Sábado de protesto em Ipanema

22 outubro 2011 | 3 comentários

A Praça Nossa Senhora da Paz virou ponto de encontro para moradores contra a futura estação de metrô do local


“Não queremos metrô”: assim gritavam, em coro, os moradores e simpatizantes do manifesto na manhã deste sábado, 22.

por Pedro Paulo Bastos

Aproveitando o embalo da postagem anterior, aconteceu na manhã desse sábado um protesto na Praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, contra a estação de metrô que se construirá no local como expansão da Linha Um para a Barra. O evento foi liderado pelo Projeto de Segurança de Ipanema, que é um movimento voluntário criado pelos próprios moradores para preservar os valores tradicionais do bairro.

Ocorreu distribuição de panfletos, abaixo-assinado, “abraço” coletivo ao monumento central da praça e a presença de muitas equipes de reportagem. O encontro, no entanto, não foi agraciado com a adesão de muitos participantes, contrariando o percentual declarado pelo PSI de que 91,37% da população de Ipanema não tem posição favorável em relação à estação Nossa Senhora da Paz. O perfil de quem estava por lá era, majoritariamente, de mulheres e idosos, fortalecendo o argumento defendido pelo grupo de que a praça é um espaço de lazer para a terceira idade.

Eu sou contra a construção da estação do metrô considerando o fato de que defendo a preservação da linha original, licitada em 1998, pelo Humaitá e Jardim Botânico. Porém, como não há nada mais a mudar – o Estado já mostrou-se irredutível quanto a manter tal traçado para 2015 -, mostro-me favorável à construção de uma parada na Praça Nossa Senhora da Paz.


Manifestantes consideram o tombamento da praça como uma das razões para que não se intervenha por lá com as obras do metrô.

As associações de moradores oficiais e não-oficiais têm um papel muito importante na luta pela preservação dos bairros e na defesa dos seus interesses. O problema é  saber o limite entre interesse individual e coletivo, levando-se em conta diversos critérios de avaliação. Ipanema, além de residencial, é um bairro turístico, comercial e, por que não, empresarial. É gerador de empregos, um centro financeiro periférico. O metrô ali pode realmente não atender preferencialmente aos moradores, mas vai oferecer uma maior comodidade às pessoas que, de alguma forma, são ligadas à Ipanema. Pessoas que prestam serviços ao comércio e aos consultórios médicos do bairro; pessoas que curtem a praia e que também querem aproveitá-la; outras, inclusive, que se deslocam em busca de boas opções gastronômicas. Turistas, então, que facilidade para eles! Enfim, toda uma variedade de pessoas que contribui para o destaque de Ipanema como lugar badalado e financeiramente ativo.

Segundo o governo estadual, “a opinião de algumas poucas pessoas sobre uma obra que beneficiará milhares de usuários diariamente não representa a vontade da população do Rio de Janeiro”. E é verdade. Lutar pelos interesses do bairro não pode confundir-se com a ideia de que os moradores sejam donos dele. O papel dos moradores de Ipanema deve ser o de cobrar detalhes do projeto, como se realizará e como resultará. De que maneira serão preservadas as árvores, o mobiliário público, os monumentos. O que será feito para minimizar o impacto ambiental. Quais as medidas para conter possíveis desordens urbanas. São atitudes mais cabíveis no momento e a população de Ipanema tem força e apelo para tais exigências.


Para as pessoas que trabalham aqui e chegam de metrô, ou para aqueles que têm dificuldade de locomoção, ainda teremos o ônibus de integração. Este presta um ótimo serviço em menos de cinco minutos“, diz um dos panfletos entregue no evento. A questão é que, após a finalização do trecho General Osório-Gávea, o metrô na superfície deixa de existir,  pois não faria mais sentido. E os ônibus convencionais (ainda) não são integrados ao transporte metroviário.

asruasdorio.contato@gmail.com


Curta a página do As Ruas do Rio no Facebook!

Tags: | Publicado em: Bairro a Bairro | Estudos Sociais | Mobilidade Urbana | Parques e Praças

Por que os bairros ricos têm tanto medo do metrô?

21 outubro 2011 | 16 comentários

Saiba de que forma o metrô, ao longo dos anos, abalou o status dos bairros mais tradicionais da cidade 


Praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema: estação de metrô gerou polêmica.

por Pedro Paulo Bastos

Há alguns meses tivemos a oportunidade de acompanhar pelos jornais a polêmica instaurada em Higienópolis, região nobre de São Paulo, que estava por receber uma nova estação de metrô na Praça Buenos Aires, exatamente no centro geográfico do bairro. Grande parte dos moradores se mostrou contra o projeto. Em entrevista, uma moradora de Higienópolis alegou que uma estação na Avenida Angélica traria uma série de coisas negativas para o bairro, como tumulto, violência, mendigos, “gente diferenciada”. Outros apontaram que o bairro era muito residencial, que não havia necessidade de outra estação visto que já está por ser inaugurada uma outra na vizinha Rua da Consolação, podendo atender muito bem a demanda de passageiros de-e-para Higienópolis.

Aqui no Rio a situação anda um pouco parecida, principalmente após o anúncio de que a Linha Quatro (a que vai para a Barra) não passaria mais pelo Jardim Botânico, e sim pelos bairros da orla. Entre a estação terminal General Osório e a estação Gávea haverá mais três paradas metroviárias, exatamente numa das faixas de terra mais caras da cidade: Praça Nossa Senhora da Paz, Jardim de Alah e Leblon.

A contrariedade é grande e incide na defesa do traçado original da Linha Quatro em detrimento das estações novatas. Porém, outras razões têm sido apontadas para validar a iniciativa de que não se construa uma estação na Praça Nossa Senhora da Paz: “(…) Não somos contra o metrô, até porque Ipanema já tem uma estação. O problema é que mais uma vai descaracterizar o bairro. A Praça, além de ser tombada, é o pulmão de Ipanema, onde vão os velhinhos e as crianças. Imagina um metrô ali. Não dá“, alegou a coordenadora do PSI, Ignez Barreto, à coluna do Joaquim Ferreira dos Santos, de O GLOBO (20/10/11). Outro motivo defendido é o de que “o bairro é famoso pelo charme, comércio de alto nível e serviços sofisticados” e que a estação “afetará a segurança pública”.

Outros argumentos foram apontados na reportagem do GLOBO-Zona Sul, mas não pretendo discuti-los nem criticá-los. A minha indagação é a seguinte: por que os bairros ricos têm tanto medo do metrô?

Não posso falar por São Paulo, como no caso de Higienópolis, mas sinto-me hábil para fazer uma retrospectiva da evolução do metrô aqui no Rio. E, nesse caso, acho até que o temor do Projeto de Segurança de Ipanema tenha algum fundamento, já que a perspectiva dos não-moradores pode considerá-lo elitista e tudo mais.


O “churrasco da gente diferenciada”, protesto que aconteceu esse ano em Higienópolis, São Paulo, contra os moradores do bairro, que não foram à favor da estação Angélica.

Um breve apanhado histórico. Limitando-me à Linha Um, que é a linha do metrô que contorna a parte mais rica da cidade como um todo, presenciou-se um acentuado processo de decadência de diversos bairros. Bairros esses tidos como tradicionais, de elite no século XX, que foram os primeiros a receber estações do metrô carioca ao longo desses trinta e pouco anos de existência dele. Como exemplos, tem-se aí o Catete e o Largo do Machado, o Flamengo, a Tijuca, a Cinelândia, e, posteriormente, Copacabana. Eram bairros dos “bons”: bom comércio, boa gastronomia, bons tipos de entretenimento, boa gente, boas moradias. Nessa época, Ipanema e Leblon eram bem mais residenciais.

Medo 1. O metrô possibilitou uma maior circulação de pessoas por esses lugares. O aspecto de “ilha”, ou de “comércio exclusivo para moradores”, perdeu-se. A expansão da Linha Dois integrou bem mais o subúrbio com as “zonas ricas”, permitindo que seus habitantes desfrutassem, com maior facilidade, dos serviços de melhor qualidade desses bairros da Linha Um. Daí vem o tal do conceito paulistano de “gente diferenciada” que, na realidade carioca, poderia aplicar-se à possibilidade dos ”suburbanos” (no sentido pejorativo, como taxam) de irem à praia de Copacabana num dia de domingo. O preconceito com bairros menos favorecidos, seus moradores, hábitos e aparência, ainda existe, só que de forma bem mais velada do que no passado.

Medo 2. Acho que a inauguração do metrô no Rio coincidiu com uma das piores épocas já vividas pela cidade. Entre a década de 80 e os anos 2000, a questão da violência urbana ficou mais séria do que imaginávamos. A sensação de insegurança era imensa. Alinhado a isso, crise financeira do país, época de desestatização, de administrações municipais e estaduais beirando o péssimo. Isso se refletiu no espaço urbano com o abandono de praças, jardins, mobiliários públicos, monumentos. As ruas encheram-se de mendigos, camelôs e muita sujeira. O comércio da classe média mudou-se para os shoppings, bem como os cinemas de rua, resultando no abandono de diversos imóveis. Muitos deles históricos, inclusive.


Uma das primeiras ilustrações do metrô do Rio, em 1973, mostra o traçado previsto da Linha Um: Nossa Senhora da Paz já estava nos planos.

Logo, os bairros com a maior quantidade de serviços e comércio foram os mais afetados. Justamente esses no entorno da Linha Um. Leblon e Ipanema, diante disso, conseguiram se sobressair como lugares mais “civilizados” e “tranquilos” de se morar. E agora encontram-se confrontados com a ideia de serem preenchidos, quase que por completo, pelas mesmas estações de metrô que assassinaram um dia lugares também tombados, charmosos e elegantes.

Diante do que foi exposto, o argumento utilizado pelo PSI sobre a destruição da praça com a abertura do metrô faz algum sentido, sim, se for levado em conta esse panorama antigo do Rio. No entanto, eu penso que estamos vivendo uma outra época, muito mais favorável à nossa qualidade de vida do que há dez anos. O governo deixa a desejar em muitos aspectos ainda, mas é nítido o esforço em fazer mais pela cidade, principalmente nas questões urbanísticas. Sem falar que os grupos de moradores de Ipanema (e de outros bairros da zona sul) têm a sorte de participar muito mais ativamente das decisões governamentais, dada a importância que o bairro tem perante à economia da cidade, do que os de bairros menos badalados, que nem muito espaço na mídia conseguem.

Dessa forma, eu, particularmente, acho que os moradores de Ipanema não deveriam se preocupar quanto a esses problemas relatados, de descaracterização e violência; eles têm bastante poder de intervenção no que tange ao acompanhamento das obras, na sua fiscalização e na exigência de que seja realizado um trabalho decente. Da mesma forma, o Estado não seria tão burro de destruir sua “galinha dos ovos de ouro”, afinal, é interesse público que Ipanema se mantenha do jeito que é. Ipanema é fonte de grandes receitas.

Um metrô na Praça Nossa Senhora da Paz realmente não é primordial no momento. Porém, já que está muito difícil de impedir ou mudar o traçado para o original, porque não abraçar a ideia e voltar às atenções para a concepção do projeto, desde a sua parte estética até a social? Essa também é uma forma de preservação da praça.

asruasdorio.contato@gmail.com


Curta a página do As Ruas do Rio no Facebook!

Tags: | Publicado em: Bairro a Bairro | Estudos Sociais | Mobilidade Urbana | Opinião

Frio no Rio

17 outubro 2011 | deixe seu comentário (0)

Uma pequena análise da rotina do carioca e da cidade com as atuais (e futuras) mudanças bruscas de temperatura


por Pedro Paulo Bastos

O que é considerado frio pelo carioca?

O frio é uma sensação muito relativa, principalmente entre pessoas de culturas e lugares diferentes. A maior evidência disto é comprovada ao avistarmos aquele bando de gringos andando pela cidade de sandália, regata e short em pleno mês de julho. Uma indumentária mais apropriada para o verão, nos nossos 17ºC, causa um pouco de estranheza, vamos combinar… Citando um exemplo mais abrasileirado, 20ºC é diferente para paulistanos e cariocas, mesmo se considerarmos todos os elementos variáveis da sensação térmica. Para eles é agradável, quase abafadinho; para nós, um iminente alerta de que já já aquele agasalho de moleton deverá sair do armário.

O carioca idolatra o calor e a praia, discursa contra os dias nublados, mas basta que a previsão do tempo anuncie uma frente fria que ele já terá a tiracolo o tal do agasalho de moleton – ou qualquer outra espécie de roupa mais quentinha. Veste-o feliz da vida, de maneira ansiosa e até meio exagerada. A falta de intimidade com temperaturas mais baixas faz com que percamos a noção de dosagem entre o que vestir e quantas peças inserir. As combinações também caminham para esse lado. Usar casaco com bermuda e chinelo faz algum sentido?

Por outro lado, há os que aproveitam a temporada “glacial” para usar todos aqueles apetrechos mais elegantes, pouco cabíveis ao nosso dia-a-dia em função justamente do clima predominante. Chance única de mostrar seus suéteres, jaquetas, blazers, coturnos, aquela capa ou sobretudo garimpados na sua última viagem internacional…

Não importa se não está frio de fato. No Rio, chover é sinônimo de esfriar. Um entendimento criado pela própria sociedade carioca, sem ter, necessariamente, uma atestação científica quanto à correlação entre essas duas ideias. E como a chuva vai embora rápido, e o sol chega novamente como quem foi à esquina, é preciso aproveitar esse intervalo. A programação do fim de semana muda completamente e deve encaixar-se no contexto. Hora de desmarcar o chopp no bar para se reunir em casa com os amigos. O menu? Fondue, claro. Lá fora, 19ºC.

Ou então, hora de se mandar para o shopping.

O carioca se adapta fácil a esses contratempos climáticos. E aproveita as vantagens oferecidas.

——
Em fevereiro de 2011, o estado de Oklahoma, nos Estados Unidos, teve o seu recorde máximo de temperatura mínima em toda a sua história, de -31F, o que equivale a, aproximadamente, 35ºC negativos. O fato foi um tanto curioso por lá, afinal, as temperaturas no centro-sul do país são bem mais elevadas do que no norte, parecidas com as do Brasil. Comentários de internautas em fóruns diziam que é tudo culpa do global warming (aquecimento global), o ocasionador dessas bizarrices naturais, se assim poderia dizer.

Pergunto-me o que aconteceria no Rio de Janeiro se acontecesse um episódio parecido a esse. Sei lá, uma nevasca num final de tarde chuvoso, após uma rápida transição de ventos, granizo e neblina. A Baía de Guanabara congelada como o Charles River no inverno de Boston; o Pão de Açúcar coberto de neve – ou melhor, de “açúcar”; os telhados das casinhas baixas de Água Santa esbranquiçados, quase um cenário de Natal hollywoodiano; filas e mais filas nas Casas Bahia para a compra de aquecedores; Cinelândia virando pista de patinação enquanto as montanhas inabitadas da zona oeste se transformariam em pistas de esqui, trazendo tal modelo desportivo até então inédito no país.

Por outro lado, muitos ônus, em especial às questões da pobreza.

Por vezes vejo-me imaginando e fantasiando situações absurdas como essa, dentro da minha realidade, que é o Rio de Janeiro. Digam o que quiserem dizer, mas um momento de banalidades como esse pode ser um perfeito exercício para repensarmos que novo valor agregaríamos à cidade, às suas funções, ao seu cotidiano. Um exercício para repensar como lidaríamos com os problemas sociais  – e, logo, econômicos – diante desse novo panorama da natureza, cada vez mais instável.

Não só o Rio bem como todas as cidades do mundo deveriam ter suas gestões voltadas para, além da sustentabilidade, uma versatilidade geoespacial, capaz de se adaptar naturalmente a diferentes circunstâncias, sem muito alarde. Afinal, a incerteza em relação aos acontecimentos da natureza é a única certeza que temos.

asruasdorio.contato@gmail.com

Postagem de hoje foi uma singela homenagem à mudança de temperatura entre a semana passada e o início dessa. Para os amantes da chuva e do tempo mais “frio”, como eu, que presente!


Curta a página do As Ruas do Rio no Facebook!

Tags: | Publicado em: Estudos Sociais | Geografia Carioca | Opinião

Mergulhões

12 outubro 2011 | 3 comentários

Os novos BRTs cariocas trarão melhorias significativas à estrutura viária da cidade, numa parceria do transporte público com o individual


Fonte: Cidade Olímpica.com
A construção do mergulhão na Avenida das Américas, na zona oeste, vai
permitir que ônibus expressos passem sobre a pista e carros sigam por via subterrânea

por Pedro Paulo Bastos

Um dos cruzamento mais movimentados (e congestionados) do Centro está com os dias contados. O encontro das avenidas Rio Branco com Presidente Vargas deverá ser transformado em um mergulhão, o segundo da região, até o ano de 2015. A causa desta mega intervenção urbana será a construção do BRT Transbrasil (Bus Rapid Transit), que vai interligar o bairro de Deodoro, na Zona Oeste, com o Centro do Rio, através das avenidas Brasil e Francisco Bicalho.

“Na Avenida Francisco Bicalho, teremos que construir um novo viaduto, exclusivo para a passagem do BRT. Na chegada à Presidente Vargas, ele ficará entre a via original e o viaduto da linha férrea. Já na Avenida Brasil, teremos que alargar o trecho entre Irajá e Guadalupe, implantando as faixas laterais”, detalhou o secretário municipal de Obras, Alexandre Pinto, em reportagem do jornal O Globo de hoje, 12/10/11.

A Avenida Presidente Vargas terá cinco estações a cada 700 metros, com paradas em frente à prefeitura, ao sambódromo, à Central do Brasil, ao mercado popular da Saara e à Igreja da Candelária, onde será realizado o retorno dos veículos.

Além do Centro, as zonas norte e oeste também vão receber novos mergulhões, graças aos outros projetos de BRTs, como a Transoeste (Jardim Oceânico-Santa Cruz), Transolímpico (Barra-Deodoro) e Transcarioca (Barra-Penha). O mergulhão da Avenida das Américas, na Barra, já está em obras. O próximo da fila será o de Campinho, que permitirá uma conexão mais rápida com o bairro vizinho de Madureira. E, claro, um melhor fluxo do trânsito e dos ônibus rápidos.

Considerações
A impressão que eu tinha, quando obras desse porte eram pouco discutidas e até mesmo validadas, era a de que existia uma forte barreira em “grandificar” a estrutura viária da cidade do Rio. Talvez porque o Rio tenha um caráter menos cidade-grande (embora o seja!) do que São Paulo, Belo Horizonte ou Brasília. Essa valorização dos espaços verdes, da praia, das montanhas, enfim, das paisagens naturais, na minha percepção meio fantasiada, ia um pouco de encontro com o porte monumental dessas obras de engenharia, lotadas de concreto e de uma alta valorização do transporte particular. É claro que a falta de interesse político por esses projetos teve um peso gigantesco para a contribuição da estagnação da mobilidade urbana nas últimas décadas.

Fico contente de que esse assunto tenha sido retomado e que as coisas estejam entrando em execução, que é o melhor. Mesmo, ainda, de que tudo isso seja por causa das Olimpíadas. Ademais, é de se reconhecer o amadurecimento das decisões da administração pública ao promover tais melhorias viárias com interesses primários voltados ao transporte público; o BRT, no caso. Bem diferente da Linha Amarela, inaugurada em 1997, no estilo das highways estadounidenses, pouco sustentáveis a longo prazo.

Embora o metrô continue sendo o meio de transporte de maior aceitação social, e, mesmo que ainda erre-se muito nesse processo de redesenhamento do Rio, dá gosto de ver que a perspectiva em relação a ele está mudando. Fazemos parte de uma cidade  linda, cheia de belezas, de paisagens deslumbrantes, mas… precisamos estar atentos ao fato de que não somos só um balneário. O Rio vai muito além dos encantos turísticos da zona sul. Somos uma grande cidade grande, cheia de potenciais. Intervir em Madureira, por exemplo, com mergulhão, significa encurtar distâncias e melhorar a qualidade de vida de quem mora ou passa por lá. No Centro, a mesma coisa; quanto tempo perde-se nesse cruzamento da Rio Branco com a Presidente Vargas?

Embora o metrô continue sendo o meio de transporte de maior aceitação social, e, mesmo que ainda erre-se muito nesse processo de redesenhamento do Rio, dá gosto de ver que o olhar, em relação a ele, está mudando. Fazemos parte de uma cidade linda, cheia de belezas, de paisagens deslumbrantes, mas… precisamos estar atentos ao fato de que não somos só um balneário. O Rio vai muito além dos encantos turísticos da zona sul. Somos uma grande cidade grande, cheia de potenciais. Intervir em Madureira, por exemplo, com mergulhão, significa encurtar distâncias e melhorar a qualidade de vida de quem mora ou passa por lá. No Centro, a mesma coisa; quanto tempo perde-se nesse cruzamento da Rio Branco com a Presidente Vargas?

Está mais do que na hora de mergulharmos nesses mergulhões, pontes estaiadas e túneis que a engenharia contemporânea nos oferece. A diferença é que contamos hoje, em 2011, com muito mais informações e inovações tecnológicas nestas técnicas do que na época do processo de urbanização maciça de São Paulo, que tornou-a uma cidade cinza, pouco atrativa, fria. A parceria entre planejamento urbano e engenharia tem andado de mãos dadas – ou, pelo menos, esta é a tendência. Isso é ótimo! Só é necessário que essas considerações sejam levadas a sério para que dêem certo e se sustentem.

asruasdorio.contato@gmail.com


Curta a página do As Ruas do Rio no Facebook!

Tags: | Publicado em: Mobilidade Urbana | Opinião | Transportes Coletivos

Os manés do metrô

08 outubro 2011 | 3 comentários

Campanhas publicitárias de Paris e do Rio mostram como não se comportar como um animal no metrô… ou melhor, como um mané!



“Empurrar 5 pessoas no trem não representa um ganho de tempo”: publicidade da RATP, empresa responsável pelo metrô de Paris, animaliza usuários mal educados com o objetivo de conscientizá-los.

por Pedro Paulo Bastos

Chega seis horas da tarde e a dificuldade em voltar para casa, via metrô, é quase mais cansativa do que a labuta diária. Um mar de gente desce as escadarias das estações dos bairros centrais. Enquanto isso, outras tentam, de maneiras inusitadas, inserir-se num espaço do trem onde definitivamente não cabe mais do que um único corpo. Nesses momentos, bons modos acabam não sendo muito bem-vindos, afinal, um simples “por favor, deixe-me entrar” pode ser letal para o andar da sua agenda de compromissos. É preciso mais firmeza ou, caso contrário, tu vais perder a viagem!

Apesar do metrô do Rio ter problemas muito particulares, o panorama descrito anteriormente não é típico nosso: a hiperlotação nas horas de rush é um fato nas cidades grandes. E a presença de gente fanfarrona — essa gíria pegou! —, idem. Já existem várias especificações para esse tipo de gente, um pouco às margens da aceitação popular. O mais famoso deles é o “DJ do Buzú”, que representa o grupo de garotos que insiste em pôr o celular tocando música no auto-falante. O que dizer daquele cara expansivo, que senta ao teu lado como se estivesse no sofá de casa? Um assento não é suficiente; é preciso espalhar bem as pernas e ler o jornal com os braços e cotovelos bem abertos. E problema seu se você tem direito a um mínimo de espaço.

Foi com base nesses perfis de usuários que a francesa RATP, uma das maiores empresas de transporte público do mundo, tem feito do humor o seu aliado na publicidade contra os abusos e egoísmos no transporte público. O lema é, na versão em inglês: Let’s stay human on public transport (“Vamos ser mais humanos no transporte público “). Uma puxada de leve para a ideia de que quem se comporta assim, age como um animal. Em contrapartida, as imagens, bastante divertidas, suavizam um pouco o teor agressivo da mensagem, com a amostra de pessoas travestidas de animais em atitudes que lhes conferem essa característica. Bem bolado e com a aspereza peculiar da Europa.

 


A publicidade francesa condena também a “galinha tagarela”, que fala no celular aos berros, ou a “lhama” que cospe o chiclete na plataforma. As mensagens são fortes: “Fale a 86 decibéis no celular e perca seus segredos bem como seus amigos”.


Divulgação da campanha, lançada pela Rio Como Vamos


Já por aqui, o Rio Como Vamos lançou há pouco tempo a campanha “Deixa de Ser Mané“, que já pode ser vista em treze estações do metrô das linhas Um e Dois. A publicidade carioca tem algumas referências com as da RATP, adaptadas para o nosso contexto cultural. No caso, aponta-se o cara que comete todas essas atrocidades, tais como cuspir na via, jogar lixo no chão ou que não respeita o carro exclusivo das mulheres, como “mané”. As ilustrações variam de acordo com a situação, que não se limita só às que acontecem no ambiente do metrô. É uma campanha extensiva para o trânsito, entre outros pontos que envolvam relações sociais, com o objetivo de promover a conscientização da cidadania.

Ambas as publicidades são interessantes e aparentemente frutíferas pois fogem daquela cartilha escolar do que “se deve ou não fazer”. A repreensão levemente ofensiva, como referir-se a “animal”, no caso da RATP, e “mané”, na da Rio Como Vamos, faz com que a pessoa sinta-se espelhada em algo sinalizado como ruim e, logo, queira afastar-se desses hábitos. Diria até que a nossa campanha é ainda mais incisiva, pois o termo “mané” carrega uma série de elementos negativos, ou seja, muito abrangente, e de fácil entendimento, em especial entre as crianças. Afinal, elas constituem o futuro da cidade e do país. Nada melhor que aprendam desde cedo o que é civilidade.

A questão é saber quem vai querer, de fato, não ser um mané. Na nossa cultura, o ”mané”, por vezes, é considerado aquele cara que não é esperto ou que não consegue tirar vantagem de algo. Ou seja, se deixar de ser mané, como a campanha prega, é abrir mão de alguns individualismos que possam favorecer a alguém, aí mesmo é que você está sendo um mané, amigão! Conflituoso, não?

De qualquer modo, meus apoios para o “Deixa de Ser Mané“.

asruasdorio.contato@gmail.com

Imagens da publicidade da RATP em inglês no site ScaryIdeas.com


Curta a página do As Ruas do Rio no Facebook!

Tags: | Publicado em: Estudos Sociais | Mobilidade Urbana