Flores da história

Quem passeia pelas ruas do Rio e admira as arvores cobertas de flores rosadas, não imagina o quanto as Bougainvilleas e a ópera têm em comum. Tanto a flor deve seu nome ao navegador Louis Antoine de Bougainville, quanto a ópera no Rio de Janeiro a memória de sua primeira casa.   “Nós pudemos, numa […]

Quem passeia pelas ruas do Rio e admira as arvores cobertas de flores rosadas, não imagina o quanto as Bougainvilleas e a ópera têm em comum. Tanto a flor deve seu nome ao navegador Louis Antoine de Bougainville, quanto a ópera no Rio de Janeiro a memória de sua primeira casa.

 

“Nós pudemos, numa sala assaz bela, ver as obras-primas de Metastasio,

representadas por uma troupe de mulatos, e ouvir estes trechos divinos

dos grandes mestres da Itália, executados por uma má orquestra

que regia então um padre corcunda em trajes eclesiásticos”

Louis Antoine de Bougainville,

“Voyage autour du Monde, par Ia Frégate du Roy “La Boudeuse” et Ia Flute “L’Etoile”, en 1766-1769”

 

Aproveitando os ganchos das semanas passadas, se as mulheres tiveram um papel fundamental na construção do imaginário da ópera na cabeça dos poetas e intelectuais do século XIX, aos descendentes de africanos não coube papel menor na sua história. No seu nascimento, no primeiro ‘teatro’ do Rio, lá estavam, dando corpo e voz àquela sala de espetáculos descrita pelo navegador francês: era Casa da ópera do Padre Ventura.

Também conhecida como Ópera dos Vivos e dos Mortos, era fruto do trabalho e da imaginação de um certo Padre Boaventura Dias Lopes, Ventura de alcunha, nascido num distante 1710. Chega ao Rio com 19 anos, numa fragata que trazia a nova do casamento do futuro D. José I com a Infanta de Portugal, D. Mariana Vitória de Bourbon. A fama de ser o próprio Padre Ventura “mulato” é questionada e talvez tenha sido fruto do fato dele tocar o que se chamava então de “viola de mulato.” Seja qual for sua etnia, sua companhia de ópera era formada por mulatos, assim como nos anos seguintes , grande parte da vida musical “erudita” da côrte. Talvez tenha sido por causa dos festejos de núpcias reais que seguiram a sua chegada que o jovem Ventura tomou gosto pelo mundo dos espetáculos. Muitos anos depois, já sacerdote, ergueu sua Casa da ópera. Ficava nas cercanias do chamado Largo do Capim, a mesma área que depois seria conhecida como o ‘Rossio’ e onde, hoje, existe a atual Praça Tiradentes; perto dela está a Rua do Teatro que mesmo sem ter um teatro por lá, testemunha silenciosa sua memória. O edifício durou algumas décadas e embora não fosse luxuoso ou especialmente confortável era descrito como suficiente para as necessidade da população; isto é, para os padrões de um Rio de Janeiro anterior a chegada da família Real em 1808. Incendiou-se em uma noite do final do século XVIII enquanto se encenava a farsa musical “Encantos de Medéa” de Antonio José da Silva, o Judeu — mórbida coincidência, se pensarmos que este foi queimado vivo pela igreja católica em uma tarifa (nem tão) ‘santa’ inquisição.

Bougainville passou pelo Rio de Janeiro de 21 de Junho a 15 de Julho de 1767, e graças a sua narrativa temos a história de óperas italianas cantadas por mulatos. Em meio ao público não era impossível encontrar o Vice-Rei, Conde da Cunha, misturado não somente ao ricos da época como a toda sorte de público popular. Em “Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro”, relato daqueles tempos (mas muito posterior), publicado pelo IHGB, narra-se a “grande surpresa” que teve o navegador francês ao ver “um padre da corôa, de batina, corcunda e de côr parda o director do theatro e regente da orchestra, subindo de vez em quando ao palco, para, tocando violão, cantar modinhas e dansar o fado!” Eu, em pleno 2016, fico maravilhado é com a coragem, a pura aventura que deve ter sido ensinar e encenar ópera italiana no Rio de Janeiro daqueles tempos. Só a idéia de partituras manuscritas, vindas de navio e cruzando o Atlântico me deixa com a respiração suspensa e um arrepio na espinha. Já a história do Padre Ventura e sua Casa da Ópera, embora breve, é ainda hoje uma aventura arrepiante — de muito fôlego.

foto andre

Comentários
Deixe um comentário

Olá, ( log out )

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s