O Dito Erudito 2016

O ano começa. Eu recomeço. Uma razão para meu relativo “silêncio” Nesses últimos tempos é a sensação de que a música de concerto — a tal “clássica”, a dita música erudita — está silenciada. Como propor “um passeio pela música clássica” se seria algo como andar num imenso color-chrome, abstrato e vazio? Na música clássica […]

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O ano começa. Eu recomeço. Uma razão para meu relativo “silêncio” Nesses últimos tempos é a sensação de que a música de concerto — a tal “clássica”, a dita música erudita — está silenciada.

Como propor “um passeio pela música clássica” se seria algo como andar num imenso color-chrome, abstrato e vazio? Na música clássica não andamos sobre campos de casacos-de-pele e black-tie, nadando entre taças de champanhe; ironicamente em meio a tanta musica, parecemos amordaçados. Poucos incluem ópera entre as expressões artísticas brasileiras, e no entanto também somos daqui, fazemos musica aqui. Se as imagens mais frequentes do glamour ao redor da ópera e da musica erudita falam de uma elite, vale lembrar ue 9 entre 10 vezes sao imagens importadas, que pouco ou nada têm a ver com o fazer lirica em nosso país. E qual a cara da ópera no Brasil? Eis um bom ano para tentar responder essa pergunta.

Aqui no país o passeio pela ópera não anda sempre florido — mas anda com esperanças. Há muita coisa boa no ar para 2016, e o ano que passou não foi avaro em novidades: a rara Menina das Nuvens de Villa-Lobos retornou ao Rio, uma deliciosa e rara ópera de Prokofiev foi ouvida em São Paulo, Minas jogou-se de coração em alma no Bel Canto, Belem trouxe a magia do cinema para os palcos e com um belo resultado; parcerias com a América Latina desenham-se. Parece que os deuses da lirica nos deixaram um pouco mais distantes da costumeira superficialidade nesse 2015. Claro, há coisa inquietáveis como o Teatro Nacional de Brasilia que permanece escandalosamente fechado, deteriorando-se. Há casos de gestão irresponsável com muito desperdício de dinheiro publico. Há a questionável substituição de espetáculos ao vivo por apresentações em cinema, em vídeo. Nas redes sociais, em meio aos vários prêmios de ‘melhores do ano’, alguns cantores começaram a postar que alguém deveria pensar em instruir o de “Melhor Pagador”; enquanto uns pagam em dia — ou com um atraso pelo menos aceitável — outros….bom, como dizer? Se me permitem a paráfrase, pedem a estrela-guia (dos artistas) um brilho de aluguel. Não existe maior provincianismo do que não saber o que se pode gastar, encher a barriga e deixar a conta para o garçom. São desafios — e velhos fantasmas — que com a crise econômica, somam-se aos vaticínios de um novo ano temivelmente pobre de recursos.

Para os que procuram emoções nas páginas policiais a ópera andou frequentando-as. Talvez para provar sua ‘contemporaneidade’ em tempos de “lava-jato” o Teatro Municipal de São Paulo foi arrastado junto com seu ex-diretor para prestar declarações sobre um suposto desvio de até R$18 milhões. Segundo algumas reportagens outros fariam parte do esquema, incluindo outras produtoras culturais. As hipóteses são várias e a verdade ainda não está nem perto de vir à tona. É possível que as culpas só sejam divididas quando alguém resolver falar, estilo ‘delação premiada’. Mas é bom saber que o MP está investigando: num país em que os recursos para a cultura são tão preciosos, em que muita gente séria luta para manter a chama da ópera acesa (e com honestidade), a mera conivência com um ‘esquema’ assim é criminosamente cúmplice, infame. Volto ao assunto na semana que vem.

Infelizmente, esse primeiro passeio do ano não pode deixar de chegar ao fim sem falar de duas grandes figuras que nos deixaram. Mais recentemente, o compositor Gilberto Mendes, homem engajado em cultura — aliás, em questionar e repensar cultura. Sua morte, depois de uma longa e imensa vida, quase não apareceu na mídia; as tais bolhas de champanhe do mar de silencio que nos cobre venceram. A outra perda foi a de Marilia Pêra. A grande atriz, mulher incrivelmente carismática e versátil, era presença frequente em ópera e concertos — caso infelizmente raro entre estrelas brasileiras de TV, teatro e cinema. Marília Pera tinha humor e talvez esteja rindo da seriedade com que falo do tal silenciamento da música de concerto. Talvez achasse isso tudo um pouco operístico da minha parte — tomara que de onde esteja, veja tempos melhores para a musica dita erudita.

Vamos de 2016.

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