Quais serão os novos ares cariocas?

19 novembro 2011 | 10 comentários

Com os investimentos feitos na zona oeste, os cariocas continuarão preferindo morar próximos ao Centro ou irão aderir a um novo modelo de subúrbio?

Abertura do Túnel da Grota Funda: integração e desenvolvimento de bairros da zona oeste.

 

“A Copacabana começa a despertar a atenção e a curiosidade. Já se fala e se discute a respeito da linha de bondes que vai servi-la. Faz pouco, a viagem de Botafogo até o Leme se fazia em 20 minutos”. (ano 1881, p. 146)

“O assunto que está nas folhas e na boca do povo é o da construção da linha de bondes para a chamada Copacabana. Publicam-se as condições do edital referentes à construção das linhas e abertura de túneis para a zona sul. No Leme e no Rio Comprido. A firma Duvivier & Cia. pede prorrogação do prazo para apresentar estudos e planos. A iniciativa – como ocorre sempre – é criticada pela imprensa e o público”. (ano 1883, p. 170)

 

Os trechos acima pertencem ao livro “O dia-a-dia no Rio de Janeiro – segundo os jornais (1870-1889)”, de Delso Renault, cujo qual estive relendo nesses últimos dias e sublinhando passagens interessantes como essa. Primeiro de tudo, ler sobre Copacabana como um balneário distante, de aspecto duvidoso mas instigante, ainda totalmente separada do seu, então, badalado bairro vizinho de Botafogo, é quase uma piada para os dias de hoje, não é mesmo? Em segundo lugar, Renault aponta que já desde 1883, a população repreende qualquer decisão ou medida tomada por empresas prestadoras de serviço ao Estado. Ou seriam elas ineficientes desde sempre? Curioso e ainda bastante contemporâneo o comportamento de ambas as partes, mas isso é só um detalhe.

Esses fragmentos capturados do livro fizeram-me recordar uma conversa que tive com um amigo a respeito do futuro do Rio de Janeiro daqui a uns 100 anos. Menos, talvez, porque nos imaginávamos vivos ainda, como vovôs. A questão central era: continuarão sendo os lugares importantes de hoje, na cidade, os mesmos no futuro? Que funcionalidade um bairro Y, hoje, terá amanhã?

Essa é uma tendência já comprovada pela nossa história, até então. Com o desenvolvimento urbano carioca, a Rua do Ouvidor, por exemplo, deixou de ser a rua das butiques e chapelarias para entrar em um processo gradual de ordinarização no qual pouco lembra as suas origens. Em acirrada competição, Botafogo venceu São Cristóvão nos aspectos aristocráticos, tornando-o uma região industrial no século XX. Gávea e Jardim Botânico, bairros operários, sofreram uma “varredura arquitetônica e social” em função da valorização dos terrenos na zona sul.

Quando vejo a construção acelerada do Túnel da Grota Funda, na zona oeste, por exemplo, começo a esboçar um pequeno panorama de como poderemos enxergar o Rio nas próximas gerações. Consideremos aí também os investimentos nos acessos viários e de transporte à Guaratiba, Sepetiba, Santa Cruz, Campo Grande.  Não que estejamos falando de áreas inabitadas, como era a Copacabana do século XIX, hoje o maior símbolo na cidade de urbanização – exagerada, convenhamos –, mas sim de locais pouco explorados, tanto pelo poder público como pela mídia.

Uma das hipóteses discutidas nessa conversa – fruto da nossa imaginação, sem nenhum embasamento científico, embora ordenadas por uma certa lógica – é a de que o Rio sofrerá um novo processo de suburbanização. Não no sentido pejorativo, como o que foi adquirido o conceito de subúrbio por aqui; é a questão mesmo de se morar mais “distante” do Centro, incorporando um modelo estadounidense de moradia, em que o “Centro” é local para trabalhar,  e o “subúrbio”, o para se morar.

Como na maioria das cidades latinoamericanas, o núcleo central da cidade concentra, desde sempre, os melhores serviços públicos, de transporte, moradia, saúde e de entretenimento. Pobres e ricos tendem a viver dentro desse núcleo em busca de comodidade, o que se reflete na favelização e na verticalização excessiva no entorno do Maciço da Tijuca. Uma vez que a acessibilidade de bairros distantes melhore, acoplada ao recebimento de todos (todos mesmo, sem parcialidade) os serviços necessários e desejados por um cidadão a determinado lugar, ficaria ele tentado a mudar-se de bairro?

Por mais atraente que seja morar nesse tal núcleo central do Rio (centro, zona sul, parte da zona norte), existe um ônus enfrentado que só é abstraído pelo fato de que “não há lugares mais cômodos e práticos para se viver”. Residências cada vez menores e mais caras; ausência de áreas públicas livres, que poderiam tornar-se praças ou parques; formação das ilhas de calor, com o levantamento de prédios; engarrafamentos de veículos e de pedestres pelas calçadas; além de outros pequenos fatores que assistimos no nosso dia-a-dia. Mesmo assim, ainda acho que o fator econômico pesa na hora da decisão.

Analisando as suburbanizações recentes, como o povoamento da Barra e do Recreio dos Bandeirantes, na zona oeste, podemos dizer que, sim, eles deram certo. Atualmente, figuram entre os bairros mais famosos da cidade por uma certa qualidade de vida que oferecem a quem resolve fixar moradia por lá. No entanto, pecaram por pertencerem a projetos de uma época de hipervalorização do transporte individual, sem adaptação para receber um eficiente transporte de massa, que facilitasse o ir-e-vir da população em direção ao local de trabalho. Ou seja, foram projetados para serem bairros exclusivamente automobilísticos. O “erro” está sendo revisto só agora, com a expansão (tímida) do metrô para a Barra. Todavia, ela continua pouco atraente para pedestres. Se nas regiões mais caras da zona sul existe um alto custo de moradia, na Barra, esse custo seria com combustível. Ter automóvel nesse núcleo do Rio é optativo; na Barra e Recreio, é altamente recomendado.

Acredito que esse tenha sido um fator fundamental para que o modelo de bairro como o da Barra não fosse amplamente aceito pelos cariocas, principalmente numa cidade em que as atividades ao ar livre são o maior atrativo. Logo, a suburbanização ainda continua rejeitada. Morar próximo ao Centro é a melhor das opções. Sem falar que o laço cultural dos moradores para com seus bairros de origem ainda é forte. Considera-se também o apelo turístico da zona sul, maior representante da cultura da cidade, que é um motivo de atração pelo seu simbolismo, como as praias e o Cristo Redentor. O carioca valoriza muito a orla como área de lazer, em detrimento dos parques e praças. Esses são outros fatores de aderência à moradia no núcleo.

A expansão para a zona oeste, nessa suburbanização pós-moderna, tem uma importante missão de redesenvolver os bairros de lá com os preceitos contemporâneos de urbanização. Sustentabilidade, arborização, designação de espaços livres e de ocupação, transportes de massa (vide o BRT), oferecimento de serviços públicos e privados de qualidade, enfim, bairros devidamente planejados e que sejam inflexíveis a quaisquer alterações que possam ser feitas em prol de interesses individuais. Um respeito à capacidade de absorção humana desses lugares, que poderão ser atrativos tanto para a elite quanto para as outras classes, seja lá o segmento social que ocupará esses novos subúrbios.

Eu, particularmente, acho que será a elite quem se sentirá atraída para ocupar esses novos sítios, mais cômodos e aprazíveis, como aconteceu em cidades dos Estados Unidos, da Inglaterra, e até mesmo na Barra e no Recreio, para onde foi parte da elite das zonas sul e norte da cidade nas décadas de 80 e 90. Minha aposta é que essa região do Centro e da zona sul carioca se integre, como um único bloco, formando uma área forte de trabalho e de turismo, embora caótico ou claustrofóbico demais para residência fixa.

Investimentos públicos de qualidade na zona oeste poderão melhorar a paisagem do Rio nessas regiões pouco divulgadas pela prefeitura e a imprensa. Em consequência, um ponto de equilíbrio no crescimento desordenado de outras regiões também conseguirá ser alcançado com esses investimentos. Lembrando que investimento não é só levantar prédio ou casa e tchau – o pacote tem que vir completo, não só para ser legal como para ser atrativo.

Da mesma forma que a Lagoa, há pouco mais de cinquenta anos, era local sombrio, pouco habitado, insalubre, eu também acho que Guaratiba ou Grumari, por exemplo, a longo prazo, poderão ser um novo modelo de bairros altamente desejados. Aliás, já a curto prazo, eu também acho que a zona portuária vai ser outro local bastante requisitado, porém mais no sentido turístico e de lazer, como já é o núcleo.

É… Só resta-nos esperar e ver a quais ares o Rio de Janeiro rumará. Quais são suas apostas?


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Frio no Rio

17 outubro 2011 | deixe seu comentário (0)

Uma pequena análise da rotina do carioca e da cidade com as atuais (e futuras) mudanças bruscas de temperatura


por Pedro Paulo Bastos

O que é considerado frio pelo carioca?

O frio é uma sensação muito relativa, principalmente entre pessoas de culturas e lugares diferentes. A maior evidência disto é comprovada ao avistarmos aquele bando de gringos andando pela cidade de sandália, regata e short em pleno mês de julho. Uma indumentária mais apropriada para o verão, nos nossos 17ºC, causa um pouco de estranheza, vamos combinar… Citando um exemplo mais abrasileirado, 20ºC é diferente para paulistanos e cariocas, mesmo se considerarmos todos os elementos variáveis da sensação térmica. Para eles é agradável, quase abafadinho; para nós, um iminente alerta de que já já aquele agasalho de moleton deverá sair do armário.

O carioca idolatra o calor e a praia, discursa contra os dias nublados, mas basta que a previsão do tempo anuncie uma frente fria que ele já terá a tiracolo o tal do agasalho de moleton – ou qualquer outra espécie de roupa mais quentinha. Veste-o feliz da vida, de maneira ansiosa e até meio exagerada. A falta de intimidade com temperaturas mais baixas faz com que percamos a noção de dosagem entre o que vestir e quantas peças inserir. As combinações também caminham para esse lado. Usar casaco com bermuda e chinelo faz algum sentido?

Por outro lado, há os que aproveitam a temporada “glacial” para usar todos aqueles apetrechos mais elegantes, pouco cabíveis ao nosso dia-a-dia em função justamente do clima predominante. Chance única de mostrar seus suéteres, jaquetas, blazers, coturnos, aquela capa ou sobretudo garimpados na sua última viagem internacional…

Não importa se não está frio de fato. No Rio, chover é sinônimo de esfriar. Um entendimento criado pela própria sociedade carioca, sem ter, necessariamente, uma atestação científica quanto à correlação entre essas duas ideias. E como a chuva vai embora rápido, e o sol chega novamente como quem foi à esquina, é preciso aproveitar esse intervalo. A programação do fim de semana muda completamente e deve encaixar-se no contexto. Hora de desmarcar o chopp no bar para se reunir em casa com os amigos. O menu? Fondue, claro. Lá fora, 19ºC.

Ou então, hora de se mandar para o shopping.

O carioca se adapta fácil a esses contratempos climáticos. E aproveita as vantagens oferecidas.

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Em fevereiro de 2011, o estado de Oklahoma, nos Estados Unidos, teve o seu recorde máximo de temperatura mínima em toda a sua história, de -31F, o que equivale a, aproximadamente, 35ºC negativos. O fato foi um tanto curioso por lá, afinal, as temperaturas no centro-sul do país são bem mais elevadas do que no norte, parecidas com as do Brasil. Comentários de internautas em fóruns diziam que é tudo culpa do global warming (aquecimento global), o ocasionador dessas bizarrices naturais, se assim poderia dizer.

Pergunto-me o que aconteceria no Rio de Janeiro se acontecesse um episódio parecido a esse. Sei lá, uma nevasca num final de tarde chuvoso, após uma rápida transição de ventos, granizo e neblina. A Baía de Guanabara congelada como o Charles River no inverno de Boston; o Pão de Açúcar coberto de neve – ou melhor, de “açúcar”; os telhados das casinhas baixas de Água Santa esbranquiçados, quase um cenário de Natal hollywoodiano; filas e mais filas nas Casas Bahia para a compra de aquecedores; Cinelândia virando pista de patinação enquanto as montanhas inabitadas da zona oeste se transformariam em pistas de esqui, trazendo tal modelo desportivo até então inédito no país.

Por outro lado, muitos ônus, em especial às questões da pobreza.

Por vezes vejo-me imaginando e fantasiando situações absurdas como essa, dentro da minha realidade, que é o Rio de Janeiro. Digam o que quiserem dizer, mas um momento de banalidades como esse pode ser um perfeito exercício para repensarmos que novo valor agregaríamos à cidade, às suas funções, ao seu cotidiano. Um exercício para repensar como lidaríamos com os problemas sociais  – e, logo, econômicos – diante desse novo panorama da natureza, cada vez mais instável.

Não só o Rio bem como todas as cidades do mundo deveriam ter suas gestões voltadas para, além da sustentabilidade, uma versatilidade geoespacial, capaz de se adaptar naturalmente a diferentes circunstâncias, sem muito alarde. Afinal, a incerteza em relação aos acontecimentos da natureza é a única certeza que temos.

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Postagem de hoje foi uma singela homenagem à mudança de temperatura entre a semana passada e o início dessa. Para os amantes da chuva e do tempo mais “frio”, como eu, que presente!


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Saúde e o Morro da Conceição

04 outubro 2011 | 9 comentários

Eis o registro de uma volta pelo antigo bairro da Saúde, que deve ter sua paisagem totalmente renovada em até cinco anos pelo projeto Porto Maravilha


Ladeira do João Homem, na Saúde: clima de subúrbio em meio aos arranha-céus da Avenida Rio Branco

São poucos os lugares que eu nunca havia pisado antes nesse miolo entre o Centro e a zona sul do Rio. Nesse último fim de semana, fiz parte de um trabalho de campo da disciplina de Geografia do Rio de Janeiro, da faculdade de Geografia da PUC. Percorremos diversos pontos na região central carioca que são verdadeiros marcos para a evolução urbana da cidade. Confesso que era mais ignorante do que achava. O Centro, desde o início do ano, é o meu local de trabalho, então circulo por lá sempre naquela correria e com poucas observações minuciosas. Nunca tinha visitado a ladeira que restou do Morro do Castelo. Dessa vez eu conheci, saciando uma curiosidade adormecida que já dura pelo menos uns quinze anos, desde que li pela primeira vez sobre a história do dito cujo no livro de estudos sociais da escola.

O auge da excursão, no entanto, foi algo bem diferente do Centrão: o bairro da Saúde, colado nas cercanias da Praça Mauá. Definitivamente nunca passo por lá. E jamais me imaginaria desbravando a região sozinho, não só pelos preconceitos inerentes aos que moram nas cidades grandes latinoamericanas bem como pela má fama brindada à zona portuária pela imprensa. Foi uma ótima oportunidade para subir um morro, mesmo que fosse um morro mais café-com-leite.

Primeiro de tudo, é difícil imaginar que a Saúde, em sua posição como bairro da zona portuária, se transformará em uma das regiões mais caras da cidade nos próximos anos, graças ao projeto Porto Maravilha. Ali é quase um faroeste colado ao Centro financeiro. Duas áreas totalmente opostas e, ao mesmo tempo, conectadíssimas. Na Rua Acre, o conjunto de aproximadamente vinte estudantes chama a atenção. Basta ter cabelos em tons um pouco mais claros, como é o meu caso, que o gaiato que passa na moto vai te gritar: “Gringoooou!“. Essa situação já sinaliza a pouca intimidade que os moradores da Saúde têm com o Rio turístico. Algo prestes a acabar, reitero.

A subida para o Morro da Conceição, um dos de ocupação mais antiga no Rio de Janeiro, é feita por uma ladeira íngreme, constituída pela Rua Major Daemon. O calor que fez no sábado, quase queniano, já deixava marcas vermelhas pelos braços e nuca. Subir uma ladeira nessas condições é cruel!

Essa rua, a Major Daemon, comparte residências com uma área militar, tendo a presença do casario onde funciona o Serviço Geográfico do Ministério da Guerra. Em função dos vizinhos respeitosos, a rua torna-se bastante simpática e limpa a medida que se sobe cada vez mais até alcançarmos a parte plana, onde está a Praça Major Valô. Este é o ponto de encontro de dois logradouros sempre muito citados em livros de história, dois dos mais antigos da cidade: a Ladeira do João Homem e a Rua do Jogo da Bola.

A subida foi gratificante, apesar da poeira parada no ar. A arquitetura do Morro da Conceição te transporta para um Rio totalmente à parte. A influência lusitana na Saúde é forte e a sensação de que estou ”respirando meus livros de história” fez-se presente em todo o momento. Lá tem um clima de subúrbio, ofuscado pelos arranha-céus espelhados do Centro, vistos ao longe entre uma paisagem e outra. Lembra um pouco Santa Teresa, mas sem as melhorias recebidas que a colina rival recebe/recebeu desde sua povoação.

O Morro da Conceição é uma joia bruta. Percebi isso ao entrar num armazém (sim, armazém!) da Rua do Jogo da Bola esquina com Rua Mato Grosso. O prédio já foi todo descaracterizado na parte de cima, mas embaixo, onde funciona a venda, é tudo muito original. Os azulejos são incríveis. A máquina registradora deve ser da idade da minha avó, nascida na década de 20. Enquanto esperava por uma garrafa d’água, ao lado, uma senhora pedia como nos velhos tempos: “Dois quilos de feijão, uma lata de sardinha… Se tiver farinha, pode pegar também“. Ou seja, o Morro da Conceição é um lugar que, sem querer querendo, privilegia suas raízes comerciais. Prezunic, Mundial, Wal Mart nem Pão de Açúcar se infiltraram por lá. Ainda.

Seguimos toda a Rua do Jogo da Bola. Alguns trechos eram impossíveis de se descer “de frente”; os paralelepípedos escorregavam demais. Todos os sobrados variam entre si em questão de conservação. Uma das casas levava um varal estendido por toda a fachada, com blusas, shorts, cuecas e toalhas penduradas, à altura de um desconhecido que passasse por lá, como eu. Esse é outro ponto a se observar: todos se conhecem, não há o que temer. Um pequeno córrego de água suja contornava os traçados sinuosos da Jogo da Bola. Até nesse ponto o Rio antigo é presente, afinal, não foi desta maneira que aprendemos, que o esgoto escorria assim, a céu aberto?

O Largo João da Baiana sinaliza o fim da descida do Morro da Conceição. Lá é mais conhecido como Pedra do Sal, ou como Pequena África, por ter sido vivenda de escravos negros e forros. O samba tem grande importância histórica neste largo. O grafite nas paredes não me permite mentir, assim como a movimentação no boteco da Rua Argemiro Bulcão. Era um leva-e-traz de caixas de cerveja ao lado de uma pequena churrasqueira já repleta de carvão.

A chegada à Rua Sacadura Cabral trouxe-nos de volta à parte do bairro mais agitada de automóveis, de lanchonetes populares, bancas de jornais e mais sobrados antigos. O Porto Maravilha promete mudar todo esse panorama, “para melhor”. Fica o dilema: preservar a (mega)importância histórica da região ou entregá-lo às intervenções totalitárias do investimento privado? O ponto de equilíbrio entre preservação e desenvolvimento deveria ser discutido.


Largo João da Baiana, onde fica a Pedra do Sal: ponto de encontro de sambistas das antigas e de cultura essencialmente negra.

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# Um valeu para o meu amigo Guga Kahn, que avisou-me sobre o trabalho de campo, e outro para o professor da disciplina Geografia do Rio de Janeiro (PUC), Augusto César, por permitir que eu participasse. Obrigadão!

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Os sub-bairros cariocas (última parte)

02 agosto 2011 | 3 comentários
por Pedro Paulo Bastos

Uma das áreas mais recentes da cidade, a Barra da Tijuca, na orla da Zona Oeste, promoveu a criação de diversas subáreas próprias e muito peculiares. Assim como o próprio bairro que lhes contém, já que a estrutura da Barra é toda voltada para grandiosos condomínios. Essas subáreas têm um estilo quase feudal, de acesso limitado, pois são originários desses mesmos condomínios. Eles se situam ao longo da Avenida das Américas. Alguns ostentam nomes em inglês, outros se baseiam em referências já tradicionalmente cariocas. São eles: Barramares, Novo Leblon, Santa Mônica Jardins, Península, Alphaville e Cidade Jardim.

Já o trecho menos automobilístico da Barra, isto é, a porção de ruas imediata ao encontro das avenidas que vêm da Zona Sul, apresenta sub-bairros menos fechados, embora quase tão luxuosos quanto os da highway Avenida das Américas. Exemplo mais famoso, que vai ganhar estação de metrô em breve, o Jardim Oceânico, nas intermediações da Praça Professor José Bernardino e São Perpétuo. Ao lado, o Tijucamar, na região da Avenida Olegário Maciel; e a Barrinha, a parte mais antiga do bairro, nos arredores da Praça Desembargador Araújo Jorge.

 

Condomínio Santa Mônica Jardins: feudos ou sub-bairros na Barra da Tijuca?


Se o Rio possuísse regiões que quisessem tornar-se independentes, essas, talvez, seriam as que formam os bairros da Zona Oeste “continental”. Bangu, Realengo, Campo Grande, Santa Cruz… são bairros extensos e populosos, e de grande crescimento também. Pelo menos essa é a aposta. A distância em relação ao Centro do Rio é tão grande que alguns dos seus sub-bairros são conhecidos como… Centro. “Centro” de Campo Grande é bem batido, todos já ouviram falar alguma vez. Soa estranho, mas extremamente necessário para fragmentar (no sentido de classificar) áreas de acordo com seu grau de desenvolvimento e de concentração de serviços. Veja um mapa da Zona Oeste e seremos obrigados a concordar que sub-bairro nessa parte da cidade é regra, não excepcionalidade.

Um caso curioso de Campo Grande é de que há uma lei, promulgada em 1968 no governo Negrão de Lima, determinando o reconhecimento do bairro como cidade, embora não tenha vingado:

“Lei número 1.627, de 14 de junho de 1968, projeto do deputado Frederico Trotta. O governo do estado da Guanabara, faço saber, que a assembléia legislativa do estado da Guanabara aprovou o projeto de lei número 181 de 1967 e eu promulgo, de acordo com o artigo 26, 3°, da constituição do estado, a seguinte lei:  

Art. 1° – É reconhecida como “Cidade” a localidade de Campo Grande, passando a denominar-se Cidade de Campo Grande.

Art. 2° – Esta Lei entrará em vigor, na data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário.

Rio de Janeiro, 14 de Junho de 1968 – 80° da república e 9° do estado da Guanabara. Francisco Negrão de Lima, Álvaro Americano, Arnaldo Salgado Mascarenhas, Gonzaga da Gama Filho, Althemar Dutra de Castilho, Humberto Braga, Cotrin Neto, Raymundo de Paula Soares, Hildebrando Monteiro Marinho, Luiz de França Oliveira, Augusto do Amaral Peixoto, Dirceu de Oliveira e Silva, Victor de Oliveira Pinheiro e Lecy Neves.”

Campo Grande, além do Centro, tem uma média de 69 sub-bairros, entre eles o Adriana, Diana, Vila Rudicéa, Oiticica e Novo Horizonte. Santa Margarida parece ser o maior e mais afamado, tendo recebido esse nome por causa de um certo Barão de Santa Margarida, nobre de poucas aparições nas bibliografias do gênero. Além disso, Mallet, em Realengo, é famoso. Em Bangu, temos Jabour, Guilherme da Silveira, Catiri, além da Vila Kennedy, referência norte-americana no Rio onde grande parte dos moradores mais antigos veio da Favela Praia do Pinto, no Leblon.

 

Em uma cidade onde é grande o indíce de favelização, muitos locais conseguiram sua emancipação seja pela sua proporcionalidade dentro do espaço geográfico carioca ou por sua fama, muitas das vezes ruim. Exemplos de favelas e comunidades carentes que tornaram-se sub-bairros são o Rio das Pedras, em Jacarepaguá; o Jardim Batan, em Realengo; a Vila Vintém, em Padre Miguel; a Cruzada São Sebastião (foto ao lado), no Leblon; Tavares Bastos, no Catete; Jacarezinho, no Jacaré; Chácara Del Castilho, em Del Castilho, entre outros.

Algumas favelas tornaram-se bairros legítimos, como é o caso da Rocinha e do Vidigal, ambas na Zona Sul, e os complexos do Alemão (badaladíssimo, tem até teleférico agora!) e da Maré, no subúrbio carioca.

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Os sub-bairros cariocas (parte 3/4)

29 julho 2011 | 2 comentários
por Pedro Paulo Bastos

A extensa e livre malha rodoviária da Zona Norte e áreas suburbanas acaba por exigir um maior detalhamento na nomeação das regiões. As ruas são muito interligadas, nas quatro direções (norte, sul, leste e oeste), bem nos moldes das ruas de São Paulo. Tem estrutura diferente da Zona Sul, onde se consegue diferenciar um bairro do outro em função do desenho das cadeias montanhosas e do limite com o oceano.

O Grajaú e o Engenho Novo, apesar de limítrofes, são bairros muito distintos, seja no nível socioeconômico como no paisagístico. O pedaço que divide os dois bairros é (ou foi) conhecido como sub-bairro da Consolação, uma informação pouco divulgada. Em alguns mapas ainda é possível encontrar essa nomenclatura. Próximo dali, o encontro das ruas Aquidabã e Maranhão, no Lins de Vasconcelos, faz parte do sub-bairro da Boca do Mato. Nome esquisito, parece barra pesada, mas não é. De fato existia um mato naquele local, sem contar que também foi berço da Escola de Samba Aprendizes de Boca do Mato, do sambista Martinho da Vila. Já para os lados do Engenho de Dentro, o cruzamento das ruas Dias da Cruz e Adolfo Bergamini é conhecido como Chave de Ouro, nome de um bloco de carnaval que saía por ali toda quarta-feira de cinzas até meados da década de 1970.

Um exemplo recente de sub-bairro que tornou-se bairro legítimo na Zona Norte é o Vasco da Gama, entre São Cristóvão e Benfica. Acho que estimulado pela ideia de acrescentar-se bairros à cidade com o nome de times cariocas de futebol (leia-se Flamengo, Botafogo e Bangu, entre outros) que o Vasco da Gama foi emancipado em 1998. Hoje ele aparece nos mapas oficias e compreende as ruas no entorno do estádio de São Januário.

Algumas outras referências de sub-bairros na Zona Norte: Magno, em Madureira, provavelmente o entorno da estação de trem que leva o nome de Magno; Triagem, em Benfica, perto de onde está sede da Rede Record Rio; Fazenda Botafogo, nas margens da Avenida Brasil e dos bairros de Acari, Barros Filho e Costa Barros; Parque Anchieta e Mariópolis, em Anchieta, mais comumente conhecida pela lina 624 (Mariópolis-Praça da Bandeira). Um exemplo interessante é do sub-bairro Portugal Pequeno, em Marechal Hermes. Hoje em dia não existe mais, embora apareça representado nos mapas do início do século XX. Talvez tenha se formado por lá uma colônia portuguesa mais concentrada do que no resto da cidade.

A Ilha e Jacarepaguá são outras duas regiões muito complexas merecedoras da nossa atenção. A Ilha do Governador, na verdade, não é um bairro, mas sim uma região administrativa, que abriga bairros legítimos como o Jardim Guanabara, Galeão, Portuguesa, Bancários, entre outros.

O mesmo caso é Jacarepaguá, que também é uma região administrativa, só que, ao mesmo tempo, também um bairro, pois é delimitado oficialmente nas representações cartográficas da Prefeitura. No entanto, tal delimitação compreende poucas áreas urbanas, como a que está ao redor do Autódromo de Jacarepaguá e a comunidade de Rio das Pedras, e muitas áreas rochosas e florestadas, como a dos parques Estadual da Pedra Branca e o Nacional da Tijuca. Sendo assim, Freguesia, Taquara, Anil, Cidade de Deus, Pechincha, também são bairros legítimos, que se situam ao redor de Jacarepaguá, e por isso nomeamos esta área de região de Jacarepaguá, embora seja errado dizer que tais bairros citados sejam sub-bairros do mesmo.


Reprodução do mapa oficial do Instituto Pereira Passos com os devidos topônimos: o bairro de Jacarepaguá e os bairros da Freguesia, Praça Seca, Tanque, Taquara, Anil, entre outros, representados como bairros legítimos.

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