O morto e as nossas assombrações…

Morreu Pierre Boulez. Vários obituários importantes pelo mundo afora disseram que, com o seu desaparecimento, terminou simbolicamente a música do século XX. Talvez seja verdade, sobretudo no que diz respeito a uma ética de escolhas estéticas e de fazer musical. Sua visão analítica das partituras era testemunha direta do contato que teve com toda a […]

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Morreu Pierre Boulez. Vários obituários importantes pelo mundo afora disseram que, com o seu desaparecimento, terminou simbolicamente a música do século XX. Talvez seja verdade, sobretudo no que diz respeito a uma ética de escolhas estéticas e de fazer musical. Sua visão analítica das partituras era testemunha direta do contato que teve com toda a geração que o precedeu e que mudou a música ocidental.

Porém, minha surpresa maior foi ver a repercussão de sua morte nas redes sociais, especialmente a partir de amigos que nunca postam sobre a música “dita erudita”. Era como se, no meio de prós e contras e dos (des)governos da política, um grito rompesse o silêncio. Aquela mordaça que é quase uma burca na boca, cabeça, corpo e membros de toda música que não é “mainstream”.Lembrar que, pouco antes, morria o compositor brasileiro Gilberto Mendes, também um pensador da música e da mesma geração pode parecer naif . É possível que Boulez tenha se tornado Boulez tanto pelo seu talento quanto pelas oportunidades que teve na vida e pelo reconhecimento que o seu país lhe deu desde há muito.

É, nunca fomos bons em valorizar as coisas nossas. Basta ver como tratamos a Ópera Nacional — aliás, tanto esta, com maiúsculas, como a ópera nacional, a ópera no Brasil. Nos idos de 1860 foi um exilado carlista, Don José Amat, que se bateu para criar uma ópera brasileira. Verdade seja dita, o que ele almejava era mais uma ópera “à brasileira”, mas há que se tirar o chapéu para o que esse espanhol conseguiu para o brasileiros. Cento e cinquenta anos depois o ser ou valorizar brasileiro continua uma atitude dita provinciana. A iniciativa da Ópera Nacional enquanto companhia lírica durou menos de uma década e conseguiu sucesso quando a viola caipira não estava mais na orquestra e tudo tinha um ar italiano. E Amat, apesar do papel que desempenhou na música do Brasil, Argentina e Urugaui, acabou quase que totalmente esquecido; mas daquela aventura surgiu o talento de Carlos Gomes e óperas compostas por brasileiros vieram no seu rastro.

O curioso e que tem a ver com nossos dias, é que tão logo o que Amat criou deu algum resultado positivo, vários tentaram roubar-lhe a ideia. É ainda assim: estamos cheios de arrivistas que chegam com o discurso de que tudo que existe não existe. Começa-se tudo do zero outra vez e, em pouco tempo, a realidade sobrepõe-se ao discurso empolado e vazio que esconde apenas um projeto personalista, como o dos barões e altas personalidades do Império que, uma vez bem estreada a Imperial Academia de Música e Ópera Nacional, tentaram assumir seu comando.

O consolo é que a história prova que os Amat sempre voltam, pois são movidos pela paixão. Boulez, mesmo depois de celebrado, e por mais de uma vez, encontrou dificuldades; partiu e reinventou-se, foi achar o lugar onde queriam ouvir seu jeito de fazer música. Não está na hora de gritar um pouquinho mais alto que a música de concerto brasileira tem direito à sua cidadania?

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