Praça Martins Leão, Alto da Boa Vista

28 maio 2013 | 2 comentários

Acolhedor, fresquinho, verdejante, mirante: chegamos a um dos esconderijos do Alto!


Alto da Fé. Pequena praça no Alto da Boa Vista é reduto de católicos e de residências luxuosas.

por Pedro Paulo Bastos

Rodeada por uma arborização densa e tranquilizante ao espírito urbanoide, uma pequena estrada se desenha pelos meandros do Alto da Boa Vista, na zona norte do Rio. Não há indícios de vida; apenas uma via de mão-dupla para o trânsito de automóveis. Uma das saídas do Parque Nacional da Tijuca vai ficando para trás e só o que podemos ver adiante são árvores, galhos, um ou outro animal silvestre pelo meio-fio e a infinitude de uma rua que não nos dá muito certeza sobre o local onde findará. A umidade típica da floresta invade o carro e a nossa primeira reação é ou fechar as janelas ou devolver a manga da blusa comprida à altura do pulso. Mais uma curva aqui, outra acolá, muros vão surgindo, telhados de casas românticas brotam entre as árvores até então muito concentradas. Folhagens coloridas vão figurando entre o verde predominante da floresta, o sol penetra melhor pelo asfalto, e eis que chegamos ao suposto fim.

Estamos na Praça Martins Leão, no coração do Alto da Boa Vista, e ao mesmo tempo, num de seus esconderijos. Talvez este seja um dos recantos mais difíceis de ser alcançado dentro do bairro, sem falar que é um dos mais bonitos também. O carioca que não é aficionado pela floresta e suas cachoeiras só costuma visitar o Alto em eventos sociais como casamentos e festas de grande porte nas igrejas e mansões que ainda restaram por lá. Quando cheguei à Praça Martins Leão e avistei a simpática Capela Santo Cristo dos Milagres, bateu a dúvida crucial: já estive aqui antes, não? Particularmente não recordo. O panorama noturno associado às cerimônias religiosas em certos locais não facilita o reconhecimento dos mesmos durante o dia, ainda mais em ruas que não temos o costume algum de transitar. E é aí que surgem aquelas lamentações de “sou carioca há tanto tempo e nunca vim aqui”. Não preciso nem dizer que brotaram sentimentos deste tipo em mim, algo de culpa até, afinal, eu me dedico a um projeto chamado As Ruas do Rio, não é mesmo? A Praça Martins Leão é linda demais para eu nunca tê-la visitado por lazer como naquela manhã de domingo.


A capela. A Capela Santo Cristo dos Milagres congrega fiéis das adjacências do Alto da Boa Vista nos dias de missa
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Casas luxuosas. A área residencial no entorno da praça é pouco habitada mas BEM habitada: portões como esses separam o espaço público do privado.

Quando chegamos lá (a primeira pessoa do plural se refere a mim e a minha família), fiz questão de checar o Google Maps do celular para me certificar em que “buraco” tínhamos nos metido. Meus pais já conheciam a praça e a capela graças a um casal de amigos recém-casados, porém eu e meu amigo tcheco, que fugiu do mestrado em São Paulo para desfrutar alguns dias em solos cariocas, ficamos surpresos em estar nesse bucólico refúgio. De imediato, percorremos o entorno da capela para observar melhor as residências da Estrada da Paz e da Estrada do Soberbo, que são vias adjacentes à Praça Martins Leão. Sem muitas perspectivas de enxergar além dos muros verdejantes, nos dirigimos à escadaria da capela.

Minha família não é católica e nem temos seguido nenhum preceito religioso nos últimos anos, mas de fato me instiga a relação que os católicos praticantes têm com suas igrejas e tradições. A missa da Capela Santo Cristo dos Milagres nos domingos de manhã é uma congregação de fiéis em sintonia pra lá descontraída com o padre que ministra as sessões. A impressão que tivemos era a de ser mais uma conversa informal do que uma missa, ou melhor, o estereótipo de uma missa. Os fiéis, por sua vez, são famílias que chegam à Praça Martins Leão em seus carrões – não há outro meio de transporte se não o automóvel – e estacionam-os ao redor da diminuta praça. Não se sabe a procedência deles, mas certamente de alguma região próxima, como o Itanhangá e a Barra.


Lanche e mirante. Tendas na Praça Martins Leão vendem café e lanches, enquanto o saguão da capela proporciona belas vistas da zona oeste
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O que se vê. A Pedra da Gávea e o litoral da Barra da Tijuca.

Como toda praça carioca que se preze, há o guardador de carros, que ultimamente designado, pejorativamente, de flanelinha. Na Praça Martins Leão, quem nos abordou foi um senhor muito simpático, no entanto, diferentemente daqueles flanelinhas que estamos acostumados a lidar nas ruas ao nível do mar. Além disso, a praça concentra dois pólos gastronômicos improvisados em tendas que protegem uma mesa com bules de café, condimentos, paninhos cobrindo outros produtos comestíveis e um isopor. Acredito que as duas senhoras que comandam essas cantinas ambulantes apareçam ali apenas nos horários mais badalados da igreja ou nos fins de semana.

Muito mais do que uma bonita capela e o verde intenso da vizinhança, o grande barato ali são as vistas. O motorista quando vai se embrenhando pelo Alto da Boa Vista perde um pouco a noção de espaço e sentido. São tantas curvas e árvores em estradas, muita das vezes, não tão bem sinalizadas, que se acaba perdendo a noção se para cá está mais perto da Tijuca, ou se ali é mais próximo de São Conrado, por aí vai (se você não entender, acesse um mapa e visualize). A melhor forma de se localizar na Praça Martins Leão em relação à cidade é através de um breve passeio pelo interior da Capela Santo Cristo dos Milagres, que fica numa posição mais alta que a praça. Dentro dela há um saguão com janelões de vidro perfeitos para estabelecer qualquer contato visual com o Rio. Foi lá onde, de fato, nos localizamos: em meio a fiações e ipês, conseguíamos admirar a Pedra da Gávea e, de outro ângulo, a Barra da Tijuca. É desses passeios simples e sufocantemente bonitos que eu gosto.

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É alto, tem boa vista e faz jus ao nome

21 novembro 2011 | 1 comentário

O relato de uma manhã de domingo no bairro mais frio da cidade, o Alto da Boa Vista

Ciclistas no acesso às Paineiras, pela Rua Amado Nervo: rotina comum no Alto da Boa Vista aos domingos


O Alto da Boa Vista é um daqueles bairros que ninguém sabe exatamente em que zona fica, se é norte, sul ou oeste. Pudera, com suas características tão peculiares, é difícil agrupá-lo em um conjunto de bairros que mais ou menos se pareçam. Lá é inigualável, fresco e uma das principais conexões entre as zonas oeste e norte. E, claro, conta ainda com um atalho para o Horto, no Jardim Botânico, de onde surgem dezenas de ciclistas devidamente equipados à base de suas pernas superpotentes. É preciso força para pedalar naquelas ruas, cheias de altos e baixos, que te levam também para a incrível Estrada das Paineiras, caminho para o nosso tão querido Corcovado.

O Alto é assim. Desde a Tijuca, onde começa, até o Itanhangá, onde termina, é formado por uma estrada sinuosa e contínua, com algumas ramificações em seu percurso, onde escondem-se casas bastante confortáveis e alguns poucos edifícios baixinhos. As curvas são agraciadas por espaços verdes com lagos sobrepassados por minipontes. Alguns deles contam com fontes artificiais e, dependendo da proximidade, cascatas. Tudo com um ar levemente abandonado, é válido dizer, mas ainda muito vivo e esplendoroso, graças às árvores monumentais que embelezam o Alto da Boa Vista.

No que parece ser o “pico do Alto”, ou pelo menos a sua parte mais plana, a 350 metros do nível do mar, está a praça-símbolo, a mais importante, tal qual todo bairro tem ou deveria ter. A Praça Afonso Vizeu, como chama, foi construída em 1903 como Largo da Boa Vista na gestão municipal de Pereira Passos. O antigo coreto, no entanto, deu lugar ao chafariz de Grandjean de Montigny, renomado arquiteto francês que contribuiu em muito para o desenvolvimento urbano aqui no Rio, que ficava na antiga Praça Onze, no Centro. Foi removido de lá em virtude da abertura da Avenida Presidente Vargas. Hoje, é um chamariz para uma caminhada mais vagarosa pela Afonso Vizeu. Foi o que me aconteceu – gosto muito desses passeios.

As nuvens deram uma trégua nesse domingo, brindando um maior espaço para que o sol se reapresentasse a nós, cariocas e agregados. Já tinha até esquecido como era sentir calor, ainda mais seco desse jeito. No Alto é diferente. Um simples deslocamento entre as partes mais urbanizadas da Tijuca até a Praça Afonso Vizeu pode diminuir substancialmente as sensações térmicas. É o ar condicionado natural em mode on, tudo o que nós cariocas desejamos. Como nada é perfeito, os mosquitos são personagens importantes no Alto da Boa Vista. O café da manhã dos clientes do Bar da Pracinha, o simpático restaurante dali, era compartilhado por edições de domingo do O Globo, óculos escuros e repelentes Off!.

O charmoso chafariz do francês Grandjean de Montigny no centro da Praça Afonso Vizeu. Ao fundo, o restaurante Bar da Pracinha, referência gastronômica no Alto.


Espaço de lazer pra lá de arborizado, a praça é boa tanto para crianças que queiram brincar como para adultos que queiram relaxar ou ler um livro.

 

Os ciclistas seguem dois caminhos: ou vão para as Paineiras, através da Rua Amado Nervo, ou para Floresta da Tijuca, que tem entrada exatamente pela Praça Afonso Vizeu. Alguns param e sentam-se aos bancos do local para reabastecer as energias enquanto outros simplesmente passam direto, apenas figurantes em meio a esse bucolismo. Essa praça é um lugar para ser apreciado mais calmamente, ideal para crianças. É difícil achar uma área de lazer “lá para baixo” que seja tão limpa quanto a Afonso Vizeu. De verdade – não tem lixo, pichação e nem brinquedos depredados. Se há coliformes fecais nos minúsculos grãos de areia da praça, que dividem o espaço do chão com pétalas despedaçadas de flores, já não sei, mas ela é bem confiável aos olhos para deixar seu filhote solto sem muitas preocupações mundanas.

Um ponto interessante do Alto da Boa Vista é a arquitetura. Existem muitas casas naquele estilo suíço, que conferem um aspecto bastante sulista a um bairro de uma cidade do sudeste brasileiro, como o Rio. Representam a passagem de uma época em que esse estilo era muito valorizado e copiado pela elite, até no formato do telhado, todo moldado para reter a neve (que neve é essa, cara pálida?!) e saída para chaminé. Devem ter associado a construção dessas casas com o clima serrano do Alto. Hoje em dia, uma ou outra coisa já foi descaracterizada, embora ainda se veja muitos casarões antigos, de aparência um pouco colonial, e outras em estilo eclético. Uma delas, aliás, está muito bem mantida. A dúvida é saber se são residências ou casas de festa.

Comprei uma lata de refrigerante e sentei sobre um muro baixinho, que separa a rua e a passagem de um pequeno rio, que vinha de dentro da Floresta da Tijuca. O barulho de água corrente, sem nenhuma buzina por perto, é aconchegante. Deixei-me embalar por essa trilha sonora um pouco mais, admirando as flores, nas suas mais diversas cores, aparentes entre um ou outro arbusto. Foi aí que decidi esticar um pouco mais o passeio e caminhar lá para dentro, até a famosa Cascatinha.

Manhã agradável, desestressante e quase sem custo nenhum, se não for o traslado.
Visitem o Alto da Boa Vista. Esse lugar é especial, vai por mim.

Uma das casas na Praça Afonso Vizeu: essa foi construída em 1865 pelo inglês Barlett-James, junto à entrada da Floresta da Tijuca.

 

Em tempo
# 1 – Afonso Vizeu, o homenageado pelo nome da praça, foi gaúcho e grande comerciante de tecidos no Rio, apesar da infância pobre. Além de filantropo e presidente da associação comercial, foi amigo de conhecidos na roda social e de políticos influentes. Morava exatamente na praça, no imóvel onde hoje funciona a casa de festas Vila Cabral. Curiosamente, a casa pertencia ao Barão do Lavradio nos primórdios e tem aquele estilo suíço que eu comentei.
# 2 – Além de largo e, posteriormente, de praça, ali também já foi chamado de Jardim do Alto da Boa Vista. No momento de sua inauguração, houve grande festa com a presença do presidente – na época, Rodrigues Alves -, além do prefeito, ministros, senadores, deputados. Foram transportados até a praça por um bonde saído do Largo de São Francisco, no Centro. Já no Alto da Boa Vista, tomaram café e biscoitos na Vista Chinesa, almoço ao ar livre no Hotel White, que ficava próximo à praça, e um passeio pela Floresta e Cascatinha.
# 3 – Retomando o início da postagem, o Alto da Boa Vista pertence oficialmente à zona norte do Rio de Janeiro.

Fonte
OLIVEIRA, Lili Rose Cruz. Tijuca, de rua em rua / Lili Rose Cruz Oliveira, Nelson Aguiar – Rio de Janeiro: Ed. Rio, 2004.

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