Sinal verde para os jardins do Aterro

15 dezembro 2011 | 4 comentários

Na falta de espaço físico para o estacionamento de carros na Marina da Glória, a única opção é acomodar os veículos excedentes sobre… os jardins do Aterro


Reportagem de O Globo mostra a depredação do Aterro do Flamengo com o estacionamento irregular de carros do Cirque du Soleil. Valor das vagas pela empresa contratada varia de R$ 10 a R$ 100.

 

Que os parques públicos da cidade são pouco usados pelos cariocas, isso todo mundo sabe, mas que eles estavam recebendo outra finalidade além do lazer, é novidade. Para quem passa pela Avenida Infante Dom Henrique, a autopista que margeia o Aterro do Flamengo, um dos maiores cartões postais do Rio, o panorama continua igual, sem muitas alterações. É bonito de sufocar. No entanto, quem tem a oportunidade de adentrar o parque, sabe que ele é desrespeitado constantemente pelo público que o frequenta, com lixos pelas alamedas, cocô de cachorro, depredação do mobiliário público, entre outros etceteras. A novidade, agora, é que ele também está sendo aproveitado – e depredado – para fins comerciais.

Em cartaz no Rio desde semana passada, o prestigiado Cirque du Soleil está se apresentando na Marina da Glória, e, para atender a demanda normal de veículos dos espectadores, precisa-se de um estacionamento. Contratada para cuidar desses detalhes, a empresa GE Park está utilizando uma área destinada a piqueniques no Parque do Flamengo para comportar os carros que chegam à Marina. Eles ficam estacionados sobre o gramado, com vagas demarcadas por cavaletes e faixas improvisadas. Fizeram até uma trilha, para que os automóveis circulassem melhor. Mais mambembe, impossível.

De acordo com O Globo (15/12/11), está havendo dificuldade em identificar os responsáveis que deveriam fiscalizar tais irregularidades. Nesse conflito está a Subprefeitura da Zona Sul 2 e a Secretaria Especial da Ordem Pública (Seop), que já transferiram a bola para a Subsecretaria Municipal de Patrimônio Público e para a Riotur, visto que a Marina é de propriedade particular. A partir daí, já temos também o apontamento da organizadora do evento, a Time For Fun, que repassa a culpa para a GE Park, pois ela quem teria a responsabilidade pelo controle e localização das vagas. O Iphan interveio. Parece aquele jogo da batata quente, de quando eu criança, que um vai passando para o outro a “batata”, à medida em que esquenta. Afinal, a quem culpar?

Só nos resta lamentar que um parque lindíssimo como o do Flamengo seja tão mal aproveitado e pouco fiscalizado. Tem potencial  para ser um dos mais bonitos do mundo (se já não o é) e, em contrapartida, fica entregue à esculhambação, com as minhas desculpas pela vulgaridade da palavra. Salve Burle Marx. Salve Reidy.

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Um milhão, e não é no Leblon; a bola da vez é a Rocinha e o Vidigal

13 dezembro 2011 | 3 comentários

Imóvel nas mais novatas comunidades pacificadas da zona sul já está valendo um milhão. Em até que ponto a administração pública deve intervir nessa valorização repentina das favelas?


O Vidigal e a especulação imobiliária: imóveis valorizados já atingem valores de bairros de “asfalto”.

 

Foi no último dia 13 de novembro que a favela da Rocinha, na zona sul da cidade, conquistou seu posto de comunidade pacificada. Um feito do Estado que está trazendo centenas de melhorias a todos os cariocas, após décadas de espera. Desde então, a Rocinha figura nas páginas dos jornais quase que diariamente. Tem se mostrado todas as mudanças ligeiras pela qual a região administrativa está passando, numa tentativa (dessa vez, bem sucedida) de inserir-se no rol de áreas legalizadas do Rio. Tais modificações são ilustradas através do fim do gatonet, da abertura de bancos, como o Banco do Brasil, e até mesmo dos depoimentos dos moradores, não só da Rocinha, bem como os de São Conrado e da Barra, que sofriam um bocado com os ataques violentos na Niemeyer e na Estrada da Gávea.

O jornal O Dia de ontem, 12/12, no entanto, já nos trouxe notícias da Rocinha agora sob o ponto de vista do mercado imobiliário. Esse foi um dos temas de maior destaque, em 2011, entre os cariocas, sobre o aumento exorbitante no valor de casas, apartamentos e terrenos nas áreas mais valorizadas do Rio. No caso, trata-se da favela do Vidigal, vizinha à Rocinha, e que também foi beneficiada com a UPP. A matéria anuncia que “no Vidigal, um terreno com 10 casas, no alto do morro, está sendo vendido por R$ 1 milhão“. Mais adiante, temos: “O terreno de R$ 1 milhão no Vidigal, segundo os corretores da MS Imobiliária, pode render ainda mais. ‘O dono pensa em desmembrar as casas. Separadas, podem render o dobro’, avalia o corretor local, Jonas Barcellos.

Essa notícia causou-me um certo espanto. Um imóvel valer R$ 1 milhão numa favela é algo inédito! Comprova, de fato, como a presença do tráfico era um “empata” no desenvolvimento (ainda que informal) das favelas. Com relação a isso, é certo que esse valor só é alcançado no Vidigal pelos diversos atributos dos bairros vizinhos, Leblon, Gávea e São Conrado, considerados nobres. A vista que se tem do Vidigal e da Rocinha, também, é outro fator relevante na determinação do quão valorizada é uma comunidade em relação à outra. As favelas pacificadas da zona sul têm esse plus, motivo esse que as tornam idolatradas por muitos turistas – e pela mídia, é claro. Por isso ficam tanto em evidência. Mas R$ 1 milhão?!?!?

O Dia também apresenta os valores dos aluguéis na Rocinha, que podem chegar a quase R$ 2 mil mensais. Vale lembrar que essa quantia equivale, aproximadamente, ao valor médio de locação para imóveis de três quartos em bairros de classe média da zona norte, como o Méier e a Ilha do Governador (R$ 1 133 e R$ 1 775, respectivamente)*. No próprio Centro, um de 2 quartos, o valor médio sai a R$ 1 394*. Levando-se em conta que se calcula o preço de um imóvel a partir de determinados índices, um deles, o da procura, não preciso me estender muito nesse entendimento; há demanda abundante para a Rocinha e Vidigal. O que leva, então, um indivíduo, com tal poder aquisitivo, em optar uma moradia numa área ainda deficiente nos serviços públicos, acessibilidade e saneamento básico, em detrimento de áreas legítimas já estruturadas?

Não vou discutir tais motivos pessoais de escolha, pois podem estes basear-se em diferentes razões, devidamente identificadas por alguma futura pesquisa. O que é inegável nesse panorama é entender tal escolha ou manutenção de residência (e toda essa valorização) pelo fato de a Rocinha e o Vidigal estarem situadas na zona sul do Rio, a parte mais rica e mais bem estruturada da cidade. Aliás, no caso deles, a localização é ainda mais valiosa e estratégica. Afinal, quem não gostaria de ser vizinho ao Leblon e à Barra da Tijuca pagando tão pouco em relação ao “asfalto” imediato? Facilidade e rapidez para se chegar ao trabalho e para gozar das cobiçadas áreas de lazer da região. Enxergo isso como mais uma prova de como a cidade é má administrada, e de como o investimento em serviços públicos e de lazer se fazem importantes nessas horas. É muito mais vantajoso morar no Vidigal, ao lado do Leblon, do que perder horas dentro de um ônibus da zona norte para a zona sul.

Os benefícios trazidos à população da Rocinha e Vidigal são louváveis, mas sua divulgação excessiva, que carrega um  cunho político, como todos sabemos, pode acarretar sérios problemas à cidade, que é o inchaço urbano na zona sul. Fala-se em duplicar a Niemeyer, em metrô, em teleférico, em isso e aquilo, mas se esquecem de que isso favorece a imigração. Além disso, essas duas regiões administrativas, outrora desprezadas, podem tornar-se a galinha dos ovos de ouro do mercado imobiliário. A sua população predominante, a de baixa renda, pode mudar de perfil em breve, como uma opção também de moradia da classe média que não pode ou não está disposta a pagar os preços de bairros da zona sul.

Tem-se aí uma situação delicada, que o Estado deve intervir e limitar as intervenções privadas nas comunidades pacificadas da zona sul. Não se trata de violar o direito individual de alguém tirar uma graninha com seus empreendimentos e posses, mas sim de, finalmente, regrar áreas que cresceram descontroladamente e que não comportam mais um aumento na sua estrutura. É pôr em prática um planejamento urbano tardio, que beneficie a qualidade de vida dos que já moram lá e dos que moram no entorno, e que isso incida numa melhor preservação das nossas áreas naturais.

O potencial turístico explorado nas favelas, seus empreendimentos comerciais (principalmente gastronômicos), e um sem-fim de razões que as promovem como pólos culturais pela mídia, são benéficos, embora também, sem cautela, possam ser um tiro no pé delas próprias. As favelas pacificadas, em especial a Rocinha, ainda não dispõem de uma organização mínima ideal que um bairro legítimo precisa ter para desenvolver-se como se tem exigido nesse momento. Tanto oba-oba com essa sofisticação prematura das favelas vai dar início a um novo ciclo de desordem urbana na cidade. Especulação imobiliária, enriquecimento rápido de visionários (ou oportunistas, como queiram), mais pobreza, e mais crescimento desrespeitoso, como já era, só que, dessa vez, de forma legal.

O momento atual é o de respeitar as favelas, fortalecendo suas bases de desenvolvimento, e não o de atiçar o mercado imobiliário e nem outro fator que atraia mais gente a habitar tais encostas. Deveria ser obrigação da prefeitura e do governo estadual atuar nesse tipo de controle, rígido, para o bem da cidade do Rio e dos moradores dessas comunidades. Pena que não será assim.

* Fonte: Sindicato das Empresas de Compra, Venda e Administração de Imóveis do Rio de Janeiro (Secovi Rio), publicado no caderno Morar Bem, do jornal O Globo, 11/12/2011. Foto do Vidigal está em Shafir Images.

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Rua Santo Antônio

09 dezembro 2011 | 2 comentários

Rua em forma de parque, que não consta nos mapas, é resquício do Morro de Santo Antônio, pequeno mirante arborizado no Largo da Carioca, e corta-caminho para muitos dos pedestres…



A Rua Santo Antônio corresponde a um dos acessos do estacionamento do BNDES e tem vista ajardinada para a Avenida Chile e o Largo da Carioca

 

O simbolismo da minha relação com a Rua Santo Antônio passa por despercebido, embora seja uma das primeiras ruas em que comecei a circular desde que mamãe-e-papai autorizaram-me a andar sozinho pela cidade – cidade entre aspas, havia restrições, é claro. Eu tinha uns onze para doze anos. Ia de metrô ou ônibus até o Largo da Carioca e cortava caminho pela Rua Santo Antônio para alcançar a Avenida Chile mais rapidamente, local de trabalho da senhora mamãe. Em geral, essas idas tão precoces ao Centro ou eram para almoçar com ela ou para ir a algum médico, coisas do gênero.

Para quem ainda não se localizou, a Rua Santo Antônio constitui aquela parte gradeada do Largo da Carioca, que tem uns jardins, um dos respiradouros do metrô, e vez ou outra, uma feirinha de artesanato e souvenires. A recomendação era “ter bastante cuidado por ali, passar batido” pois era uma zona recorrente de assaltos e de abordagem de pivetes. E realmente eles ficavam por ali, misturados às outras pessoas, esparramados pelos degraus do que parece ser um anfiteatro, com o Convento de Santo Antônio ao fundo. Certa vez fui vítima, no início da adolescência. Cercaram-me e começaram a “engraxar” o meu tênis sem que eu pedisse. Óbvio que eu não teria dinheiro. Era um tênis de lona, que não precisa de graxa. Pura malandragem. Após algumas ameaças verbais, fui salvo por transeuntes intrometidos. Pela primeira vez, consegui fazer uma relação entre intromissão e solidariedade.


O Convento de Santo Antônio, fechado para reformas, principalmente na fachada.


Passados, pelo menos, uns dez anos, meu relacionamento com o Largo da Carioca é, agora, diário. Sou estagiário, já quase um trabalhador integral. A Rua Santo Antônio, que nem aparece no Google Maps, apesar de constar em placas-pirulito, continua na minha rotina. A sensação de insegurança diminuiu consideravelmente pelo parque da Rua Santo Antônio, fruto desse termo já na moda (e clichezado) chamado de a “fase-bacana-em-que-o-Rio-se-encontra”. Isso facilitou uma maior exploração do local, sem grandes preocupações, coisa pouco possível em 2003, por exemplo. Uma prova é que eu consegui andar com uma máquina fotográfica na mão pelas redondezas sem ser importunado por olhares duvidosos. Soltem os fogos, comemoremos!

Resolvi escrever sobre esse trecho do Centro a partir do momento em que, justamente pela redução da sensação de insegurança, que me gera menos fobia, achei um pequeno recanto simpático na parte mais alta da rua-parque, logo na saída do pátio do BNDES. Parece uma pequena praça, bem ajardinada, e com uns dois ou três bancos de cimento. Envolvido por uma série de árvores variadas e coloridas pela primavera, tem-se uma bela vista do Largo da Carioca, do caos da Avenida Chile, e ainda um Theatro Municipal conservadíssimo, todo reluzente. Visão parcial, diga-se de passagem, mas não menos honrosa. Quanto às árvores, o que aconteceu com os abricós-de-macaco esse ano? Poucos floresceram.


A bandeira do Brasil, na parte alta da Rua Santo Antônio, vem acompanhada outras duas: uma do Estado do Rio de Janeiro e a outra do BNDES, a mantenedora do local.

Nesse dia estava sem pressa e sentei ali. Estava com o ipod em mode on (meu companheiro), ventava gostoso, mandando embora qualquer anúncio de calor, e tinha também aquela paisagem curiosa, nunca observada antes por tal perspectiva. Fiquei à toa, olhando, sem muitas cobranças, desfrutando o momento e o lugar, aparentemente sem muitas razões para que fosse admirado. É, não vou ser pretensioso e dizer, “oh, que lugarzinho bacana, ótimo para refletir sobre a vida”. Não, não combina comigo. Mas para os observadores de plantão da cena urbana, é um lugar de razoável à interessante para se alimentar tal hobby. Sem falar que, com a proximidade do aeroporto Santos Dumont, muitos aviões passam ali de minuto em minuto. É divertido olhá-los de perto, quase a ponto de aterrissar.

E só depois que fui notar a bandeira do nosso país hasteada bem ali, o tecido num movimento de enruga-e-desenruga de acordo com a velocidade do vento. Uma das minhas indagações pessoais quanto ao espaço urbano era a falta de bandeiras nacionais nas nossas praças. Acho que é um detalhe bastante especial, quase obrigatório, e a gente só as vê em excesso por aí a cada quatro anos, quando acontece a Copa do Mundo. Parece que nesse intervalo elas ficam menos realçadas. Eu ignorava muitas delas, embora, agora, nessa “fase-de-transformações-que-o-Rio-tá-passando”, nessa maior liberdade de se aproveitar a cidade, tenho reparado que elas sempre existiram. Isso acontece só comigo ou com você também?

O odioso respiradouro do metrô: monumento?

As partes alta e baixa da Rua Santo Antônio são conectadas por dois lances de escada, um em pedra, com degraus um pouco desnivelados, e outro acimentado, perfeito para o movimento das nossas articulações inferiores. Poderíamos dizer que a escada é, hoje, um dos símbolos de que ali havia um morro, o de Santo Antônio, um dos últimos demolidos no Centro. E a diferença de ares é bastante notável entre essas duas áreas.

Lá embaixo, já no encontro com o Largo da Carioca, e longe da atenção dos guardas do estacionamento do BNDES, deixa um pouco desejar no que se diz respeito à limpeza. Copos plásticos, folhas de jornais soltas, guardanapos… E como citei, um dos respiradouros do metrô ocupa o eixo central da praça como se fosse um grande monumento. Houve até uma (frustrada) tentativa de poetizá-lo ao rodeá-lo por um gramado com flores de cor roxa. Uma obra de arte moderna, talvez? Não, é de mau gosto mesmo, como muitas das obras do metrô, retroativas ou contemporâneas.

Essa parte de baixo é embalada por sons de diferentes tipos. No Largo da Carioca sempre acontecendo qualquer tipo de manifestação. Tem aqueles alto-falantes no último volume com religiosos fanáticos declamando trechos da bíblia misturados ao som de alguma estação de rádio também em último volume – pagode é um estilo musical comum por lá. Até pouco tempo figurava na entrada da Rua Santo Antônio o eterno sósia do Roberto Carlos – seu nome me foge à cabeça agora –, que contribuía à beça para a selva de sons do Largo da Carioca.

Em meio a isso, gringos passam por ali entre as barracas da feirinha, com suas Nikons pelo pescoço, já lotada de fotos da Catedral e do Convento. Os funcionários do BNDES e da Petrobras se aglomeram junto aos outros trabalhadores da região na volta para casa, enquanto mendigos inofensivos circulam à procura de pão e água, sem largar o inseparável pedaço de papelão. A fila dos ônibus cresce, casquinhas de baunilha no Bob’s são vendidas e camelôs fogem do “rapa”. E assim continua a vida no agitado Largo da Carioca.

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“O passeador”: o Rio de Lima Barreto e dos francófilos

02 dezembro 2011 | 2 comentários

Uma breve resenha de um livro carioquíssimo, recém-lançado, e que já entrou para a minha lista de favoritos


Afonso anda pelas ruas do Rio de Janeiro no início do século XX, fiscalizando a reforma urbana que aos poucos transforma a capital do Brasil numa Paris Tropical. Guardião da cidade, despede-se das casas demolidas, ou apenas perambula pela rua do Ouvidor, excedendo-se na boemia dos cafés”.

“O passeador”, de Luciana Hidalgo, vale a pena

Bastou ler o trecho inicial do resumo na contracapa de um livro aparentemente simpático chamado “O passeador” (192 páginas, editora Rocco) para que minhas atenções voltassem todas a ele. Geralmente leio livros que tenham a ver com a história da cidade do Rio, ou pelo menos que misture ficção com o ambiente urbano daqui, seja lá a época escolhida. Rio de Janeiro acaba sendo um assunto que me interessa e, na maioria das vezes, determinante na hora de escolher um livro.  Fosse com “Black music”, do Arthur Dapieve, ou “Girândola de amores”, do Aluísio Azevedo.

Na orelha, mais informações importantes, cheias de palavras-chave, decisivas para o ato da compra. “Um jovem escritor flana pelo Rio de Janeiro dos primeiros anos do século XX – até aí tudo igual – perplexo diante da paisagem em ruínas. Percorre as ruas empoeiradas do Centro, vigia as obras de abertura da avenida Central, desequilibra-se entre construções. Critica a reforma urbana que pouco a pouco transforma a capital do Brasil numa cópia de Paris”. Pronto, já me conquistou! Por pouco já não o levo ao caixa sem antes notar o melhor dos detalhes: “Esse passeador é Afonso, que um dia se tornará o conhecido Lima Barreto”.

Lima Barreto é um dos meus autores favoritos desde a época do vestibular, já há alguns anos, quando li pela primeira vez “O triste fim de Policarpo Quaresma”. Quem conhece sabe que é uma obra prima da nossa literatura. Poderia abusar de todos os outros clichês para elogiar o talento desse escritor, que tem abordagem afiadíssima no que tange ao comportamento da sociedade carioca e nas ironias mais particulares em relação a ela. Tudo isso sob a perspectiva de uma vida que lhe foi de muitos altos-e-baixos – ênfase no “baixos”. Ler mais sobre sua vida, mesmo que por uma ótica mais ficcional do que real, iria ser prazeroso, pensei. Não hesitei; por R$ 26, que me parece ser o preço-padrão, levei “O passeador”, da jornalista, escritora e doutora em Literatura Comparada (UERJ) Luciana Hidalgo, na Livraria da Travessa da Sete de Setembro.

A expectativa antes do início da leitura era a de encontrar muitas descrições sobre ruas, praças, parques e todo o reboliço provocado pelas obras da belle époque na cidade. No entanto, o ritmo da história era outro, bem mais voltado para o romance, no estilo das obras literárias clássicas. A pegada “carioca” e “urbanística” é salpicada aos poucos, e de forma muito mais contextual do que exclusivamente descritiva. Pelo diálogo dos personagens, pelos costumes de uma época marcada pela influência francesa e pelo sistema escravocrata é que se visualiza como era o ambiente urbano carioca e por que foi parcialmente desfigurado por Pereira Passos. Em variados momentos comenta-se sobre o mal estar em andar por ruas empoeiradas, que enfeiava o vestido das madames, ou então a respeito do desenvolvimento da iluminação pública – como era, como está e como ficará com os novos avanços técnicos no futuro.

Vale ressaltar que os costumes parisienses citados e incluídos na história são um dos pontos fortes do livro de Luciana Hidalgo. É-nos mostrada uma sociedade onde a elite tem como segunda língua o francês, sendo este um dos fatores decisivos para julgar o quão elegante e/ou intelectual fosse um carioca – logo, o seu grau de dignidade. Afonso, o personagem principal, apesar de mulato e humilde, tem grande proficiência no idioma, com o qual abocanha diversas obras clássicas da época na sua língua de origem.

Os exageros com a cultura francesa – até mesmo uma obsessão, quase engraçada – pode ser conferida no personagem Pierre Olivier, amante de insetos, que na verdade é brasileiro e chama-se (ou deveria chamar-se) Pedro Oliveira, o verdadeiro sobrenome de sua família. Pelas ruas, não importa se está aquele sol escaldante; as mulheres copiam e usam os mesmos vestuários que as francesas, mesmo que a temperatura lá seja bem mais baixa do que a nossa. Em outro momento, o jantar na casa de Sofia, a mocinha, foi encomendado diretamente da Confeitaria Colombo: oeufs aux truffes, tranche de garoupa sauce mayonnaise, asperges sauce mousseline e jambon à York. De sobremesa, fraises à la gelée e glace Havanaise. Cardápio pomposo.

“O passeador” restringe-se a contar a vida de Afonso, nosso Lima Barreto, ainda na fase sã, sem muitos episódios de bebedeira, motivo esse que causou-lhe a morte anos mais tarde. Todavia, muito além de Lima Barreto, o livro envolve o leitor com todos os personagens e a relação deles para com o modelo de cidade em que viviam. Esse ponto, pelo menos, foi o que mais me agradou. Fiquei com aquela sensação de querer saber mais, de imaginar como teriam sido as suas vidas, em como as transformações políticas, sociais e culturais posteriores, no Rio, lhes afetaram ou qual terá sido a maneira como reagiram. Pensei como deverá ter sido sobre a evolução da inserção do negro na sociedade, algo que foi discutido, e dos efeitos das obras de Pereira Passos para essa elite, tão pobre de espírito.

Gostei muito dessa história meio biografia, não só pelo jeito fácil e envolvente de escrever da autora, como também pelo seu caráter bastante instrutivo, cheio de referências intelectuais e históricas.

Luciana Hidalgo esteve autografando os exemplares de “O passeador” na Livraria da Travessa de Ipanema no final de outubro desse ano. Pena que eu não tenha sabido antes. Faria questão de uma firma sua, porque esse livro já está, definitivamente, na categoria dos “meus favoritos”. Sem mencionar que tem muito a ver com o As Ruas do Rio. Recomendo, é a última coisa que eu digo.

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Meu Aterro

26 novembro 2011 | 1 comentário

O final do Aterro do Flamengo, para quem vem da zona sul, na altura do MAM.

O nascimento do Aterro: Reidy e Burle Marx.

Ainda recordo como se fosse ontem aqueles letreiros em neon no topo dos edifícios da Avenida Augusto Severo, no Centro. Mesbla e Melitta são as primeiras marcas que me vêm à cabeça, as que eu definitivamente não consigo esquecer. Havia relógios digitais também, realçados melhormente pelo roxo do início da noite, oferecendo um aspecto todo luminoso de cidade grande a uma paisagem monumental, verde, nada cinzenta. A luzinha dos faróis, pertencentes aos carros enfileirados, num intenso movimento de volta para casa, também ficavam em evidência através da janela traseira do carro do meu pai. Eu podia vê-las todas assim de longe, graças à sinuosidade da Avenida Infante Dom Henrique, a que margeia o Aterro do Flamengo.

Na chegada à Enseada de Botafogo, mais luzes, mais outdoors, mais carros. O Botafogo Praia Shopping não existia ainda, mas lembro-me perfeitamente do Mourisco, de novos letreiros digitais (um da antiga ATL, se não me engano, e outro do Itaú) e dos ciclistas, tão abstraídos daquele estresse pós-expediente. Na minha cabeça de criança, achava curioso aquele bando de gente correndo, se exercitando, ou relaxando, ao lado de um outro bando, mas esse cheio de gente preso em seus carros, aflito para chegar nos seus locais de destino. No Aterro era ainda mais instigante por ser uma pista expressa, como se não combinasse a integração de uma área de lazer com uma de automóveis em alta velocidade. Quando o trânsito pesava na Enseada de Botafogo, em direção ao túnel que leva à Lauro Sodré, meu entretenimento era observar essa galera toda “do lado de lá”, ao som de alguma estação de rádio no estilo notícias+músicas calmas, ainda que a pista sentido Centro estivesse ocupando parcialmente meu campo de visão.

As viagens entre o Centro e a zona sul eram mais interessantes (e até mesmo poéticas) quando optávamos seguir pelo Aterro ao invés dos túneis. E a minha fascinação por ruas da cidade foi só vir à tona na adolescência. O Aterro continuou sendo um dos meus lugares preferidos para admirar, agora, bem mais da janela dos ônibus do que do carro do meu pai. Sair do mergulhão da Praça XV, ultrapassar o Santos Dummont e vislumbrar aquele horizonte aberto, cheio de árvores e monumentos diferentes, é de tirar o fôlego, ainda que eu não admita. É uma paisagem levemente desconcertante, que faz com que eu largue qualquer livro que esteja lendo para apreciar melhor o que há pela frente. Se alguém ousar conversar comigo nesse momento, perceberá meu incômodo ao ter de compartilhar minhas atenções.

É um lugar já visto dezenas de vezes e que nunca causa-me indiferença em percorrê-lo uma vez mais.

As passarelas ao longo do Parque Brigadeiro Eduardo Gomes, vulgo Aterro, são de uma tremenda delicadeza, principalmente à noite, quando recebem iluminação própria. Luz verde, se não me engano. Até pouco tempo era assim. É certo que provoca uma certa comoção ao passar por debaixo delas. Na verdade, aflição encaixa-se melhor no contexto. De tão baixinhas, a dúvida se a altura de um ônibus ou caminhão lhes é compatível é bastante recorrente. No final, óbvio, dá tudo certo e a dinâmica do Aterro se mantém. As quadras poliesportivas continuam cheias de garotos descamisados aos berros, abafados pela imensidão desse grande parque, bem como os janelões dos prédios tradicionais da Praia do Flamengo seguem abertos e abrilhantados pelos seus lustres às vistas de quem está de passagem pelo Aterro.

Unir lembranças infantis, adolescentes e às de hoje sobre o Aterro é um tanto quanto nostálgico. Principalmente quando não vejo mais os letreiros em neon; eles, agora, na sua grande maioria, são painéis, meio ordinários, pouco impactantes. Sem falar que não tem mais Mesbla, outro ícone da infância. O Aterro retrô tem mais a minha cara, mas ainda continua imbatível. Não tem para ninguém, nem para a Lagoa Rodrigo de Freitas.

Quem dera toda avenida-expressa fosse tão agradável quanto o Aterro. Fica a dica para as linhas Amarela, Vermelha e Avenida Brasil.


Com canteiros centrais impecáveis, o Aterro é um das minhas paisagens/avenidas preferidas no Rio.

 


Em tempo: Para quem se interessa por arquitetura e urbanismo carioca, não deixem de assistir ao documentáiro “Reidy – A Construção da Utopia“. Conta a obra de Affonso Eduardo Reidy, um dos pioneiros da arquitetura moderna, com projetos notáveis como o Conjunto Habitacional do Pedregulho e o Museu de Arte Moderna, é narrada por meio de depoimentos de Paulo Mendes Rocha, Lúcio Costa, Carmen Portinho e Roland Castro.

Está em cartaz apenas no Unibanco Arteplex, em sessão única por dia, às 20h. Fica na Praia de Botafogo 316.
Não encontrei informação sobre até quando o documentário estará em cartaz, mas você pode ligar para lá e consultar: [21] 2559.8750.

 

 


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Para contato direto, escreva para asruasdorio.contato@gmail.com

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