10 perguntas para Ziraldo
01 setembro 2011 | 1 comentáriopor Ernesto Neves e Louise Peres
O coro de crianças gritando seu nome do lado de fora da sala é a prova de que, com quase sessenta anos de carreira, Ziraldo continua conquistando o público infantil – mesmo aquele que só tem olhos para videogames, computadores e smartphones. Recém-chegado da China, o escritor e cartunista veio direto para os pavilhões do Riocentro, onde acontece a 15ª Bienal do Livro. Participante desde a primeira edição, em 1983, desta vez ele chega à festa literária em novas plataformas. Seus títulos O Menino Maluquinho, clássico dos anos 80, e O Menino da Terra, lançado em 2010, ganharam versão para iPad, além de aplicativos onde os fãs poderão receber o autógrafo do escritor. Sim, no tablet! Pouco antes de participar da abertura da festa e entregar à presidente Dilma Roussef o livro A História do Príncipe Feio e da Princesa Bonita, publicado na década de 50 pela Edições Melhoramentos, ele conversou com VEJA RIO. Confira.
Você tem um livro de cabeceira?
Ah, eu leio muito. Eu tenho quatro banheiros, dois no estúdio e dois em casa. Então, estou sempre lendo quatro livros ao mesmo tempo.
Quais são eles hoje?
Eu me diverti profundamente com Arte de Furtar. Um livro moderno, que pode ser aplicado aos dias de hoje. Mostra como se rouba! No poder, na política, as mil maneiras de você enganar e roubar o povo. Terminei agora o Rousseff, interessantíssimo, que conta a história da Dilma; e também um outro livro fundamental que deveria ser traduzido para o português, da Ana Pizarro, sobre a temporada da Gabriela Mistral (poetisa chilena, cônsul no Brasil nos anos 40) aqui, uma análise extraordinária da vida literária do Brasil na época. Uma visão de fora sobre a nossa produção que eu nunca vi!
Qual foi o livro que mais te marcou na infância?
O mágico, de Clemente Luz, que li aos sete anos. O melhor livro infantil da época, o primeiro original. O encantamento pelo Monteiro Lobato foi simultâneo à minha paixão pelos quadrinhos. Então eu era mais amigo do Batman, dos heróis. Mas quando O mágico caiu na minha mão, foi a primeira vez que chorei lendo um livro na minha vida. Pelejo para encontrar a família dele, desenhar e reeditar esse livro. Ele é comovente, conta a história de um homem que trabalha em um circo e queria ser mágico. E ele começa a fazer mágicas, de verdade. Li os Contos de Grimm, todos os clássicos da coleção Tesouros da Juventude… mas quando li o do Clemente Luz, tive certeza: isso deve ser literatura!
Você tem algum quadrinho preferido?
Quando fiz a Turma do Pererê, a primeira revista brasileira em quadrinhos assinada por um autor só, fui tentar descobrir a razão do sucesso da Luluzinha, analisar a estrutura dramatúrgica, o temperamento de cada personagem. Percebi que, quando o Bolinha queria reclamar com a Luluzinha, a história mostrava todo o caminho da casa dele até a dela, o personagem refletindo, pensando. Isso é sensacional. Essa foi a grande influência que o Pererê teve e, com certeza, uma das razões para o sucesso da revista.
O que você acha das novas plataformas de leitura surgidas com a tecnologia?
Você aceita as transformações do mundo sem perceber. Elas não te traumatizam! Eu estava no carro, o celular toca, eu atendo: “Daniela, tô indo praí, tá chovendo?” e ela responde “não sei, pai, tô na China!”. Lembro de quando, bem criança, eu me arrumei para ir ouvir a primeira transmissão de um rádio que chegou no arraial onde eu morava. Era um evento! Só fui conhecer gelo quando tinha 10 anos! Meu pai trouxe na mão e, tcharam, sumiu! Quando a gente conhece é uma coisa de doido, mas depois acostuma, sem perceber.
Como é autografar num iPad?
Pois é, você viu? Vou autografar! O que eu não posso fazer é me influenciar por isso. O que eu sei fazer é escrever história e desenhar. Quem tem que colocar o que eu faço nessas novas plataformas são “os meninos”. Vocês (jovens) são uma outra raça! (risos)
Pois é, Ziraldo, e essa criançada aí fora? Eles estão em contato com esse mundo tecnológico desde muito cedo. Têm outra formação, outros estímulos. Por que as suas histórias continuam fazendo sucesso entre elas?
Eu adoro isso aí, sabia? Passou seis horas dando autógrafo e fico até triste quando a fila acaba. Eu não faço nada para agradar, nem faço nada que está na moda. Não faço livro ecológico, nada para seguir a corrente. Eu nado contra a maré, porque tudo que eu gostei na vida é assim (interrompido pelos gritos das crianças, ele avisa: “já vou, já vou!”). Tá vendo? Minha vida é ser popstar.
Você vê alguma diferença dessas crianças para aquelas que eram seu público há 20 anos atrás?
O ser humano não mudou não. O homem continua sofrendo, amando, traindo pelas mesmas razões. A estrutura é a mesma, o que muda são as circunstâncias. Esses meninos reis do videogame eram antes os que faziam pipa, pegavam passarinho, faziam telefone de caixinha de fósforo, eram feras da bolinha de gude. Eles já existiam!
Essas novas tecnologias não podem afastar essas crianças dos livros?
A nossa batalha é essa. A gente não pode deixar essas crianças chegarem ao iPod, ao iPad, sem passar pelo livro. É a leitura que leva à reflexão, à possibilidade da escolha. Não existe civilização sem leitura, sem a palavra escrita, sem a palavra gravada. Tem um monte de idiota chegando às universidades brasileiras sem saber ler nem interpretar um texto. Então a educação brasileira não tem solução! Como educar um povo que não sabe ler? Fui em uma escola moderna em que as crianças passaram uma hora e meia dançando, pulando, tocando tambor. Não se falou em livro uma única vez! É o livro que forma o cidadão. Bater tambor a gente aprende sozinho!
Um dica para quem quer aprender a desenhar?
Ler! O desenho é uma arte mental, é preciso ler para imaginar, criar, colocar no papel. Eu sou escoteiro: o problema da educação brasileira é a leitura. Tem que dar ao aluno a ferramenta para que ele se eduque, se aprimore.
ZIRALDO NA BIENAL
O cartunista estará no Riocentro em outros quatro dias, no estande da Melhoramentos, no Pavilhão Azul. Confira os horários
3 de setembro, sábado, às 16h
Ziraldo autografa o lançamento O Capetinha do Espaço ou O Menino de Mercúrio
4 de setembro, domingo, às 19h
Com Mauricio de Sousa, autografa o primeiro livro da dupla, O Maior Anão do Mundo, com textos de Ziraldo e ilustrações de Mauricio.
7 de setembro, quarta, às 15h
Ziraldo autografa uma edição especial de Uma Professora Muito Maluquinha, ao lado de Paola Oliveira, atriz do filme que estreia em outubro.
10 de setembro, sábado, às 16h
Novamente, Ziraldo e Mauricio de Sousa autografam O Maior Anão do Mundo
11 de setembro, sábado, às 16h
Ziraldo autografa novamente O Capetinha do Espaço ou O Menino de Mercúrio

