollywood trabalham dez horas por dia e, caso haja a necessidade de horas extras, os salários dobram, triplicam e até quadruplicam, dependendo da gravidade da extensão. O pragmatismo produtivo dos ianques sabe que é mais vantajoso aumentar o soldo do que arcar com o custo de mais dias de filmagem. Todos lucram e todos se dão por satisfeitos.

Mas, quando a produção de Roma ofereceu o habitual retorno financeiro em troca das horas de sono, de almoço e de descanso da equipe, os italianos responderam que não havia dinheiro que pagasse a vida e o tempo ao lado da esposa e dos filhos. O resultado foi que Roma quase custou o fígado da HBO.

Escrevo da exuberante Itália.

Em Florença, uma sinusite violenta contraída a 4 000 metros de altitude, nos Alpes, me levou até o doutor Porro, um homem doce e bem-humorado, que beirava os seus 50 anos. Ao confirmar o diagnóstico, o doutor Porro comentou que as pes­soas não foram feitas para perambular pelo mundo a bordo de aviões. Cada indivíduo é o resultado do meio ambiente onde cresceram seus avós, bisavós e tataravós; a mudança brusca de altitude, umidade ou pressão, invariavelmente, leva a problemas de saúde como o que eu enfrentava agora. O corpo precisa de tempo para se readaptar, disse ele, e o ideal ao descer ou subir as grandes montanhas é repousar a cada 500 metros.

Sua crítica ao modelo de vida atual ia muito além do turismo desenfreado. Frontalmente avesso à ansiedade do trabalho, o doutor Porro se mostrou enojado com a nova psiquiatria que pretende tachar o luto como doença passível de ser medicada e emendou com um elogio à contemplação e aos doces prazeres cotidianos da existência.

Devem-se acumular memórias, não dinheiro, disse ele, e confessou sua admiração por pessoas como um casal de brasileiros que havia largado tudo, alugado uma vila em Florença e se dedicado à infância dos filhos. Eu comentei que éramos uma família de artistas muito próximos dos rebentos, e que trabalhávamos juntos frequentemente. Ele sorriu e respondeu que não estava falando de trabalho, mas da existência pura e simples. Olhei as colinas da Toscana e pensei que sair da roda-viva da produtividade era mesmo um desafio profundo.

A União Europeia enfrenta uma crise econômica. Duvida-se que a Alemanha, sozinha, seja capaz de aguentar o tranco da falência dos países vizinhos. Os franceses cumprem, por lei, parcas 35 horas de labuta semanais, o que dá sete horas de segunda a sexta, 21 a menos do que os alemães; e, cumpridos três meses de serviço, pode-se pedir o seguro-desemprego pelo resto do ano. Em alguns países, o governo vai sustentá-lo até você encontrar, ou não, um emprego que mantenha o piso salarial do seu cargo anterior. Mexer em tais regalias é provocar passeatas na rua e perda de popularidade nas urnas.

Gérard Depardieu, um ícone francês, acaba de virar cidadão russo e se mudar para a Bélgica para fugir da taxação sobre as grandes fortunas.

O socialismo europeu foi fundado na fartura. Ao contrário da China e da União Soviética, que nivelaram os ganhos da sociedade por baixo, a Europa conquistou direitos trabalhistas nadando em dinheiro. Não há si­tua­ção mais confortável. Mas o fim das colônias, o terceiro milênio, a globalização, 2008 e o diabo a quatro pressionam a velha senhora a abrir mão das regalias.

O grande porém do projeto invejável do doutor Porro é encontrar meios de sustentar o ócio criativo. A Itália, sem dúvida, é o melhor país para exercitá-lo. O problema é arranjar alguém que pague a conta.

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Mediterrâneos

11 janeiro 2013 | 7 comentários

 

Como disse, fugi do calor inclemente do Rio e me mandei com a família para o gelo europeu. Um amigo de Copacabana me mandou um e-mail sensacional dele e dos seus curtindo os raios UV na Princesinha do Mar — era uma foto de uma caravana de camelos no deserto do Saara. Ri até não poder mais. Alguém me contou que Buenos Aires bateu 47 graus no termômetro, mas não pode ser verdade. Se em Buenos Aires está assim, o que será do Crato? Outras notícias afirmam que os russos enfrentam nevascas de 50 abaixo de zero. Alguém teria feito a experiência de jogar um balde de água quente pela janela e o jato, como no mais clássico dos cartuns, teria congelado em pleno ar. Mesmo na penúria das temperaturas extremas, o bicho-homem nunca abandona o seu senso de humor e seu caráter investigativo.

 

Tenho a convicção de que o clima interfere na personalidade dos povos. Os nórdicos são muito diferentes de nós. Subi uma montanha em um trenzinho local, onde três senhoras germânicas civilizadíssimas vinham sentadas elegantemente perto da janela. Sérias, miravam o infinito. Meu filho de 4 anos tentou a todo custo um contato visual com elas, mas foi inútil, as três se mantiveram indiferentes ao meu anjo barroco que insistia sedutoramente em lhes conquistar o coração.
No dia seguinte, espremida em um vagão que me levaria até o alto do morro, reparei em uma mãe prestativa que protegia, como eu, sua pequena cria do aperto do expresso. Ela era libanesa, falava francês, era jovem e mãe de quatro filhos. Tivemos uma empatia imediata uma pela outra, algo natural, espontâneo, como se fizéssemos parte da mesma família. Éramos mediterrâneas. O Brasil, assim como a Península Ibérica, da qual descendemos, está muito mais próximo do mundo árabe do que da racionalidade nórdica. É impressionante.
A indiferença das senhoras do primeiro vagão era proporcional à sua etiqueta, ao respeito pela liberdade alheia, à maneira educada de tratar os outros e de não ficar olhando para os corpos nus que se esquentam na sauna. O brasileiro tem uma enorme dificuldade de falar baixo, de se portar com discrição, somos deselegantes, intempestivos, nos vestimos como cebolas quando o frio aperta, mas jamais ignoraríamos alguém que nos olha buscando afeto. A libanesa também era assim.
É perigoso generalizar, mas, ao mesmo tempo em que invejo a sobriedade dos norte-europeus, tenho medo dela. Um amigo contou que na formatura de uma conhecida, filha de alemão, o pai discursou dizendo que a menina não havia feito mais do que a obrigação e que esperava que a moça fosse uma vitoriosa na vida. Essa rigidez dá em Beethoven, Goethe, Kant, mas é muito distante de mim. Eu gostaria de ser mais eficaz na educação dos meus filhos, mas os trópicos não permitem.
Uma vez, no Leme, vi uma avó com seu neto, eles deviam morar no Chapéu Mangueira. Ela era gorda, negra e expansiva. O moleque, levadíssimo, insistia em entrar no mar bravo, o que desesperava a anciã. Ela ameaçava bater nele, falava duro e o segurava com raiva pelo braço. Apesar de brutal, a avozona não deixava de ser calorosa e afetiva.
Aqui onde estou, vi um homem de 3 metros de altura, forte, louro e bem- vestidérrimo, tentar ensinar o filho de 4 anos a se equilibrar sobre esquis. Na terceira tentativa, o pai segurou o guri pela calça e chacoalhou o coitado com violência, enquanto vociferava em alemão castiço. Depois de sacudi-lo, jogou-o no chão como se o pobrezinho fosse um saco de lixo e saiu esbravejando. Houve um choque geral na pista. O menino se pôs a chorar, clamando ao pai que voltasse, mas este saiu caminhando duramente em direção ao nada. Ninguém achou a atitude dele aceitável, a vontade geral foi de vaiar, bater no grandalhão, mas ele parecia achar normal ser assim.
O Brasil é um país extremamente violento, trágico, onde atrocidades terríveis são cometidas contra as crianças, mas jamais vi uma cena como aquela, quanto mais de alguém que terminou o ensino superior, come e se veste como rei. Como diz Hugo Mãe, sou uma Silva, de silvestre, rude e primitiva.

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