Rua Paula Frassinetti e Praça Doutor Del Vecchio, Rio Comprido

10 abril 2013 | 4 comentários

Na rota para o Sumaré e para as Paineiras, um recanto do Rio Comprido que ainda resguarda um pouco dos tempos áureos do bairro, gradualmente degradado a partir da abertura do Túnel Rebouças


Reocupação de vias. A Praça Doutor Del Vecchio foi reincentivada como rota de acesso ao Sumaré, Santa Teresa e Paineiras, após a ocupação da polícia nos morros do Rio Comprido.

por Pedro Paulo Bastos

Quem costuma passar pela Rua do Bispo já percebeu que a via recebeu novas sinalizações há pouco tempo, indicando nome de lugares até então pouco imaginados de serem acessados pelo Rio Comprido, bairro entre o Centro e a zona norte da cidade. Um exemplo? Sumaré. O local, situado em uma parte alta da Floresta da Tijuca, era mais comumente alcançado pelas estradas do Alto da Boa Vista ou pelas ruelas do Cosme Velho, na zona sul. Com a ocupação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) nos morros do Rio Comprido em 2010, antigas rotas do bairro estão sendo reincentivadas pela Companhia de Engenharia de Tráfego do Rio de Janeiro como alternativas de escape ou acesso, graças à melhoria na segurança destas ruas, que passaram por uma fase tenebrosa quanto à violência urbana.

Na Rua do Bispo, as setas indicando “Sumaré” apontam para a Rua Paula Frassinetti, que logo no seu início abarca uma cabine da polícia com letras bastante visíveis representando a atuação da UPP do Morro do Turano na região. Esta evidência de “segurança” já é um motivo de acolhimento para o pedestre pouco familiarizado com o bairro. Porém, é adentrando a Rua Paula Frassinetti que vamos descobrindo como o Rio Comprido foi injustiçado e maltratado pelo poder público durante décadas. Atualmente, ele tem lugar no nosso imaginário como um sítio feio, cinza e sombrio pelo Elevado do Túnel Rebouças, e de residências destroçadas e ruas sujas. A Rua Paula Frassinetti, no entanto, ainda consegue resguardar o que sobrou daquele bairro bucólico, cercado por mata verde e cheiro de terra úmida.


Acolhimento. A cabine da UPP do Morro do Turano na esquina com a Rua do Bispo representa a melhoria da segurança instaurada na região e nos acessos à Praça Doutor Del Vecchio e Sumaré através da Rua Paula Frassinetti
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O estilo. Os tempos áureos do Rio Comprido se mostram resguardados pelo estilo pomposo das residências, muitas bem conservadas.

A rua é predominantemente residencial e horizontalizada. Ao longo da sua reta, as árvores com seus galhos e folhas formam uma cobertura aérea de visual bastante interessante, muito estético. O chão de paralelepípedo recria um ambiente de subúrbio com casas dispostas em centro de terreno com quintais espaçosos e ajardinados. Cada residência é mais bonita do que a outra. Os estilos, então, mostram como o Rio Comprido de outrora era refinado. Uma casa em estilo suíço, por exemplo, muito bem conservada, é o contraste principal entre todos os outros imóveis da Rua Paula Frassinetti. Cores vivas mesclam-se ao encardido de alguns pequenos edifícios que não recebem uma mãozinha de pintura há algum tempo. Enquanto as casas têm muros baixos, como se se atrevessem a ir de encontro às imposições de proteção contra a violência, os edifícios se destacam com janelas excessivamente gradeadas, descaracterizando em muito o estilo arquitetônico que lhes foi projetado.

Por ser via de acesso ao morro da Matinha, o único ruído que se escuta pelas calçadas da Rua Paula Frassinetti é o das mototáxis. Elas passam disparadas em atrito aos blocos de pedra do chão. Apesar disso, os ruídos são intercalados, o que permitia, nos intervalos, ouvir um pouco do que acontecia no interior das janelas e portas semicerradas. E as indagações não saíam da cabeça: como viviam esses moradores em épocas mais tenebrosas? Há quanto tempo moram ali? Se sentem mais seguros para um passeio a pé, dia ou noite? Os ares mais decadentes de algumas janelas, apartamentos ou casas, também foram pretextos para imaginar de que forma as transformações urbanas impactaram na aparência das propriedades privadas. E eis que corre pela Rua Paula Frassinetti uma kombi, com aquele seu motor ora choroso, ora meio desgovernado. É uma versão mais agregadora de passageiros em comparação às mototáxis.


Mais da Paula Frassinetti. A idade de determinados imóveis se reflete na deterioração dos gradis ou na falta de pintura, enquanto outros se destacam pelas cores vivas ainda muito presentes
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A praça. A chegada à Praça Doutor Del Vecchio, que passou por uma revitalização em meados de 2012. O playground, por exemplo, encontra-se em perfeito estado de utilização.


O entorno. Gangorra, banheiros públicos, quiosque e quadra poliesportiva estão inseridas num parque margeado por edifícios dos anos 50 e 60.

A Rua Paula Frassinetti, que recebeu tal nome em homenagem à Paola Frassinetti, religiosa italiana morta em 1882, desemboca na Praça Doutor Del Vecchio, que tem formato retangular e é margeada igualmente pelas ruas Infante de Sagres e do Citiso e a Estrada do Sumaré, fazendo jus àquela placa de trânsito lá da Rua do Bispo; agora, a Estrada do Sumaré é sinalizada como caminho também para Santa Teresa e as Paineiras. A Praça Doutor Del Vecchio é cercada por edifícios nos moldes dos da Rua Paula Frassinetti, proporcionando um clima aprazível e de aconchego. A decadência dos imóveis no entorno da praça é notória e ao mesmo tempo sutil, o que me fez observá-los com mais cuidado e admiração. Repetindo: poderia ser apenas mais uma reles praça e mais um conjunto ordinário de prédios. Porém, tratando-se do Rio Comprido, é uma ótima surpresa deparar-se com “cápsulas” de bucolismo e boa vizinhança em meio a um bairro consideravelmente detonado.

Às três da tarde de uma terça-feira nublada, a Praça Doutor Del Vecchio estava deserta, exceto por uma dupla de policiais em vigia constante, estrategicamente parados à Rua Infante de Sagres, e um casal de namorados que pouco se importou com os flashes da máquina fotográfica deste que vos escreve. O estilo da praça mostra evidências de requinte tanto quanto sua vizinhança – um requinte antigo, não muito contemporâneo – apesar do lixo deixado pelo caminho e dos canteiros cobertos apenas por um gramado ralo, pouco denso. O centro da Praça Doutor Del Vecchio, por estar em um plano inclinado, permite ter uma visão geral bem bacana da arquitetura ao redor. Algumas venezianas deixavam à mostra um pouco do interior dos apartamentos. Dali, projeções de hábitos e comportamentos, como um aparelho de televisor sintonizado em um canal de filmes ou uma conversa de telefone audível aos transeuntes graças ao sossego e ao silêncio da praça.


O entorno II. Detalhe de residência à Praça Doutor Del Vecchio, com a imagem de uma santa no topo da fachada interna. Ao lado, a vista da Rua Paula Frassinetti com a praça à direita.


Observações. A meninada que descia a Rua Infante de Sagres adentrando a praça estava animada em sair na foto, até que avistamos o Club do Curió e ficamos indagados sobre um clube tão escondidinho e pouco famoso no meio de um matagal.

O cheiro de mata e de terra úmida ao qual me referi anteriormente é resgatado em uma das extremidades da Praça Doutor Del Vecchio, coberta por um bando de árvores perfurado por dois caminhos mambembes sem sinalização. Enquanto um trio de meninas nos abordava amistosamente [eu estava na companhia de uma amiga, a Alessandra] para que as fotografássemos, observávamos aquele matagal com certa curiosidade, principalmente pelo letreiro “Club do Curió” em letras garrafais antigas no topo de uma escadaria estreita de pedra. Vim a descobrir que se trata de um clube cuja atração principal consiste na paixão por passarinhos e suas cantorias, postas à prova em torneios estaduais que mobilizam diversos outros clubes deste segmento, desde que tenham o aval do IBAMA. Nem preciso dizer que a surpresa foi ainda maior: além de um recanto como esse no Rio Comprido, existe um clube tradicionalíssimo especializado em passarinhos! Como imaginar? É desbravando o desconhecido que se expande a cultura citadina, meu melhor passatempo.

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Quebrando preconceitos com o Rio Comprido

19 dezembro 2011 | 2 comentários

Com fama de abandonado, bairro mostra que ainda tem lugares aprazíveis, como a Rua Japeri



A Rua Japeri, no Rio Comprido, ainda conserva um pouco do caráter agradável do bairro, duramente afetado pela violência e favelização

Em Girândola de Amores, romance de Aluísio Azevedo, a personagem Olímpia morava com seu pai, o Comendador Ferreira, em um belo palacete próximo à Praia de Botafogo, na segunda metade do século XIX. Após um casamento mal sucedido, Olímpia adoece, preocupando o pai, disposto a arcar com os custos de todas as necessidades e caprichos da jovem moça. Por ordens médicas, a enferma deve respirar novos ares, com passeios que distraiam a alma. A filha exige que o pai a leve para a sofisticada Avenida Estrela, no arrabalde do Rio Comprido. Lá funciona uma espécie de hotel, comandado por um francês, um ambiente perfeito para descansar, rodeado pelo verde dos morros, que, em suas matas, conta ainda com uma gruta misteriosa, que não me cabe explicá-la nesse momento.

Diferente dos românticos, Aluísio Azevedo tempera suas narrativas com boas doses de realidade ao descrever personagens e lugares por onde passam. O bairro do Rio Comprido, um dos cenários de Girândola de Amores, é nivelado à Botafogo como bairro de boas famílias, rico em arquitetura, com o adicional da natureza estonteante.

Casa em rosa e pedra: conforto

Voltando à nossa realidade, o ano de 2011 (quase 2012, feliz ano novo!), já não se pode dizer o mesmo do Rio Comprido. Afetado pela favelização e pela degradação do seu espaço urbano, após a abertura do Túnel Rebouças, na década de 1960, a região virou mais zona de passagem do que propriamente lugar atrativo para moradia. Para os não tão acostumados com o bairro, a escuridão empoeirada da Avenida Paulo de Frontin é um convite a não explorá-lo a pé. O mesmo acontece com a Rua Itapiru, na fronteira com o Catumbi, que exala um pouco de insegurança, mesmo depois da pacificação das comunidades do entorno.

O pensamento e ideia mais recorrente para todo carioca sem vínculos com o Rio Comprido é: o bairro não tem nada de bom. Nada restou.

Edifício, quase uma exceção na Japeri

Equivocam-se os tais. Uma vez, percorrendo a Paulo de Frontin a pé, para fotografar alguns dos palacetes e sobrados em estados lastimáveis que ainda estão de pé pela avenida, adentrei a Rua Sampaio Viana. De cara, é uma das partes menos depredadas do Rio Comprido, pois conta com muitos edifícios residenciais de classe média em melhor estado de manutenção. Há outros mais velhinhos, glamorosos em seu nascimento, mas meio pancados hoje. Descaracterização dos acessórios originais é uma atitude pecaminosa ante os prédios antigos do Rio.

Em direção à Rua do Bispo, a Sampaio Viana é cortada por algumas ruas pequenas, estritamente residenciais. Entrei numa delas, à direita. Estava sem pressa – queria mais era desbravar esse bairro que, por muitos anos, forçava-me a evitá-lo.

Japeri é o nome da rua. Ela tem o desenho de uma reta torta, contínua, sem cruzamentos, que termina na Rua Barão de Itapagipe. A primeira impressão para aquele lugar era “Uau, uma rua assim no Rio Comprido!“. Ainda estava dominado pelos pré-conceitos de bairro abandonado. Esse logradouro é um passeio de casas residenciais, frutos de projetos bem cuidados, e que, para a alegria da nação, a grande maioria está em ótimo estado de manutenção. Têm cara de residências com vida, habitáveis, e serei sincero: são muito atrativas. Bom, eu particularmente acho um barato essas casas dos anos 40 e 50. Elas têm um desenho todo interessante e sofisticado, com detalhes sutis que oferecem à casa uma considerável imponência.

O desenho das casas na Rua Japeri tem um ar elegante e vintage

 

Outras casas têm um estilo mais parecido com aquelas típicas do Grajaú, que são espaçosas e bem divididas, mas, ao mesmo tempo, compactas. Área livre para garagem, um certo ajardinado, elementos de pedra. Alguns poucos edifícios que estão pela Rua Japeri também são antigos e charmosos. Todos sem garagem. O Irene, logo na esquina com a Sampaio Viana, foi muito descaracterizado, embora ainda seja notável a sua distinção. Pelo menos nos primórdios. Meu conhecimento específico em arquitetura é pouco, o que nao me permite ir além nos comentários. Fiquemos apenas com as impressões pessoais.

As árvores, já muito antigas (um vídeo de 2008, no Youtube, denuncia o impressionante tamanho de uma raíz), apresentavam flores, formando uma bela e aprazível alameda. Alinhado a isso, na manhã em que estive lá, o movimento era bem família, com muitas crianças, e a vizinhança mostrou-se simpática. Barulho, só mesmo o das obras de um grande condomínio em construção no terreno de trás. Ou então das freadas dos ônibus na Paulo de Frontin. Sons, esses, abafados por um ou outro passarinho que, de galho em galho, ainda pia musicalmente sem nem ter ideia da quantidade de coisas que nós, criaturas humanas, nos preocupamos, criticamos, taxamos, exigimos de uma rua ou bairro para que seja perfeito. O Rio Comprido pode não estar lá essas coisas, mas a Rua Japeri é uma joinha.

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