Subúrbio, um conceito que se “carioquizou”

Livro do professor de Geografia da UFF, Nelson da Nóbrega Fernandes, disserta sobre o conceito “carioquizado” de subúrbio, fruto, em suas palavras, de um fenômeno ideológico de desmoralização da classe trabalhadora por Pedro Paulo Bastos Segundo o dicionário Michaelis Online, subúrbio significa “região que se segue ao arrabalde e que, embora fora da cidade, pertence à […]

Livro do professor de Geografia da UFF, Nelson da Nóbrega Fernandes, disserta sobre o conceito “carioquizado” de subúrbio, fruto, em suas palavras, de um fenômeno ideológico de desmoralização da classe trabalhadora

por Pedro Paulo Bastos

Segundo o dicionário Michaelis Online, subúrbio significa “região que se segue ao arrabalde e que, embora fora da cidade, pertence à jurisdição dela”, ou então, “arrabalde ou vizinhança da cidade ou de qualquer povoação”. Em outras palavras, no senso comum, subúrbio seria aquela região periférica, geralmente formada por rincões residenciais bucólicos e salubres, longe de todo o caos das áreas centrais.

É com base nesse conceito que o professor de Geografia da UFF, Nélson da Nóbrega Fernandes, admite que o conceito de subúrbio, no Rio, sofreu um “rapto ideológico”, título que dá ao seu livro “O rapto ideológico da categoria subúrbio: Rio de Janeiro 1858-1945” (Editora Apicuri, 2011). Rapto ideológico, então, conforme definição do filósofo e sociólogo francês Henri Lefebvre, “é o processo de mudança abrupta e repentina do significado das categorias”, algo, sem dúvida, percebido no contexto da cidade do Rio de Janeiro quando pensamos o que seria o nosso subúrbio. Assim, pode-se dizer que o conceito carioca de subúrbio adveio de um fenômeno ideológico de desmoralização da classe trabalhadora ante a região da cidade para onde grande parte desta migrou.

Conforme a linha de entendimento do autor, se aplicássemos a acepção tradicional de subúrbio, seria válido apontar regiões como a Barra da Tijuca, por exemplo, como parte do subúrbio carioca. Ou, pelo menos, durante a sua fase de desenvolvimento, nos anos 1970, ela poderia ter sido assim denominada, já que atualmente é uma grande centralidade dentro do Estado e, à vista disso, não se encaixaria mais na categoria de “subúrbio”.

Contudo, Fernandes assinala, com base em outros autores, que a Barra era definida como “bairro periférico de alto status”, enfatizando o termo “periférico” como diferenciador da noção de “subúrbio” nos parâmetros cariocas. Isto é, o subúrbio como um lugar genuinamente popular e destinado às classes sociais mais baixas da sociedade e, em geral, desenvolvido ao longo da linha ferroviária. O que não seria o caso da Barra, porção da zona oeste planejada para a ocupação das classes mais altas.

Definições à parte, este formidável livro de Nelson da Nóbrega Fernandes, derivado de sua dissertação de mestrado em Geografia pela UFRJ, faz um apanhado histórico dos antigos subúrbios cariocas, a partir do ano de 1858, para entendermos como se deu esse rapto ideológico. Até então, nos mapas oficiais da cidade e nas próprias documentações consultadas, subúrbio poderia ser tanto o Méier, Madureira e Inhaúma como Copacabana, Ipanema ou Gávea, por exemplo. Ou seja, eram regiões adjacentes à zona central (incluindo bairros urbanizados no entorno do Centro, como São Cristóvão, Botafogo e Tijuca) e, portanto, suburbanas.

Fernandes aponta a reforma urbana de Pereira Passos, no início do século XX, como efeito catalisador para cunhar o termo “subúrbio” como algo pejorativo. Inspirado nas reformas do Barão Haussmann, na Paris do século XIX, o nosso então prefeito “renovou” o Centro carioca à custa da expulsão das classes populares para o subúrbio. A diferença entre as políticas parisiense e carioca foi a de que havia uma ideologia do habitat que pretendia conferir casa própria ao “pobre” e um estilo de vida moralizado no subúrbio como forma de integrá-lo à formalidade do sistema capitalista, só que de maneira segregada. A segregação nos moldes cariocas partiu de uma motivação contrária ao caso parisiense, cujo efeito resultou na desmoralização da vida das massas no subúrbio, bem longe do Centro “civilizado”.


Trilhos ferroviários no bairro de Cascadura: Fernandes refuta a ideia de que a implantação dos trens tenha caracterizado a expansão proletária para o subúrbio carioca.

A essência deste trabalho tencionou, além disso, refutar a hipótese tão “badalada” no senso comum de que o transporte ferroviário favoreceu a ocupação da classe operária no subúrbio. Aquela premissa de que “o bonde fez a cidade, assim como o trem fez o subúrbio proletário”. Fernandes nos mostra que o bonde teve um papel muito mais relevante no crescimento dos subúrbios do que o trem, apresentando, ainda, que o subúrbio, antes da gestão de Pereira Passos, era um local de nobreza – não tão chic como Botafogo ou o Engenho Velho (Tijuca), bairros da aristocracia –, mas que, na sua posição periférica, respondia de maneira contundente ao conceito tradicional do vocábulo e ao seu difundido perfil de ocupação pelas classes mais altas, que iam em busca de “lugares salubres” para se respirar ar puro ou descansar. A área central, neste momento, era local de moradia das classes mais baixas e vulnerável a doenças contagiosas.

Para comprovar tais argumentos, Fernandes cita a presença do Jóquei Clube na região de São Francisco Xavier, vizinha à pomposa Quinta da Boa Vista, ou do Teatro da Sociedade Recreio Dramático Riachuelense, situado no bairro do Riachuelo, “um prédio elegante” com “28 camarotes, vasta plateia, excelente palco e cenários de um artista alemão chamado B. Wiegand”. Conforme explica o autor, “somente a necessidade de moradores com recursos materiais e culturais disponíveis para tal investimento público podem explicar a construção desse teatro no subúrbio”.

Quanto ao caráter autenticamente popular que se confere aos trens suburbanos, como se desde sempre tivessem sido destinados à classe trabalhadora, Fernandes faz uma observação bastante pertinente, e crítica, sobre tal ideia:

“Além disso, a Estrada de Ferro D. Pedro II foi a maior empresa brasileira em sua época, superando em volume de capital o Banco do Brasil, fato que nos permite suspeitar que deva ser simplista e apressada a conclusão de que um empreendimento de tal porte, gerado pela associação entre um Estado escravista e o imperialismo, estivesse ocupado em solucionar problemas de transporte dos pobres do Rio de Janeiro da segunda fase do século XIX” (p. 124).

Esta obra do professor Nelson da Nóbrega Fernandes, igualmente um dos organizadores de outro trabalho excelente sobre o subúrbio (“150 anos de subúrbio carioca”, Editora Lamparina, 2010), é um destes livros que todo carioca apaixonado pela sua cidade deve manter em sua estante ou na mesinha de cabeceira. Fernandes contribui significativamente para desmistificar uma série de preconceitos que ainda ronda a ideia de subúrbio no contexto carioca, além, é claro, de nos oferecer a oportunidade de compreeender a cidade em toda sua complexidade, e não apenas em suas concepções reducionistas.

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