O Largo de Vaz Lobo (estava) na mira da Transcarioca

Um dos últimos cinemas de rua do subúrbio ganha defensores bastante engajados por Pedro Paulo Bastos   Largo de Vaz Lobo, com o Cine Vaz Lobo ao fundo: intervenções paisagísticas e viárias repensadas. Vaz Lobo é, de longe, um dos bairros menos badalados no Rio. Seja pelo seu perfil residencial ou pela sua localização geográfica, […]

Um dos últimos cinemas de rua do subúrbio ganha defensores bastante engajados

por Pedro Paulo Bastos

 


Largo de Vaz Lobo, com o Cine Vaz Lobo ao fundo: intervenções paisagísticas e viárias repensadas.



Vaz Lobo é, de longe, um dos bairros menos badalados no Rio. Seja pelo seu perfil residencial ou pela sua localização geográfica, pouco se ouve falar sobre as suas particularidades. Isso acontece com muitos bairros do subúrbio, estigmatizados pela violência que caracteriza a parte do extremo norte do município. A história, os costumes e a paisagem de cada lugar acaba sendo generalizada pelo descaso que se tem, do Estado, para com as áreas menos ricas. O que seria tombado e preservado na Zona Sul ou no Centro, a demolição é um futuro quase certo para os imóveis históricos do subúrbio. O bairro de Vaz Lobo é testemunha.


A Transcarioca, a mais nova avenida da cidade que interligará a Barra da Tijuca à Penha, promete melhorar não só a estrutura viária do Rio como também a paisagem de muitas regiões pelas quais passará. O pedaço entre Campinho e Madureira já está interditado; um mergulhão está previsto por ali. O traçado da Transcarioca acompanharia a Avenida Edgar Romero até o Largo de Vaz Lobo, onde será preciso desapropriar diversos imóveis, incluindo aí o edifício do extinto cinema Cine Vaz Lobo.

Cine Vaz Lobo, na década de 70, quando ainda funcionava

Inaugurado em 1941, o proprietário do cinema, o português Antônio Mendes Monteiro, construiu a sala com capacidade para 1 800 pessoas, com referências ao art déco, tornando-se um dos pólos de cultura referenciais para aquela região. De acordo com informações do blog da vereadora Sonia Rabello, um dos primeiros em que li sobre o caso, a pré-estreia do Cine Vaz Lobo contou, inclusive, com a ilustríssima presença da primeira-dama da República Darcy Vargas. A época de ouro durou até meados da década de 80, como todos já sabem, período-chave para a falência dos cinemas de rua em função da violência urbana e da expansão dos shopping centers. Desde então o prédio viveu abandonado, entregue às inesperadas ações do tempo. Passeando pelo Google Street View, vê-se que o térreo do edifício é hoje ocupado por um botequim. A fachada, deteriorada, ainda preserva no topo o título, em caixa alta: “CINE VAZ LOBO”.


O projeto da Transcarioca pretendia demolir o Cine Vaz Lobo para dar espaço a uma das pistas da avenida, incluindo a construção de uma praça. Foi aí que surgiu o Movimento Cine Vaz Lobo, um grupo formado por moradores, simpatizantes e pesquisadores que se uniram para combater a destruição de um local que não só deve ser preservado como reestabelecido. E deu certo! Assinaturas foram recolhidas no Mercadão de Madureira no início desse ano e o traçado será revisto a fim de manter o cinema.

Simulação de como ficaria o Largo de Vaz Lobo, sem o largo, para dar passagem à Transcarioca. Em troca, a preservação do Cine Vaz Lobo com intervenções paisagísticas.



Considero o movimento como um belo exemplo de cidadania. Está mais do que comprovado de que é no engajamento das pessoas em prol de um objetivo a possibilidade mais próxima de alcançá-lo. O Rio está passando por uma fase de mudança, bastante favorável à recuperação de áreas degradadas e que podem – e devem – entrar no circuito cultural e turístico da cidade. Isso dependerá de uma organização das comunidades para que elas próprias se fortaleçam. Ainda mais no subúrbio, que não conta muito com o respaldo do Estado e muito menos do empresariado.


Lamento muito que o triunfo desse grupo perante a Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro não seja nem um pouco noticiado pela mídia. De qualquer forma, meus parabéns ao Movimento; não os conheço, embora lhes ofereça todo o meu apoio. O Movimento tem potencial, é inegável, tendo mais êxito do que as mais organizadas associações de moradores da Barra e da Zona Sul contra a nova Linha 4 do Metrô. Esse é um ótimo exemplo para outros bairros da Zona Norte, do Subúrbio e da Zona Oeste se inspirarem e lutarem pela preservação dos seus patrimônios históricos e culturais!

—–
Em tempo: a arquiteta e urbanista Fernanda Costa é uma das líderes do movimento. Em vídeo,  ela fala sobre seu projeto de TGF da UFF, baseado no caso do Cine Vaz Lobo, além das propostas para o local. Ainda mostra o depoimento de outros participantes e do dia da coleta de assinaturas no Mercadão de Madureira. O vídeo está no blog Subúrbio Carioca – link para lá.

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