Os guardiões da Rua Filgueiras Lima

29 agosto 2012 | 3 comentários

por Pedro Paulo Bastos

Irmandade de Santo Antônio, construída em 1938, no Riachuelo

Saltei de um veículo da linha 455 na Rua Vinte e Quatro de Maio e entrei à esquerda na Rua Filgueiras Lima. Ali se chama Riachuelo, simpático bairro margeado pela linha férrea. Há tempos namorava as ruas da região através dos mapas, ansioso por uma oportunidade de chegar no local e fazer minhas próprias fotografias. Não é tão comum de se deparar em sites e livros com fotos desse início – ou fim, dependendo da perspectiva – do subúrbio do Rio. Além disso, até pouco tempo atrás, a situação andava complicada por lá. Quem não se lembra do ataque ao helicóptero da Polícia Militar em 2009, em um daqueles terríveis episódios violentos que a cidade vivenciava semanalmente? O episódio ocorreu nas proximidades. Passado.

Antes de sacar a máquina da mochila, houve, primeiramente, um reconhecimento do território. Faço isso em todas as ruas que visito, seja na zona norte ou na zona sul. Trabalho por conta própria, não tenho seguro de equipamentos, sou eu por mim mesmo. Acredito sim que o Rio esteja mais seguro, mas… todo cuidado continua sendo pouco. A Rua Filgueiras Lima tem toda uma atmosfera familiar, que inspira confiança, muito embora as calçadas estivessem vazias. Todos recolhidos. Ventos vindo de leste e oeste que, quando se chocavam, faziam girar as folhas e os pequenos dejetos do chão. O céu levemente negro, como que anunciando chuva para mais tarde. E lá no topo da rua, que é incrustada na montanha de diversas tonalidades de verde, uma igreja recém-pintada em amarelo-ovo, com detalhes cor-de-abóbora envelhecida. Num sentido literário, diante do que aconteceu posteriormente, ela seria o castelo mal assombrado. O Morro dos Macacos, local de lobisomens, e a Filgueiras Lima resplandecendo como o bosque meio pantanoso e lúgubre.

Em muitas das árvores da rua, que crescem de dentro das residências, brotam flores e mais flores de cor magenta, bem forte. Na subida vão surgindo travessas, sem qualquer tipo de sinalização. Os postes com placas de nomes de ruas parecem se concentrar apenas em determinados cruzamentos de alguns poucos bairros. O asfalto exibe resquícios de tintas coloridas, que serviram para ilustrar algum boneco ou mascote de Copas do Mundo passadas. As medidas de segurança dos imóveis variam entre grades, muros ou arames farpados moldados em círculos seguidos. Ao mesmo tempo que me aproximo da paróquia Irmandade de Santo Antônio, avistá-la fica cada vez mais complicado, em meio aos cabos de energia e as folhas das árvores.

Era ali onde eu queria chegar. Sentia-me tão atraído pelo templo – tão poético, no final de uma rua sem saída, colado na mata – que fiquei a contemplar o panorama, já a uns quatro metros do seu portãozinho fechado. A certeza de que eu iria fotografar a Rua Filgueiras Lima de ponta a ponta era dada como certa. Comecei a me preparar, então, para tirar a câmera da mochila. Já imaginava como iria enquadrar a paróquia em diferentes ângulos. Dei-me conta que ela era realmente bem no alto, sustentada por uma escadaria de cimento que, por um certo instante, me pareceu muito longa e estreita. Não deu nem tempo de remover a proteção da lente quando os latidos ecoaram. Uns seis cães de porte médio, vira-latas, surgiram de trás da igreja, no corre-corre, saltando os degraus em direção à rua. Ô-ou…

Aparentemente o portãozinho os deteria. Sim, certamente os deteve, apesar da fúria diante daquele intruso, que só queria dar uns cliques no recanto que, ao fim e ao cabo, mostrou-se ser de propriedade canina. Porém, os cãezinhos tinham outros amiguinhos, que surgiram das residências vizinhas, ao meu oeste. Um deles conseguiu sair dos seus limites e veio gritar comigo, a poucos centímetros de mim, como se me enfrentasse: “Qual foi, que que tu tá fazendo aqui, mané?? Rala fora!!”. Ô-ou mais uma vez. Os latidos ficaram cada vez mais intensos e fui saindo de fininho, usando a mochila como proteção às pernas parcialmente cobertas pela bermuda. Um desespero foi contaminando a minha alma. Da mesma forma que os bebês me adoram, os cães me detestam, eu sei disso. Ao ver que outros saíram de suas tocas e latiam igualmente nervosos ao primeiríssimo, e ao perceber que este, também, já não se movia enquanto eu me afastava, apertei os passos e fui embora, em direção à felicidade – o ponto de ônibus -, a duas quadras dali.

A chance da Rua Filgueiras Lima entrar para o catálogo de fotos do As Ruas do Rio foi para o beleléu. Ao bairro do Riachuelo eu volto, mas não a essa rua. Não com todos esses guardiões…

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Rua Visconde de Taunay & Rua José Veríssimo

23 maio 2012 | 3 comentários

Enquanto a Rua Dias da Cruz, no Méier, sofre com o caos urbano, suas transversais estão virando recanto de calmaria e de cobiça imobiliária


A simpática Rua Visconde de Taunay, no Méier, é usada, volta e meia, pelos jovens da região que andam de skate, bicicleta e patins.

por Pedro Paulo Bastos

Era início de um sábado e o tráfego pesado tão característico dos dias de semana dá espaço a uma calmaria quase utópica às ruas. Com a pista livre, um grupo de amigos montados em seus respectivos skates praticam manobras no asfalto liso do pequeno aclive existente na pequena e simpática Rua Visconde de Taunay. Eles vêm cautelosos ao acessar a Rua Carolina Santos, outra via suavemente inclinada do bairro do Méier, na zona norte. Provavelmente darão a volta na quadra, aproveitando a liberdade de serem, de fato, os donos da rua. E assim começa a minha expedição por ali.

Tal qual esses garotos, comecei a desenvolver minhas habilidades como ciclista sem rodinhas por essas bucólicas ruas do Méier, onde passei a infância. A Rua Afonso Arinos, colada à Visconde de Taunay, era a mais emocionante de todas. Naquela época o seu ladeirão era sinônimo de adrenalina para descê-la com meu par de patins roller. Ali aprendi a frear, à minha maneira, e depois, com aquele pedaço de borracha que vinha na parte de trás da bota. Aprendi a fazer curvas também, sem mencionar os estabacos, principalmente se a descida da Afonso Arinos fosse engatada com a ladeira subsequente da Rua José Veríssimo em direção à Rua Dias da Cruz, a highway do Méier. Bons tempos!


Em primeiro momento, a esquina com a Rua Carolina Santos; ao lado, os jardins abundantes, muitos deles floridos.


No lado das casas, os canteiros são menores e mais humildes
. Veja que o anúncio da presença de raticidas é bem explícito. À direita, edifício residencial na esquina com a Rua Afonso Arinos.

Uma das grandes características dessa região do Méier é o seu caráter renovador. Já mesmo a partir da década de 90 os espaços vazios e poucos densos do bairro foram dando espaço a confortáveis condomínios nos moldes do da Barra, desses com varandões, modernosos. Muitas das casinhas típicas de subúrbio, já mal preservadas pela idade e pela falta de manutenção, são alvo fácil de construtoras que levantam ali moradias voltadas para a classe média e classe média alta da zona norte. Se, por um lado, isso também contribui negativamente para o aumento do trânsito infernal nos acessos e saídas do Méier, por outro, há o lado positivo. Consiste em estar, continuamente, oferecendo ruas bonitas e ajardinadas no subúrbio, parte da cidade comumente conhecida pelos altos índices de urbanização e pouca arborização.

A Rua Visconde de Taunay é um desses exemplos. Embora seus prédios já tenham mais de vinte anos, ela é verticalizada de um lado e totalmente horizontalizada do outro. As casas são simples diante de edifícios tão imponentes. Os jardins ficam do lado deles, enquanto pequenos canteiros em círculos improvisam, em tinta negra, o aviso de que há raticida por ali. Mesmo assim, acredito que os grandes vilões de lá são os donos de cachorros, que não catam a caquinha dos seus mascotes. Aliás, todas as ruas da cidade são contempladas, não há exceção. Parafraseando uma placa jocosa que puseram na Rua Goethe, em Botafogo (é mais ou menos assim): “Recolha as fezes do seu cão. O animal é ele, não você”.

Já a Rua José Veríssimo, à esquerda da Visconde de Taunay e continuação da Rua Afonso Arinos, é um misto de prédios antigos com novos e casas amplas, muitas delas revertidas para o uso comercial. Até pouco tempo era toda de paralelepípedo, o que a tornava uma rua de certa forma barulhenta pelo atrito dos pneus com as pedras. Os trechos da calçada são descontínuos, refletindo muito bem a tal da renovação paisagística que comentei. Em frente às casas mais antigas, há fragmentos de pedras e cimento por todos os lados. Já quando se trata dos condomínios e dos edifícios mais recentes, a situação é diferente.


A esquina da Rua José Veríssimo com a Rua Visconde de Taunay: rua definitivamente ajardinada.


Na Rua José Veríssimo, a transformação das casas baixinhas por prédios modernos e sofisticados tem sido gradual.


O panorama da Rua José Veríssimo, ainda nas proximidades das ruas Visconde de Taunay e Afonso Arinos.


O Centro de Dança Rio é referência na região e na cidade como pólo de formação de dançarinos. Fica ao lado de uma lanchonete e em frente a uma banca de jornal, que permanece no mesmo local há anos.

Geralmente o que se vê num emaranhado de fios de telefone ou de cabos de energia, desses dos postes, são ninhos de passarinhos, não é mesmo? Pois bem; na José Veríssimo existe algo de bizarro por lá. Quase em frente ao Centro de Dança Rio, escola de renome na formação de artistas e dançarinos, há um par de mocassim pendurado entre os fios. A primeira impressão é a de que alguém os deixou cair de seu apartamento. De acordo com uma amiga, que mora pelas redondezas e que, por coincidência, me encontrou na rua esse dia, resolvendo me acompanhar na jornada para o blog, disse que essa é uma cena para lá de comum e que fazem de propósito. A pergunta que fica é… por quê? Juro que dei risadas, tamanha a graça, apesar de, na verdade, não ter graça nenhuma.

Lá, o pé sujo Bar Passos de Silgueiros está de portas abertas. O período matutino, momento em que se preza a boa alimentação, não parece ser obstáculo para os clientes, que já detonam copos consecutivos de cerveja. Um brinde à vida, ao fim de semana! As gargalhadas ainda são tímidas, embora aumentem a medida que os ponteiros do relógio avançam. Falam de futebol, assunto que não pode faltar em nenhuma mesa de bar. Contudo, a calmaria lá da Rua Visconde de Taunay vai ficando para trás, e a conversa se mistura ao ruído motorizado da Rua Dias da Cruz, cada vez mais loteada de painéis publicitários, uns mais coloridos que os outros. A sorte é que o programa Rio Limpo, esse que pretende acabar com a poluição visual do Rio, irá se expandir para outras zonas.


Um par de mocassim preso nos fios do poste chama a atenção, enquanto o Bar Passos de Silgueiros já conta com clientes em plena manhã.


A esquina da Rua José Veríssimo com a Rua Dias da Cruz, principal via do Méier. Ao lado, a imagem do autor deste blog (quem lhes escreve agora!) se reflete num dos espelhos de um laboratório médico, captando outros pedestres dessa esquina também.

O caos é bem refletido pelos espelhos de um laboratório médico da rua, bem em frente à José Veríssimo. Muita gente, muitos carros, muitos ônibus, e uma Dias da Cruz bem estreitinha. No próximo mês, será reinaugurado ali perto o antigo Imperator, casa de espetáculos de sucesso até a década de 90, agora com o nome de Centro Cultural João Nogueira. Além dos shows, vai contar ainda com salas de cinema. Um chamariz, um agregador de valor ao bairro. O Méier está se desenvolvendo e se sofisticando, embora corra o risco de sofrer como a Freguesia, em Jacarepaguá – ótima em qualidade de vida, péssima em locomoção.

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As Ruas do Rio é parceiro da edição carioca do Wallpeople 2012 (wallpeople.org). Você que curte arte e fotografia, seja amador ou profissional, participe do Wallpeople levando suas criações. Vamos criar um grande mural de fotos, colagens, pinturas, desenhos, etc, relacionados ao tema “Express Yourself (Autoexpressão)”. A ideia é criar uma exposição a céu aberto, intervindo no espaço urbano e promovendo um encontro entre pessoas. Mais de 32 cidades ao redor do mundo estarão participando simultaneamente! 

Dia 9 de junho de 2012, das 15h30 às 17h30, na esquina da Avenida Heitor Beltrão com a Rua Alzira Brandão, na Tijuca. Bem ao lado do Teatro Ziembinski, quase em frente à estação São Francisco Xavier do metrô.

Mais informações sobre o evento no Rio de Janeiro aqui. Sobre informações do evento desde sua criação, com entrevista aos criadores, os publicitários espanhóis Pablo Quijano e David Marcos, de Barcelona, assista ao vídeo exclusivo aqui neste link.

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Parque Madureira

01 maio 2012 | 8 comentários

Previsto para inaugurar em junho, o Parque Madureira ainda está um pouco no “esqueleto”. E mais: uma volta pelo comércio agitado do bairro.

por Pedro Paulo Bastos

O plano de trazer Madureira ao blog pela primeira vez foi por água à baixo, literalmente, ao nos depararmos, eu e meu primo Raphael, com o chuvaréu que caiu repentinamente sobre Madureira ontem, dia 30. A ideia era fotografar o entorno do que será o novo Parque Madureira, às margens da Rua Conselheiro Galvão, alongando-se pelo bairro de Turiaçú até chegar ao viaduto da Avenida dos Italianos, já na região de Rocha Miranda. O parque tem previsão de inauguração para daqui a um mês, segundo reportagem do jornal O Globo da semana passada, o que me parece um pouco pretensioso. Ainda há muito o que fazer. Quem passa por lá consegue ver apenas um esboço do que será o parque. No entanto, há um desejo de que o Parque Madureira esteja pronto no tempo certo ao evento Rio+20, que ocorrerá por aqui também no mês de junho.

Prometida como a terceira maior área verde urbana do município, atrás apenas da  Floresta da Tijuca  Quinta da Boa Vista e do Aterro do Flamengo, a funcionalidade proposta para o Parque Madureira entusiasma: terá centro de visitantes com iluminação gerada por energia solar, sistema de irrigação que evitará desperdícios, reutilização de água da chuva e lâmpadas do estilo LED, que são mais econômicas. Sem mencionar os impactos socioespaciais em Madureira, que é uma verdadeira selva de concreto. No verão é bem provável que a nova área de lazer da cidade dê a sua contribuição à redução temperatura média local.

Para ler mais sobre o parque, leia a publicação do As Ruas do Rio, de 9/02/12: Madureira menos cinza e mais ameno.


A placa que indica uma das entradas do Parque Madureira, na Rua Soares Caldeira: a construção de um parque sustentável no Rio, que pretende cumprir os requisitos para conquistar o selo Aqua (Alta Qualidade Ambiental).

Enquanto isso…

A volta que demos pelas ruas mais comerciais do bairro provou que o sucesso da novela “Avenida Brasil”, da TV Globo, não é à toa. O comércio do fictício bairro do Divino foi belamente inspirado nos arredores da Avenida Ministro Edgard Romero e Rua Carvalho de Souza, onde o caos de pedestres reina em todo o período comercial. É como se fosse um coração pulsando de pessoas, sons, mercadorias, outdoors e buzinas. Na esquina da Rua Carolina Machado com a Edgard Romero, a música ambiente de uma loja (não tão ambiente assim, afinal, estava mais alto do que deveria) se misturava ao do vizinho. Numa se escutava Exaltasamba. Na outra, o eterno clássico oitentista de Cyndi Lauper, The Goonies ’R’ Good Enough, tema do filme Os Goonies (1985). O espírito consumista era o mesmo que o de época de Natal, atraído principalmente pelos locutores, como o da novela, que ficam na calçada atiçando a clientela.

Madureira é um bairro querido para mim pois é lá, e somente lá, que eu consigo comprar pacotes gigantes de marshmallow por preços camaradas. Incrível; a Rua Conselheiro Galvão é dotada de verdadeiras lojas-galpões especializadas em doces, não só os conhecidamente caseiros, como pé de moleque, doce de abóbora, bananadas, bem como os industrializados – chicletes, aquelas balas de café, balas de goma, e o marshmallow, é claro! Vale a pena. Uma famosa marca de balas, que chamamos de drops, vendida a R$ 1,00 na esquina da sua casa, ou por até R$ 3,00 nos cinemas de shoppings, vinha em uma pequena caixa fechada com pelo menos 18 unidades pela barganha de R$ 7,00. A gente paga caro e nem desconfia… Sem mais propagandas, galera. E pela prevenção das cáries!

A intenção era trazer o cotidiano todo de Madureira para cá, incluindo o parque. Infelizmente a tromba d’água não permitiu. Fica para a próxima. Mês que vem, quem sabe, quando o Parque Madureira seja inaugurado.


Essa é a Praça Paulo da Portela, na Estrada do Portela, na divisa entre Madureira, Oswaldo Cruz e Turiaçú: outro ponto simbólico da região e do samba.

 

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Madureira menos cinza e mais ameno

09 fevereiro 2012 | 4 comentários

Um dos bairros mais simbólicos da zona norte está passando por uma profunda remodelação


Acima, a simulação de como ficará o Parque de Madureira: será o 3º maior parque da cidade, perdendo apenas para o Parque do Flamengo e a Quinta da Boa Vista.

Se nesse verão uma simples caminhada por bairros frescos, à beira da orla, já está insuportavelmente calorenta, experimente então embrenhar-se por regiões mais continentais ao norte carioca. O primeiro local que vem à cabeça como “lugar quente” é Bangu, na zona oeste, já cientificamente (e popularmente) comprovado como, de fato, quente. Porém, outro bairro mais ou menos nas proximidades também conquista o troféu de altas temperaturas com pouca vegetação. Madureira, berço do samba, área de comércio intenso, tem uma das taxas de urbanização mais altas, a de 99,93%, de acordo com matéria do Globo Online de 2010. O aspecto cinza de lá também contribui para que a sensação térmica não seja a das mais refrescantes. Todavia, temos mudanças à vista.

Está previsto ainda para 2012 – se o cronograma das obras não atrasar – a inauguração do Parque de Madureira. Vai ficar num terreno de 113 mil metros quadrados ao longo da Rua Conselheiro Galvão, por onde passa uma das linhas ferroviárias que cruza o subúrbio. Esse mesmo espaço era ocupado até então por uma pequena favela e por torres que sustentavam algumas linhas de transmissão da Light. Para maiores detalhamentos geográficos, o Parque de Madureira vai se espalhar, também, desde as proximidades do famoso Viaduto Negrão de Lima até a Rua Bernardino Andrade, já nos arredores do viaduto da Avenida dos Italianos. A vizinhança com as quadras da Portela e do Império Serrano também promete influenciar na estrutura do parque.


O detalhamento do projeto, que irá mudar consideravelmente a região de Madureira: a favela removida seria reassentada em área apropriada, junto ao parque.

Quiosques, quadras poliesportivas, deques de madeira, lagos, chafarizes, pista de skate, biblioteca, equipamentos de musculação, calçada da fama, heliporto… Eu poderia continuar enumerando todo o mobiliário que vai fazer parte do parque, mas ficaria um pouco cansativo. Acho que as imagens e o vídeo no Youtube já são autoexplicativas: é um projeto audacioso que remodelará profundamente a paisagem de Madureira, estagnada há anos, entregue à degradação urbana. Sem dúvida, um presente para os moradores, que nem sempre são agraciados  por boas conquistas perante a Prefeitura. Agora o grande barato mesmo ficará por conta da vegetação implantada, que poderá diminuir em até 5 graus centígrados a temperatura da região. Serão 21 500 metros quadrados de grama, 432 árvores e 194 palmeiras.

Em tempo: do outro lado do bairro, as obras da Transcarioca já estão modificando a paisagem da Rua Domingos Lopes. Grande parte dos imóveis foi desapropriada para a construção de um dos mergulhões do corredor viário sob o Largo do Campinho, sem mencionar a duplicação do Viaduto Negrão de Lima. De negativo, por enquanto, só o trânsito, que ficou caótico por motivos compreensíveis, embora esteja sendo muito mal administrado pelos controladores de tráfego.


Vista aérea do futuro parque, junto à linha ferroviária. A foto é de Luis Alvarenga, do jornal Extra.

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Um passeio pela Vila da Penha

01 fevereiro 2012 | 3 comentários

Acompanhe a expedição pela “particular” Avenida Meriti e as ruas Professor Paula Aquiles e Paula Barros, na Vila da Penha  


O entorno das ruas fotografadas, que ficam bem próximos à Praça Aquidauana e o Carioca Shopping.

por Pedro Paulo Bastos

Para os maus conhecedores da geografia carioca, os bairros da Penha, Penha Circular e Vila da Penha poderiam ter o mesmo significado e localização. Afinal, “é tudo Penha”. Certo, agora vá falar isso para um morador da Vila da Penha, e veja como ele vai reagir. Já não é mais nem a questão de discordar da afirmação, e sim de agradar ou não ao ego do cara. Isso porque, hoje, a Vila da Penha é um bairro cheio de pompa dentro do subúrbio, um lugar que respira qualidade de vida dentro de uma região da cidade que fora bastante maltratada ao longo dos anos. Não possui a mesma tradição que a Penha, nem o ar meio apagadinho da Penha Circular, mas tem vida própria, um shopping próprio em suas imediações, uma quantidade razoável de lançamentos imobiliários e uma galera bastante orgulhosa de morar onde mora. Um verdadeiro oásis no subúrbio da Leopoldina.

Prédio na Rua Paula Barros,
visto através da Prof. Paula Aquiles

Minha relação com a Vila da Penha é praticamente nula, embora tenha passado muito por lá de carro com o meu pai em função do seu emprego, que o faz rodar toda a cidade. Desde cedo aprendi a diferenciar as paisagens dentro da zona norte pelos bairros. Por vezes, elas parecem homogêneas, muito constantes, e do nada aparece um ou outro lugar mais arrumadinho que chame a atenção. Vicente de Carvalho, por exemplo, tem um aspecto mais favelizado. Desloque-se para os arredores da Praça Aquidauana, bem próximo ao metrô, que a coisa começa a mudar de figura. Por lá é a divisa com a Vila da Penha, com suas transversais ao longo da Avenida Meriti. Tem outra rotina, outro cenário, bem menos depredado que o primeiro. Sempre reconheci isso pela janela do carro, e venho acompanhado desde então, pelos jornais e pela internet, a evolução da qualidade de vida por essas bandas.

A rua mais famosa de lá, sem dúvidas, é Avenida Oliveira Belo, que tem quase a mesma função que o calçadão de Copacabana nos dias de domingo.  A avenida fica fechada e vira espaço para lazer e prática esportiva. Essa, aliás, é uma das minhas memórias (automotivas) pela Vila da Penha. No entanto, para o meu registro fotográfico, eu fui à Rua Professor Paula Aquiles em busca de uma paisagem mais típica e residencial. Comecei a caminhada a partir do seu início, na esquina com a Rua Engenheiro Lafayete Stockler, que tem um paredão cinza cheio de propagandas grafitadas no estilo “Vovó-de-Não-Sei-das-Quantas-traz-seu-amor-em-3-dias”.  É feio, mas um cenário bastante recorrente nos muros do Rio.


O trecho inicial da Rua Professor Paula Aquiles: residências espaçosas, jardins e o Clube Beneficente dos Sargentos da Marinha, em letreiro azul. 


No cruzamento com a Rua Marco Pólo, o típico comércio regional, formado pelo Bar do Kabeça e um açougue.

Exatamente nessa esquina, já se depara em meio a telhados baixos o símbolo dos tempos modernos: um edifício novato, de varandas, voltado para a classe média. Nessa parte da zona norte, a verticalização ainda é tímida, fazendo com que tais edifícios residenciais se sobressaiam por destoarem do padrão. Além disso, acostumado a ver muitas casas pichadas e mal conservadas pelo subúrbio, fiquei surpreendido com a qualidade das residências ao longo da Rua Professor Paula Aquiles nesse primeiro trecho.  São casas grandes e espaçosas, a grande maioria com jardins e muro baixinho. Umas mais modernistas, outras mais tradicionais, com a imagem do santo protetor no topo da fachada. Até mesmo pela calçada há a presença de seguidos canteirinhos com árvores pequenas, que ornamentam a rua de forma simpática. Os poucos edifícios que têm por ali são mais antigos, desses sem elevador, além do Clube Beneficente dos Sargentos da Marinha, que parece agitar a calmaria da rua em dias de eventos.

O cruzamento com a Rua Marco Pólo tem um lado comercial forte, de apelo mais regional. Sob um pequeno prédio velho, cuja fachada mal cuidada acentua ainda mais os anos vividos, funciona um açougue cheio de cartazes informando o preço da margarina e das coxas de frango. As amendoeiras na parte frontal do açougue crescem timidamente com suas raízes pelas calçadas, onde também ficam bicicletas -soltas ou presas- enquanto os fregueses vão às compras. Na calçada ao lado, o Bar do Kabeça anuncia, num painel portátil de lona escrito à giz, os pratos do dia: peixe com legumes ou carne assada com espaguete, por simbólicos R$ 8. O cheiro é bom, mas as mesas ainda estavam vazias. Uma enorme casa amarela faz jus à quantidade de placas ao longo da rua indicando sua localização. Ali funciona a fábrica e o show-room da loja Floresdama, que confecciona flores plásticas, réplicas aquáticas, produtos para pássaros, flaconetes para perfumes e flores em tecido. Dei uma olhada por dentro e realmente o ambiente é espaçoso e convidativo. Fica a dica!


O galpão onde funciona a Floresdama, especialista em flores plásticas, e uma das casas charmosas na vila particular da Avenida Meriti .


O panorama da vila particular situada à Avenida Meriti, que interliga as ruas Professor Paula Aquiles e Paula Barros. À direita, as barras de ferro que sinalizam, de forma improvisada, o caráter particular da rua.

 

O fim da Rua Professor Paula Aquiles é muito mal sinalizado. Aliás, não vi a presença de nenhuma placa-pirulito nos arredores; você tem que caçar as placas de parede para situar-se. Nesse caso, a má sinalização por ali é um pecado pois o que parece ser o trecho final da Professor Paula Aquiles, na esquina com a Avenida Meriti, na verdade, trata-se de uma vila particular. O desenho do mapa pode te fazer entender – o conjunto de ruas está grafado em cinza. A continuação da Rua Professor Paula Aquiles seguiria até a Avenida Meriti, mas justamente esse trecho, inclusive a transversal que finda na Rua Paula Barros, faz parte de um terreno particular, que tem como endereço a Avenida Meriti! Foi muito difícil de entender o porquê disso, pois a rua é aberta ao público, e geralmente vilas são protegidas por portões. De um lado, sim, vê-se um portão, e do outro, nenhum. 

No entanto, no encontro com a Rua Paula Barros, o caráter de “vila particular” é comprovado pela existência de barras de ferro que impedem a passagem de veículos. Enfim, uma dinâmica meio complicada de se entender, mas merecedora de respeito. Por ser vila particular, as casas são ainda melhores e muito bem cuidadas. Muitas delas, já pela fachada, se declaram espaçosas; outras foram construídas em terrenos mais estreitos, o que lhes confere um ar de mais aconchego. Não posso esquecer de elogiar a limpeza dessa rua – acho que o único fator negativo dali seriam os matinhos já razoavelmente altos pelo meio-fio, o que não é tão negativo assim para falar a verdade.

Estiquei meu roteiro pela Rua Paula Barros, essa sim uma rua mais verticalizada, e pela aparência, a transformação é de data recente. Um imponente prédio vermelho margeado por pequenas palmeirinhas bem encaixadas em quadrados verdes abre um clarão (ou um vermelhidão)  à via.  Os prédios se repetem, com a diferença de que a ausência de tráfego exporta todo o som dos apartamentos e casas para a rua. Em uma varanda, escutava-se uma animada conversa telefônica de uma senhora. Na outra, mais adiante, um sambinha em volume considerável ao realizar das tarefas domésticas. Tudo muito saudável. Ciente de que meu passeio já estava concluído, retornei à Avenida Meriti, onde fica o Carioca Shopping, por sinal, e lá, outros sons me detiveram: o das kombis, com o anúncio estridente dos seus itinerários. Isso sim é prejudicial aos ouvidos…

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