10 perguntas para Edney Silvestre
11 setembro 2011 | deixe seu comentário (0)por Louise Peres

Um ano após ter lançado o premiado romance Se eu Fechar os Olhos Agora, Edney Silvestre retorna à Bienal em dupla função: jornalista e também autor, embora considere o título apenas uma nomenclatura a mais. “Sou escritor desde sempre”, diz ele. Dando seguimento à carreira iniciada na mídia impressa, ele migrou para a TV e iniciou um longo período como correspondente internacional, cobrindo Oriente Médio, América Latina e, por último, Nova York, onde acompanhou de perto a perplexidade dos americanos diante dos atentados de 11 de setembro, que completam 10 anos no dia de hoje. Na Bienal do Livro, ele falou à VEJA RIO sobre livros, a experiência como jornalista e o carinho que tem pelo Rio, sua “cidade adotada”.
Jornalista e agora também escritor. Alguma coisa mudou de um ano para cá?
Sabe que as pessoas têm me reconhecido mais como autor? Comecei a sentir isso desde o ano passado, no lançamento, pessoas que falam comigo mais por causa do livro do que pelo trabalho de jornalista. Depois que o livro ganhou o Prêmio São Paulo, em 2010, isso ficou ainda mais forte. E com o (prêmio) Jabuti e aquela celeuma toda, essa visibilidade ganhou uma nova proporção. Percebo isso aqui na Bienal, e senti a mesma coisa na Flip também.
E como é para você estar na Bienal como jornalista e agora também como escritor?
Desde quando retornei ao Brasil, em 2002, eu cubro a Bienal do Livro. Nesta semana, já estive aqui como jornalista, e agora cá estou eu como autor. É engraçado! Quer ver uma diferença? Vim de carrinho para cá, em vez de ficar andando de um lado para o outro. Desde a entrada, há todos aqueles privilégios de convidado né, né? Mas já amanhã estou de volta ao mundo real, apenas como jornalista. (risos)
Você tem preferência por uma das duas funções?
Eu gosto muito de ser jornalista, é algo que me ancora muito. Sempre escrevi, fui jornalista quase a minha vida inteira. Um livro publicado permite apenas que você ganhe um título novo, e é visto de uma outra maneira. Foi como quando eu passei de imprensa escrita para televisão, as pessoas também começaram a me olhar diferente.
Pelo fato de você estar na TV?
Sim! Até na minha família, alguns tios meus passaram a enxergar meu trabalho de maneira diferente porque eu estava na televisão. E olha que eu comecei na TV fora do Brasil, então não percebi tanto antes de voltar para cá.
Você tem um livro de cabeceira?
Ah, tenho vários porque leio de tudo. Há um pelo qual tenho muito afeto. Foi o primeiro livro que me mostrou que ser diferente é comum: Tonio Kroeger, do Thomas Mann, que li quando tinha 13 anos. Eu nem sabia quem era o Thomas Mann! Como pegava os livros na biblioteca de Valença, onde nasci, ninguém me dizia que aquilo era alta literatura.
Neste último ano, depois do lançamento do seu livro, você leu coisas boas? O que indicaria?
Sim, muitas! Uma delas foi Método Prático da Guerrilha, do Marcelo Ferroni. E também li, muito comovido, o mais recente do Luiz Ruffato, cujo título é Domingos Sem Deus.
Na sua opinião, que livro faz um bom retrato do Rio de Janeiro?
Tem um interessante que não é sobre o Rio de hoje, mas te dá uma compreensão do que a cidade se tornaria no futuro. Chama-se Acidente em Matacavalos, do Mateus Kacowicz. Começa em 1922, e trata da corrupção que envolve política e imprensa naquela época e, é claro, teve impacto na nossa vida hoje.
Um livro obrigatório para um jovem jornalista?
Tem um maravilhoso da Fundação Getúlio Vargas, que é dificílimo de encontrar, e traz entrevistas com as pessoas que fizeram a renovação da imprensa no Brasil: Alberto Dines, Evandro Carlos de Andrade… um livro interessantíssimo.
O Rio te inspira a escrever?
Sim. Aqui é minha casa, e eu gosto de estar em casa. O Rio é fabuloso! Tenho duas cidades adotadas: o Rio e Nova York. Duas cidades incríveis, inspiradoras.
Justamente, Nova York: neste domingo completa-se uma década após os atentados de 11 de setembro, quando você era correspondente lá e foi o primeiro repórter de TV brasileiro a chegar ao World Trade Center naquele dia. Durante o trabalho naquele dia, você se deu conta do que presenciava?
Eu estava lá de jornalista, tinha uma tarefa a cumprir. Só realizei e entendi a extensão do que acontecia na noite de 11 de setembro. Estava voltando para casa e morava perto dali. Quando saí do metrô e vi o lugar onde ficavam as torres ocupado por fumaça. Tudo virou pó. À esquerda, em frente ao Hospital Saint Vincent, havia dezenas de macas esperando feridos. E não havia feridos. Quando as torres desabaram, todos morreram, não havia quem socorrer.
