Nhô Nhô Tristão

Voltei. Estrear ópera é uma coisa que consume até o último neurônio livre — e também arruina com a dieta de qualquer pessoa. Passada a estréia de Don Pasquale no Municipal Rio e terminadas todas as récitasvolto a ser uma criatura (razoavelmente) pensante. Retorno aos”causos” da ópera no Rio no século XIX. O mundo já […]

Ludwig and Malwine Schnorr von Carolsfeld in the title roles of the original production of Richard Wagner's Tristan und Isolde in 1865.

Ludwig and Malwine Schnorr von Carolsfeld in the title roles of the original production of Richard Wagner’s Tristan und Isolde in 1865.

Voltei. Estrear ópera é uma coisa que consume até o último neurônio livre — e também arruina com a dieta de qualquer pessoa. Passada a estréia de Don Pasquale no Municipal Rio e terminadas todas as récitasvolto a ser uma criatura (razoavelmente) pensante. Retorno aos”causos” da ópera no Rio no século XIX. O mundo já tem gente demais falando de todas as mazelas possíveis; não custa diversificar.

Esse Rio de Janeiro, côrte do império brasileiro, capital da República e hoje tão cantada ‘Cidade Olímpica’ sempre teve uma certa preferência pela ópera italiana. Foi mais forte no Império, teve rivais nas primeiras décadas do século. Porém as ruas perto da praça Tiradentes cantaram por décadas a ‘Norma’ de Bellini partir da sua chegada nestas praias em 1843. Porém, o Imperador Don Pedro II era um fã de primeira hora de Richard Wagner — antes mesmo de Wagner ser Wagner, esse ícone da cultura ocidental. E foi no Rio que quase quase tivemos a estréia mundial de uma ópera do compositor alemão: a famosa TRISTÃO & ISOLDA.

Uma das ‘descobertas’ mais curiosas que fiz quando escrevia minha tese de doutorado sobre o nascimento da ópera brasileira foi essa. Não tinha, confesso, grande ligação com a ópera nacional mas não pude deixar de fora do texto final. No dia 24 de agosto de 1857 o jornal “Diário do Rio de Janeiro” publicava a seguinte nota: “TRISTAO E ISOLDA – Nosso correspondente em Berlin nos escreve que um celebre compositor alemão, Ricardo (sic) Wagner, está escrevendo uma ópera … – Tristão e Isolda. O compositor pretende dedicar a sua opera a SM. Sr. D. Pedro II, e faze-la representar pela 1a vez no Theatro Lyrico desta corte. Pelo ultimo paquete veio a proposta do maestro a direção do Theatro Lyrico; e segundo nos informam, embora ele seja pobre e viva do magistério, contudo não fará questão de dinheiro. O que deseja é fazer representar sua ópera em um bom theatro, o que não pode fazer na Alemanha, onde suas obras são prohibidas como desterrado. É de crer que a direção do theatro não perca esta ocasião de fazer uma excelente aquisição, e de elevar a cena do Rio de Janeiro à altura das melhores da Europa.O Sr. Wagner se obriga a apresentar a sua partitura e o texto italiano para ter lugar a primeira representação no Rio de Janeiro.” Chega a ser engraçado imaginar que logo essa ópera tão influente na cultura ocidental poderia ter estreado nos trópicos — e em italiano como era o costume da época. Todavia, já nos 1857 nem tudo que se lia nos jornais era verdade. Não duvido que Wagner tenha oferecido estrear essa ou qualquer outra ópera a quem lhe pagasse bem para ter a partitura. Porém documentos apareceram depois atestando que tudo não teria passado de uma grande dose de boa vontade do embaixador Brasileiro. A única verdade inquestionável é que D. Pedro II era fã de Wagner. Vinte anos depois dessa nota no jornal, lá estava o Imperador e suas barbas em Bayreuth quando da primeira apresentação da Teatralogia “O Anel do Nibelungo”, em 1876.

Falando em Wagner e ópera no Municipal, eu confesso que tenho um anti-fã. Um sujeito que vai para te odiar no melhor estilo daquele super-homem cinza, o do mundo bizarro. Não sei seu nome mas dado sua constituição teutônica e o bigodinho anos 30, apelidei-o carinhosamente de “Kapo”. Vai a todas as minhas óperas para achar e contestar o que julga serem absurdos de qualquer modernidade. Não sei qual sua formação mas se dá ao direito de vir e agressivamente reclamar com quem faz o que ele não gosta. Num primeiro momento gastei meu tempo ouivindo-o, achei até engraçado. Depois nem tanto pois fiquei com preguiça dos boi-bumbá que ele via onde nunca apareceram. Adoro contar a história do meu primeiro encontro com “Kapo” no Municipal de São Paulo. Veio reclamar comigo que Kurwenal e Brangaene, personagens de Tristão e Isolda não podiam se beijar. Tinha visto minha montagem em Manaus, duas vezes, e na segunda safra revoltado. Segundo ele, eu “não era como aquele Gerald Thomas” (acho que intencionava um elogio ai) e não podia fazer isso; sua sentença era: “Wager não queria”. Adoraria ter essa certeza e essa linha-direta com entidades. Infelizmente, até hoje lamento ele não ter me passado o celular do compositor (ou a mesa branca onde Wagner baixa). Eu pedi.

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