Os guardiões da Rua Filgueiras Lima

29 agosto 2012 | 3 comentários

por Pedro Paulo Bastos

Irmandade de Santo Antônio, construída em 1938, no Riachuelo

Saltei de um veículo da linha 455 na Rua Vinte e Quatro de Maio e entrei à esquerda na Rua Filgueiras Lima. Ali se chama Riachuelo, simpático bairro margeado pela linha férrea. Há tempos namorava as ruas da região através dos mapas, ansioso por uma oportunidade de chegar no local e fazer minhas próprias fotografias. Não é tão comum de se deparar em sites e livros com fotos desse início – ou fim, dependendo da perspectiva – do subúrbio do Rio. Além disso, até pouco tempo atrás, a situação andava complicada por lá. Quem não se lembra do ataque ao helicóptero da Polícia Militar em 2009, em um daqueles terríveis episódios violentos que a cidade vivenciava semanalmente? O episódio ocorreu nas proximidades. Passado.

Antes de sacar a máquina da mochila, houve, primeiramente, um reconhecimento do território. Faço isso em todas as ruas que visito, seja na zona norte ou na zona sul. Trabalho por conta própria, não tenho seguro de equipamentos, sou eu por mim mesmo. Acredito sim que o Rio esteja mais seguro, mas… todo cuidado continua sendo pouco. A Rua Filgueiras Lima tem toda uma atmosfera familiar, que inspira confiança, muito embora as calçadas estivessem vazias. Todos recolhidos. Ventos vindo de leste e oeste que, quando se chocavam, faziam girar as folhas e os pequenos dejetos do chão. O céu levemente negro, como que anunciando chuva para mais tarde. E lá no topo da rua, que é incrustada na montanha de diversas tonalidades de verde, uma igreja recém-pintada em amarelo-ovo, com detalhes cor-de-abóbora envelhecida. Num sentido literário, diante do que aconteceu posteriormente, ela seria o castelo mal assombrado. O Morro dos Macacos, local de lobisomens, e a Filgueiras Lima resplandecendo como o bosque meio pantanoso e lúgubre.

Em muitas das árvores da rua, que crescem de dentro das residências, brotam flores e mais flores de cor magenta, bem forte. Na subida vão surgindo travessas, sem qualquer tipo de sinalização. Os postes com placas de nomes de ruas parecem se concentrar apenas em determinados cruzamentos de alguns poucos bairros. O asfalto exibe resquícios de tintas coloridas, que serviram para ilustrar algum boneco ou mascote de Copas do Mundo passadas. As medidas de segurança dos imóveis variam entre grades, muros ou arames farpados moldados em círculos seguidos. Ao mesmo tempo que me aproximo da paróquia Irmandade de Santo Antônio, avistá-la fica cada vez mais complicado, em meio aos cabos de energia e as folhas das árvores.

Era ali onde eu queria chegar. Sentia-me tão atraído pelo templo – tão poético, no final de uma rua sem saída, colado na mata – que fiquei a contemplar o panorama, já a uns quatro metros do seu portãozinho fechado. A certeza de que eu iria fotografar a Rua Filgueiras Lima de ponta a ponta era dada como certa. Comecei a me preparar, então, para tirar a câmera da mochila. Já imaginava como iria enquadrar a paróquia em diferentes ângulos. Dei-me conta que ela era realmente bem no alto, sustentada por uma escadaria de cimento que, por um certo instante, me pareceu muito longa e estreita. Não deu nem tempo de remover a proteção da lente quando os latidos ecoaram. Uns seis cães de porte médio, vira-latas, surgiram de trás da igreja, no corre-corre, saltando os degraus em direção à rua. Ô-ou…

Aparentemente o portãozinho os deteria. Sim, certamente os deteve, apesar da fúria diante daquele intruso, que só queria dar uns cliques no recanto que, ao fim e ao cabo, mostrou-se ser de propriedade canina. Porém, os cãezinhos tinham outros amiguinhos, que surgiram das residências vizinhas, ao meu oeste. Um deles conseguiu sair dos seus limites e veio gritar comigo, a poucos centímetros de mim, como se me enfrentasse: “Qual foi, que que tu tá fazendo aqui, mané?? Rala fora!!”. Ô-ou mais uma vez. Os latidos ficaram cada vez mais intensos e fui saindo de fininho, usando a mochila como proteção às pernas parcialmente cobertas pela bermuda. Um desespero foi contaminando a minha alma. Da mesma forma que os bebês me adoram, os cães me detestam, eu sei disso. Ao ver que outros saíram de suas tocas e latiam igualmente nervosos ao primeiríssimo, e ao perceber que este, também, já não se movia enquanto eu me afastava, apertei os passos e fui embora, em direção à felicidade – o ponto de ônibus -, a duas quadras dali.

A chance da Rua Filgueiras Lima entrar para o catálogo de fotos do As Ruas do Rio foi para o beleléu. Ao bairro do Riachuelo eu volto, mas não a essa rua. Não com todos esses guardiões…

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Rua Visconde de Taunay & Rua José Veríssimo

23 maio 2012 | 3 comentários

Enquanto a Rua Dias da Cruz, no Méier, sofre com o caos urbano, suas transversais estão virando recanto de calmaria e de cobiça imobiliária


A simpática Rua Visconde de Taunay, no Méier, é usada, volta e meia, pelos jovens da região que andam de skate, bicicleta e patins.

por Pedro Paulo Bastos

Era início de um sábado e o tráfego pesado tão característico dos dias de semana dá espaço a uma calmaria quase utópica às ruas. Com a pista livre, um grupo de amigos montados em seus respectivos skates praticam manobras no asfalto liso do pequeno aclive existente na pequena e simpática Rua Visconde de Taunay. Eles vêm cautelosos ao acessar a Rua Carolina Santos, outra via suavemente inclinada do bairro do Méier, na zona norte. Provavelmente darão a volta na quadra, aproveitando a liberdade de serem, de fato, os donos da rua. E assim começa a minha expedição por ali.

Tal qual esses garotos, comecei a desenvolver minhas habilidades como ciclista sem rodinhas por essas bucólicas ruas do Méier, onde passei a infância. A Rua Afonso Arinos, colada à Visconde de Taunay, era a mais emocionante de todas. Naquela época o seu ladeirão era sinônimo de adrenalina para descê-la com meu par de patins roller. Ali aprendi a frear, à minha maneira, e depois, com aquele pedaço de borracha que vinha na parte de trás da bota. Aprendi a fazer curvas também, sem mencionar os estabacos, principalmente se a descida da Afonso Arinos fosse engatada com a ladeira subsequente da Rua José Veríssimo em direção à Rua Dias da Cruz, a highway do Méier. Bons tempos!


Em primeiro momento, a esquina com a Rua Carolina Santos; ao lado, os jardins abundantes, muitos deles floridos.


No lado das casas, os canteiros são menores e mais humildes
. Veja que o anúncio da presença de raticidas é bem explícito. À direita, edifício residencial na esquina com a Rua Afonso Arinos.

Uma das grandes características dessa região do Méier é o seu caráter renovador. Já mesmo a partir da década de 90 os espaços vazios e poucos densos do bairro foram dando espaço a confortáveis condomínios nos moldes do da Barra, desses com varandões, modernosos. Muitas das casinhas típicas de subúrbio, já mal preservadas pela idade e pela falta de manutenção, são alvo fácil de construtoras que levantam ali moradias voltadas para a classe média e classe média alta da zona norte. Se, por um lado, isso também contribui negativamente para o aumento do trânsito infernal nos acessos e saídas do Méier, por outro, há o lado positivo. Consiste em estar, continuamente, oferecendo ruas bonitas e ajardinadas no subúrbio, parte da cidade comumente conhecida pelos altos índices de urbanização e pouca arborização.

A Rua Visconde de Taunay é um desses exemplos. Embora seus prédios já tenham mais de vinte anos, ela é verticalizada de um lado e totalmente horizontalizada do outro. As casas são simples diante de edifícios tão imponentes. Os jardins ficam do lado deles, enquanto pequenos canteiros em círculos improvisam, em tinta negra, o aviso de que há raticida por ali. Mesmo assim, acredito que os grandes vilões de lá são os donos de cachorros, que não catam a caquinha dos seus mascotes. Aliás, todas as ruas da cidade são contempladas, não há exceção. Parafraseando uma placa jocosa que puseram na Rua Goethe, em Botafogo (é mais ou menos assim): “Recolha as fezes do seu cão. O animal é ele, não você”.

Já a Rua José Veríssimo, à esquerda da Visconde de Taunay e continuação da Rua Afonso Arinos, é um misto de prédios antigos com novos e casas amplas, muitas delas revertidas para o uso comercial. Até pouco tempo era toda de paralelepípedo, o que a tornava uma rua de certa forma barulhenta pelo atrito dos pneus com as pedras. Os trechos da calçada são descontínuos, refletindo muito bem a tal da renovação paisagística que comentei. Em frente às casas mais antigas, há fragmentos de pedras e cimento por todos os lados. Já quando se trata dos condomínios e dos edifícios mais recentes, a situação é diferente.


A esquina da Rua José Veríssimo com a Rua Visconde de Taunay: rua definitivamente ajardinada.


Na Rua José Veríssimo, a transformação das casas baixinhas por prédios modernos e sofisticados tem sido gradual.


O panorama da Rua José Veríssimo, ainda nas proximidades das ruas Visconde de Taunay e Afonso Arinos.


O Centro de Dança Rio é referência na região e na cidade como pólo de formação de dançarinos. Fica ao lado de uma lanchonete e em frente a uma banca de jornal, que permanece no mesmo local há anos.

Geralmente o que se vê num emaranhado de fios de telefone ou de cabos de energia, desses dos postes, são ninhos de passarinhos, não é mesmo? Pois bem; na José Veríssimo existe algo de bizarro por lá. Quase em frente ao Centro de Dança Rio, escola de renome na formação de artistas e dançarinos, há um par de mocassim pendurado entre os fios. A primeira impressão é a de que alguém os deixou cair de seu apartamento. De acordo com uma amiga, que mora pelas redondezas e que, por coincidência, me encontrou na rua esse dia, resolvendo me acompanhar na jornada para o blog, disse que essa é uma cena para lá de comum e que fazem de propósito. A pergunta que fica é… por quê? Juro que dei risadas, tamanha a graça, apesar de, na verdade, não ter graça nenhuma.

Lá, o pé sujo Bar Passos de Silgueiros está de portas abertas. O período matutino, momento em que se preza a boa alimentação, não parece ser obstáculo para os clientes, que já detonam copos consecutivos de cerveja. Um brinde à vida, ao fim de semana! As gargalhadas ainda são tímidas, embora aumentem a medida que os ponteiros do relógio avançam. Falam de futebol, assunto que não pode faltar em nenhuma mesa de bar. Contudo, a calmaria lá da Rua Visconde de Taunay vai ficando para trás, e a conversa se mistura ao ruído motorizado da Rua Dias da Cruz, cada vez mais loteada de painéis publicitários, uns mais coloridos que os outros. A sorte é que o programa Rio Limpo, esse que pretende acabar com a poluição visual do Rio, irá se expandir para outras zonas.


Um par de mocassim preso nos fios do poste chama a atenção, enquanto o Bar Passos de Silgueiros já conta com clientes em plena manhã.


A esquina da Rua José Veríssimo com a Rua Dias da Cruz, principal via do Méier. Ao lado, a imagem do autor deste blog (quem lhes escreve agora!) se reflete num dos espelhos de um laboratório médico, captando outros pedestres dessa esquina também.

O caos é bem refletido pelos espelhos de um laboratório médico da rua, bem em frente à José Veríssimo. Muita gente, muitos carros, muitos ônibus, e uma Dias da Cruz bem estreitinha. No próximo mês, será reinaugurado ali perto o antigo Imperator, casa de espetáculos de sucesso até a década de 90, agora com o nome de Centro Cultural João Nogueira. Além dos shows, vai contar ainda com salas de cinema. Um chamariz, um agregador de valor ao bairro. O Méier está se desenvolvendo e se sofisticando, embora corra o risco de sofrer como a Freguesia, em Jacarepaguá – ótima em qualidade de vida, péssima em locomoção.

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As Ruas do Rio é parceiro da edição carioca do Wallpeople 2012 (wallpeople.org). Você que curte arte e fotografia, seja amador ou profissional, participe do Wallpeople levando suas criações. Vamos criar um grande mural de fotos, colagens, pinturas, desenhos, etc, relacionados ao tema “Express Yourself (Autoexpressão)”. A ideia é criar uma exposição a céu aberto, intervindo no espaço urbano e promovendo um encontro entre pessoas. Mais de 32 cidades ao redor do mundo estarão participando simultaneamente! 

Dia 9 de junho de 2012, das 15h30 às 17h30, na esquina da Avenida Heitor Beltrão com a Rua Alzira Brandão, na Tijuca. Bem ao lado do Teatro Ziembinski, quase em frente à estação São Francisco Xavier do metrô.

Mais informações sobre o evento no Rio de Janeiro aqui. Sobre informações do evento desde sua criação, com entrevista aos criadores, os publicitários espanhóis Pablo Quijano e David Marcos, de Barcelona, assista ao vídeo exclusivo aqui neste link.

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Dez cliques das ruas do Rio em 2011

31 dezembro 2011 | 3 comentários

Adeus ano velho, feliz ano novo.

Aí vai uma retrospectiva das ruas retratadas por aqui nesse ano que acaba hoje!


 

 

 

24/01/11. A Rua Araguaia se firma como um dos vetores do crescimento imobiliário na zona oeste do Rio. São mais e mais condomínios voltados para a classe média e média-alta. Os terrenos estão muito valorizados. Freguesia (Jacarepaguá), zona oeste.

Releia a publicação: Araguaia.

 

 

 

03/03/11. A leitura do livro “500 anos de subúrbio carioca” me forneceu um bom material para explorar as ruas de Marechal Hermes com outros olhos. O bairro, idealizado para moradias populares em 1910, tem casas padronizadas e um bulevar no estilo francês. Marechal Hermes, zona norte.

Releia a publicação: Marechal Hermes na contemporaneidade (partes 1 e 2).

  

  

  

 

23/03/11. Em um dos recantos mais agradáveis da zona sul, as calçadas da Rua General Glicério são quase uma passarela de jardins enormes, imponentes e bem cuidados. Sem falar nos prédios daqueles tempos áureos. Não é à toa que ali é chamado de Jardim Laranjeiras. Laranjeiras, zona sul.

Releia a publicação: “(…) o bairro das Laranjeiras, satisfeito, sorri…” .

 

 

 

18/04/11. Domingo de sol, meados do outono, dezenas de cariocas desembarcam na estação de trem de São Cristóvão para um dia de lazer na Quinta da Boa Vista. Muitas crianças, piqueniques, bicicletas e formigas. São Cristóvão, zona norte.

Releia a publicação: À beira da Quinta.

 

 

 

 

14/06/11. Subi a Rua Engenheiro Marques Porto, no Humaitá, descendo a Bogari, chegando à Fonte da Saudade. Esse conjuntinho de ruas dá um clima bem interiorano ao bairro da Lagoa. Eis o post de inauguração do As Ruas do Rio no site da Veja Rio! Humaitá e Lagoa, zona sul.

Releia a publicação: Humaitá? Lagoa? Onde estou??.

 

 

 

 

 

22/06/11. O atardecer em um dos pontos mais empresariais do Centro da cidade pode ser mais poético do que parece, em meio a um vai-e-vém de pessoas e ônibus lotados. Centro do Rio.

Releia a publicação: Centro do Rio, 17 horas e 30 minutos.

 

 

 

 

05/08/11. O edifício Ipú, essa beleza da imagem ao lado, é apenas mais uma das joias arquitetônicas pertencentes à tradicional Rua do Russel e à Praça Luiz de Camões. É lá onde está o Hotel Glória, atualmente em reforma. Glória, zona sul.

Releia a publicação: Tempos de Glória.

 

 

 

 

23/08/11. Imortalizado por Lima Barreto, o bairro de Todos os Santos recebeu minha visita no final de agosto, por onde passeei pela Rua José Bonifácio. Lá é um misto de casas bem das antigas convivendo com modernos condomínios residenciais. Uma remodelação paisagística do subúrbio de classe média. Todos os Santos, zona norte.

Releia a publicação: Todos os Santos.

 

 

27/10/11. Por vezes é quase incompreensível o ponto a que o preço dos imóveis em Ipanema alcançou em 2011. Também, pudera, é lá onde estão as ruas mais charmosas da cidade. Percorri a Rua Aníbal de Mendonça de ponta a ponta. Agora você vai entender porque R$ 1 milhão é pouco… Ipanema, zona sul.

Releia a publicação: Aníbal.

 

 

 

21/11/11. A Praça Afonso Vizeu, colada à entrada da Floresta da Tijuca, mostrou ser um belo local de passeio dominical. Além do parquinho para as crianças, tem um restaurante para os adultos ( o tradicional Bar da Pracinha) e o chafariz de Grandjean de Montigny. Alto da Boa Vista, zona norte.

Releia a publicação: É alto, tem boa vista e faz jus ao nome.

 

 

 

Recebam meus melhores votos para 2012!

Até logo…

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Todos os Santos

23 agosto 2011 | deixe seu comentário (0)

 

Em uma caminhada atenta pela Rua José Bonifácio é possível visualizar toda a evolução histórica, social e urbanística do subúrbio de classe média

 

por Pedro Paulo Bastos

Minúsculo em tamanho e ignorado por muitos cariocas, mas badaladíssimo na nossa literatura, o bairro de Todos os Santos é proprietário de poucos logradouros entre o Méier e o Engenho de Dentro. Está bem ao lado de um dos maiores templos do consumo do subúrbio, o Norte Shopping. Mesmo com limites geográficos questionáveis, seus detalhes históricos ainda são bastante presentes pelas ruas. Bom… “presentes” naquele estilo brasileiro de ser,  já em avançado processo de descaracterização e abandono. Porém, uma olhar cuidadoso por Todos os Santos pode encantar, principalmente se você conhecer bem a obra de Lima Barreto (1881-1922), uma das melhores referências em literatura suburbana. Na suas crônicas e romances, ele é excelente ao descrever a rotina de Todos os Santos e arredores, suas ruas e particularidades. Tudo numa forma bem crítica, o que o afasta daquela visão romântica do Rio de outrora.

Foi nesse embalo que eu percorri a Rua José Bonifácio, a principal da região, que começa na antiga Avenida Suburbana e termina na Rua Arquias Cordeiro, já de frente para os trilhos ferroviários. Por lá tem muito sobrado antigo, desses em que se inseria o ano de construção no topo enfeitado de desenhos e símbolos. A leitura prévia de crônicas e romances de Lima Barreto contribuiu para que eu pudesse recriar a paisagem da Rua José Bonifácio naquele tempo, no início do século passado, época de grandes avanços para a cidade, em todas as esferas. Além disso, a essência do texto de Lima Barreto sobre essa rua ainda é muito aplicável na contemporaneidade. A perspectiva dele sobre o dia-a-dia e o comportamento das famílias de Todos os Santos não mudou muito - pelo menos essa foi a minha sensação. Os botecos, por exemplo, maior símbolo de reunião social, ainda são bastante presentes.

A lástima é que muito desses sobrados sofreram intervenções cruéis ao longo do último século. Uns foram readaptados para novas serventias, outros estão abandonados. E muitos deles devem ter sido postos abaixo, tendo em vista que a paisagem da Rua José Bonifácio é muito fragmentada, heterogênea. É uma mistura de estilos arquitetônicos que traduz bem a evolução histórica, social e urbanística do subúrbio. A identificação dessa evolução é meio complicada de condensar num único comentário; é preciso caminhar, observando cada detalhe…

Os sobrados marcam o início de tudo – ou pelo menos do que restou de antigo ali. Na esquina com a Rua Odorico Mendes, uma casa (acho que é de uso comercial, mas estava fechada) expõe o ano de 1897 na fachada, embaixo do que parece ser um ornamento em homenagem à república. No meio disso, muitas residências com imagens e símbolos religiosos exibidos no topo. Vale lembrar que muitas desses imóveis, como falei anteriormente, aparentemente dividiram-se para abrigar pequenos comércios, tais como chaveiros, bazares, papelarias, padarias, igrejas, auto-escolas… Comércio de bastante apelo regional. A depredação, como as pichações, lhes parece ser uma das piores inimigas. Sucessivos a essas casas da década de 30/40, aparecem já os edifícios da década de 70 – mais simplórios, sem grandes atrativos estéticos -, o que evidencia o adensamento populacional do bairro.

Por outro lado, existem uns clarões na José Bonifácio que ofuscam todo o seu entorno: a nova faceta do mercado imobiliário. Essa parte da zona norte do Rio tem grande potencial de crescimento em função do índice de renda per capita dos moradores ser superior à média do subúrbio como um todo. Logo, grandes condomínios de edifícios já se instalaram por lá e a tendência é que cada vez mais eles ocupem os lugares dos imóveis mais antigos e abandonados. Isso é bem interessante porque o estereótipo do subúrbio é o de lugar sujo, velho, abandonado, e a construção a todo vapor desse tipo de prédios promete modificar bastante a sua paisagem de pouquinho em pouquinho. Essa mistura de estilos já pode ser observada.

O caráter familiar da rua principal de Todos os Santos é reforçado pela presença de casais sozinhos ou com seus filhos nas padarias e calçadas. Aliás, a padaria parece estar para a família da mesma forma que o boteco está para o gaiato. As imagens são marcantes: a esposa e o marido estão por lá à escolha do frango assado do almoço, que roda naquele grande forno-vitrine, enquanto o(s) filho(s) ou o(s) neto(s) se debruça(m) na geladeira da Kibon para escolher o picolé que mais lhe(s) apetece. No boteco ao lado, tios-e-vovôs discutem calorosamente sobre o Flamengo acompanhados de muita cerveja, TV ligada e jornal debaixo do braço. Os salões de beleza também são bons pontos de encontro no bairro. A despedida entre a freguesa e a cabeleireira por vezes se expande para a rua, sempre em tom animado, característico de dia de sábado.

Todos os Santos é o típico bairro suburbano de classe média. Um pouco maltratado, mas muito bem consolidado nas suas raízes. Ainda que a paisagem tenda a mudar com os novos edifícios mordernosos, é bem difícil da sua essência se esvair; pelo contrário, continua com grandes chances de permanecer equivalente à dos tempos de Lima Barreto. Nada mau para a preservação da nossa história e cultura urbana…

asruasdorio.contato@gmail.com

 

 

 

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