O elegante da Tijuca nos anos dourados

07 julho 2011 | 11 comentários

Conjunto de ruas ao lado do Colégio Militar resguarda o melhor da arquitetura no bairro


por Pedro Paulo Bastos

Mesmo numa das partes mais barulhentas da Tijuca, a Rua Professor Lafayette Côrtes consegue ser silenciosa.

Mapa do entorno
Em um dos trechos mais movimentados da Rua São Francisco Xavier, na Tijuca, um pequeno posto de gasolina de esquina abastece um montão de carros, no meio de outros que, ao serem lavados, também acabam recebendo algum tipo de serviço mecânico. Do outro lado da calçada, lojinhas familiares compartilham o térreo de um edifício alto, composto de pastilhas em diferentes tonalidades de azul. Não há a existência de placa-pirulito que identifique a rua, mesmo que ela desemboque na São Francisco Xavier, a principal da região. Aliás, ninguém daria nada pela rua, pois, verdade seja dita: ela não leva a lugar algum… relevante.

Essas ruas são as melhores, pois são menos previsíveis do que as já muito circuladas e badaladas. E também, até onde o meu conhecimento de geografia-urbana-carioca me permite afirmar, eram justamente nesses “cantinhos” onde se construíam as melhores casas no passado, de forma a oferecer uma certa qualidade de vida e um ar mais interiorano, de serra, oferecido pela natureza própria da cidade. A rua em questão é a Professor Lafayette Côrtes, incrustada entre o terreno verde do Colégio Militar e a sua pedra, a Pedra da Babilônia, melhormente conhecida pelos tijucanos do que pelo resto dos cariocas. Já conhecia a rua, mas, ao fotografá-la e observar melhor os seus detalhes, pude comprovar a tal teoria de que alguns cantinhos do Rio realmente são bem aprazíveis e surpreendentes.


O conjunto de ruas formado pela Professor Lafayette Côrtes, General Marcelino e, mais adiante, a Rua Dulce, é abraçado pela Pedra da Babilônia (à esquerda, ao fundo).

Linhas retas,
janelas grandes
Tenho fascínio por prédios antigos, desses construídos em meados do século XX. Na minha opinião, são bonitos, têm desenho sofisticado e com apartamentos gigantescos. Tá certo que muitos estão ultrapassados em relação às exigências atuais, como falta de elevador e garagem; mesmo assim, continuam sendo muito mais elegantes que esses edifícios surgidos recentemente, na década de 90, com varandas de vidro e/ou espelhadas. A Rua Professor Lafayette Côrtes consegue livrar-se da esquisitice da sua esquina com a São Francisco Xavier em poucos passos adentro, onde estão, consideraria eu, os melhores edifícios da Tijuca dentro do critério descrito inicialmente.

Conversando com o meu irmão, que é arquiteto (logo, melhor entendedor no assunto do que eu), ele estava me mostrando que embora os prédios da Lafayette Côrtes sejam bonitinhos – apesar dos ares decadentes -, nenhum deles é pertencente a um estilo arquitetônico muito definido. Confesso que não sei identificá-los muito bem; para mim, toda casa ou edifício de linhas mais retas simétricas, um vitral comprido ao longo da fachada com nome do imóvel em letras meio animadas ou em anagrama, eu já acho logo que é art déco. Nem sempre é assim. Possuir elementos de um determinado estilo não quer dizer que ele seja totalmente incorporado nele. Nessa rua da Tijuca, por exemplo, muitos prédios têm elementos, mas poucos se afirmam como tal.


Prédio com varanda em coluna e arcos contém elementos ecléticos, mas precisa de recuperação. Ao lado, edifícios siameses já quase no encontro com a Rua General Marcelino.

Poderia até me atrever a dizer que alguns nasceram como art déco ou em estilo eclético, embora, hoje, estejam descaracterizados a ponto de não se reconhecer mais a sua proposta inicial. Isso se reflete na substituição de janelas diferentes das originais, destoando do desenho-padrão; na inserção de grades nessas mesmas janelas; no fechamento das varandas abertas com vidro, uma reação compreensível perante a violência urbana; na má conservação das fachadas… Enfim, perderia uma tarde aqui enumerando todos esses detalhes.


Os azulejos são herança portuguesa. No topo, uma espécie de galo em chapa de ferro enfeita, como se estivesse cantando ao amanhecer.

Edifício Cibrasil
Entretanto, lá na curvinha da Rua Professor Lafayette Côrtes com a Rua General Marcelino está uma das maiores preciosidades já vistas por mim nessa região: o edifício Cibrasil, no número 156. De estilo eclético, a sua entrada é ornamentada por um portão elegante, de ferro, com detalhes dourados em formato de ondas. Ora lembram um caracol, ora uma série de bigodes bem penteados, ou o que a sua imaginação preferir. Esse parte da entrada se assemelha a uma torre, com ondulações na fachada sob o portão, além de um vitral que se estende até o seu topo. Os espaços entre as ondulações são preenchidos por azulejos floridos, dando um aspecto bem lusitano ao conjunto. Para completar, lá em cima, no telhado em formato de círculo, um galo de ferro com bico apontado para o céu. Aviso logo: se vagar apartamento ali, é meu!

Observe o esmero com que foi produzido os detalhes do portão. É uma obra de arte, numa época onde cada imóvel construído era distinto dos demais, reforçando as suas particularidades.

Panorama da Rua General Marcelino, com a Praça Dulce ao fundo.

Acrescentando, por ser uma rua de imóveis antigos, não poderia deixar de lhes dizer que é uma rua idosa também. Estava por ali no período da manhã, e um monte de senhorinhas passavam arrastando seus respectivos carrinhos de feira com sacolas e frutas. A movimentação fica por conta também dos alunos do Colégio Militar, impecavelmente uniformizados, a boina vermelha caída levemente para a direita da cabeça. Em tempos de frio e chuva como agora, eles andam com umas botas pretas até um pouco abaixo do joelho, daquelas típicas de quem pratica hipismo. Além disso, os seguranças e os porteiros de prédios da rua foram muito simpáticos e brincalhões comigo. Eu, inclusive, passei ali dois dias depois de ter tirado essas fotos e mesmo assim eles me reconheceram, cumprimentando-me e fazendo poses de como quem está fotografando.

Para finalizar, insisto no meu discurso: é preciso preservar a arquitetura das ruas. Não se pode descuidá-las, nem substitui-las por qualquer outra coisa. O que seria de muitas cidades europeias se seus edifícios não fossem preservados nos mínimos detalhes? Essa consciência precisa brotar aqui pelo Rio. Ainda que estes não sejam prédios públicos, eles fazem parte da nossa história e merecem receber uma atenção especial, assim como um melhor esclarecimento aos seus moradores sobre sua importância.

Opiniões diretas: asruasdorio.contato@gmail.com


Veja mais imagens da rua pelo link abaixo


Edifícios de até três andares, com apartamentos no térreo. Sem elevadores e com garagem restrita, embora muito charmosos.


Esse fica na Rua General Marcelino. Suas cores alternam entre o verde claro e um tom meio pastel. Tem muro baixo, janelas com venezianas e varandas abertas. Uma delas já fora fechada.


Exemplos clássicos de prédios descaracterizados. Na segunda imagem, o edifício Cibrasil II parece ter sido algo de art déco no passado, mas hoje não passa de remendos.


Esse tem formato circular e fica em frente à Praça Dulce. Muito simpático.

Detalhe do poste antigo, já quase carcomido pela má conservação. Impressiona-me o detalhes cuidadosos não só da arquitetura da época como do mobiliário urbano.

Praça Dulce, com a torre amarela do hipermercado Wal Mart ao fundo.



Tags: | | | | Publicado em: Arquitetura e Paisagismo | Rua a Rua
Comentários
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  • Marcela da Silva

    Morei na rua Professor Lafayette Côrtes 155 de 1980 até 2000 ...foram os melhores anos da minha vida e o lugar é mt tranquilo e seguro! saudades mil!!!!

  • valter moreno assunção Filho

    Rua General Marcelino-Tijuca-RJ. É a rua em que moro há 30 anos entre o 73 e o 49. Local excelente.

  • Patricia de Almeida

    Fiquei muito emocionada ao ver as Ruas da minha infancia e juventude na Veja Rio!Somos uma grande irmandade,assim podemos dizer,de mais de 200 amigos que cresceram juntos por entre essas ruas e hoje nos temos o face ;Rua Dulce(RD eternamente),não fazem ideia da emoção que nos causaram!Eternizaram nossas vidas! Muito obrigada! Eu morei na Rua General Marcelino,no prédio de escadas em diagonal de pedras.

  • Antonio Jorge

    Morei na Lafayette Cortes desde meados da década de 70 até o início dos anos 90. Não existia melhor lugar para morar na Tijuca. Foram 3 gerações de amigos que perpetuaram a boa reputação daquele pequeno trecho de tranquilidade.

  • Vitor

    Eu já morei nessa rua, realmente ela é silenciosa, bonita (tem um charme só dela) e traz muitas lembranças!!

  • Sonia Teixeira

    Parabens pelo blog!!!! Me deu um no na garganta de tanta saudade!!! Sabe quando voce era feliz e nao sabia???? Pois eh, moramos, eu, meu marido e meu filho na R.Gal. Marcelino, 25! Tenho uma prima que ainda mora la! Foi um tempo MARAVILHOSO na nossa vida!!!! Obrigada!!!!!

  • Laci Duarte Rosa

    rua Gen Marcelino no edifício de formato circular de 1964 até 1970. Lá moraram A Beth, Alcy, Sheila, Edilza,O Paulo que mora até hoje. Sinto muito saudad das festas juninas que fazíamos lá na quadra no final da rua.

  • Luiz Fernando

    Nasci e me criei na rua Dulce prédio 243. Em 1973 e Sai de lá no final dos anos 80. Ainda não vi lugar como aquele, onde dezenas de crianaças passavam os finais de semana brincando na rua, um tempo inacreditavelmente tranquilo e alegre. As festas juninas de dar inveja e as pinturas da copa. Saudades do pipoqueiro Otávio que me viu crescer. Lembranças boas.

  • Alexandre

    Morei na Rua Dulce, por uns bons 10 anos, até que decidi comprar um apartamento e optei por um prédio moderno num condomínio grande. A única coisa que tenho a dizer é que às vezes sinto muita falta deste clima bucólico desta região... Como era tranquilo e silencioso este lugar...

  • Eldo Bastos (Jundiaí-SP)

    Sábado pela manhã, fazendo minha caminhada pelo bairro, enquanto aguardava o início da festa de aniversário de uma certa senhora tijucana, pude constatar, "in loco", a beleza e a conservação do local. Tempos em que a Tijuca possuía muito mais pompa e circunstância.

  • Igor

    Ótimo post, uma vez fiquei olhando essas ruas pelo Google Maps para conhecer....não imaginava uma rua dessas tão próxima do movimento da São Francisco Xavier.....