Noiva

16 dezembro 2011 | 2 comentários

 

Passei as últimas semanas de novembro paramentada de noiva por causa do seriado de televisão Tapas e Beijos.
O vestido era “o” vestido dos vestidos: um modelo princesa com corselete cinturado de renda brocada do qual nascia uma gigantesca saia formada por dezenas de camadas de tule, repousada sobre farta anágua de entretela engomada.
Foi o mais perto que cheguei de Cinderela.
Após cravar o último grampo para fixar a tiara no crânio a contento, abandonei o espelho mágico e segui para o estúdio junto com minha companheira, Andréa Beltrão, a outra noiva igualmente esplendorosa.
Amassamos as laterais esvoaçantes para passar pela porta ampla sem maiores dificuldades, mas arrastar a cauda por entre os fios, pregos e sarrafos do chão se mostrou uma operação arriscada. Quando finalmente alcançamos o cenário, os gestos mais corriqueiros, como ir para as marcas e esperar o próximo take, só eram possíveis depois de um desengonçado balé.
Caso desejássemos mudar de lugar, era preciso girar a parte de baixo no sentido almejado, levantar a cascata de tecido com as unhas postiças e sair arrastando os objetos de cena enquanto chutávamos a entretela em linha reta. Para sentar, era necessário girar novamente a roda de pano, virar de costas para a cadeira e agachar lentamente, fazendo um contrapeso entre a cabeça e o traseiro.
Com o tempo, um calor diabólico começou a brotar das pernas e subir pela barriga, até atingir o pulmão. Apertado pelas barbatanas do espartilho e superaquecido pela fornalha dos baixios, o órgão vital saiu de circuito. Respirar virou um problema. Para coroar, a enxaqueca chegou rasgando. Quando me vi livre do andor, a ideia de me enfiar novamente naquela armadura de gaze já não me parecia tão atraente.
E olha que estávamos em um ambiente refrigerado.
No dia da externa do casório, um sol inclemente tomou de assalto Curicica. Vladimir Brichta e Fábio Assunção, empacotados de príncipes, trajavam fraque, colete, gravata apertada e colarinho alto. Juntos, lembravam chaminés de locomotiva prontas para soltar vapor pelas ventas.
Como é duro o dia da noiva. E do noivo.
Um amigo e a mulher já moravam juntos havia alguns anos, quando resolveram se casar. Escolheram a igreja, os padrinhos e o padre; marcaram a data, distribuíram convites e se prepararam para oficializar, perante Deus e a sociedade, a sua eterna união. Na hora em que o último convidado foi embora, depois da missa solene, da recepção, do bolo, do beija-mão, da comoção e da farra, os dois se viram sozinhos na sala de casa, a mesma que os havia abrigado nos últimos anos, e foram acometidos de um acesso incontrolável de choro.
Na peça É…, a que assisti diversas vezes na infância, Millôr Fernandes cita uma frase de Bernard Shaw que jamais vou esquecer: “Quando dois jovens estão apaixonados, em um estado de exaltação febril e patológica, a sociedade põe diante deles um padre e um juiz e exige que jurem que permanecerão o resto de sua vida nesse estado anormal, deprimente e exaustivo”.
Não sou tão ferina quanto Shaw, mas a profissão de atriz me roubou muito da magia das bodas.
Perdi a conta do número de vezes que o serviço me fez caminhar para o altar. O resultado é que não consigo pensar no grande momento sem levar em consideração o esforço hercúleo de levantar o circo.
Minhas reticências são todas de ordem prática.
Uma cerimônia desse porte é uma diária de gravação apertada com duas locações: a capela e o salão de festas, além das cenas pendentes da lua de mel. Tem direção, elenco, figuração, figurino, maquiagem, cenografia, sonoplastia, iluminação, contrarregra, transporte, alimentação… até equipe de filmagem tem. É um ritual teatral parecidíssimo com o meu ganha-pão.
Apesar de eu achar bonito ver um homem e uma mulher, ou duas mulheres, ou dois homens, assumirem seus laços diante dos entes queridos, John Lennon e Yoko Ono ainda encarnam meu ideal de romantismo. Os dois se casaram na surdina, em Gibraltar, e só depois contaram para o mundo.
Eu sonho assim. E de preferência com a minissaia e o chapelão da Yoko.

Tags: Publicado em: Crônica da semana
Comentários
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  • malu

    não sei se você lê os comentários, ainda mais os antigos, mas parabéns pela série! além de gostar muito das histórias, me divirto tentando adivinhar os locais que aparecem do meu bairro :)

  • Tatiana Costa

    Nunca tive sonho em casar vestida de noiva,pode até soar falso ou pouco romântico já que somos desde de criança condicionadas a aceitar o pesado fardo, a ideia de ficar horas enfiada dentro de um vestido tendo que calcular com precisão os passos em uma HP, mais me aterrorizava que seduzia,fico imaginando o quanto deve ser torturante ter que parecer feliz,confortável,linda e educada dentro de um vestido em que você mais parece estar em um ônibus lotado depois de um dia exaustivo de trabalho,duvido que depois de toda maratona de um dia inteiro de salto alto,maquiagem,vestido esmagando seu pulmão e um monte de convidado chato pra cumprimentar você ainda consiga mostrar perfomance invejável na noite de nupcias...prefiro tbm a minissaia e o chapelão da Yoko sábia Ono