Sexo, verdades e ópera

Detesto destruir as ilusões dos puristas mas o tenor quer mesmo é transar com o soprano, ou o barítono; digo, o barítono também quer o soprano, ou o mezzo (que é mãe do tenor e filha do faraó). Parece um poema do Drummond em versão esquizofrênica mas é apenas o resumo da ópera. Curioso imaginar […]

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Detesto destruir as ilusões dos puristas mas o tenor quer mesmo é transar com o soprano, ou o barítono; digo, o barítono também quer o soprano, ou o mezzo (que é mãe do tenor e filha do faraó). Parece um poema do Drummond em versão esquizofrênica mas é apenas o resumo da ópera.

Curioso imaginar como de tão visceral e sexual, a ópera caiu nessa caixinha da “coisa antiga” e “de elite”, algo moral e quase puritano. Carmen parece congregar toda expressão de sexualidade em ópera ao passo que mesmo a prostituta de luxo decaída de “La Traviata”, acabou a favorita de Luisa, a loura protagonista de O Primo Basílio. A verdade é que sexo está no coração de 9 entre 10 títulos líricos e não fica nada a dever para a sua novela predileta. O Conde de As Bodas de Figaro já arrastava a empregada para um cantinho escuro e cantava: “você sabe que não estamos indo lá para ler, meu amor”.* Mesmo o lindo casal de octogenárias da novela ou o famoso “primeiro beijo gay” encontram-se nas declarações de amor de Plyade a Orestes na “Iphigénie en Tauride” de Gluck (encomenda de Marie Antoinette, a própria) ou nos desejos da Condessa pela protagonista da Lulu de Berg. Há uns bons 120 anos que o foco deixou de ser a vida de nobres; mas as vezes eu acho que continuamos com hábitos de côrte, prontos para um iminente beija-mão.

E olha que a ópera já foi mais informal e aqui mesmo no Rio: nos anos 1870 surgiram diversas versões brasileiras de operetas francesas que transformaram o “Orphée aux Enfers” e “La Belle Helène” de Offenbach nos “Orfeu na roça” de Corrêa Vasques e —pasmem — “Abel, Helena” de Arthur Azevedo. Isso sem falar em “Baronesa de Caiapó”, “A filha de Maria Angu” ou “Barba de milho”. A Biblioteca Nacional tem tesouros desses. Meu preferido é uma paródia da deslumbrante embora pouco-crível e altamente dramática “Il Trovatore”, ópera de Verdi onde uma cigana joga o filho na fogueira por engano; chamava-se “O Capadócio”. Brincadeiras à parte, a verdade é que está mais do que na hora de revermos muita coisa sobre ópera no Brasil: de um lado parece que ir a ópera requer uma etiqueta comparável a de um funeral, do outro só com maior acesso à ópera ela pode tornar-se novamente nossa íntima. Tudo bem que o hábito de devorar galinhas durante os atos eu passo, mas um pouco menos de medo até que ia bem. Como achar uma formula para que ela não seja algo totalmente estrangeiro a nossa cultura?

Enfim, a verdade — porque sexo é algo de paixão — é que precisamos poder amar essa arte como nossa. Reencontrar um pouco desse Rio de Janeiro, cidade da ópera. E certamente isso passa pelo investimento no talento nacional (e latino americano). Nós, que temos músicos de MPB, artistas plásticos ou companhias de dança tão geniais precisamos acreditar mais nos que ópera no Brasil — e na ópera do Brasil. Sem isso, o intercâmbio com artistas do mundo todo passa de enriquecedor para inútil; um glacê dourado no melhor estilo “ÉPATER LE BOURGEOIS”. Repito: Como julgar o valor ou a capacidade de um artista nacional que, 9 a cada 10 vezes, recebe menos, ensaia menos, está no segundo elenco, tem menos récitas e toda sorte de condições artísticas menos favoráveis que o colega estrangeiro? Que bom que no Rio parece que estamos num bom caminho. Quanto ao Brasil, permanece um desejo constante, ideal presente e uma esperança nem sempre realizável.

* Quem quiser comprovar, váassistir a ópera ãs Bodas de Figaro em cartaz no Municipal do Rio em novembro.

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