Mitos e verdades sobre medicina antiaging

Concebida no início da década de 90, a prática não é uma especialidade reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina

Concebida no início da década de 90, a medicina antiaging ou antienvelhecimento não é uma especialidade reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina, inclusive sua prática por médicos brasileiros pode resultar na perda do registro profissional segundo a resolução 1999/2012 do CFM. Tal prática ganhou impulso com a publicação de um artigo científico no New England Journal of Medicine (NEJM), uma das mais renomadas e tradicionais revistas médicas do mundo. No texto, os pesquisadores mostraram que pacientes idosos, submetidos à terapia com hormônio do crescimento humano (HGH), conseguiram melhorar sua composição corporal, deixando-a equivalente a pessoas 20 anos mais jovens.

No entanto, apesar do alerta feito pelos próprios autores do artigo sobre a necessidade de estudos mais aprofundados e de longa duração, alguns colegas médicos enxergaram na reposição hormonal a concretização de um mito que permeia o imaginário humano desde os tempos das civilizações antigas: a chamada “Fonte da Juventude”. Neste momento você deve estar se perguntando: “se o estudo mostrou que os pacientes ficaram mais jovens, então, isso é o sinal que o HGH funciona, correto”?

Quem dera a ciência fosse tão simples!

Perceba que o que melhorou foi a composição corporal dos pacientes, ou seja, a proporção entre as quantidades de massa muscular e gordura. Isso ocorre pois o HGH tem a capacidade única de mobilizar os estoques de gordura corporal e aumentar a retenção de líquidos, aumentando assim o volume de massa magra. Porém, infelizmente as propriedades de “antienvelhecimento” do HGH terminam por aqui.

Ao contrário do que alguns colegas defendem, a reposição hormonal é incapaz de reverter todos os processos orgânicos desencadeados pelo envelhecimento. A ciência dedicada a este processo é bastante complexa. Só para se ter uma ideia, há pelo menos oito teorias para explicar como este fenômeno acontece:

quadro

Perceba que o envelhecimento é o resultado da interação de diversos fatores, a exemplo da própria queda da produção hormonal. Por isso dizemos que trata-se de um processo estocástico, ou seja, é um mecanismo que nós sabemos como começa, mas a própria interação entre os fatores envolvidos vai modificando o resultado final, sendo portanto muito difícil ou quase impossível prevê-lo.

A título de comparação, um outro exemplo de processo semelhante é a previsão do tempo. Neste caso, existem tantas variáveis interagindo, que é impossível ter uma previsão exata da meteorologia em um período um pouco mais prolongado.

Porém, vamos dar vazão à imaginação, afinal ciência se faz com boas perguntas e não com boas respostas.  Imaginemos que a partir de hoje um senhor com mais de 70 anos resolvesse testar em si mesmo os efeitos da reposição de HGH e de testosterona (outro hormônio muito utilizado pelos defensores da medicina antiaging). O que provavelmente aconteceria com ele?

Alguns estudos científicos recém-publicados podem nos responder esta questão, como o artigo que saiu em 2010 no NEJM com autoria de Dr. Basaria. O compilado mostrou que a reposição de testosterona em idosos com dificuldade de mobilidade aumentou a força muscular e a disposição, porém o trabalho foi interrompido precocemente pelo aumento significativo da mortalidade cardiovascular no grupo que utilizou a testosterona em gel.

Consequências do excesso de HGH no corpo

Consequências do excesso de HGH no corpo

A ciência já conhece bem os efeitos da exposição prolongada do corpo humano ao hormônio HGH, e os resultados desta exposição estão muito longe de serem considerados como uma moderna “Fonte da Juventude”. Ele é produzido em grades quantidades, por exemplo, em pacientes que desenvolvem tumores benignos em uma glândula chamada de hipófise, localizada na base do crânio. Se o problema ocorre na infância, a criança pode desenvolver a chamada síndrome do gigantismo, uma doença rara. Na vida adulta, a disfunção recebe o nome de acromegalia (veja abaixo), que consiste no aumento das extremidades e dos órgãos internos, além de um aumento na incidência de diabetes melitus, artrose, doenças cardiovasculares, hipertensão arterial e alguns tipos de cânceres, como o de intestino grosso e o de tireoide.

Paciente portador da síndrome da acromegalia

Paciente portador da síndrome da acromegalia

Em casos de deficiência comprovada, a reposição hormonal não só pode como deve ser feita, pois isso acarreta uma maior sobrevida e uma melhor qualidade de vida ao paciente. É aí que entra o papel do endocrinologista, o especialista mais indicado para avaliar questões referentes aos distúrbios da produção hormonal e, se for o caso, recomendar a reposição mais adequada para cada paciente.

Reconhecida pelo CFM, a especialidade médica que cuida do complexo processo do envelhecimento é a geriatria. Segundo os profissionais da área, os melhores métodos para retardá-lo já são bem conhecidos: boa alimentação, descanso adequado, prática de exercícios físicos regulares, controle do estresse, visitas médicas regulares… Em resumo, tudo o que já sabemos: uma vida equilibrada trará muito mais benefícios do que uma reposição hormonal isolada, que em determinados casos pode não funcionar e ainda trazer malefícios aos seus usuários.

Dr Yuri Galeno

Endocrinologista membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia (SBEM)

Presidente da Comissão Para Estudo da Endocrinologia e do Esporte da SBEM

Referências:

  • Medicina Antienvelhecimento, Notas Sobre uma Controvérsia Sociotécnica. Leitão AN, História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v .21, n.4, ajdez. 2014 , p.1361-1378.
  • Adverse Events Associated with Testosterone Administration. Shehzad Basaria. NEJM 363;2 july 8, 2010.
  • Is there any scientific evidence supporting antiaging medicine? Milton Luiz Gorzoni An Bras Dermatol. 2010;85(1):57-64.
  • Increase in Circulating Levels of IGF-1 and IGF-1/IGFBP-3 Molar Ratio over a Decade is Associated with Colorectal Adenomatous Polyps. Adelheid Soubry. Int J Cancer. 2012 July 15; 131(2): 512–517.
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