As clássicas luminárias de Santa Teresa estão ameaçadas

18 abril 2012 | 2 comentários

 Santa Teresa poderá perder seus antigos postes de iluminação, contra a vontade dos moradores: desrespeito ao patrimônio da cidade?


A base das antigas luminárias do Estado da Guanabara, na Rua Triunfo, em Santa Teresa: luminárias em ameaça.

Na postagem do dia 27 de março foi publicado um especial sobre as ruas Fonseca Guimarães, Filadélfia e Triunfo, onde ressaltei a beleza dos postes antigos aqui do município, ainda preservados nesse trecho de Santa Teresa. Aliás, na maioria dos bairros no entorno da região central é possível avistar algumas dessas luminárias clássicas, embora em Santa Teresa elas se encontrem de forma mais abundante.

Desde então passei a receber e-mails de alguns moradores, como a Flávia Assis e a Gisela Flinte, que me avisaram sobre a ação da Rioluz em remover as tais luminárias  para substituí-las por outras mais modernas e eficientes. A troca dos postes faria parte de um programa da Rioluz em parceria com o Governo Federal, com a instalação de iluminação à base de vapor de sódio em detrimento dos pontos de luz a mercúrio. Além disso, outro argumento apresentado foi o de que essas antigas luminárias estão em processo de corrosão e que não seriam mais fabricadas nem disponíveis no mercado. Apontou-se ainda que o sistema de iluminação delas é obsoleto e de difícil manutenção. Disso ninguém pode negar.

A polêmica criada fica por conta da preservação do patrimônio histórico, que será desrespeitado. Essa situação tem criado um conflito de interesses e funcionalidades no que tange às medidas – afinal, o que seria mais importante, a manutenção das luminárias ou a implementação de uma nova iluminação? Uma iluminação reconhecidamente mais fraca, embora historicamente preservada, ou uma iluminação mais modernosa e eficaz, mas de estética duvidosa, que destoaria do ambiente urbano de lá? Ambas as questões são importantes para o Rio, tanto para o turismo como para a qualidade de vida da população.

Este é um assunto que deveria ser melhor conversado com os moradores e simpatizantes do bairro, que são contrários à remoção. A reação é compreensiva; depois da extinção dos bondes, no ano passado, será que outro símbolo de Santa Teresa também será perdido?


Protesto pela volta dos bondes, no Largo dos Guimarães.

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Avenida Gastão Sengés

16 abril 2012 | 3 comentários

Conheça mais da rua com paisagismo impecável no coração da Barra


Essa é a Avenida Gastão Sengés, na Barra da Tijuca, que conta com poucos prédios e pouco movimento, mas com muitos jardins, palmeiras, entre outras espécies de plantas e flores

por Pedro Paulo Bastos


Não tem jeito. A Barra da Tijuca, na zona oeste, é realmente uma cidade à parte. Essa semana mesmo saiu uma reportagem fictícia-piadista, do portal Sensacionalista, do Multishow, com a manchete: “Barra da Tijuca é decretada oficialmente outro país” (vale a pena ler, é divertido). Não digo isso exatamente pelo fato de ser um bairro mais luxuoso e sem favelas por perto, o que não é comum por aqui, mas sim pelo ponto de vista mais estrutural. É incrível como o desenho das ruas é diferente do resto da cidade. Eu vivo na parte “velha” do Rio de Janeiro, onde todas as ruas são estreitas para o padrão das grandes urbes. Logo, para um apaixonado por ruas como eu, fico sempre embasbacado em ver como a Barra é toda planejadinha (para o automóvel, diga-se de passagem), cheia de pistas largas, canteiros centrais, retornos, tudo direitinho… Enfim, tudo o que uma cidade grande altamente rodoviarista necessita para fluir.

Na Barra, até mesmo as ruas residenciais têm porte de avenida grande. Um exemplo é a Avenida Gastão Sengés, onde fui fotografar no sábado, sob um sol de rachar. Ela fica nos fundos do Barra Garden Shopping. Sua entrada é loteada de canteiros centrais bem arrumados, um paisagismo digno de revista. As palmeiras só não são mais altas que os espigões modernosos da rua, cada qual bem afastado um do outro. Eis uma diferença da parte “velha” do Rio, onde todos os edifícios colam-se uns aos outros, formando aquele corredor de prédios típico da Rua Barata Ribeiro. Na Barra eles ficam mais afastados pois estão dentro de condomínios, com mil e um aparatos de lazer, sem mencionar as garagens à ceu aberto.


Com canteiro central impecável, a Avenida Gastão Sengés tem porte de avenida com grande fluxo de trânsito, mas ela é calminha à beça. À direita, a entrada para o condomínio Jardim Ibiza.


O shopping Home Facilities Center concentra lojas pequenas de conveniência, de importância regional.

Na Gastão Sengés, entretanto, a atração principal mesmo é o canteiro central, como eu já havia comentado. Eu imagino que eles sejam mantidos por iniciativa privada, porque, não querendo falar mal, mas já falando, a Prefeitura do Rio, até onde minha experiência permite dizer, não tem muito essa capacidade de cuidar, com esmero, dos jardins urbanos. Quem é carioca sabe. Adiciona-se a isso a questão da educação também das pessoas em preservar ou não, e aí nesse ponto eu imagino que na Barra as pessoas sejam mais conscientes. É só ver como são bonitinhos e bem cuidados os jardins da Avenida Gastão Sengés. Vi muitos tipos de flores e plantas diferentes por lá, todas bem posicionadas. Um belo trabalho de paisagismo, de verdade.

O perfil de pedestres pela Avenida Gastão Sengés era praticamente o mesmo: quase todos com algum tipo de prática esportivas. Bicicleta, corrida, patins, skate. Tinha também os praieiros, é claro, figurinhas carimbadas pelos bairros da orla em dias abafados como esses últimos. A exceção populacional consistia em poucos gatos pingados, como eu, de máquina na mão, abordado pelo menos umas três vezes. “Você é paparazzi?”, perguntou um gaiato, aos berros, quando me viu do outro lado da calçada. Em outro trecho da rua, se aproximou uma moça, com sua filha pequena. “Que legal, você é fotógrafo?”. Respondi que, profissionalmente, não… “Ah tá, é que meu sonho é fazer um book“. Sorri. Já nos jardins perto da Rua Rosalina Brand, uma outra moça, dessa vez loira, bonita e despretensiosamente bem vestida, se abraçava às árvores e às flores enquanto um amigo a fotografava com a câmera do celular. A graça ali foi confirmar o que eu já tinha achado – os jardins da Gastão Sengés realmente são lindos, dignos de fotografias.


O estilo dos prédios da Avenida Gastão Sengés é modernoso, assim como é a Barra da Tijuca, de urbanização mais recente do que o resto da cidade. A proximidade com a praia e o ambiente bucólico favorece a prática de atividades físicas e a despretensão ao vestir-se.


Novamente os jardins da avenida, em dois momentos. Ali há uma variedade respeitável de espécies vegetais, todas bem posicionadas, algo não muito comum para as ruas do Rio.

Desculpem-me os barrenses, sei que vocês não aguentam mais ouvir essa piadinha dos anos 90, quando se falava que a Barra era a Miami do Rio, os Estados Unidos na América do Sul, que a Barra era uma “Beverly Rio’s”… Desculpa mesmo, mas não tem como não dizer o quão americanizado o bairro de vocês é. O estilo é legal, mas… os nomes dos lugares também incorporam esse american way of life. Além do Barra Garden Shopping, nas proximidades, com nome bem longe da língua portuguesa, encontra-se também por ali o Home Facilities Center. Assim mesmo, em inglês – Home Facilities Center. É uma espécie de shopping-galeria com lojinhas de apelo regional, compras de última hora e lanches. Até o estilo arquitetônico é americanizado, nem parece que você está no Rio de Janeiro. Mas… Home Facilities Center, assim, mesmo?!?! Pior que se isso fosse traduzido e implantado em português haveria gente dizendo que é “brega”. Já pensou um Centro de Facilidades para o Lar escrito no letreiro o impacto esquisito que provocaria? A questão é que não há nada mais cafona do que usar palavras e frases em inglês em território brasileiro assim, desnecessariamente. Opinião minha. Não sou radical, muito menos antiamericano, embora me considere um grande defensor do nosso idioma. Momento desabafo, pessoal, voltamos à nossa programação normal!


O encontro da Avenida Gastão Sengés com a Rua Rosalina Brand e a Avenida Prefeito Dulcídio Cardoso, onde está o canal da Lagoa de Marapendi.

A nossa rua de hoje desemboca lá na Avenida Prefeito Dulcídio Cardoso, que margeia a Lagoa de Marapendi. O que posso dizer para vocês, com muita sinceridade, é que esse trechinho é um dos lugares mais bonitos aqui do Rio no que diz respeito ao espaço urbano. Além dos jardins lindos, como vocês podem ver pelas imagens, essa avenida, a Prefeito Dulcídio Cardoso, comporta uma ciclovia compartilhada, com muitas árvores e ainda mais jardins! O diferencial ali, imbatível, fica por conta da lagoa, que nesse trecho é estreita, mais parecendo um canal. Uma pequena e simpática ponte verde conduz pedestres, devidamente autorizados, a embarcar no barquinho que os transportará à outra porção de terra da Barra da Tijuca, separada pelo canal. É neste outro lado onde está a Avenida Sernambetiba (atual Avenida Lúcio Costa, mas ninguém lembra…), a praia e a parte sul do Oceano Atlântico. O Leblon que se cuide, mas de luxo a Barra entende bem.

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Rua Coronel Aristarco Pessoa

01 abril 2012 | 13 comentários

No caminho para o Alto da Boa Vista é possível passear por ruas tipicamente residenciais, sem indício de comércio e verticalização. Eu passeei por uma delas!


A região da Usina retratada em três momentos: o terminal rodoviário, com o Maciço verdinho ao fundo; violetas no início da Rua Coronel Aristarco Pessoa; e, por último, o tradicional ponto de táxis do Largo da Usina. Atente para o fusquinha!

por Pedro Paulo Bastos

A Usina já não é mais lembrada como um bairro nem pelos mapas nem pelos cariocas, mas ainda está muito presente nos letreiros de alguns ônibus que circulam pela cidade. Ela já não é mais caminho dos bondes que vão para o Alto da Boa Vista, embora ainda seja possível avistar os seus antigos trilhos, ora expostos, ora cobertos por um novo pedaço de calçada. Já não tem a elite como classe dominante, mas as belíssimas residências continuam lá, paradinhas, todas com traços nobres. Apesar da proximidade com favelas, grande parte do morro que abraça a região é bem verdinho. Em certas épocas, chega-se a ver até mesmo o deslize de água das chuvas na parede das rochas, nem sempre próximas.


Já tinha tempo que eu queria caminhar pelas ruas vizinhas à Avenida Edson Passos, que corta todo o agradável bairro do Alto da Boa Vista. Até pouco tempo, essa parte da cidade estava muito insegura, mas com a pacificação das favelas da Tijuca, a calmaria parece ter voltado para lá. Pelo menos minha última vez a pé pelo Largo da Usina, em 2005, foi um corre-corre dos grandes. Nessa época eu estava no ensino médio, e fui com um grupo de amigos fazer um trabalho da escola na casa de uma amiga, que morava na Rua Conde de Bonfim. Já era final da tarde no momento em que íamos tomar nosso ônibus no terminal rodoviário que existe ali quando um bando de garotos veio correndo atrás de nós, com pedras e pedaços de madeira nas mãos. Conseguimos escapar, mas o terror demorou a passar. Foram tempos difíceis para a Usina, que, felizmente, acabaram, acredito eu…

Dei uma breve caminhada pelo Largo da Usina e por algumas ruas, como a Marechal Pilsudski e Raiz da Serra, até adentrar a Rua Coronel Aristarco Pessoa, onde fica o famoso ponto de táxi da Usina. Se não for o único, é um dos raros lugares no Rio de Janeiro onde ainda se encontram fuscas-táxis. Os moto-táxis também são comuns, além de uma opção mais barata para quem não pretende subir a pé as ladeiras da região. A Coronel Aristarco Pessoa, para quem vem do Largo da Usina, é um suave declive, com algumas casas mais maltratadas no seu início. Dum certo ponto em diante, só se vê belezura.

De cara posso afirmar que o grande diferencial dessa rua é o verde. Tudo bem que ela está colada ao Maciço da Tijuca, mas a quantidade de árvores e flores, principalmente flores!, é impressionante para os padrões cariocas. Avistei, pelo menos, umas seis espécies diferentes ao longo da via. Violetas e azaleias são as que eu sei de nome. Uma das casas, nesse primeiro trecho, comporta duas árvores floridíssimas, o maior barato. Muito bonito, muito colorido. Uma mistura de flores em cor-de-rosa e roxas, com o verde das folhas, tudo em abundância.


O primeiro trecho da Rua Coronel Aristarco Pessoa, que também pode receber a grafia de
Aristarcho: flores coloridas.


Aí está a Rua Rocha Miranda, a única que se inicia na Coronel Aristarco Pessoa. Observe o nível das residências. Uma toda trabalhada em pedra, tem jeito de casa de vó; a outra é mais glamurosa, típica construção grandiosa lusitana.


Embora o bairro de Rocha Miranda esteja bem longe dali, a única rua que se inicia na Coronel Aristarco Pessoa leva o nome do dito-cujo. É um ladeirão, de verdade. Perguntei a uma senhora da vizinhança sobre a extensão da Rua Rocha Miranda, onde ela desembocaria, e, claro, sobre o nível de segurança. Afinal, estava redesbravando a Usina depois de um episódio meio traumático. “Ela só é perigosa se você tiver asma, coisa do tipo. Não tá vendo que é um ladeirão? Ninguém aguenta subir!”, respondeu ela, bem humorada. Ufa! De fato a Rua Rocha Miranda é bem extensa. Trazê-la para o As Ruas do Rio fica para uma próxima ocasião, porém não posso deixar de publicar aqui as fotos – e algumas palavrinhas – sobre o quão bucólica e simpática ela é, especialmente nas redondezas da Rua Coronel Aristarco Pessoa.

Não é preciso subir muito a Rua Rocha Miranda para ter-se uma vista tímida, mas espetacular dos morros da Usina. Não se vêem favelas – apenas muitas árvores, rochas (vulgo pedras), árvores, árvores e mais árvores. Tudo muito verde. Assim como no post anterior, sobre Santa Teresa, o silêncio ali é tão poderoso quanto Portugal foi um dia para o Brasil. E na melhor das combinações típicas dos centros urbanos, natureza e edificações se complementam. Até agora estou encantado com uma das residências da Rua Rocha Miranda. Não sei descrever, mas é de uma imponência e amplitude de bater palmas. A portada é muito linda, com colunas de azulejos e detalhes sinuosos, um pouco religiosos, e muito artísticos. Confio às fotos a tarefa de descrição. As casas de esquina também são muito bonitas, com parte da fachada trabalhada em pedra. Os muros baixos são muito atrativos, e as janelas azuis, de madeira, sem grades, mais ainda. Que sossego!


O último trecho da Rua Coronel Aristarco Pessoa. Muitas residências e muito verde. No final da via, veja que há um paredão coberto por vegetais e o único edifício mais alto dali, no número 203.
 


A última casa da rua, com o morro verdinho ao fundo, e o jardim florido do edifício no número 203.

Voltando à Rua Coronel Aristarco Pessoa, circulo com a câmera entre alguns gatos pela calçada. Uns me perseguem, amistosamente, outros aproveitam a tranquilidade dali para dar seguimento à sesta. Olham-me desconfiados, com aquele ar blasé peculiar de todo felino. O único ruído um pouco mais constante é o de motoqueiros. Às vezes eles são moto-táxis, às vezes entregadores de pizza. Em pouco mais de uma hora que estive pela rua, duas famílias encomendaram pizza para o almoço. Não me chamem de enxerido, é que a Coronel Aristarco Pessoa é tão parada, no melhor dos sentidos, que a única atração mundana é ver quem chega e quem sai.

Ela é uma rua sem saída. Não me atrevi a pular o muro coberto por plantas, nem mesmo para saber o que havia por trás dele. A única construção mais verticalizada fica ali, o prédio de número 203, que eu fiquei namorando um tempão. Adoro prédios que emitem ares de aconchego, e esse me passou uma sensação do tipo. Pudera, com um jardim bonitão daquele da portaria, rodeado de árvores e morros verdinhos, imagina como devem ser gostosas as noites de inverno num apartamento, assim, mais no alto. Até mesmo no verão deve ser mais ameno. Acredito na possibilidade de mosquitos, mas para que estragar nossas ilusões, né? Curta a página do As Ruas do Rio no Facebook para ver mais fotos da rua. Vou colocar lá tão logo essa postagem vá ao ar!

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Santa Teresa: ruas Fonseca Guimarães, Filadélfia e Triunfo

27 março 2012 | 2 comentários

Poderia ser um belo de um condomínio fechado, mas, para a nossa sorte, esse conjunto de ruas em Santa Teresa é aberto ao público.


A bifurcação das ruas Filadélfia (à esquerda) e Fonseca Guimarães, em Santa Teresa, na zona central do Rio. A casa rosa ao fundo fica na Rua Paschoal Carlos Magno.

por Pedro Paulo Bastos

O Largo do Guimarães em um sábado ensolarado oferece uma sensação bastante estrangeira ao carioca que passeia por Santa Teresa. A movimentação intensa, agora sem os tão queridos bondes, é formada por gente de cabelo louro quase branco, acompanhado de olhos muito claros, pele avermelhada, pochetes, câmeras fotográficas potentíssimas presas ao pescoço e aqueles pocket books de turismo no Rio nas mãos. Os bares da Rua Paschoal Carlos Magno já fervilham às onze da manhã, e a predominância gringa fica ainda mais evidente. Como a rua é estreita e o vai-e-vem é grande, lembra à beça aquelas cidades cenográficas do Projac, lotada de figurantes em cena de novela. A diferença é que ali se trata de um bairro real.


Bem ao lado do Bar do Mineiro, um dos locais gastronômicos mais simbólicos de Santa Teresa, uma igreja imponente e bastante velha chama a atenção dos não-moradores e de suas respectivas câmeras. É a Paróquia Episcopal Anglicana São Paulo Apóstolo, construída no início do século passado. Poderia ter uma aparência melhor, embora seu aspecto velho contribua ainda mais para o charme meio rústico do bairro. E foi justamente ao lado, na sua esquina, onde me embrenhei para percorrer mais um conjunto de ruas: as agradabilíssimas Fonseca Guimarães, Filadélfia e Triunfo.

Para acessá-las, só há uma entrada para automóveis, controlada por uma cancela nas imediações da Rua Fonseca Guimarães com a Paschoal Carlos Magno. Geralmente sou questionado quando ultrapasso ruas com cancela, ainda quando porto a câmera na mão. Em Santa Teresa não fui barrado, mas quase fui xingado por um morador ao me ver enquadrando o prédio onde morava em uma das minhas fotos. Fico triste quando desconfiam de mim ou me limitam quando fotografo, mas compreendo a preocupação. Só me resta a lamentação de ainda vivermos numa cidade onde a violência é um fato. Nesse caso, toda prevenção é pouca, mas não vou deixar de fazer esse trabalho pois o considero de utilidade pública. Um dia, num futuro distante, pretendo reunir todo esse meu “acervo fotográfico” de ruas, que venho acumulando desde 2009, para disponibilizá-lo de alguma forma para estudos, pesquisas e afins.

Esse conjunto de ruas em Santa Teresa poderia muito bem ser um condomínio fechado. Como vocês podem ver no mapa, tem o formato de um círculo, só um acesso, apesar de eu ter encontrado uma trilha em forma de escadas mais adiante, na Rua Filadélfia. Essa, aliás, começa numa bifurcação com a Fonseca Guimarães, que no seu primeiro trecho é mais vazia de residências, com a relevância de encontrar-se ali a lateral da Paróquia Episcopal Anglicana São Paulo Apóstolo. A Rua Filadélfia, em um primeiro panorama, é de subida, com chão em paralelepípedo, gramado já crescidinho, e um paredão de pedra que remete em muito às ruas antigas da cidade. Lembrei demais da Ladeira da Misericórdia, no Centro, acesso para o já inexistente Morro do Castelo. Essa imagem é única na minha memória, desde os tempos de escola. O Morro do Castelo é minha referência em Rio Antigo.


O pequeno e simpático edifício amarelo é uma exceção na Rua Filadélfia, constituída por casinhas e casarões. No seu encontro com a Rua Triunfo, um mirante, de onde se pode ver parte do bairro.

A Rua Filadélfia não é muito extensa, mas é loteada de casas espaçosas e pequenos edifícios. Um dos detalhes que chama a atenção são as janelas inferiores, dos pisos abaixo do nível da rua, algo não muito comum na arquitetura contemporânea. Muitas das fachadas têm cores vivas e fortes, como um edifício amarelo e uma casinha vermelha, com detalhes em ciano. Não posso esquecer de mencionar o verdão “aguado” de um casarão na esquina com a Rua Fonseca Guimarães, também bastante apreciável. No encontro da Filadélfia com a Triunfo há uma espécie de mirante, de onde é possível observar boa parte da colina onde está Santa Teresa e o ir-e-vir dos microônibus, que agora substituem totalmente os bondes. O mirante é rodeado por um jardim de pequenos vasos de cactos. Muito bacana.

Já poderia ter comentado logo no início dessa postagem sobre as luminárias públicas, mas preferi incluí-las no meu roteiro pela Rua Triunfo. Sim, não estou falando destes postes cinzentos horrorosos que temos por aí, mas sim de luminárias clássicas. Em dezembro, quando rodei pela região da Rua Cruz Lima, no Flamengo, achei a base original de um antigo poste, dos tempos do Estado da Guanabara. A parte superior, no entanto, fora modificada por modelos mais atuais. Depois descobri que esses postes estão em mais lugares do que eu imaginava, como Catete, Tijuca, Maracanã, Botafogo… A diferença é que em Santa Teresa a luminária também está intacta, o que é um barato. No ambiente charmoso e histórico da Rua Triunfo, esse detalhe faz toda a diferença.


Acima, algumas das residências da Rua Triunfo, cheia de cores vibrantes. Na imagem à direita é possível avistar a luminária comentada anteriormente.


A pousada Castelinho 38 funciona numa casa de estilo eclético, com fortes inspiração militar medieval. Ao lado, residência com janelinhas inferiores. 


Acredito que essa região do bairro seja uma das partes mais nobres, porque é incrível como os imóveis são antigos, bem conservados e com fins residenciais. Na Lapa, por exemplo, onde se vêem muitas casas e prédios do mesmo porte, a energia parece estar meio apagadinha, pouco alegre, apesar de estar sofrendo uma série de intervenções que a estão revitalizando. A Rua Triunfo é viva, bucólica, mas, ao mesmo tempo, com alta penetrabilidade solar. Os quintais são arborizados, os gatos circulam pelas calçadas, pulando de grade em grade, e poucas vozes são ecoadas pelo silêncio infinito que ali impera. Até mesmo o Castelinho 38, uma charmosa pousada instalada num casarão de estilo eclético, que realmente lembra um castelo, e que supostamente deveria ter um movimentado mais agitado, é, nas aparências, de uma calmaria só.

Mais uma curva e voltamos à Rua Fonseca Guimarães, por onde iniciei a caminhada. Essa curva é um verdadeiro recanto verde; muitas árvores e um coqueiro bonitão, na entrada simpática do edifício rosa situado no terreno estreito entre os dois logradouros. O melhor mesmo desse trecho é o casarão lindo que fica logo no início da Fonseca Guimarães. O gradil verde que a cerca é mais decorativo que protetor. Muitas palmeiras, janelas grandes, porta arredondada e piso impecável. A fachada é elegante e discreta. Fantástico que tenhamos algo tão bem conservado e dessa “categoria” aqui no Rio.

O panorama da Rua Fonseca Guimarães tem elementos parecidos com os das ruas vizinhas. Ela é margeada por um novo paredão de pedra, que sustenta as casas da Rua Triunfo. Do outro lado, uma selva de árvores e plantas, contempladas pelas mesmas luminárias públicas originais. As casas baixinhas permitem uma visão mais abrangente dos morros verdinhos de Santa Teresa e suas casas coloridas espaçadas entre um punhado de árvores e outro. O sobrado rosa, onde funciona uma lojinha meio brechó na Rua Paschoal Carlos Magno, bem em frente à Rua Fonseca Guimarães, indica que dei a volta completa. De novo a entrada da Rua Filadélfia, de novo a cancela. Minha impressão? Santa Teresa é, definitivamente, o bairro que mais define a essência carioca. Eu acho…


O número 55 da Rua Fonseca Guimarães é um verdadeiro monumento; tem um estilo neogótico, em meio a um terreno amplo e arborizado. Já o restante da rua é formado por casas menos glamurosas, mas não menos aprazíveis.  

Vou colocar mais fotos da ruas Filadélfia, Triunfo e Fonseca Guimarães na página do As Ruas do Rio no Facebook. Curte lá para ver!

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Adaptações climáticas

15 março 2012 | 2 comentários

As alternativas de cidades canadenses para fugir do frio das ruas. E, nós, no verão carioca, temos como fugir do calor nas atividades do dia-a-dia?


Na Urca, 29 de fevereiro de 2012, temperatura beirando os 40 graus Celsius. Em Montreal, 2 de março de 2012, com 53 graus a menos do que na paisagem ao lado.

por Pedro Paulo Bastos

Início desse mês de março sofri um baita de um choque térmico. Morador do Rio de Janeiro, saí um pouco da nossa querida cidade, que beirava os usuais 40 graus Celsius, todo ensopado em suor. Fui direto para a gélida Montreal, no Canadá, que nesse fim de inverno contava com temperaturas mais brandas, ao redor dos 13 graus negativos. Respirei gelo, atolei a bota de couro em montanhas de neve, tive os lábios ressecados, as mãos roxas quando expostas ao vento… Sofrimentos à parte em férias mais do que merecidas, ganhei a oportunidade de conhecer outros contextos de urbanismo, coisas que eu valorizo à beça em apreciar quando viajo.

Não existem muitos fatores urbanísticos em comum entre Montreal (ou Toronto, que também visitei) e o Rio de Janeiro. São estruturas diferentes de cidades, com dinâmicas peculiares, influência de culturas distintas, nível de segurança pública e estabilidade econômica também muito divergentes… Porém, em uma coisa, sim, somos iguais às cidades do Canadá previamente citadas: contamos com extremidades climáticas. Eles com um inverno bem rigoroso, e nós com um verão de matar se não fosse a bênção de termos uma orla com praias paradisíacas tão extensa quanto a carioca.

Há quem diga que o inverno extremo é menos suportável do que o verão na mesma proporção, embora eu acredite que isso seja muito relativo. Depende da resistência (e do humor) de cada um. Mesmo assim, é inegável dizer que ambas versões climáticas oferecem desconfortos, que podem ocasionar problemas de saúde, inclusive. Nesse ponto, as cidades canadenses saem na frente do Rio de Janeiro por oferecerem uma estrutura que bloqueia o cidadão do tão cruel inverno de lá, que são as “cidades” subterrâneas, ou, do jeito literal, “down towns”.

A calefação está para eles como o ar condicionado deveria estar para nós, principalmente no transporte público. Como seria impossível fazer com que as ruas de Montreal e Toronto contassem com esse tipo de aquecimento, a alternativa foi construir verdadeiras cidades subterrâneas - pequenos shoppings, na verdade, que ganharam tais funções posteriormente -, que se interconectam como se fossem ruas. Nem sempre imitam o desenho das ruas oficiais, embore conte com uma sinalização que adverte o pedestre sobre a localização exata dele em relação à superfície. O negócio é tão bem integrado que no Path, em Toronto, há escadas que só não te levam às ruas, mas já a alguns determinados edifícios empresariais, hotéis e shoppings. Ou seja, não há a necessidade de entrar em contato com a ventania e a neve lá em cima; você pode fazer seu percurso debaixo da terra, subir umas escadinhas e já estar dentro do seu local de trabalho. É uma grande integração dos caminhos públicos com os domínios privados, sem falar na conectividade que as estações de metrô e os terminais rodoviários e ferroviários têm com a área aquecida.


A entrada para o Path, como é chamado o “down town” em Toronto, pode ser acessada por uma simples escadaria do metrô. Ao lado, relógio marca 42 graus aqui no Rio, em dezembro de 2011: como se proteger?

Não vou comparar o Rio com Toronto, porque como já falei, são países e culturas diferentes, ainda mais no que tange à questão financeira. Só queria fazer uma observação para o certo descaso que existe em relação ao nosso verão escaldante. Valoriza-se muito o nosso calor relacionado ao lazer, ou seja, de ir para a praia, tomar banho de cachoeira no Horto ou na floresta, ir ao clube, pegar um bronze, prática de esportes, enfim… Um sem-fim de atividades ao ar livre. Mas a grande verdade é que no nosso dia-a-dia, em ir estudar, ir ao supermercado a pé, se vestir adequadamente para o trabalho, que geralmente requer roupas menos folgadas, é uma tarefa bastante desgastante, em todos os sentidos. Não há nenhum suporte na estrutura urbana da cidade que proteja o carioca do calor nas nossas atividades corriqueiras. Quem se salva é o metrô, que apesar dos pesares, ainda tem um ar condicionado considerável, mas não atende a todos os bairros. Os ônibus, no entanto, são predominantemente quentes - mesmo os frescões, que inacreditavelmente circulam mais em maio, junho e julho, do que em dezembro e janeiro. Que coisa, não?

Montar uma rede subterrânea no Rio de Janeiro seria complicado, custoso e burocrático. É só ver os problemas que temos com a construção do metrô na zona sul, embora seja menos difícil fazer escavações nas zonas norte e oeste, onde a circulação de ar é menos notada. Enfim, só queria fazer essa observação e alertar que o nosso verão é tão rigoroso quanto o inverno canadense – e os invernos de muitos outros países no hemisfério norte. Prover estruturas como as cidades subterrâneas, sejam aquecidas, como no Canadá, ou refrigeradas, como poderiam ser aqui, não vejo como luxo, mas sim como uma necessidade. É qualidade de vida. E um belíssimo exemplo de planejamento urbano.

Acho que um dia o Rio ainda chega nesse estágio!
Veja mais: “Rio passa por onda de calor histórico e tem sensação térmica maior que a do Deserto do Saara” (09/02/2010).


O Path, em Toronto. As lojas subterrâneas são originárias do início do século 20, mas a conexão em rede das galerias foi só idealizada pelos planejadores urbanos na década de 60. (Imagem: Web Urbanist)

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COMENTÁRIO ADICIONADO EM 17/03/2012:

O leitor Eduardo, que mora em Toronto, comentou aqui no blog e fez um contraponto em relação ao assunto das cidades subterrâneas por lá. De fato uma visão de um morador confrontada com a minha experiência como turista, o que lhe dá muito mais créditos. De qualquer forma, não deixa de ser uma ideia interessante para o Rio, ainda que com restrições, como o Path:

‘A “cidade subterrânea” de Toronto, onde já moro há 8 anos (vim para o Canadá em 88), tem um uso e popularidade bem restritos. Para começar, ela fica no setor financeiro-empresarial – ou seja, não abrange nem 10% da área da cidade. É realmete ótima para quem trabalha lá, como eu trabalhei por uns quatro anos. Mas não pensem que, chegado o inverno, os habitantes de Toronto se enfiam no subterrâneo e nunca mais saem. Tem lojas, sim, mas principalmente de serviços básicos como farmácias, lojas de bebidas, praças de alimentação, de telefones celulares, mercados de comida. Durante a semana realmente está bem movimentada no horário comercial dos dias úteis. Porém, nos outros horários e nos fins-de-semana, é uma cidade subterrânea fantasma. Mal ou bem, os torontonianos dão a cara ao frio e ao vento e saem mesmo com temperaturas gélidas para fazer filas em cinemas, esperar o restaurante abrir na hora do brunch, pegar ônibus ou bonde. Não conheço ninguém que busque ou se dedique a opções de lazer na cidade subterrânea – até mesmo porque quase não as há.’

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