Guerra e paz

Leia na crônica de Fernanda Torres

Aleppo era uma metrópole florescente do Crescente Fértil. Nela, muçulmanos, judeus, turcos, curdos, xiitas e sunitas transitavam pelo velho mercado, rodeados por ruínas da antiguidade. Vinte anos atrás, ninguém apostaria que a cidade seria palco do horror que enfrenta agora.

Aleppo é dividida entre o oeste abastado e uma populosa periferia a leste, esquecida por Bashar al-Assad. A Primavera Árabe insuflou o descontentamento dos menos assistidos, e as manifestações antigoverno foram recebidas a bala.

Localizada no cruzamento de graves tensões mundiais, a Síria despertou a atenção de agentes internacionais, interessados em medir forças no exíguo território. Russos, europeus e americanos, iranianos e iraquianos, além de adeptos do Hezbollah e do temível Estado Islâmico, intensificaram o poder de fogo dos confrontos, resultando na matança a que, hoje, assistimos pela TV.

Apesar da destruição quase total da parte leste, os habitantes da região oeste têm mantido a rotina diária. Carros transitam nas ruas, famílias vão às compras, numa normalidade que me fez lembrar outra cidade partida: o Rio de Janeiro.

Ninguém sabe qual será o resultado prático da recente falência do nosso Estado. A insegurança já mostra os dentes e temo reviver as enchentes, a buraqueira, a falta de iluminação, a sujeira e o abandono que testemunhei na juventude, durante a bancarrota que atingiu o auge na gestão do prefeito Saturnino Braga.

O armamento pesado vendido por aqui assusta, mas ainda é nada quando comparado ao que circula pelo Oriente Médio. O Brasil é um país isolado e a indústria armamentista prefere vender seus mísseis em paragens mais estratégicas. Tudo, no entanto, pode piorar.

Li, outro dia, que uma facção criminosa de São Paulo assumiu o controle do tráfico de drogas da Rocinha, inaugurando uma nova era na escalada da violência carioca.

Ao saber da novidade, as imagens de Aleppo e o receio de um futuro negro para a Guanabara se fundiram, e, assim como num filme de ficção, vislumbrei Copacabana em ruínas, a Tijuca da minha infância posta abaixo, as tropas de um governo ausente combatendo a revolta na Baixada e uma guerra culminando em terra arrasada. Pensei que seria obrigada a abandonar a cidade em que nasci, jurando aos netos que o Rio, um dia, havia sido uma capital luminosa.

Saí do trabalho carregada de maus presságios, segui pela Barra a caminho de casa, até chegar à Niemeyer. Do alto da avenida, avistei o oceano azul, turquesa como há tempos eu não via. O poente pintou o céu de rosa e eu parei para admirar o verão.

Senti uma gratidão imensa por estar viva. No domingo de Natal, torrei as costas no sol quente nadando em meio a um cardume de sardinhas que veio dar na praia.

O belo, o bom, o justo.

Não sei o que virá, não quero parecer alienada, mas, pelo menos hoje, não desejo sofrer por antecipação. Enquanto o fim do mundo não se concretiza, sonho com um 2017 possível para todos nós.

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