Paraíso desordenado
04 novembro 2011 | 7 comentáriosA região de Jacarepaguá, na zona oeste, tem crescido à base da verticalização excessiva, sem contar com nenhum tipo de controle

Stands de venda de lançamentos imobiliários dominam a paisagem da Freguesia, em Jacarepaguá
Na década de 90, a zona oeste do Rio era considerada um dos melhores e mais prometedores refúgios da cidade. A Barra da Tijuca, como uma extensão da zona sul, era o maior símbolo de condomínios bem equipados, shoppings espaçosos, praia agradável e familiar e o melhor: distante da violência urbana tão marcante que assolou a área central na época. Por sua vez, a região vizinha, Jacarepaguá, era chamada de “suíça carioca”. As ruas, mais parecidas com bosques, margeadas por morros úmidos e florestados, tornaram-se alvos de construtoras, em cujas quais levantaram casas e edifícios para as famílias de classes média e média-alta atraídas pela proximidade com a Barra.
A fórmula deu tanto certo para Jacarepaguá que a paisagem da Freguesia, um dos bairros que a compõe, tem sido modificada constantemente. De lugar de sítios e de casas espaçosas, no estilo das do subúrbio, a Freguesia hoje é quase uma filial da Barra da Tijuca. A Rua Araguaia, por exemplo, já está lotada de grandes condomínios de apartamentos, destes com varandas amplas, piscina, academia e área para churrasco. Qualquer terreno que esteja sobrando por ali é, em pouco tempo, convertido em stand para lançamentos imobiliários. Já pelas estradas que conectam a serra do Grajaú ao centro da Freguesia, a presença de condomínios de casas, muitas delas de luxo, é cada vez maior, num dos ambientes mais bucólicos da zona oeste.
O que para alguns a Freguesia apenas teve sua faceta modificada, para outros, ela se desenvolveu. E na maioria dos casos, pelo menos aqui no Rio, o desenvolvimento de um bairro é sempre acoplado à ideia da verticalização. Basta que uma região, considerada estratégica, esteja estagnada para que sejam incentivadas novas construções, incluindo a adição de pavimentos aos gabaritos até então consolidados. Recentemente, a câmara dos vereadores aprovou um novo Projeto de Estruturação Urbana (PEU) para os bairros no entorno da Penha, na zona norte. Uma das medidas seria a alteração do gabarito nos arredores da Rua Quito de quatro para 12 andares, como forma de revitalizar a área. Eis a prova de que variáveis importantes, como melhoria do transporte, melhor distribuição de água, estudos de impactos ambientais e aumento dos serviços públicos, nem sempre são pontos levados em conta no que tange ao “desenvolvimento” de certas áreas. É como se a verticalização por si só já bastasse. E um abraço.
Prédio em “esqueleto” na Rua Araguaia |
Hoje, a Freguesia é uma dessas zonas vitimadas. Sua população sofreu um aumento relevante em pouco tempo sem que houvesse qualquer planejamento. Nem mesmo um acompanhamento de tais impactos tem sido realizado. A Linha Amarela, inaugurada em 1997, a única via expressa da região, já não dá conta da quantidade de veículos que saem diariamente de Jacarepaguá em direção ao Centro, provocando longos engarrafamentos nas horas de rush. A geografia do bairro, cercada pelos tão agradáveis morros já comentados, é também um grande empecilho para quem precisa deslocar-se. As ruas não são muito largas e limitam-se às encostas, o que restringe, desta forma, as vias de escape, que são poucas.
A questão da segurança é outro fator preocupante. O aumento na população não foi acompanhado de um acréscimo do policiamento, que está desproporcional à demanda atual da Freguesia. Os assaltos são cada vez mais frequentes e a qualquer hora do dia, como apontam muitos moradores em reportagens de jornais e noticiários. Essa onda de violência acontece justamente no entorno dos grandes condomínios, majoritariamente concentrados por ruas como Araguaia, Potiguara, Geminiano de Góis e Comandante Rubens Silva. O alto poder aquisitivo dos moradores é atrativo para a atuação dos marginais, que agem livremente justamente pela falta de monitoração dos impactos em função do seu boom imobiliário.

Os terrenos em Jacarepaguá estão ficando densamente ocupados por prédios. Os espaços vazios, por sua vez, já têm destino certeiro: abrigarão outros prédios.
O desenvolvimento baseado na pura verticalização tem suas deficiências e limites. A Freguesia tem “se vendido” através de palavras-chave como tranquilidade, verde, natureza, qualidade de vida, “bairro-promessa”. No entanto, tais conceitos serão insustentáveis ao longo de mais alguns anos caso a prefeitura continue permitindo que a região progrida sob este modelo. A tranquilidade da Freguesia já está em jogo, com o aumento da violência. O verde e a natureza estão ficando comprometidos, visto que a urbanização abundante afasta naturalmente animais dos seus antigos nichos, assim como a flora, violentamente removida pelo poder do homem. A qualidade de vida também já pode ser questionada: com a ausência de transporte público eficiente e de massa, como o metrô, os moradores passam mais tempo dentro de carros do que em suas atividades lúdicas. Já o apelido de “bairro-promessa” tende a acabar virando uma baita propaganda enganosa.
Planejamento urbano é essencial para a (re)vitalização de qualquer bairro ou conjunto de ruas. Os moradores – ou melhor, os compradores -, que deveriam ser os mais beneficiados, são os que mais perdem, em favorecimento aos empresários, que nenhuma responsabilidade possuem em resolver os problemas relatados. O planejamento estabelece normas e diretrizes, embasadas em previsões, para o desenvolvimento de uma área. Cria limites ao crescimento, já que vivemos em um mundo limitado, não só de terrenos mas de recursos também.
O equilíbrio entre crescimento e limites naturais não está sendo respeitado pela prefeitura em Jacarepaguá. A manutenção desta forma de desenvolvimento é um atentado contra o potencial da Freguesia de firmar-se como um bairro-vitrine dos avanços na ciência contemporânea quanto às questões ambientais e urbanas. A verticalização desordenada consiste em reproduzir aquele velho e equivocado modelo de urbanização retroativo, superficial, que não integra outros fatores de influência. Com base nisso, está mais do que na hora de repensar a Freguesia, assim como todos os outros bairros do entorno na região de Jacarepaguá, que serão (e são) tão afetados quanto.
asruasdorio.contato@gmail.com
# Dica – Na página da ADEMI (Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário) você pode ter acesso a relatórios temporais sobre o mercado imobiliário no Rio, como os bairros com mais lançamentos de imóveis, preço do metro quadrado, número de unidades vendidas por região, etc.

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