Postado em 04/06/2012 por Pedro Paulo Bastos
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Bairro de Fátima

Um passeio pela Praça Presidente Aguirre Cerda e a Avenida Nossa Senhora de Fátima, a principal do bairro


A Praça Presidente Aguirre Cerda vista do alto de uma das escadarias que a circundam, no Bairro de Fátima: oásis em meio ao caos do Centro.

por Pedro Paulo Bastos


Uma praça de desenho circular, com trânsito no sentido rotatório, rodeada de prédios residenciais antigos bem conservados. Duas pequenas ruelas a circundam, uma de cada lado, finalizadas por duas escadarias. Arborização abundante, aconchego como consequência. O panorama poderia se encaixar perfeitamente em algum cantinho bucólico de Laranjeiras ou do Bairro Peixoto, mas não. A Praça Presidente Aguirre Cerda é o eixo central do simpático Bairro de Fátima, que, para mau conhecedor desse nosso Rio de Janeiro, soaria quase como uma piada ao descobrir que a região em questão está no Centro da cidade, colada à Lapa, mais conhecida pelo seu caótico movimento 24 horas por dia. Aliás, não é só essa questão. Lá pela Rua Riachuelo, por onde se inicia o Bairro de Fátima, além do caos todo que lhe é peculiar, até pouco tempo esse ambiente tinha uma certa promiscuidade, que tem se dissipado ao longo desses últimos anos com a revitalização da Lapa. A cultura do lugar feio, no entanto, ainda paira um pouco pelo ar devido ao aspecto de abandono impregnado aos sobrados do Centro, além de um ou outro mendigo que circula por essas bandas.


Uma das ruelas no entorno da praça, que se originam no alto de Santa Teresa, conectando-se ao Bairro de Fátima por uma escadaria.

Logo, ter essa imagem na mente, que é um estereótipo da parte “velha” do Centro, e se deparar com um bairro tão aprazível como o de Fátima a poucas quadras da muvuca, é uma surpresa agradável. Há muitos anos já tinha ficado surpreendido com a qualidade de vida de lá quando fui estudar no apartamento de uma amiga na Avenida das Graças, uma pequena ruazinha transversal à Avenida Nossa Senhora de Fátima. O prédio excelente; a casa, idem, bem como a vizinhança. Dessa vez, com mais tempo disponível para explorar o local, fiquei bastante contente em constatar como o Rio de Janeiro ainda consegue conservar bairros com jeito de bairros-comunidade, desconsiderando o sentido pejorativo da palavra “comunidade” incorporou. Aquele clima familiar, em que as pessoas se conhecem e se cumprimentam, em que a padaria (e o seu dono) é a mesma há décadas… Enfim, o tipo de lugar em que a praça é a área de congregação.


Apesar do Bairro de Fátima ter uma certa inspiração lusitana, o nome da sua praça principal é em homenagem a Pedro Aguirre Cerda, ex-presidente do Chile na primeira metade do século XX.


Ruas agradáveis para se caminhar com os cãos, embora em todas as árvores haja uma advertência quanto aos bons modos para xixi e cocô.

Se por um lado a gente critica à beça a prefeitura, por qualquer motivo, por outro, pouco elogiamos algumas ações efetivas da parte dela, que têm sido motivo de sucesso. A academia da terceira idade, instalada de norte a sul em um monte de praças, com seus equipamentos de ginástica verdinhos, é um exemplo. Na pracinha do Bairro de Fátima, a Presidente Aguirre Cerda, a academia pareceu ser muito popular e bem utilizada por seus frequentadores, a grande maioria formada por idosos, que compartilham espaço com as crianças que (salve, salve!) têm a oportunidade de se divertirem em um playground bem mantido e aparentemente limpo. A luz do sol incindindo sobre as folhas das árvores emite um verde quase fluorescente, o que permite que muita gente fique ali parada, sentada, vendo o tempo passar, sem muitas preocupações.


A linha C-10, que circula entre o Bairro de Fátima e a Central do Brasil, é a única linha a percorrer a Avenida Nossa Senhora de Fátima.


Churrasco a céu aberto em um dos botequins do bairro. Ao lado, a esquina da Avenida Nossa Senhora de Fátima com a Avenida das Graças.

As escadarias, localizadas nas extremidades de ruelas transversais à praça, como a Rua Guilherme Marconi, levam o pedestre a um bairro também tradicionalíssimo do Rio de Janeiro: Santa Teresa. O alcance à Rua Cardeal Dom Sebastião Leme, ou à parte mais alta da Rua Monte Alegre, é realizado sem muitos esforços por essas escadas, constituídas de poucos degraus em comparação à Escadaria Selarón, na Lapa, que requer certo fôlego, apesar dos azulejos coloridos. Santa Teresa, com seu caráter alternativo-artístico-gringo, colabora com a multimiscignenação de pedestres pela Praça Presidente Aguirre Cerda e ao longo da Avenida Nossa Senhora de Fátima. Por lá, veem-se circulando pessoas com aspecto mais arrumadinho-moderninho em meio a uma galera mais riponga, enquanto senhorinhas passeiam com seus carrinhos de feira entregando esmolas a pedintes, largados e sujos pelas esquinas. Um caucasiano, branco como o leite e louro como o sol, conversa em portunhol com um hermano sul-americano, provavelmente artesão, de traços indígenas com um emblemático corte de cabelo no estilo mullet. O pai ensina ao filho, de no máximo sete anos, a atravessar a rua da maneira correta, antes que a linha C-10 avançasse. No botequim mais próximo, o senhor de idade (short, camiseta e pochete cruzada) celebra a vida aos berros. O copo é de geleia, e claro, quase transbordando de cerveja, e sem o colarinho.


Um detalhe curioso do Bairro de Fátima é que, apesar dos moradores contarem o comércio multivariado da Rua Riachuelo, ele tem seu comércio próprio ao longo da Avenida Nossa Senhora de Fátima. Agências bancárias, lavanderias, salões de beleza e de costura, padaria, clínicas médicas, lanchonetes, uma filial do Mundo Verde, pet shop. Avistei uma lan house também. Os botequins são quase uma regra por lá. A familiaridade é tanta com eles que até churrasco a céu aberto um deles promoveu naquela manhã de sábado. Aquele cheiro de carvão misturado ao tempero das carnes estava irresistível. O falatório aumentava a medida que novas linguiças saim do espeto. Falando em comida, no entorno da Praça Presidente Aguirre Cerda, por exemplo, há restaurantes simples, que servem comida caseira – comumente os que oferecem as melhores comidas! Completando o conjunto, uma escola (a Escola Municipal Guatemala), e o que não podia faltar, uma capela! É ou não um bairro completo, que atende bem as necessidades cotidianas?


O encontro da Avenida Nossa Senhora de Fátima com a Rua Riachuelo, uma das principais vias do Centro e da Lapa, que agora é bairro oficial.

No entanto, a iluminação é escura, quase sombria, em função de tantas árvores altas que ficam juntinhas, como irmãs. Os edifícios ao longo da Avenida Nossa Senhora de Fátima lembram os das ruas transversais de Copacabana. Antigos, com um certo ar de imponência, embora levemente decadentes, o que não os desvaloriza diante da procura animal por imóveis bem localizados na cidade. Senti que parece ser difícil vagar algum espaço pelo Bairro de Fátima. É um oásis em meio ao Centro do Rio, a poucos minutos da zona sul e da zona norte, colado ao desenvolvimento comercial e de entretenimento da Lapa. Quem mora, gosta muito, não sai. Cá entre nós, eu também não sairia.

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O As Ruas do Rio é parceiro da edição carioca do Wallpeople 2012 (wallpeople.org). Você que curte arte e fotografia, seja amador ou profissional, participe do Wallpeople levando suas criações. Vamos criar um grande mural de fotos, colagens, pinturas, desenhos, etc, relacionados ao tema “Express Yourself (Autoexpressão)”. A ideia é criar uma exposição a céu aberto, intervindo no espaço urbano e promovendo um encontro entre pessoas. Mais de 32 cidades ao redor do mundo estarão participando simultaneamente!

Dia 9 de junho de 2012, das 15h30 às 17h30, na esquina da Avenida Heitor Beltrão com a Rua Alzira Brandão, na Tijuca. Bem ao lado do Teatro Ziembinski, quase em frente à estação São Francisco Xavier do metrô.

Mais informações sobre o evento no Rio de Janeiro aqui. Sobre informações do evento desde sua criação, com entrevista aos criadores, os publicitários espanhóis Pablo Quijano e David Marcos, de Barcelona, assista ao vídeo exclusivo aqui neste link.

Comentários sobre "Bairro de Fátima" | Comente

  1. Nelma comentou em 05/06/2012

    Fiquei com agua na boca. Parabéns, Pedro, pelas descobertas cariocas.
  2. Pablo comentou em 08/06/2012

    Pô, fiquei feliz em saber que o As ruas do Rio viraram parceiro do WallPeople! Pena que só descobri agora. Sempre frequento o blog desde o Blogspot, mas pouco comento (a última vez foi quando descobri que a Freguesia era um bairro e não um sub-bairro). Aqui descobri muito mais do Rio de Janeiro que optei por morar. Legal você ter apoiado este evento. Abração e sucesso!
  3. Rita Costa comentou em 28/07/2012

    Acho que a pessoa que escreveu sobre o bairro de Fátima não conhece a muito tempo o centro residencial de lá. Morei lá mais de trinta anos e nunca vi caótico movimento 24 horas por dia. Aliás, não é só essa questão. Lá pela Rua Riachuelo, por onde se inicia o Bairro de Fátima, além do caos todo que lhe é peculiar, até pouco tempo esse ambiente tinha uma certa promiscuidade, que tem se dissipado ao longo desses últimos anos com a revitalização da Lapa, ao contrário o caos se intalou agora, com muito barulho devido aos bares, etc,etc..., quem mora no B. Fátima não precisa a noite topar com os atropelos da Lapa, e da Glória. Vc que escreveu esta infeliz reportagem, está desenformado. Bairro de Fátima sempre foi um lugar especial e muito gostoso, prazeroso, e pratico de se viver!
  4. Pedro Paulo Bastos comentou em 29/07/2012

    Oi, Rita. Como vai? Vi seu comentário no meu blog sobre a crônica que escrevi sobre o Bairro de Fátima. Obrigado por me visitar! Fiquei um pouco confuso em relação ao que você escreveu pois acho que você não fez uma leitura cuidadosa. Em nenhum momento falei que o Bairro de Fátima era um lugar ruim de se viver, muito pelo contrário. Fiz uma bela defesa sobre lá, incluindo a disputa que existe para se conseguir um apartamento vago ao longo da Nossa Senhora de Fátima. Quanto ao "movimento caótico 24 horas por dia", me referia à Lapa, não ao Bairro de Fátima. O Bairro de Fátima, diferente da Lapa, tem comércio residencial, que atende exclusivamente aos moradores; em nada se parece à vida noturna da Lapa, que fecha ruas e um monte de gente vai para lá (eis o caótico aí). A promiscuidade na Rua Riachuelo é um fato, mas eu imagino que isso nunca tenha sido um empecilho para se viver uma vida de qualidade no Bairro de Fátima. Afinal, Copacabana até pouco tempo era um lugar altamente promíscuo e isso nunca foi um problema para que famílias vivessem tranquila e prazerosamente. Peço que releia a crônica, até o final, para ver que não sou tão desinformado assim. Até porque, sou frequentador do bairro. Um abraço!
  5. Vinicius comentou em 25/10/2012

    Olá Pedro. Muito legal seu relato. Acho que vc pegou bem o espírito. Depois de um bom tempo procurando, encontrei um apto na praça, onde estou faz alguns poucos meses. O Bairro é realmente agradável e tem a praticidade de ter um comércio próprio e o Centro do Rio logo ali. Ainda estou me acostumando com algumas coisas que não reparei antes de vir morar aqui: é um bairro muito barulhento! Na verdade, o grande problema aqui é que, como a praça é cercada de prédios, o todo o barulho da praça fica preso e dá eco dentro dos apartamento. O meu é um deles. Há um pouco de falta de respeito também dos bares, que em alguns fds ficam com som alto até tarde. Acho que a melhor rua do bairro é a Rua das Graças. Lá parece ser bem silencioso.
  6. Christiane comentou em 07/11/2012

    Adooooro o bairro de Fátima! Gosto bastante do centro do RJ, pra mim é onde tá todo o burburinho, os melhores bares, restaurantes e festas. Recomendo muito morar tanto lá quanto em Santa Teresa, que é outro bairro super legal e com gente bacana (os preços não são dos piores encontrados no RJ, segundo o ImovelVIP: <a href="http://imovelvip.com.br" rel="nofollow">http://imovelvip.com.br</a>). Abraços! Adoooooooorei o post, de coração!
  7. Sãmira comentou em 29/05/2013

    Parabéns pelo Post, eu resido no Bairro de Fatima em frente a rua das graças e realmente é tudo isso que vc falou, mas da forma que vc escreveu abrilhantou ainda mais o Bairro.
  8. Fausto Josè Gomes Vieira comentou em 28/12/2013

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  9. Maria da Graça Guedes Halinski comentou em 15/02/2014

    Morei há muito tempo no Rio,exatamente no Bairro de Fátima na época adolescente.Brinquei Namorei nessa Praça,AMO o Bairro é exatamente tudo que disseste,hoje moro tão longe(Manaus AM)morro de saudade!
  10. Rachel Paula comentou em 19/02/2014

    Aqui no bairro de Fátima temos uma uma convivência que em muitos bairros no subúrbio carioca já se perdeu. Nos conhecemos, conversamos, trocamos idéias. Amo este bairro!
  11. ANA CRISTINA BARROS comentou em 20/05/2014

    NASCI E FUI CRIADA NESTE BAIRRO MARAVILHOSO, MAIS O DESTINO NAO QUIZ Q FICASSEMOS MAIS AI. ENTAO MUDAMOS P/ O ES. SOU FELIZ AQUI + SINTO MUITAS SAUDADES DESTE LUGAR!!!
  12. ANA CRISTINA BARROS comentou em 20/05/2014

    AMOOOOOOOOOOOOOO DE PAIXÃO ESTE BAIRRO!!! FUI NASCIDA E CRIADA AI, ESTUDEI NO COLÉGIO GUATEMALA. TIVEMOS QUE MUDAR P/ O ES. SINTO TANTAS SAUDADES Q ATE CHORO QUANDO VEJO FOTOS DESSE LUGAR MARAVILHOSO!!!

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