O Big Brother das ruas

25 janeiro 2013 | 5 comentários
Rua Uçá

“Toda pessoa ou atividade suspeita será imediatamente denunciada”.Fiquei um pouco estarrecido ao ler tal advertência nos cartazes espalhados na Urca pela sua associação de moradores, através do slogan“Vizinhança Vigilante Urca”. Com o símbolo de um olho, como aqueles de olho-mágico de porta de apartamento, o cartaz sugere que um cidadão qualquer que estiver pretendendo fazer algo de caráter duvidoso pelas redondezas será imediatamente dedurado. A base do movimento é bacana do ponto de vista da comunidade - isto é, de vizinhos integrados pelo princípio da autoajuda -, o que é muito raro hoje em dia se não estivermos falando de bairros-condomínios. Porém, será que o propósito deste protesto não está um pouco exagerado? Ou melhor, todos concordam que “considerar uma atividade suspeita” é algo extremamente relativo?

 
Falo por mim. Desde que comecei a escrever o As Ruas do Rio, venho me deparando com uma infinidade de dificuldades de penetração pelas ruas. Dificuldades que, na minha ingenuidade, nunca imaginei que fosse enfrentar.
 
As ruas ou praças que decido percorrer não resultam de escolhas aleatórias. O Rio ainda é, infelizmente, uma cidade insegura. Mesmo que eu não carregasse nenhum tipo de aparato eletrônico de valor comigo – o que não é o caso, já que preciso de uma máquina fotográfica -, o simples fato de ir a um determinado lugar não muito bem policiado já pode ser um fator de risco. Por mais coletiva e de utilidade pública que seja a minha missão (bom, assim eu considero), jamais me colocaria em evidência em um lugar que não conheço sem aconselhamento prévio. Sem falar que há lugares em que os jornais insistem em não recomendá-los para a visita. É difícil pelejar contra o medo. Muito pior é filtrar as informações.
 
Há casos e casos. Em alguns, a insegurança é evidente, é claro, mas tratando-se da minha atividade amadora como fotógrafo e cronista, vejo-me confrontado com dificuldades que vão um pouco além da questão da violência: os lugares que te intimidam porque te consideram um “suspeito”. Fotografar uma rua da ponta à outra, com a máquina envolta no pescoço, enquadrando detalhes pouco usuais e sem importância para grande parte dos transeuntes, é, de fato, um comportamento no mínimo curioso. Não lhes tiro a razão neste ponto.
 
Existe uma certa opinião formada por parte de amigos e conhecidos de que deve ser muito mais fácil a penetração por ruas de bairros turísticos e mais nobres do que as dos bairros mais desfavorecidos. Afinal, são mais coisas bonitas para fotografar, têm mais belas paisagens para admirar. Há uma lógica nisso tudo que não necessariamente confere com a prática.
 
O episódio mais marcante foi quando estava pela Rua Saturnino de Brito, no sossegado bairro do Jardim Botânico. Um homem na faixa dos 60, visivelmente alterado, quis partir para cima de mim porque eu portava uma câmera, acusando-me de supostamente estar fotografando a sua residência*. Ameaçou ligar para a polícia, bem como destruir a máquina fotográfica, que comprei com o esforço do meu trabalho. Na Lagoa, há dois anos, um dos guaritas da Rua Bogari estava bastante incomodado com a minha expedição por lá. Precisei explicar timtim por timtim do que se tratava o meu projeto, caso contrário eu poderia ter sido enxotado sem dó nem piedade de uma rua aberta, livre ao público. No Leblon, sofri alguns olhares de reprovação e estranhamento, talvez porque estivessem me confundindo com um paparazzi.
 
Também há os casos de ruas em que me destituem do papel de suspeito para que eu ocupe o posto de xerife. Com aproximação tímida, um pouco desengonçada, eis que o senhorzinho me sussurra, com o bigode cobrindo-lhe parcialmente os lábios. “O que você tá querendo aprontar por aqui, garoto?”. Tratava-se de um ponto de táxi na Praça da Cruz Vermelha, cujo qual nunca suspeitei de sua ilegalidade ou irregularidade. E não muito longe dali, no Bairro de Fátima, fui sutilmente repreendido por um homem que parecia fazer parte de um churrasco que ocorria bem na calçada, bem na passagem do pedestre. Ocupação indevida do espaço público, né? Mas eu não estava nem aí. Ele, por sua vez, queria saber o porquê “dessa palhaçada de fotografar”. Nas proximidades do Norte Shopping, uma pilha de pneus estava exposta rente aos veículos que passavam pela via, com uma placa tosca em letras garrafais, com os dizeres: COMPRO PNEUS. Não imaginava que pudesse haver algo de errado por ali, mas depois de uma abordagem bastante incisiva como a do suposto dono dos pneus, o que pensar daquilo?
 
Não posso ser injusto e deixar de comentar as ruas em que sou bem acolhido e alvo de interesse de curiosos que, ao invés de me tacarem pedras, se aproximam e procuram conhecer mais da proposta. O engraçado é que o carioca tem o costume de associar lugares menos ricos e/ou próximos de favela como regiões de alta periculosidade, “incaminháveis”.  O Catumbi, veja só, considerado como local impenetrável pela classe média em função da quantidade de favelas ao redor, foi onde tive uma das melhores recepções. Fui felicíssimo de ter vivido isso, de ter eliminado esse preconceito que muitos carregamos. A Praça Amambaí, recanto bucólico do Engenho de Dentro, foi outro lugar acolhedor. Rua General Glicério, Rua Murtinho Nobre, Rua Assis Brasil, Rua Sabóia Lima, Rua Uçá, Rua Barão de Itaipu, e muitos outros lugares entram nessa merecida lista.
 
É com toda essa experiência que eu já adquiri em quatro anos de expedições sérias pelas ruas que considerei inapropriados os cartazes espalhados pelo belíssimo bairro da Urca. Enquanto trabalho para o As Ruas do Rio, sim, julgo a mim mesmo como uma figura suspeita. Mas como incitar a denúncia sem que antes saibam quem realmente sou, quais meus propósitos, minha missão? Poderia ser eu ou qualquer outra pessoa do bem, trabalhando em prol de algo bacana, que tenha influência tanto para o coletivo quanto para o individual. Além disso, o que seria uma atividade suspeita para um, pode não ser para outra pessoa. Analisando as diferenças de tratamento que recebi e que lhes relatei, vê-se que ”ser suspeito” é bem relativo. Integração comunitária é cidadania, mas denunciar alguém por achismos, sei não… Para mim, é princípio de terrorismo.
 
* Me explicando… Eu fotografo espaços urbanos, não a propriedade privada, como as residências. As residências fazem parte do espaço urbano tanto como o mobiliário público, os jardins, as calçadas, as árvores, a interação social… Há uma sutil diferença entre fotografar uma casa como parte desse universo do que fazê-lo como ela sendo mostrada como unicamente uma propriedade privada. Sem mencionar que as casas e edifícios, por mais que tenham donos, são responsáveis pela evolução urbana de um bairro ou de uma cidade. Muitas têm estilos arquitetônicos raros e protegidos, valiosos do ponto de vista cultural. Quanto vale, se esta à venda ou não, quem é o dono, o número de residentes, entre outras questões de caráter privado, não me interessa em saber muito menos compartilhar com os leitores.  A fotografia destes elementos do espaço urbano contribui com a preservação da nossa memória cultural. Esse é meu único e exclusivo propósito.
 

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O charme (e a funcionalidade) das placas de rua

20 dezembro 2012 | 2 comentários

A sinalização de ruas do município do Rio pode ser considerada uma das mais emblemáticas do país. Mas por que algumas ruas têm esse luxo e outras não?

por Pedro Paulo Bastos

Certa vez estremeci quando adentrei o quarto de um amigo. Num misto de colagens em uma das paredes, luzia o modelo oficial da placa da Avenida Lineu de Paula Machado. Segundo ele, o rio que margeia tal avenida havia alagado em um dia chuvoso e o poste que sustentava a placa caiu, desprendendo a parte azulada em que constam as informações de CEP, numeração, bairro e o significado do nome da via. Por pouco que a correnteza não lhe deu um sumiço. Fiquei louco para ter uma também, e desde esse dia que venho torcendo por novas catástrofes naturais, acidentes automotivos, et cetera… Brincando! Não deu outra. Semana passada vinha caminhando pela Rua Almirante Cochrane quando me deparo com um poste semidestroçado, com as placas – azuladas – caídas. Com medo de me taxarem de vândalo ao cem por cento, consultei uma amiga sobre a ideia, que me incentivou a levá-la. Afinal, a placa estava suja, abandonada, entregue ao Deus-dará. A Comlurb iria passar ali e a jogaria no lixo. É minha, então.

Sou um grande apaixonado pelas placas de ruas. Não é à toa que a placa é símbolo deste blog! Mas eu gosto de vê-las nas ruas, os quatro postezinhos em cada esquina de um cruzamento. Gosto até mais das antigas placas-pirulito, embora também seja aficionado pelo modelo atual da Plamarc. Tem ares mais contemporâneos, retilíneos. Nesse contexto em que os nossos gestores têm de copiar para o Rio todas as referências urbanísticas e artísticas lá de fora, as nossas placas de sinalização de logradouros são um exemplo brilhante de beleza, informação e visibilidade. Não é preciso ir para destinos muito remotos para fazer a comparação. Em Niterói, logo ali do outro lado da Guanabara, as placas não têm o mesmo charme; parecem feitas de material vagabundo. Nossas placas são mais sofisticadas. O triste é que nem todas as ruas têm o privilégio de hospedá-las.

Nas minhas excursões pelo Rio de Janeiro, costumo notar cruzamentos e esquinas sem nenhuma referência identificatória. Num breve cruzamento de dados, percebo que quanto mais rico (ou turístico) for o bairro, maior é o número de placas instaladas. Não há um cruzamento de Copacabana ou do Leblon em que não haja um poste deste tipo. Agora embrenhe-se em ruas de Santa Teresa, do Cachambi, de Vila Valqueire… A incidência será bem menor. A lógica é um pouco contrariada, afinal, se vocês repararem bem num mapa ou tiverem experiência de locomoção, irão perceber que são justamente os bairros formados por rede de arruamento mais complexo e confuso os que precisam de identificação grande, visível e iluminada. Se o critério de prioridade para instalação das placas fosse esse, na teoria, Copacabana e Leblon nem precisariam delas, visto que seu jogo de ruas são de quadras perfeitas.

Eu costumava mapear ruas sem postes pelos bairros em que mais transito e enviava os pedidos através da Ouvidoria da Prefeitura, que funcionava melhor na gestão do ex-prefeito César Maia. Hoje em dia, a seção da Ouvidoria foi extinta no site da prefeitura, sobrando como opção  o 1746, que funciona por telefone ou por aplicativo para smartphones. Em 2008, quando a Plamarc assumiu a prestação deste serviço, entrou em contato comigo um secretário da prefeitura, por telefone. Seu nome não lembro, embora ele trabalhasse junto a esses assuntos. É possível que eu tenha perturbado tanto com mais e mais números de protocolo criados que, eles, finalmente, entraram em contato comigo. Foi-me explicado de que a licitação envolvia a exploração de apenas alguns cruzamentos. Se alguma esquina não contava com este tipo de serviço, não foi por “esquecimento” da empresa, mas sim porque ali não seria uma área abarcada.

As placas envolvem propagandas. É muito mais fácil lucrar com propaganda em postes nas ruas menos movimentadas de Ipanema do que nas de Campo Grande, por exemplo, onde a densidade populacional é muito menor. Há lógica capitalista nesse enredo, mas… é justo isso? Estamos falando de um serviço de interesse público! Mesmo que o critério das propagandas comentado seja apenas um palpite (ninguém me confirmou isso, que fique claro), não considero justo que o acordo para a prestação deste serviço se restrinja a poucas ruas de poucos bairros privilegiados pela economia. Por que uns cruzamentos pouco movimentados de regiões nobres ganham postes enquanto cruzamentos de grande porte nas zonas norte e oeste têm de se contentar com placas de parede, pouco visíveis?

O modelo de placa de ruas da Plamarc para o município do Rio é bonito, tem apelo estético e, sem dúvida alguma, valoriza uma rua. Tomo como caso o cruzamento da Rua Maria Quitéria com a Rua Barão de Jaguaripe, em Ipanema: os seus postes iluminados-azulados parecem flutuar na escuridão. É lindo! Nos bairros de desenhos mais confusos, dezenas de pessoas e prestadores de serviço tendem a se perder num emaranhado de ruas mal sinalizadas que, para piorar, à noite, nem sempre são bem iluminadas. Contudo, é bom lembrar que as placas não são só beleza e propaganda. Elas têm a funcionalidade primordial de orientar uma localização geográfica. Não será fácil, mas se eu fosse você, exigiria a da sua rua. Cidade desenvolvida também é sinônimo de cidade sinalizada. Integralmente.

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Pelas ruas da Ilha de Paquetá

11 julho 2012 | 17 comentários

Um fim de semana em Paquetá: a ilha em que todo mundo vai quando criança, mas esquece de voltar na fase adulta


Panorama da Praia Grossa, próxima à estação das barcas, com a emblemática casa rosa que serviu de filmagem para a telenovela “A Moreninha”, na década de 70.

por Pedro Paulo Bastos

Garça, ave comum pelas praias da Ilha
  

A primeira vez que estive em Paquetá o meu humor estava detestável. Fazia um calor insuportável, a água da Baía de Guanabara imprópria para banho e a fome reinava quase que continuamente. A cestinha de lanche que minha mãe preparara para um possível piquenique acabou rapidamente, já durante a viagem nas barcas, e os restaurantes de lá não eram assim tão abundantes, muito menos ágeis no atendimento. Isso foi há mais de quinze anos, eu era um moleque. Nesse último fim de semana, entretanto, minha família decidiu que passaríamos um fim de semana por lá, na Ilha de Paquetá, para comemorar o aniversário de uma das minhas tias. Ao todo fomos em um grupo de onze pessoas. O objetivo foi comemorar o seu cumpleaños de forma nada tradicional, além de, claro, trazer à tona as mais remotas memórias da ilha que povoou, por algum momento, a infância de nove entre dez cariocas. Sim, esses números eu afirmo com convicção!

A perspectiva hoje, para mim, foi toda diferente do que a da última vez. O passeio nas barcas, sempre agradável para Niterói – exceto nas horas de rush, em que tudo parece ser um verdadeiro tsunami de gente -, é ainda mais interessante em direção à Ilha de Paquetá. Passar por debaixo da Ponte Rio-Niterói dá uma sensação de pequenez diante daquele monstro semi-aquático. Avistar o Centro do Rio, com seus espigões e com o lindo contorno do morro ao fundo, é uma outra atração para os passageiros. Eles se amontoam na popa para tirar fotos ou simplesmente para sentir o vento na cara. A viagem dura, aproximadamente, setenta minutos. Mar aberto, com uma ou outra ilhota perdida pela baía. Se estiver revolto, a barca dá aquela balançada perfeita para uma soneca não-programada. Ela aporta na Praça Pedro Bruno, no “centro” de Paquetá, em meio ao olhar impaciente e curioso de outros passageiros que esperam para embarcar. Os que chegam, se misturam ao falatório e às risadas naturais propiciadas por um local livre de corre-corre, estresse e poluição.


A partida da Praça XV pela Baía de Guanabara pelas barcas é um belo passeio. Se não me engano, a barca que faz o percurso para Paquetá é sempre a mesma, com o nome de Itapuca.

Ficamos alojados numa simpática pousada de frente para a Praça Bom Jesus, a poucos passos da estação das barcas. Ela é oficialmente a mais antiga praça de Paquetá. Segundo o livreto Reviver Paquetá, promovido pela Casa de Artes Paquetá, foi na Praça Bom Jesus onde se comemorou pela primeira vez o Dia da Árvore no Brasil, em 1904. Aprofundando-me mais em informações utilitárias sobre o local, é importante enumerar algumas coisinhas sobre lá. Primeiro, vou contar uma anedota, de uma hóspede que chegou a essa pousada questionando como ela fazia para ligar para o Rio de Janeiro. A resposta foi simples, por parte de alguém responsável na recepção: “Do mesmo jeito que o senhor/a senhora costuma fazer. Nós estamos no Rio“. Lá é tão diferente do resto da cidade que esquecemos ou ignoramos o fato de Paquetá ser um bairro do munícipio do Rio, além de ser nome também de uma região administrativa acoplada à Subprefeitura do Centro.

Depois do farto almoço no Paquetá Iate Clube (fica a dica!) e da sobremesa na sorveteria (gostosa e barata, R$ 1,80 a bola) em frente à Praça Pedro Bruno, foi a vez de aproveitar o sábado de sol rodando a ilha da melhor forma: de bicicleta. Eu, meu primo e sua namorada alugamos três magrelas com um rapaz na Rua Comendador Lage (R$ 4 por hora), que ajustou gentilmente todos os apetrechos delas para nós. Eis o momento mais divertido, porque fomos nos embrenhando naquele labirinto de ruas sem asfalto e conhecendo mais de Paquetá. Às vezes tomávamos cuidado com a poeira de terra que pairava pelo ar ocasionada pelos cavalos das charretes. Nossa referência era sempre a orla, que a qualquer manobra que fizéssemos, chegávamos nela. Foi de bicicleta que tivemos o privilégio de assistir ao seu pôr-do-sol, na Praia José Bonifácio. A Ilha do Governador, ao fundo, começava a tornar-se brilhante com as suas numerosas edificações. O céu passava por uma transição fantástica de cores fortes para frias. Do laranja ao rosado, do rosado para o roxo cintilante, e a pelotona de fogo que é o sol, desaparecendo aos poucos, até ficar tudo escuro. 


As charretes, meio de transporte mais comum em Paquetá, contam com éguas que levam um enfeite florido no cocuruto. Ao lado, a Praça Bom Jesus.


A bicicleta é o segundo e último meio de transporte existente na ilha. No anoitecer, é a melhor opção para percorrer Paquetá e o seu pôr-do-sol, em diferentes ângulos.

Nos primórdios, Paquetá fora encontrada por acaso por Dom João VI, que usou a ilha para se abrigar de uma tempestade enquanto navegava pela Baía de Guanabara. Desde então, encantou-se com o lugar, passando a usá-lo como “refúgio dos formalismos da Corte”. Séculos depois, Paquetá ainda é vista como um refúgio em meio ao caos da cidade grande. Tem grande apelo turístico por suas belezas naturais, embora seja pouco explorada e investida pela Prefeitura. Aliás, as referências de que a Prefeitura tem agido lá são poucas. O clássico mobiliário urbano carioca, como as placas-pirulito, por exemplo, não são encontradas em lugar algum, muito menos sinalizações turísticas padronizadas. Creio que o elemento mais fácil de se ver ali são as lixeiras alaranjadas da Comlurb. E só. De resto, a arrumação da ilha fica sob a responsabilidade de pequenos empresários locais e da colaboração dos moradores. Talvez seja essa a sensação citada anteriormente, a de se sentir fora do Rio de Janeiro, já que não há uma identidade senão a Baía de Guanabara.
 
A sinalização das ruas é feita com blocos
de pedra, remetendo à era dos Flintstones
  
O dia seguinte, domingo, foi chuvoso e consideravelmente frio para os padrões cariocas. Afinal, estávamos à beira da baía. Imagina o vento! A chuvinha fina impediu que cumpríssemos a segunda parte da programação, a de percorrer outras partes de Paquetá, só que como pedestres. Como as ruas são de terra, a mistura com a água da chuva tornou-as um pouco lamacentas. Mas era aquela chuvinha que ia e vinha, chatinha, prontamente resolvida com a compra de capas e guardas-chuva. Eu, desprovido de qualquer manga comprida na bagagem, me infiltrei pela Rua Furquim Werneck onde encontrei uma modesta lojinha de roupas e acessórios. Saí de lá com um casaco dos bons, desses de moleton. No entanto, decidimos seguir um passeio guiado de charrete (R$ 50, cabem até cinco pessoas) por toda a ilha. Duas capas grossas de plástico incolor cobriam as laterais da charrete como proteção contra a ventania.
 


O Parque dos Tamoios conta com um paisagismo caprichado e um busto de Carlos Gomes, em homenagem ao compositor. A maioria das casas conta com árvores ou jardins floridos.


À esquerda, a Rua Doutor Lacerda, em direção à Praia José Bonifácio. Em seguida, casa de muro baixinho na Praia das Gaivotas. Observe a placa de trânsito, indicando limite máximo de 20 km/h, embora não circulem automóveis por ali.

A Ilha de Paquetá não tem nada de luxo. Muito menos seu comércio. Tudo é muito simples e enraizado, o que a mantém um lugar bem original e despretensioso. As ruas internas são, do ponto de vista estético, mais pobres, de aspecto mais degradado. Por outro lado, quase toda a orla conta com casas muito bonitas, floridas, cheias de detalhes e história. No passeio de charrete, o rapaz que nos guiou mostrou o significado de cada uma delas. Uma das mais chamativas, o bangalô rosa, na Praia Grossa, serviu de filmagem para as cenas da novela “A Moreninha”, inspirada no romance de Joaquim Manoel de Macedo. Na Praia dos Tamoios, um parque caprichadíssimo em paisagismo é acompanhado por uma série de casas e chácaras espaçosas e bem cuidadas. O mesmo acontece na Praia das Gaivotas, com residências de muro baixinho de pedra e portão de madeira pintada de azul. Subindo a Praia dos Tamoios, percorre-se um atalho meio cavernoso que vai desembocar em frente ao Preventório Dona Amélia, uma antiga construção de Paquetá que serviu para a Liga Brasileira Contra a Tuberculose no início do século XX. O letreiro ainda é o original, e a chácara me chamou muita a atenção pelo aspecto lúgrube, meio mal assombrado. Há muitos urubus sobrevoando Paquetá, ou seja, imagina o panorama.
 
O pagode chinês, conhecido
também como Chácara da Moreninha
  
A última programação em Paquetá foi um almoço na Casa de Artes Paquetá, na Praia de São Roque. A casa estava mais movimentada na parte da noite, lotada, com música ao vivo. No almoço, quase que como um privilégio, só estávamos nós, o que fez com que a família e os amigos reunidos ficássemos bem à vontade para explorar a incrível arquitetura de lá. O terreno era de propriedade de Ormy Toledo, uma empreendora cultural de Paquetá, que promoveu amplas reformas paisagísticas por ali, com jardins impecáveis. Dos prédios, a Casa de Artes de Paquetá segue uma linha mais colonial, enquanto a chácara dos fundos refaz perfeitamente as linhas de Gaudí (Barcelona!, procure no Google se a memória falhar). No terreno vizinho, a réplica de um pagode chinês, tão lindo quanto o prédio meio catalão, é conhecido como Chácara da Moreninha. Uma curiosidade é que o espaço já foi ponto de encontro de muitos músicos do nosso Brasil, como o Pixinguinha, Orestes Barbosa, Sílvio Caldas, Lamartine Babo, que se reuniam para grandes saraus com a presença de parte da antiga elite política e intelectual do então Distrito Federal.
 


A Casa de Artes de Paquetá tem um estilo mais colonial, com janelões, enquanto a chácara dos fundos foi inspirada nas curvas artísticas do arquiteto catalão Antoni Gaudí.

No passeio de charrete, consegui ver muita coisa de Paquetá que foi impossível registrar em fotos (pela chuva!) e muito menos nessa crônica, que ficou mais longa do que deveria. Paquetá tem muitas coisas mais a mostrar, muitas curiosidades, muita história. O que me impressionou, após tantos anos, foi como um lugar tão próximo do “Rio” (com aspas, é claro!) consegue ser tão diferente, tão pacato e com uma rotina totalmente paralela. Paquetá pode ser enquadrada como uma periferia do município do Rio, embora totalmente distinta do estereótipo de periferia. Muita gente vive lá e trabalha no “Rio”, muita gente deve sofrer os problemas das barcas, que no dia-a-dia não são tão agradáveis assim, porém, o que não se pode negar é que a qualidade de vida dos subúrbios foi mantida por lá. Não se vê ameaça de nada. Não tem lei seca, não tem semáforo, nem faixa de pedestre. Diz a lenda que policiais não gostam de ser alocados para trabalho na ilha justamente pelos raríssimos casos de criminalidade; tudo muito pacífico. O clima é amistoso por toda a Ilha de Paquetá, mesmo com o cheiro de bosta que os cavalos vão deixando pelo caminho, situação que acaba sendo mais piadista do que inconveniente. Em nome da minha família, posso dizer que passamos um fim de semana enriquecedor culturalmente. Dos bons, dos nada tradicionais.
 

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O carnaval pelas ruas do Rio

24 fevereiro 2012 | deixe seu comentário (0)

Estou há uns bons dias afastados aqui do blog por uma razão compreensível - o carnaval, que me pegou de jeito esse ano. Nunca fui um fã da folia, mas foram tantas as boas companhias que era impossível ficar apenas um dia em casa sem dar uma volta pela cidade. O ambiente era propício para badalação, afinal, o Rio contou com metrô 24 horas, cerveja/refrigerante/água sendo vendidos a cada cinco passos, muita gente bonita, e um clima meio “sem regras” que a uns incomodou bastante, enquanto para outros, foi a deixa ideal para levar o divertimento ao cem por cento.

Aí vão os registros de alguns dos blocos pelos quais passei…

BENÇA! Em plena Avenida Rio Branco, no Centro, o Cordão do Bola Preta pedia passagem ao redor de uma multidão de foliões que se esbarravam o tempo todo, tamanha era a falta de espaço. Estimativas apontam o comparecimento por lá de cerca de 2 milhões de pessoas. Foi um dos blocos mais animados e repleto de figuras inusitadas, como o Preto Velho, que fez o maior sucesso entre a galera que vinha pedir-lhe a bênção.   

SÁBADO ATÍPICO. Observe o Largo da Carioca no mesmo dia em que saiu o Cordão do Bola Preta. O Centro do Rio nunca esteve tão cheio na manhã de um sábado como nesse dia.  

REFRESCA ALI! O clima “sem regras” que imperou na cidade  ficou bem retratado no bloco Sassaricando, que aconteceu na Praça Luiz de Camões, na Glória. O calor era tanto nesse dia (sábado 18) que não houve outra alternativa: o pessoal resolveu se refrescar no espelho d’água do Memorial Getúlio Vargas. Até porque, não havia espaço para tanta gente na praça; adentrar o laguinho foi o escape. A imagem não captou, mas, nessa tarde, alguns garotos também aproveitavam o espelho d’água com uma… boia de praia.  

BEATLES+SAMBA?! Na segunda-feira, o Aterro do Flamengo se viu tomado por uma multidão que foi para lá aproveitar um bloco aparentemente pretensioso, o Sargento Pimenta, que uniu canções dos Beatles ao nosso samba. Foi um dos maiores públicos desse carnaval, e pensar que, ano passado, ele saiu numa ruazinha no Humaitá, que parou a região de Botafogo por completo. Mesmo no Aterro, um parque espaçoso, sem residências nas proximidades, houve quem precisasse subir nas árvores para se acomodar. Eis o caso da Branca de Neve, que certamente dispensou a maçã pela cerveja.

IPANEMA. A tranquilidade da Praça Nossa Senhora da Paz tranformou-se em uma verdadeira festa noturna na noite de sexta, 17. O bloco foi a Rola Preguiçosa, nome que causou risadas em dois amigos suíços ao escutar a tradução. A Visconde de Pirajá ganhou ares de rave, embora o que tenha mais feito falta foram as portas abertas da Chaika, que sempre agraciou os foliões com seus sanduíches, tortas e o toalete salvador da pátria. A casa fechou recentemente.

* As fotos foram gentilmente cedidas pelo meu irmão Felipe, outro blogueiro, que escreve o charmoso Disegno à Milanesa.

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Metrô sem identidade visual

11 fevereiro 2012 | 5 comentários

É tanta a bagunça na organização das linhas e da sinalização que o metrô perde, aos poucos, suas referências


A estação Cinelândia do metrô, no Centro do Rio, passou por uma remodelação interna, com a inclusão de novos letreiros azuis. Mas a estação pertence à Linha Um, mais conhecida pela cor laranja. Afinal, qual a cor representativa?

No fim da década passada, as estações de metrô mais recentes da zona sul já contrastavam em estética e estrutura em relação às mais antigas. A estação Cantagalo, inaugurada em 2007, toda em tonalidades mais claras, esteiras rolantes, fotografias e citações artísticas pelas paredes, deixava a estação Botafogo no chinelo. A tal era simplória, meio cinzenta e com plataformas estreitas – uma das mais antigas do sistema.

Eis que começam as obras de reforma nas estações mais antigas, para igualá-las em aparência junto às novatas, numa forma de embelezar o eixo turístico metroviário. A primeira delas a ser repaginada foi a do Largo do Machado, por volta de 2008. Ganhou novo papel de parede com detalhes coloridos (que lembram fitas e confetes de carnaval, inclusive no assento de algumas composições), além de belas fotografias de atrações relevantes nos arredores, como o trenzinho do Corcovado e o Mercado São José, na Rua das Laranjeiras.

A estação Botafogo antes da “maquiagem”,
em 2009

Agora, o que chamou a minha atenção naquela época foi a mudança do design do letreiro, que são aquelas placas que indicam o nome da estação dentro da plataforma. A cor laranja, representativa da Linha Um do metrô carioca, foi substituída por uma espécie de azul meio claro, ou um ciano escuro. Juro que não entendi o porquê. Desde então, passei a ver com maus olhos essas reformas que, na verdade, não passam de maquiagens, pois em nenhum momento intervieram na estrutura das plataformas nem em escadas rolantes. No Largo do Machado, a velha e inseparável escada dos primórdios continua lá. E o colorido, de péssimo gosto, migrou para a estação Botafogo também.

Os letreiros sofreram uma mudança constante de tipografia. As placas tradicionais das estações mais antigas trazem o nome delas com um formato mais arredondado e, entre essas placas, numa altura mais baixa, instalaram outros letreiros, com outras tonalidades de cores. Isso é mais bem percebido na Linha Dois, onde se utiliza um verde escuro nas placas antigas e outro muito mais claro nas novas. Na reforma das estações Largo do Machado, Botafogo e Cinelândia, a tipografia também é diferente, além do inexplicável azul já comentado. Por que não padronizar?

A gambiarra do metrô, como ficou conhecida a implantação da Linha 1A no fim de 2009, que estica os trens da Linha Dois até Botafogo, também contribuiu para esse mafuá de sinalizações e cores atípicas do Metrô Rio. Diante da confusão diária de passageiros que se amontoam na plataforma da estação Botafogo em direção à zona norte, as plataformas agora são divididas justamente para equilibrar o público e evitar a balbúrdia. Na plataforma central, embarcam os passageiros em direção à Linha Dois, enquanto do outro os que querem manter-se na Linha Um, em direção à Praça Saens Peña.

Adesivos gigantes e coloridos foram colocados nas paredes da parte superior da estação, objetivando sinalizar qual escada o cliente deve tomar para tomar o trem adequado que o levará ao seu destino final. A tentativa é válida, mas questionável. E se o cara quiser ir de Botafogo para Carioca? Ele pode pegar ambos os trens. A partir de agora, fica-se limitado a escolher uma das plataformas – ou seja, uma das composições. Por outro lado, a Linha 1A não funciona nos fins de semana, apenas em casos excepcionais quando há um trem que sai de Ipanema direto para a Pavuna, de meia em meia hora. Deve ser pelo verão, que transporta uma quantidade considerável de cariocas da Linha Dois para a praia do bairro. Mantida a normalidade, a transferência continuaria sendo realizada no Estácio. Como turistas e clientes pouco assíduos do metrô deverão encarar tais sinalizações em Botafogo nos fins de semana e feriados que, efetivamente, só valem para os dias úteis? Jeito para isso tem, mas evidencia à beça a bagunça que é hoje o Metrô Rio.


A reforma da estação Largo do Machado em 2008 migrou para a estação vizinha de Botafogo, dois anos depois. A roupagem colorida remete ao carnaval, com faixas coloridas, mas não representa uma padronização de decoração do Metrô Rio em relação às estações mais novas.

#1 – A incompreensão diante do layout colorido de estações como Largo do Machado, Nova América-Del Castilho, Botafogo e Cinelândia persiste, pois estações mais novatas do sistema não entraram nessa “onda”. A General Osório/Ipanema, inaugurada em 2009, por exemplo, é bem sóbria em cores.

#2 – Em meados do ano passado, as chamadas de “próxima estação” foram modificadas, incluindo o jingle, que agora tem um jeito meio de bossa nova. O curioso é que a bossa nova traz uma sensação de calmaria, conforto, boa vida, que destoa totalmente do panorama do metrô nas horas de rush. Pessoas viajando esmagadas, empurra-empurra na estação Central… Acho que a música mais adequada seria “Eye Of The Tiger”, da banda Survivor, que eternizou o filme “Rocky III” e os episódios de Boxe Internacional, pela TV Globo.

#3 – Por estarmos na época de carnaval, a mesma chamada de “próxima estação” ganhou umas variâncias de jingle, dependendo da estação. Para dar publicidade ao funcionamento do metrô em toda a madrugada nesse período, surge a voz de um cara, no microfone, desse jeito: “próxima estação… Carioca… NOTA DEEEEEZZZ”, exatamente como na apuração do desfile das escolas de samba. Fanfarronice, mas bem divertida!

#4 – Nada fez mudar a decisão do Estado de mudar o projeto do metrô para a Barra via Humaitá-Jardim Botânico. OK, mas alguém acha mesmo que a ligação da Gávea à Ipanema vai ficar pronta até 2015? Tenho minhas dúvidas. Enquanto isso, a futura estação terminal (ou inicial) da Linha Um, Uruguai, na Tijuca, está sendo construída a todo vapor.

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