Aníbal

27 outubro 2011 | 3 comentários

A Rua Aníbal de Mendonça explica um pouco o porquê de Ipanema ser um dos bairros mais cobiçados do Rio



Ruas com jeito de alameda faz do bairro um dos mais procurados por cariocas e turistas

 

Pegue um mapa do Rio e um lápis. Sinalize, agora, com a ponta dele, o local dos seus sonhos aqui no município, aquele que faz o seu coração bater mais forte, que integra todo tipo de entretenimento adorável. Provavelmente o seu lápis deslizará para a faixinha de terra entre a Lagoa Rodrigo de Freitas e o oceano Atlântico. Gosta de praia? Vai, posiciona esse lápis melhor, até que ele fique mais próximo ao Posto 10. Sugestão? Pule a Garcia D’Ávila e meta-se logo à Rua Aníbal de Mendonça, o core de Ipanema, onde está o melhor do seu burburinho. Sem mais puxa-saquismos, pretendo apenas ratificar o charme e a bossa desse lugar, que é o sonho de consumo de muitos cariocas e turistas, sem dúvida.

De antemão, já temos um símbolo magnífico na Rua Aníbal de Mendonça, que é a sua esquina com a Vieira Souto, a mais invejada das avenidas. O valor estratosférico do metro quadrado é justificado, claro, pela presença do marzão que a margeia. A relação da praia com a nossa rua em questão é que ela se inicia exatamente no melhor trecho da Vieira Souto, ou melhor, na melhor parte da praia de Ipanema. Pelo menos em minha opinião o Posto 10 é imbatível, longe de quaisquer tipos de bagunça. Percepção e preferência minha, há quem possa discordar.

Além disso, para gostar da Rua Aníbal de Mendonça você tem que simpatizar-se, acima de tudo, com as coisas sofisticadas – entre elas, muito comércio no estilo frufru. Delicatessens e lanchonetes, dessas tituladas de comidinhas rápidas, funcionam no modelo “bunda de fora”. Uma maneira inteligente de comportar um empreendimento por um custo mais razoável em um mercado sedento por novidades. Aliás, o nicho comercial da Aníbal é um prato cheio para empresários que apostam no foco em diferenciação. O público é variado e disposto a pagar mais por produtos triviais entre outros de melhor qualidade, como pizzas artesanais e roupas de grife. Assim, o cara pão-duro deve passar longe de lá, pois uma garrafa de água consegue custar o dobro (ou o triplo) do que na Uruguaiana ou até mesmo no vizinho bairro de Copacabana.

Um dos detalhes mais adoráveis da Aníbal de Mendonça são os jardins suspensos. Em todas as quadras, desde a Vieira Souto até a Epitácio Pessoa, o tronco das árvores foram cuidadosamente enfeitados com pequenos vasos de flores, na altura perfeita para livrá-los do vandalismo típico de alguns cidadãos. Aliás, são essas flores que dão o toque todo especial a rua, que não conta com muitos jardins por suas calçadas. Pelo menos não tão bem cuidados quanto os do Leblon, em grande parte mantidos por lojistas da Ataulfo de Paiva. A verdade é que o colorido das flores é um diferencial e por mais que nos deparemos com situações pouco agradáveis pelo caminho (leia-se cocô de cães), a presença das ditas cujas é suficiente para injetar, de forma imaginária, um perfume de jasmim nessas agruras urbanas.

A sofisticação da Rua Aníbal de Mendonça tem mais a ver com o comportamento de quem circula por lá, pelo comércio instalado e pela pouca quantidade de sujeira tão peculiar às ruas do Rio do que pela sua arquitetura. Os prédios de Ipanema não chegam aos pés dos de Copacabana, bairro-símbolo da arquitetura glamurizada, típica dos anos 40 e 50. Ipanema, apesar de sua condição de bairro favorito hoje, verticalizou-se em um momento de mediocridade arquitetônica. Os novatos são moldados no perfil de edifícios da Barra da Tijuca, com varandas espelhadas. É o hit dos lançamentos imobiliários e o carioca valoriza esse modelo. Eu não. Aqueles levantados na década de 70 fazem o estilo insosso, não têm nada muito chamativo; são apenas blocos de concreto com janelas. Por sua vez, algumas joias podem ser encontradas lá pelas ruas Redentor e Nascimento Silva, assim como a presença de poucas e graciosas casas convertidas em butiques.

Voltando ao tópico “comércio”, é preciso reconhecer que as lojas de nível mais alto são um chamariz de pessoas elegantes e, como efeito, muito bonitas. A elegância dos que circulam por Ipanema é diferente, por exemplo, das também elegantes senhoras que circulam pela Oscar Freire, em São Paulo. É um elegante informal, suave, que cai bem com o perfil do bairro, mas que não combina, por exemplo, com o climão do Centro do Rio. Ou seja, como prega a mídia, Ipanema dita moda e uma é inerente a outra.

Bom, conclui-se que não é à toa que todos querem Ipanema. Diante do panorama meio decadente e largado dos outros bairros da cidade, uma imersão pela Rua Aníbal de Mendonça é colírio para os olhos.


O charme dos jardins suspensos e as lanchonetes em estilo “bunda de fora”.

 

O cruzamento da Aníbal de Mendonça com a Rua Prudente de Moraes e a esquina com a Visconde de Pirajá, onde há uma colorida venda de flores e plantas.

 


O trecho nas imediações da Rua Redentor é calmo e com ares de cidade do interior.

 

asruasdorio.contato@gmail.com


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Tags: | Publicado em: Bairro a Bairro | Canteiros e Jardins | Rua a Rua
Comentários
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  • Pedro Paulo Bastos

    É, esse caso da arquitetura dos dois bairros é bem engraçada mesmo, mas eu enxergaria esse panorama de uma forma mais branda. Os edifícios luxuosos de Copacabana foram construídos numa época onde havia a presença de muitas casas no bairro. Copacabana transformou-se num dos bairros "mais horrorosos" da zona sul, como você afirma, com a inserção de prédios em estilo bloco de concreto, sem nenhum detalhe arquitetônico muito valioso. Foi aquela corrente mesmo de construir mais apartamento com menos espaço, de encher de gente mesmo. Isso foi a partir da década de 60/70, período em que Ipanema também começou a se verticalizar. Logo, Ipanema passou a receber edifícios mais ordinários, simples, como os que existem na Visconde de Pirajá, pouco notáveis, distantes do luxo do art déco de Copacabana, lá no Lido. A massificação de Copacabana foi tanta com esses edifícios menos glamurosos que até os prédios mais tradicionais enfeiaram, convertendo o bairro numa torre de babel, sem muito planejamento. Em compensação, Ipanema verticalizou-se de forma mais tardia, onde os edifícios mais novos são os mais bem construídos e arejados, enquanto os mais velhos são pouco simpáticos. O melhor exemplo é a Vieira Souto, que conta com prédios novíssimos, distinguindo-se da Avenida Atlântica, que não conta com esses apartamentos de varandas espelhadas. E aí que entra a tua observação: Copacabana, que era pra ser de luxo, virou um bairro meio sombrio, no estilo "concretão terceiro-mundo", enquanto Ipanema conseguiu destacar-se com um bairro mais arejado e mais simpático de se viver.

  • Hermes

    Engraçado que o "glamour da arquitetura de Copacabana" produziu um dos bairros mais horrorosos da zona sul. Uma natureza singular lotada de prediões em massa corrida aparente, no melhor aspecto "concretão terceiro-mundo", enquanto que a "decadência arquitetônica" de Ipanema produziu prédios AREJADOS e ILUMINADOS.

  • Eldo Bastos (Jundiaí-SP)

    Um bairro bucólico e tranquilo e que lembra mesmo uma pacata cidade de interior. Pedro, você está corretíssimo.