Centro do Rio, 17 horas e 30 minutos

22 junho 2011 | 3 comentários

Um breve panorama da dinâmica do Centro ao atardecer


por Pedro Paulo Bastos

A Avenida República do Paraguai ainda com trânsito calmo e silencioso



Segunda-feira, 17h30. A movimentação de pedestres pelas ruas do Centro do Rio se alimenta por faixas específicas de horário, definindo, inclusive, o perfil destes pedestres de acordo com a rua ou praça por onde estejam passando. É por essa razão que eu consideraria o nosso Centro como um conjunto de Microcentros, cada qual com suas funcionalidades, similaridades em serviços e em aparência das pessoas que trabalham e transitam em seus limites.

Ganso no lago do Teatro
Nelson Rodrigues

É sério, repare bem: nos arredores da Rua Uruguaiana com a Avenida Presidente Vargas, a maioria das pessoas se veste mais informalmente, não só pelos diferentes níveis e tipos de serviços prestados por ali, como também pela própria informalidade de alguns deles. Dirigindo-nos para outra localidade do Centro, as avenidas Graça Aranha e Presidente Antônio Carlos, será mais comum deparar-se com homens de terno e gravata, e a inseparável maleta de couro a tiracolo. Aquela pinta de “homem da lei”, representada bem por advogados. Do outro lado da Rio Branco, talvez a área mais moderna do Centro, localizada onde era o antigo Morro de Santo Antônio, os trabalhadores que circulam pelas avenidas (República do) Chile e Paraguai são majoritariamente funcionários do BNDES ou da Petrobras. Executivos se misturam entre os outros empregados públicos muito bem-vestidos, embora não tão impecáveis como os advogados do Castelo.

 

 

Rodeada de edifícios empresariais – muitos deles de grandes empresas públicas, como o BNDES (à esquerda) -, a República do Paraguai aguarda a primavera para ver florescidos os abricós-de-macaco.



Diariamente cruzo a Avenida República do Paraguai, sendo o horário das cinco e pouquinha o meu preferido. Não só porque é a hora de voltar para casa; é que eu acho curiosa essa forma como as pessoas se comportam no final do dia, como conseguem dar um toque diferente à movimentação da calçada, bem diferente da mesma ocasionada pelo horário de almoço. E isso acaba se refletindo, de algum jeito, em como enxergamos os edifícios e construções ao redor. É uma onda de transições: o azul-claro do céu adquire tonalidades mais escuras, a ocupação da faixa de pedestre deixa de ser pouco para muito intensa, os pontos de ônibus passam de vazios para cheios, o prédio da Petrobras (que parece um amontoado de pecinhas de Lego) acende todas as suas luzes, assim como a Catedral, que ganha iluminação especial colorida.

A Avenida República do Paraguai é um dos endereços mais recentes do Centro, pois surgiu através do desmoronamento do Morro de Santo Antônio, entre o fim da década de 1950 e início de 1960.


A volta para casa
Quem perpassa pela ponte da Avenida Paraguai, por cima da Chile, consegue avistar várias cenas tipicamente cariocas. Filas, muitas filas, filas para tudo. Fila para entrar no ônibus que vai para Santa Cruz, fila para o pipoqueiro – o cheiro de bacon misturado na pipoca salgada é irresistível, mas de qualidade incerta. Perto dali também tem fila para a Casa Lotérica. Ultrapassando o “mirante”, tem-se a entrada para a Catedral, onde é possível conviver com outros personagens bem cariocas: os gringos. Estão ali, com suas Nikons presas em torno do pescoço, rosto vermelhos em demasia sob tiras brancas bem fininhas de protetor solar. Se não pegarem um táxi de volta para o hotel, sofrerão para embarcar na estação Carioca do metrô, já à todo vapor.

A Avenida Paraguai vai ficando bem deserta a medida que se afasta da Avenida Chile, mesmo que ela desemboque nos Arcos da Lapa, a área de maior movimentação noturna do Centro. Antes disso, passar por baixo da estreita ponte que comporta os trilhos do bonde para Santa Teresa dá um pouco de medo. Ele é sustentado por um gramado íngreme (talvez resquício do Morro de Santo Antônio), meio sujo, local de desabrigados e de cachorros vira-latas. Ora, ora, um Centro tão moderno perto dali convivendo com tamanho abandono do outro lado. Fincado nesse pequeno aclive verde-amarronzado, uma placa grande da Prefeitura informa sobre a “Reurbanização da Lapa”. É o que todos queremos.

 

As faixas de horário posteriores à que foi relatada transferem toda essa movimentação de pedestres justamente para lá, a Lapa. O perfil das pessoas – como se vestem, como gastam, qual a marca preferida – que transitarão por lá também será determinado de acordo com os ponteiros do relógio, dentro deste microcentro. Agora, detalhes à declarar, deixo para uma próxima oportunidade, quando eu não resolver voltar para casa, continuando pelo Centro.

O gramado da Praça Cardeal Câmara, que acompanha grande parte do traçado final da Avenida República do Paraguai, com os Arcos da Lapa ao fundo.




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Comentários
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  • Gabriel

    Muito interessante seu post ao analisar a dinâmica do centro do Rio. Um espaço que pra alguns é apenas o local de trabalho, mas que é de uma riqueza ímpar.

  • Nelma

    Pedro, gostei muito deste post. Com sua caracteristica observadora, você conseguiu traduzir um estilo pessoal de perceber o mundo a sua volta, mesmo querendo voltar para casa. Que bom que você não se contaminou pela pressa e falta de percepção da maioria das pessoas que com hora marcada não percebem a iluminação do sol, dos prédio, as das outras pessoas traduzindo a sua direção ou preocupação. Parabéns!

  • Aline T.K.M.

    Passando aqui para prestigiar o blog, agora parte da Veja! Todos esses prédios imensos, as janelas espelhadas, assim como em SP, é motivo de orgulho para muitos. Particularmente, gosto desse visual, mas não sou das maiores admiradoras. E é engraçado mesmo, o relógio determina até o estilo das pessoas que vemos nas ruas em determinados locais. Mas seja através do transporte público ou não, na hora do rush, algo tão simples como voltar para casa certamente se transforma em uma dor de cabeça para todo mundo.