Rua dos Oitis, Gávea

09 maio 2013 | deixe seu comentário (0)

Enquanto à noite o Baixo Gávea se transforma em um dos locais mais boêmios da cidade, eu fui passear pela Rua dos Oitis logo em seu momento do dia mais calmo: a manhã.


Braseiro. Restaurante tradicional na Gávea, ele fica na esquina da Praça Santos Dumont com a Rua dos Oitis.

por Pedro Paulo Bastos

Quando cruzei a Praça Santos Dumont na última terça-feira 7, o chafariz no centro daquele espaço ajardinado ainda não estava em funcionamento nem mesmo as crianças das escolas municipais ali perto faziam algazarra pelas calçadas da Gávea. A esquina da praça com a Rua dos Oitis pouco lembrava a intensa badalação que tem em determinados dias da semana – é um dos locais mais boêmios da zona sul. Os restaurantes Hipódromo e o Braseiro, vizinhos da Rua dos Oitis e amistosamente rivais de público, iniciavam suas atividades do dia timidamente, sem a grande aglomeração de clientes que lhes é particular. A partir do encontro com a Rua José Roberto de Macedo Soares, a Rua dos Oitis apresentava-se em uma reta de árvores de diferentes tamanhos e modelagens margeadas por residências. De comércio por ali, ou melhor, de restaurante, o único sobrevivente é o restaurante Sushimar. O cheiro dos peixinhos crus chegava à calçada da Rua dos Oitis. Não sei se era um bom ou mau sinal, mas que me abriu o apetite, ah, isso sim.

De bairro operário à bairro preferido de arquitetos e moderninhos, a Gávea tem toda uma energia cativante dos bairros pequenos e aconchegantes, e o melhor, sem perder a sua identidade. Ao longo da Rua dos Oitis isso pode ser comprovado: é um dos poucos lugares da zona sul onde as casas originais foram preservadas, mesmo as menos sofisticadas. Grande maioria, é claro, porque já se levanta muito prédio por lá. Inclusive, ali próximo da Rua dos Oitis é possível ver os resquícios de uma antiga vila operária, que na verdade nunca chegou a se concretizar de fato por questões políticas, segundo o livro “150 anos de subúrbio carioca” (Lamparina editora; Editora da UFF), um compilado de pequenos artigos de diferentes autores organizados por Márcio Piñon de Oliveira e Nelson da Nóbrega Fernandes. As escolas Júlio de Castilhos e Manuel Cícero são um exemplo deste marco histórico. Ao mesmo tempo que essa preservação toda é fantástica, também mostra-se curioso o fato de ser uma das regiões mais caras da cidade sem que ofereça um luxo associado a esses valores estratosféricos. A geografia carioca influencia muito mais nestas questões do que o espaço urbano em si.


O trecho boêmio. Até o encontro com a Rua José Roberto de Macedo Soares, a Rua dos Oitis concentra simbólicos estabelecimentos comerciais, como alguns restaurantes, uma banca de jornal e drogaria
.


Caráter residencial. Calçadas espaçosas e ajardinadas são passeio para as residências de lá. Poucos os edifícios que são altos.

Simplicidade deveria ser o sobrenome da Rua dos Oitis. Uma casinha detonada ganha cores fortes e um muro é criteriosamente grafitado, já tornando-se um atrativo à parte. Ou então uma reles janela de madeira, que ganha uma mãozinha de tinta em vermelho forte, contrastando com o branco de sua fachada. Ou então um muro rosa, pertencente a uma escola de ballet. Ou o mais jocoso – fofinho, na linguagem feminina – dos detalhes nunca antes visto por mim em uma rua: um boneco grande do personagem belga Tintim bisbilhotando o movimento da Rua dos Oitis através de um janelão de vidro. Milu, o fox terrier de pêlo branco, é claro, não podia estar longe de seu dono. Esse ambiente divertido, compartilhado com os olhos do público, pertence ao escritório do arquiteto Chicô Gouvêa, que é fascinado pelo personagem. A fachada da casa é toda composta de amarelo, laranja e branco, o que comprova a proposta despojada do imóvel.

A impessoalidade que comumente os edifícios têm – um sem-fim de apartamentos, muita reserva -, por alguma razão não fazia parte do contexto da Rua dos Oitis. Pelo menos naquela manhã. Percebi uma interação muito forte de alguns moradores, do alto de suas janelas, com quem vinha passando pela rua. Até porque muitos são edifícios não tão altos, com poucos pavimentos, alguns dispõem de varandas, então a aproximação com o espaço da rua é maior. Vendedores ambulantes ou aquelas kombis no estilo “compro-tudo”, anunciando-se em megafones que deixam a voz do locutor meio esganiçada, passavam tranquilamente ao longo da rua. Cena rara de se ver em uma rua da zona sul. Pelas calçadas o movimento era baixo, embora quem passasse ali tivesse toda uma identidade muito bem marcada: a babá negra uniformizada com uma criança lourinha à tiracolo; um casal de senhores, bengala numa mão e a outra dada à esposa; jovens bonitos, de aparência cosmopolita; uma atriz jovem de telenovelas, em companhia de um amigo.


Detalhes. O personagem Tintim observa todo o movimento da Rua dos Oitis de forma atenta com seu fox terrier, enquanto casas geminadas muito bem tratadas representam o caráter operário da Gávea no século passado
.


Vistas. O Corcovado é avistado graças ao gabarito limitado da rua, preenchida por muitas casas ao longo de sua extensão.

O mais legal de se caminhar por uma rua de gabarito limitado é poder observar o desenho do Maciço da Tijuca, que é muito bonito visto desta região da Gávea. Se o Cristo Redentor dá as suas costas à Rua dos Oitis, o que não o deixa menos bonito, o contorno do Corcovado, por sua vez, fica bem mais em evidência do que na orla da Baía de Guanabara. E acaba que esse gabarito limitado vai se representando em outros tipos de imóveis interessantes, como uma série de casas geminadas, já nas proximidades da Rua das Acácias, e uma vila bem charmosa no número 52, adornada por uma alta palmeira. As janelas que dão diretamente para a rua são exemplos de um Rio que ficou para trás, já que hoje vivemos enclausurados entre grades, portões, subportões, e muitos outros aparatos de separação (e proteção) do espaço público com o privado. Na Rua dos Oitis são muitas as janelas que ainda convivem com a rua.


Outros detalhes. Flor brota de uma árvore “pelada”; ao lado, um dos únicos imóveis modernosos da rua.

A arborização abundante – afinal, é a rua “dos Oitis” – perfura as calçadas, descompõe a estrutura dos canteiros e invade a própria, e excessiva, fiação da rua, loteada de pequenas mudinhas espalhadas por ela, de onde ainda pende uma antiga lamparina. Uma senhora não dava conta de varrer a calçada que, de minuto em minuto, via encher-se de folhas a cada passagem de vento. As árvores de lá proporcionam sombras confortáveis, ainda mais no outono. Se por aqui as folhas não costumam ficar alaranjadas, pelo menos temos o privilégio de sentir o sol embrenhando-se pelos espaços vazios entre os galhos e folhas e, assim, refletindo-se sobre a calçada. Em alguns trechos da Rua dos Oitis a cobertura de folhas é tão densa que o ambiente parece sombrio em plena manhã. Não é à toa que uma simples ida à rua transforma-se em um programa dos mais agradáveis para os que moram pelas redondezas. Mesmo com toda a mercantilização dos espaços urbanos da zona sul nestes últimos anos, a Rua dos Oitis, pelo menos, ainda conserva um certo laço de intimidade com o pedestre. Penso que isso é graças à preservação de suas raízes, não só a das árvores centenárias, mas as comerciais, familiares e sociais também.

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Avenida Fleming, Barra da Tijuca

20 abril 2013 | 1 comentário

Fora do eixo badalado da Barra, a Avenida Fleming se diferencia por condições climáticas amenas e residências menos chamativas do que se costuma ver pelo bairro


Córrego. Panorama da Avenida Fleming, na região da Barrinha, com o córrego que vem desde o Alto da Boa Vista.

por Pedro Paulo Bastos

Cheguei à Avenida Fleming por volta das 9 da manhã de um sábado, com os pêlos do braço bastante ouriçados diante da sensível diferença térmica dali com as imediações da Praça Desembargador Araújo Jorge, reduto de tradicionais restaurantes de frutos do mar da região antiga da Barra da Tijuca, na zona oeste do Rio, mais conhecida como Barrinha. É nessa praça onde está todo o comércio desta microrregião, como se fosse o centro de uma cidadezinha do interior, além dos pontos dos poucos ônibus que transitam por este recanto da Barra. Para chegar à Avenida Fleming - nome dado em homenagem ao prestigiado sir Alexandre Fleming, britânico que descobriu a penicilina -, segui duas quadras ao longo da Estrada do Joá, que começa na praça, e entrei à direita. Caminhei até o seu final, o que me custou mais umas três quadras.

O final da Avenida Fleming é formado pela Praça Professor Velho da Silva, uma simpática praça em rotatória com árvores suntuosas e brinquedos antigos bem cuidados. Antes mesmo de iniciar oficialmente a minha expedição com a câmera, saquei imediatamente a blusa de flanela da mochila e a vesti. E eis a razão da mudança de temperatura: a Avenida Fleming parece mais uma floresta do que uma rua. Colada ao Alto da Boa Vista, a umidade do local era curiosamente sentida pelo corpo, mesmo que a Praça Desembargador Araújo Jorge estivesse a poucos metros dali sob uma sensação térmica bastante distinta. O caráter arbóreo da praça mal deixava refletir os feixes de luz natural por lá. Ficavam retidos entre os galhos e o diminuto espaço entre as folhas, proporcionando aquele visual sombrio, gélido para um dia de outono carioca. Por um momento me arrependi de não ter levado repelente para mosquitos.


A praça. A Praça Professor Velho da Silva fica na confluência da Estrada do Sorimã, da Avenida Fleming e da Rua Professor Ferreira da Rosa
.


Elementos naturais. Raízes grossas e sobressalentes ficam sobre um córrego ruidoso de água gelada, compondo o cenário da praça.

Descansei por uns instantes num dos banquinhos gelados de cimento da Praça Professor Velho da Silva para checar o ambiente, ver quem o frequentava, a forma como se relacionavam com aquele espaço. Não havia ninguém com exceção de um casal em trajes esportivos. Se a falta de convivência “humana” me fez falta naquele espaço, por outro notei a quantidade de flora presente. Aos olhos do leigo, tudo é “árvore”. Sim, tudo é árvore! No entanto, observe bem aquela ali, as tonalidades de marrom sobrepostas no seu tronco, ou então a grossura dos galhos daquela lá. E as raízes sobressalentes desta outra? Entendi imediatamente o porquê dos cartazes espalhados ao longo da Barrinha contra a Escola Suíço-Brasileira, instalada ali perto, na Estrada do Joá: acusam-na de desmatar parte destas árvores para que outro prédio da escola seja levantado.

“Esses são os macaquinhos. Eles ficam trepados por aí para roubar os ovos dos passarinhos”, avisou-me uma cinquentenária moradora da Estrada do Sorimã após um berro contínuo, quase ensurdecedor e muito bem orquestrado dos micos.

 

“Esses são os macaquinhos. Eles ficam trepados por aí para roubar os ovos dos passarinhos”, avisou-me uma cinquentenária moradora da Estrada do Sorimã após um berro contínuo, quase ensurdecedor e muito bem orquestrado dos micos. Estávamos comentando sobre a vizinhança e a tranquilidade do lugar diante do córrego ruidoso que passa por baixo da Praça Professor Velho da Silva. No declive, a queda d’água parecia a de uma verdadeira cachoeira – a trilha sonora perfeita para um descanso merecido de fim de semana metido em alguma rede confortável. Esse mesmo córrego vai sendo escoado ao longo da Avenida Fleming, perdendo sua força de acordo com o aplanamento da rua.


Paisagismo. Nas margens do córrego, uma série de plantas ornamentais compõem o cenário sofisticado, e ao mesmo tempo simplório, da Avenida Fleming
.


O córrego. O plano inclinado de acesso ao córrego coberto por musgos. Ao lado, a simpática ponte de madeira com a cadeia de montanhas ao fundo.

A margem do córrego é loteada de plantas e flores ornamentais, provavelmente inseridas ali pelos moradores da Avenida Fleming, o que constitui um belo projeto paisagístico; simples, porém integrado com a natureza ao redor. A parede entre o córrego e a via é coberta por uma camada de musgo num verde bem vivo, além de pétalas despedaçadas pelo vento. Há um gramado também ao longo do canteiro central, por vezes utilizado como banheiro canino. Aliás, isso era algo que eu gostaria de comentar. Fico sempre impressionado e amaravilhado com ruas lindas e tranquilas como a Avenida Fleming, embora seja sempre por elas onde surgem cachorros sem dono decididos a bisbilhotar o que você está fazendo. Desta vez, veio correndo em minha direção um vira-lata preto, logo na descida da praça. Mantive a postura ereta, mas ele era dócil demais para fazer qualquer coisa comigo. Ignorou-me, indo de encontro agora a um Samoieda branco aparentemente abandonado. Depois daquele episódio na Rua Filgueiras Lima, adquiri certo pânico por aparições caninas pelas ruas do Rio.

Diferindo do padrão da Barra da Tijuca, em que as residências tomam proporções estéticas pra lá de “miamianescas”, as casas da Avenida Fleming têm um estilo bastante simplório, beirando o “roceiro” em alguns trechos. As casas mais confortáveis, sob o ponto de vista do pedestre, são identificadas por aquelas de muros mais altos dotados de paisagismo vertical, com a cobertura de plantas por toda a extensão do paredão. Não se ouve absolutamente nada de dentro delas – a vizinhança pareceu-me muito silenciosa. Mesmo o córrego, principal fornecedor de ruídos, vai se aquietando em direção à Estrada do Joá.


Residências. Fugindo ao padrão de luxo ostentado pela Barra da Tijuca, a maioria das casas na Avenida Fleming são pouco chamativas, recriando um clima de “roça” em plena cidade grande
.


Perto do Joá. O prédio modernoso da Work Able e o cruzamento da Fleming com a Vitor Konder

Fora do eixo residencial, um elemento que destoa do ambiente  é um edifício modernoso onde funciona a agência de marketing Work Able, na esquina com a Avenida Vítor Konder, mostrando indícios de que a preservação das características genuínas da Avenida Fleming não está lá muito rígida. O mesmo para as casas de festa que pululam até o início da rua. Nesta altura, o córrego apresenta uma água muito clarinha, incrivelmente limpa, num jocoso contraste com as suas margens mal cuidadas, repletas de seixos, lixos de várias espécies e restos de oferendas. Uma pena, se você não vislumbrar o jogo de montanhas ao fundo, agora muito mais visível do que na Praça Professor Velho da Silva. A paisagem é de tirar o fôlego, o morro todo verdinho, a rocha visivelmente úmida. Prato cheio para as construtoras, se elas pudessem intervir ali com espigões, é claro, só que não podem. Alívio! Mas até quando?

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Rua Paula Frassinetti e Praça Doutor Del Vecchio, Rio Comprido

10 abril 2013 | 4 comentários

Na rota para o Sumaré e para as Paineiras, um recanto do Rio Comprido que ainda resguarda um pouco dos tempos áureos do bairro, gradualmente degradado a partir da abertura do Túnel Rebouças


Reocupação de vias. A Praça Doutor Del Vecchio foi reincentivada como rota de acesso ao Sumaré, Santa Teresa e Paineiras, após a ocupação da polícia nos morros do Rio Comprido.

por Pedro Paulo Bastos

Quem costuma passar pela Rua do Bispo já percebeu que a via recebeu novas sinalizações há pouco tempo, indicando nome de lugares até então pouco imaginados de serem acessados pelo Rio Comprido, bairro entre o Centro e a zona norte da cidade. Um exemplo? Sumaré. O local, situado em uma parte alta da Floresta da Tijuca, era mais comumente alcançado pelas estradas do Alto da Boa Vista ou pelas ruelas do Cosme Velho, na zona sul. Com a ocupação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) nos morros do Rio Comprido em 2010, antigas rotas do bairro estão sendo reincentivadas pela Companhia de Engenharia de Tráfego do Rio de Janeiro como alternativas de escape ou acesso, graças à melhoria na segurança destas ruas, que passaram por uma fase tenebrosa quanto à violência urbana.

Na Rua do Bispo, as setas indicando “Sumaré” apontam para a Rua Paula Frassinetti, que logo no seu início abarca uma cabine da polícia com letras bastante visíveis representando a atuação da UPP do Morro do Turano na região. Esta evidência de “segurança” já é um motivo de acolhimento para o pedestre pouco familiarizado com o bairro. Porém, é adentrando a Rua Paula Frassinetti que vamos descobrindo como o Rio Comprido foi injustiçado e maltratado pelo poder público durante décadas. Atualmente, ele tem lugar no nosso imaginário como um sítio feio, cinza e sombrio pelo Elevado do Túnel Rebouças, e de residências destroçadas e ruas sujas. A Rua Paula Frassinetti, no entanto, ainda consegue resguardar o que sobrou daquele bairro bucólico, cercado por mata verde e cheiro de terra úmida.


Acolhimento. A cabine da UPP do Morro do Turano na esquina com a Rua do Bispo representa a melhoria da segurança instaurada na região e nos acessos à Praça Doutor Del Vecchio e Sumaré através da Rua Paula Frassinetti
.


O estilo. Os tempos áureos do Rio Comprido se mostram resguardados pelo estilo pomposo das residências, muitas bem conservadas.

A rua é predominantemente residencial e horizontalizada. Ao longo da sua reta, as árvores com seus galhos e folhas formam uma cobertura aérea de visual bastante interessante, muito estético. O chão de paralelepípedo recria um ambiente de subúrbio com casas dispostas em centro de terreno com quintais espaçosos e ajardinados. Cada residência é mais bonita do que a outra. Os estilos, então, mostram como o Rio Comprido de outrora era refinado. Uma casa em estilo suíço, por exemplo, muito bem conservada, é o contraste principal entre todos os outros imóveis da Rua Paula Frassinetti. Cores vivas mesclam-se ao encardido de alguns pequenos edifícios que não recebem uma mãozinha de pintura há algum tempo. Enquanto as casas têm muros baixos, como se se atrevessem a ir de encontro às imposições de proteção contra a violência, os edifícios se destacam com janelas excessivamente gradeadas, descaracterizando em muito o estilo arquitetônico que lhes foi projetado.

Por ser via de acesso ao morro da Matinha, o único ruído que se escuta pelas calçadas da Rua Paula Frassinetti é o das mototáxis. Elas passam disparadas em atrito aos blocos de pedra do chão. Apesar disso, os ruídos são intercalados, o que permitia, nos intervalos, ouvir um pouco do que acontecia no interior das janelas e portas semicerradas. E as indagações não saíam da cabeça: como viviam esses moradores em épocas mais tenebrosas? Há quanto tempo moram ali? Se sentem mais seguros para um passeio a pé, dia ou noite? Os ares mais decadentes de algumas janelas, apartamentos ou casas, também foram pretextos para imaginar de que forma as transformações urbanas impactaram na aparência das propriedades privadas. E eis que corre pela Rua Paula Frassinetti uma kombi, com aquele seu motor ora choroso, ora meio desgovernado. É uma versão mais agregadora de passageiros em comparação às mototáxis.


Mais da Paula Frassinetti. A idade de determinados imóveis se reflete na deterioração dos gradis ou na falta de pintura, enquanto outros se destacam pelas cores vivas ainda muito presentes
.


A praça. A chegada à Praça Doutor Del Vecchio, que passou por uma revitalização em meados de 2012. O playground, por exemplo, encontra-se em perfeito estado de utilização.


O entorno. Gangorra, banheiros públicos, quiosque e quadra poliesportiva estão inseridas num parque margeado por edifícios dos anos 50 e 60.

A Rua Paula Frassinetti, que recebeu tal nome em homenagem à Paola Frassinetti, religiosa italiana morta em 1882, desemboca na Praça Doutor Del Vecchio, que tem formato retangular e é margeada igualmente pelas ruas Infante de Sagres e do Citiso e a Estrada do Sumaré, fazendo jus àquela placa de trânsito lá da Rua do Bispo; agora, a Estrada do Sumaré é sinalizada como caminho também para Santa Teresa e as Paineiras. A Praça Doutor Del Vecchio é cercada por edifícios nos moldes dos da Rua Paula Frassinetti, proporcionando um clima aprazível e de aconchego. A decadência dos imóveis no entorno da praça é notória e ao mesmo tempo sutil, o que me fez observá-los com mais cuidado e admiração. Repetindo: poderia ser apenas mais uma reles praça e mais um conjunto ordinário de prédios. Porém, tratando-se do Rio Comprido, é uma ótima surpresa deparar-se com “cápsulas” de bucolismo e boa vizinhança em meio a um bairro consideravelmente detonado.

Às três da tarde de uma terça-feira nublada, a Praça Doutor Del Vecchio estava deserta, exceto por uma dupla de policiais em vigia constante, estrategicamente parados à Rua Infante de Sagres, e um casal de namorados que pouco se importou com os flashes da máquina fotográfica deste que vos escreve. O estilo da praça mostra evidências de requinte tanto quanto sua vizinhança – um requinte antigo, não muito contemporâneo – apesar do lixo deixado pelo caminho e dos canteiros cobertos apenas por um gramado ralo, pouco denso. O centro da Praça Doutor Del Vecchio, por estar em um plano inclinado, permite ter uma visão geral bem bacana da arquitetura ao redor. Algumas venezianas deixavam à mostra um pouco do interior dos apartamentos. Dali, projeções de hábitos e comportamentos, como um aparelho de televisor sintonizado em um canal de filmes ou uma conversa de telefone audível aos transeuntes graças ao sossego e ao silêncio da praça.


O entorno II. Detalhe de residência à Praça Doutor Del Vecchio, com a imagem de uma santa no topo da fachada interna. Ao lado, a vista da Rua Paula Frassinetti com a praça à direita.


Observações. A meninada que descia a Rua Infante de Sagres adentrando a praça estava animada em sair na foto, até que avistamos o Club do Curió e ficamos indagados sobre um clube tão escondidinho e pouco famoso no meio de um matagal.

O cheiro de mata e de terra úmida ao qual me referi anteriormente é resgatado em uma das extremidades da Praça Doutor Del Vecchio, coberta por um bando de árvores perfurado por dois caminhos mambembes sem sinalização. Enquanto um trio de meninas nos abordava amistosamente [eu estava na companhia de uma amiga, a Alessandra] para que as fotografássemos, observávamos aquele matagal com certa curiosidade, principalmente pelo letreiro “Club do Curió” em letras garrafais antigas no topo de uma escadaria estreita de pedra. Vim a descobrir que se trata de um clube cuja atração principal consiste na paixão por passarinhos e suas cantorias, postas à prova em torneios estaduais que mobilizam diversos outros clubes deste segmento, desde que tenham o aval do IBAMA. Nem preciso dizer que a surpresa foi ainda maior: além de um recanto como esse no Rio Comprido, existe um clube tradicionalíssimo especializado em passarinhos! Como imaginar? É desbravando o desconhecido que se expande a cultura citadina, meu melhor passatempo.

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Rua Gorceix, Ipanema

17 março 2013 | 2 comentários

Bem-vindo à Rua Gorceix, a charmosa via de Ipanema que poucos conhecem


Colada ao Cantagalo. A Rua Gorceix fica entre as ruas Alberto de Campos e Almirante Saddock de Sá, na zona sul.

por Pedro Paulo Bastos

Nascido em 1842, Claude Henri Gorceix era francês de Saint-Denis des Murs e bacharel em Ciências Físicas e Matemáticas pela Escola Normal Superior de Paris. Veio para o Brasil em 1874, como professor de geologia, mineralogia, física e química, tendo falecido em 1919. Sua relação com Ipanema, na zona sul do Rio, não se sabe muito bem com exceção de uma: a de emprestar seu sobrenome a uma das simpáticas ruas do bairro.

Não só pelo nome pomposo diante de certo fetiche que grande parte dos brasileiros tem por sobrenomes estrangeiros, a Rua Gorceix se diferencia de muitas outras ruas da cidade por dois motivos: em primeiro lugar, numa macroescala, está localizada na região mais cobiçada do Rio; em segundo, numa microescala, está situada em posição ainda mais privilegiada no contexto da própria região cobiçada em que se insere. Ipanema é um bairro de vias longas e essenciais para escoar o trânsito entre o Leblon, a oeste, a Lagoa, ao norte, Copacabana, a leste, e a praia, ao sul. A Gorceix, então, contrariando essa organização espacial, é uma figura pequenina no mapa, colada ao Morro do Cantagalo, no fim das ruas Alberto de Campos e Almirante Saddock de Sá. Completamente residencial. Nada de carros, nada de buzinas. Saiam pra lá!

“Numa microescala, [a Rua Gorceix] está situada em posição ainda mais privilegiada no contexto da própria região cobiçada em que se insere”

 

Mesmo com a baixa rotatividade de automóveis pela rua, um suspiro – ou uma crítica – não poderia passar em branco. O emparelhamento de carros estacionados é excessivo. Pode soar ingênuo da minha parte fazer este tipo de observação, ou até mesmo estar reclamando de uma situação complicada de ser revertida, que é a questão do transporte. Infelizmente a quantidade de carros pelas ruas, em movimento ou não, é absurda. Mesmo as ruas mais tranquilas e aconchegantes, como a Gorceix, são vítimas deste mal. Não pude deixar de imaginar como seria a Gorceix sem os carros, com o desenho das calçadas livre ao campo visual. Os jardins à mostra, a facilidade de locomoção do pedestre e dos carrinhos de bebê, o contorno da esquina possível de ser visto através de um ponto equidistante…


Alberto de Campos. Os prédios luxuosos na esquina com a Alberto de Campos
. Na outra ponta, este aspecto se inverte.


Gorceix. O edifício antigo azul e branco se destaca na rua pelo estilo simpático. Ao lado, detalhe das flores diminutas.


Saddock de Sá. No término da Rua Gorceix, as casas são mais comuns do que os prédios inicialmente mostrados. A arborização é mais intensa, com galhos longos que ajudam a formar um teto de folhas e sombras para os pedestres.

Os edifícios da Rua Gorceix são bonitos e luxuosos, embora não tenham nenhum diferencial que possa qualificar a rua como pitoresca ou algum adjetivo sinônimo. Levo em consideração que, em geral, essas ruas pequenininhas são sempre mais divertidas em termos de arquitetura do que as de mais movimento. Elas têm um caráter natural de ”cantinho”. O grande atrativo mesmo de lá é a preservação de algumas casas ainda habitadas por famílias, o que é coisa rara na zona sul. Se o leitor for caminhar pela Rua Nascimento Silva ou pela Rua Redentor, decerto se deparará com imóveis deste tipo, mas a maioria (se não todos) destinados a usos comerciais. Na Rua Gorceix, as casas têm aquele jeito singelo, de pouca imponência, onde o luxo é justamente essa simplicidade com uma leve pitada vintage. Seria injusto não citar o pequeno edifício do número 14, que mais parece uma casa de boneca com seus azulejos imitando losangos entre as janelas de madeira azulada com varandinhas na mesma cor.  

Observei um número considerável de ciclistas passando pela Rua Gorceix nessa manhã de sábado. Eles vêm da Alberto de Campos, viram à esquerda na Gorceix e seguem de novo à esquerda pela Rua Almirante Saddock de Sá. Como a Gorceix liga nada a lugar nenhum – isto é, não é via de escape –, interpeto que passem ali apenas pelo prazer de se estar em um recanto de Ipanema longe da Ipanema midiática e dos turistas, que é cheia de bares e cafés da moda e de idiomas em conflito a cada conversa emitida aos ventos. É como numa ligação cruzada; ouve-se de tudo, porém entende-se muito pouco.

Na esquina com a Rua Almirante Saddock de Sá, a calçada estava úmida e cheirava a sabão em pó. Um pouco de água escorria pelo meio-fio sob a sombra das suntuosas árvores da rua vizinha. O cheiro de limpeza é sempre confortante. Ao longo da Gorceix, no entanto, não tenho como afirmar se era pela velocidade em que as bicicletas andavam por ali, distinta a do ritmo do pedestre, ou se isso emanava do próprio pedestre – só sei que a Rua Gorceix cheirava a filtro solar. Aquele tipo de fragrância gostosa de respirar, que nos remete a saúde, vida, natureza. Numa localização esplendorosa como essa, não me restam dúvidas de que a energia da Rua Gorceix é das melhores.  

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Rua Bernardino dos Santos, Santa Teresa

10 março 2013 | deixe seu comentário (0)

… E percorremos um trechinho da Rua Cândido Mendes também!


No alto da colina. Além das paisagens belíssimas, a Rua Bernardino dos Santos é cheia de intervenções artísticas.

por Pedro Paulo Bastos

A Déborah é francesa e está no auge dos seus 20 anos de idade. É estudante de intercâmbio de Sociologia pela PUC. Virou minha amiga através do Guga, outro amigo meu de longa data, quem me a apresentou após tê-la conhecido em Toulouse, quando ela ainda estava no outro lado do Atlântico. Ele, por sua vez, também era intercambista na época.

Apresentações à parte, o que há de comum entre nós? A resposta é… A paixão pelo Rio! Ambos com suas percepções, gostos e referências.

A Déborah ainda tem um sotaque carregado, embora tenha aprendido a falar português assustadoramente rápido. Há bem menos de um ano ela mal sabia conjugar os verbos no presente e agora já faz uso de gírias e expressões com uma incrível espontaneidade. Independente, explora o Rio de norte a sul. Já o Guga tem se mostrado um ótimo conhecedor do nosso Rio de Janeiro, graças à amizade deste que vos escreve (modéstia à parte, é claro). Eu não podia ter companhia melhor para explorar o bairro de Santa Teresa, no centro do Rio, e uma de suas ruas, a Bernardino dos Santos.

A rua se inicia nas proximidades do Largo do Curvelo, uma das tradicionais paradas do extinto bonde de Santa Teresa. A praça que lhe serve de esquina descortina um dos mais belos cartões postais da cidade: a Baía de Guanabara e o Pão de Açúcar. Não é à toa que vários pedestres tornam este pedaço como ponto de parada – ou de encontro, entre uma atração turística e outra. A sombrinha é refrescante, a paisagem – não preciso relembrar -, alucinante. A cúpula de uma espécie de castelo surge entre o verde volumoso das árvores enquanto uma rara brisa passa por entre os nossos braços. Atinge as folhas, que, balançantes, nos mandam de volta o frescor tão faltante nesse mundo urbanoide em que vivemos.


Aclive de início. Panorama de início da Rua Bernardino dos Santos, na esquina com a Rua Dias de Barros e o Largo do Curvelo
.


Detalhes. No primeiro “clarão” da rua, avista-se a cúpula do que seria um castelinho (me falaram que é uma igreja ortodoxa). Em seguida, o gradil elegante da portada de um edifício.

A ausência de carros pelos arredores mostra-se presente ao ouvir-se o atrito da sola do tênis com o chão de paralelepípedo. Como o trecho inicial da Rua Bernardino dos Santos é constituído por um aclive, resistência física é bem-vinda, mas só até atingir a parte plana da rua que, aliás, vai se desembestar a descer novamente. Altos e baixos. Quanto mais alto o trecho, melhor a vista. Ela aparece de forma imprevisível – às vezes no intervalo entre um prédio e outro, às vezes através de casas abaixo do nível da rua. O sol bate forte por ali, muito forte, e à medida que eu e a Déborah desbrávamos a rua, percebia que o grande atrativo da Bernardino dos Santos não está na sua arquitetura, mas sim nos detalhes menos apreciados.

“Quando vier morar de vez no Rio, já sei onde morar”, apontou a Déborah para um portão de grades verticais azuis com duas circunferências, também de metal, centralizadas. A observação curiosa da entrada desta residência é que ela é uma continuação da calçada, ou seja, o pedestre teria de andar pelo meio da via para acessar a sua possível continuação ou seguir pelo lado oposto. Como Santa Teresa não é portadora de grande tráfego de veículos motorizados, a caminhada pelo meio da via é uma ação automática. Talvez este pedaço da Bernardino dos Santos seja o mais simpático, não só pela entrada insólita da casa onde a Déborah quer morar bem como pelo detalhe de azulejos na residência ao lado. As referências lusitanas são incríveis.


A casa (ou a rua) dos sonhos. Trecho simpático da Rua Bernardino dos Santos com acesso à residência como continuação da calçada. No lado oposto, azulejos
. Adiante, a rua volta a descer.


Privilégio. Pelos altos e baixos do bairro, as casas tendem a estar muito acima ou muito abaixo do nível da rua. No entanto, a vista para cartões postais tradicionais, como o Pão de Açúcar, é coisa fácil de se conseguir em ambos os casos.

Santa Teresa respira arte. Se ao longo da Rua Almirante Alexandrino, a rua principal do bairro, ela é comercializada através de pintores e artesãos independentes e de lojas especializadas, na Rua Bernardino dos Santos são as paredes as portadoras de cores e desenhos. Porém, a sua arte depende bastante dos aspectos negativos do espaço urbano para que sua graça tenha efeito. Neste conjunto incluo o encardido, a parede descascada, a calçada de pedra desnivelada, as grades enferrujadas, os afloramentos entre uma pedra e outra.  Por exemplo: os caquinhos de vidro coloridos ao longo do topo de um muro estavam em uma singela harmonia com as cores vibrantes de um grafite com os dizeres “paz e amor”. Só uma observação atenta, digna geralmente de quem está acostumado a flanar, é que permite visualizar esta interrelação. O mesmo para uma parede branca em tons de cinza. A princípio parecia sujeira. Vendo de pertinho, era o desenho de uma mulher com formas angelicais.

“Pausa para ajudar gringos a se coordenarem geograficamente.
Não é nada difícil de esbarrar com eles pelas ruas do bairro.”

 

Would you guys help me please?” Pausa para ajudar gringos a se coordenarem geograficamente. Não é nada difícil de esbarrar com eles pelas ruas do bairro. Diz a lenda que Santa Teresa está virando um bairro de imigrantes franceses, mas a verdade é que vê-se pessoas de todos os lugares do mundo por ali com câmeras potentíssimas presas ao pescoço. Déborah teve uma identificação imediata com a gringa, talvez por ela também ser uma. Sentimento de “família” em terras estrangeiras. Papo vai, papo vem, descobrimos que a menina era de Barcelona, o que nos fez mudar o idioma do inglês para o espanhol na mesma hora. Afinal, para nosotros latinos, brasileiros ou franceses, o espanhol é muito mais fácil. “Gracias por la ayuda. Creo que ya sé como hacerlo”, despediu-se.


Respiro de arte. A rua abriga tanto grafites coloridos com dizeres otimistas bem como desenhos imperceptíveis. Percebe-se claramente que mesmo com a tentativa de repintura do muro à direita, a arte prevaleceu
.


O lado sinistro. Pouco antes de chegar no encontro com a Rua Cândido Mendes, a Rua Bernardino dos Santos resguarda joias arquitetônicas em meio a um ambiente sombrio, com paredões e muita sombra.

Assim como na praça no início da Rua Bernardino dos Santos, na esquina com a Dias de Barros, um novo clarão de paisagens brota ao longo do passeio. Desta vez, ainda mais “aberto”, vasto e alucinante. O Pão de Açúcar e a Baía de Guanabara aparecem agora ao fundo, com uma série de telhados, fiações, fachadas históricas, árvores e favelas em primeiro plano. Quem é carioca e/ou visita o Rio com frequência, está acostumado a avistar os cartões postais a partir de perspectivas-padrões. Em Santa Teresa, ou neste caso da Rua Bernardino dos Santos, cada mirante oferece uma percepção diferente da cidade. Mesmo naqueles em que a paisagem de fundo é o Centro e a zona norte, vistas comumente mal apreciadas pelas pessoas.

“Em Santa Teresa, ou neste caso da Rua Bernardino dos Santos, cada mirante oferece uma percepção diferente da cidade.”

 

Um pouco antes do encontro com a Rua Cândido Mendes, bem na divisa entre a Glória e Santa Teresa, a Rua Bernardino dos Santos adquire aspectos sombrios e sinistros. O paredão de pedra, que apenas pela sua altura já provoca certos tipos de sensações macabras, é coberto por uma camada de vegetação espessa. Dali podem sair muitos bichos e insetos sem qualquer anúncio. Para medrosos como eu, isto é algo muito relevante. Do outro lado da calçada, um casarão com porões tem janelas que, aparentemente, não são abertas há muito tempo. Não considero somente o visual detonado dos fundos; levo em conta a energia também. No último edifício da rua, que devia ser um cobiçado endereço residencial nos anos cinquenta, se apresenta com tonalidades encardidas de branco, algumas pichações e a sua suposta entrada funcionando como depósito de entulho.


Glória-Santa Teresa. O encontro das ruas Bernardino dos Santos e Cândido Mendes marca a divisa entre os bairros da Glória e de Santa Teresa
.


Fim da expedição. Na Rua Cândido Mendes, a aura comercial de Santa Teresa começa a pipocar com lojinhas de artesanato e prédios monumentais. A placa aérea agradece a visita ao bairro e/ou dá as boas-vindas para quem chega via Glória.

De lá em diante seguimos a Rua Cândido Mendes. Após uma subida e um declive na Bernardino dos Santos, embarcamos novamente em uma nova ladeira. O caminhão da Comlurb passava por ali com dificuldade, pela largura da via e pelo motor pouco potente para inclinações como aquela. Diferindo-se da Rua Bernardino dos Santos, a Cândido Mendes tem uma aparência mais preservada e aconchegante. O tipo de edifício de pastilhas azuis e brancas, tão comum nos bairros originalmente mais verticalizados, entra em contraste com o prédio de fachada monumental e grande paredão rochoso. Alcançando a bucólica pracinha no encontro das ruas Cândido Mendes e Santa Cristina, um novo clarão promove visão privilegiada da Baía de Guanabara. Privilégio momentâneo dos pedestres, privilégio diário dos moradores.

A aura comercial de Santa Teresa ressurge com lojinhas de artesanato, pequenos restaurantes e os trilhos do extinto bonde, ainda preservados sobre o asfalto da Rua Almirante Alexandrino. “Você está em Santa Teresa”, avisa a placa. “Área de interesse turístico”, “Área histórica de preservação”, “Bonde transitando”. Quem dera! Viramos à direita em direção ao Largo do Curvelo para encontrar o Guga, que estava à nossa espera. No caminho, um esbarrão, desses típicos dos distraídos. Era a espanhola novamente. Disse que desistiu de ir em busca do que procurava optando por caminhar sem rumo pelo bairro. Eu e meus amigos também. Dia de boa comida, boas risadas e de muita cultura.  

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