Rua dos Oitis, Gávea

09 maio 2013 | deixe seu comentário (0)

Enquanto à noite o Baixo Gávea se transforma em um dos locais mais boêmios da cidade, eu fui passear pela Rua dos Oitis logo em seu momento do dia mais calmo: a manhã.


Braseiro. Restaurante tradicional na Gávea, ele fica na esquina da Praça Santos Dumont com a Rua dos Oitis.

por Pedro Paulo Bastos

Quando cruzei a Praça Santos Dumont na última terça-feira 7, o chafariz no centro daquele espaço ajardinado ainda não estava em funcionamento nem mesmo as crianças das escolas municipais ali perto faziam algazarra pelas calçadas da Gávea. A esquina da praça com a Rua dos Oitis pouco lembrava a intensa badalação que tem em determinados dias da semana – é um dos locais mais boêmios da zona sul. Os restaurantes Hipódromo e o Braseiro, vizinhos da Rua dos Oitis e amistosamente rivais de público, iniciavam suas atividades do dia timidamente, sem a grande aglomeração de clientes que lhes é particular. A partir do encontro com a Rua José Roberto de Macedo Soares, a Rua dos Oitis apresentava-se em uma reta de árvores de diferentes tamanhos e modelagens margeadas por residências. De comércio por ali, ou melhor, de restaurante, o único sobrevivente é o restaurante Sushimar. O cheiro dos peixinhos crus chegava à calçada da Rua dos Oitis. Não sei se era um bom ou mau sinal, mas que me abriu o apetite, ah, isso sim.

De bairro operário à bairro preferido de arquitetos e moderninhos, a Gávea tem toda uma energia cativante dos bairros pequenos e aconchegantes, e o melhor, sem perder a sua identidade. Ao longo da Rua dos Oitis isso pode ser comprovado: é um dos poucos lugares da zona sul onde as casas originais foram preservadas, mesmo as menos sofisticadas. Grande maioria, é claro, porque já se levanta muito prédio por lá. Inclusive, ali próximo da Rua dos Oitis é possível ver os resquícios de uma antiga vila operária, que na verdade nunca chegou a se concretizar de fato por questões políticas, segundo o livro “150 anos de subúrbio carioca” (Lamparina editora; Editora da UFF), um compilado de pequenos artigos de diferentes autores organizados por Márcio Piñon de Oliveira e Nelson da Nóbrega Fernandes. As escolas Júlio de Castilhos e Manuel Cícero são um exemplo deste marco histórico. Ao mesmo tempo que essa preservação toda é fantástica, também mostra-se curioso o fato de ser uma das regiões mais caras da cidade sem que ofereça um luxo associado a esses valores estratosféricos. A geografia carioca influencia muito mais nestas questões do que o espaço urbano em si.


O trecho boêmio. Até o encontro com a Rua José Roberto de Macedo Soares, a Rua dos Oitis concentra simbólicos estabelecimentos comerciais, como alguns restaurantes, uma banca de jornal e drogaria
.


Caráter residencial. Calçadas espaçosas e ajardinadas são passeio para as residências de lá. Poucos os edifícios que são altos.

Simplicidade deveria ser o sobrenome da Rua dos Oitis. Uma casinha detonada ganha cores fortes e um muro é criteriosamente grafitado, já tornando-se um atrativo à parte. Ou então uma reles janela de madeira, que ganha uma mãozinha de tinta em vermelho forte, contrastando com o branco de sua fachada. Ou então um muro rosa, pertencente a uma escola de ballet. Ou o mais jocoso – fofinho, na linguagem feminina – dos detalhes nunca antes visto por mim em uma rua: um boneco grande do personagem belga Tintim bisbilhotando o movimento da Rua dos Oitis através de um janelão de vidro. Milu, o fox terrier de pêlo branco, é claro, não podia estar longe de seu dono. Esse ambiente divertido, compartilhado com os olhos do público, pertence ao escritório do arquiteto Chicô Gouvêa, que é fascinado pelo personagem. A fachada da casa é toda composta de amarelo, laranja e branco, o que comprova a proposta despojada do imóvel.

A impessoalidade que comumente os edifícios têm – um sem-fim de apartamentos, muita reserva -, por alguma razão não fazia parte do contexto da Rua dos Oitis. Pelo menos naquela manhã. Percebi uma interação muito forte de alguns moradores, do alto de suas janelas, com quem vinha passando pela rua. Até porque muitos são edifícios não tão altos, com poucos pavimentos, alguns dispõem de varandas, então a aproximação com o espaço da rua é maior. Vendedores ambulantes ou aquelas kombis no estilo “compro-tudo”, anunciando-se em megafones que deixam a voz do locutor meio esganiçada, passavam tranquilamente ao longo da rua. Cena rara de se ver em uma rua da zona sul. Pelas calçadas o movimento era baixo, embora quem passasse ali tivesse toda uma identidade muito bem marcada: a babá negra uniformizada com uma criança lourinha à tiracolo; um casal de senhores, bengala numa mão e a outra dada à esposa; jovens bonitos, de aparência cosmopolita; uma atriz jovem de telenovelas, em companhia de um amigo.


Detalhes. O personagem Tintim observa todo o movimento da Rua dos Oitis de forma atenta com seu fox terrier, enquanto casas geminadas muito bem tratadas representam o caráter operário da Gávea no século passado
.


Vistas. O Corcovado é avistado graças ao gabarito limitado da rua, preenchida por muitas casas ao longo de sua extensão.

O mais legal de se caminhar por uma rua de gabarito limitado é poder observar o desenho do Maciço da Tijuca, que é muito bonito visto desta região da Gávea. Se o Cristo Redentor dá as suas costas à Rua dos Oitis, o que não o deixa menos bonito, o contorno do Corcovado, por sua vez, fica bem mais em evidência do que na orla da Baía de Guanabara. E acaba que esse gabarito limitado vai se representando em outros tipos de imóveis interessantes, como uma série de casas geminadas, já nas proximidades da Rua das Acácias, e uma vila bem charmosa no número 52, adornada por uma alta palmeira. As janelas que dão diretamente para a rua são exemplos de um Rio que ficou para trás, já que hoje vivemos enclausurados entre grades, portões, subportões, e muitos outros aparatos de separação (e proteção) do espaço público com o privado. Na Rua dos Oitis são muitas as janelas que ainda convivem com a rua.


Outros detalhes. Flor brota de uma árvore “pelada”; ao lado, um dos únicos imóveis modernosos da rua.

A arborização abundante – afinal, é a rua “dos Oitis” – perfura as calçadas, descompõe a estrutura dos canteiros e invade a própria, e excessiva, fiação da rua, loteada de pequenas mudinhas espalhadas por ela, de onde ainda pende uma antiga lamparina. Uma senhora não dava conta de varrer a calçada que, de minuto em minuto, via encher-se de folhas a cada passagem de vento. As árvores de lá proporcionam sombras confortáveis, ainda mais no outono. Se por aqui as folhas não costumam ficar alaranjadas, pelo menos temos o privilégio de sentir o sol embrenhando-se pelos espaços vazios entre os galhos e folhas e, assim, refletindo-se sobre a calçada. Em alguns trechos da Rua dos Oitis a cobertura de folhas é tão densa que o ambiente parece sombrio em plena manhã. Não é à toa que uma simples ida à rua transforma-se em um programa dos mais agradáveis para os que moram pelas redondezas. Mesmo com toda a mercantilização dos espaços urbanos da zona sul nestes últimos anos, a Rua dos Oitis, pelo menos, ainda conserva um certo laço de intimidade com o pedestre. Penso que isso é graças à preservação de suas raízes, não só a das árvores centenárias, mas as comerciais, familiares e sociais também.

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Rua Bernardino dos Santos, Santa Teresa

10 março 2013 | deixe seu comentário (0)

… E percorremos um trechinho da Rua Cândido Mendes também!


No alto da colina. Além das paisagens belíssimas, a Rua Bernardino dos Santos é cheia de intervenções artísticas.

por Pedro Paulo Bastos

A Déborah é francesa e está no auge dos seus 20 anos de idade. É estudante de intercâmbio de Sociologia pela PUC. Virou minha amiga através do Guga, outro amigo meu de longa data, quem me a apresentou após tê-la conhecido em Toulouse, quando ela ainda estava no outro lado do Atlântico. Ele, por sua vez, também era intercambista na época.

Apresentações à parte, o que há de comum entre nós? A resposta é… A paixão pelo Rio! Ambos com suas percepções, gostos e referências.

A Déborah ainda tem um sotaque carregado, embora tenha aprendido a falar português assustadoramente rápido. Há bem menos de um ano ela mal sabia conjugar os verbos no presente e agora já faz uso de gírias e expressões com uma incrível espontaneidade. Independente, explora o Rio de norte a sul. Já o Guga tem se mostrado um ótimo conhecedor do nosso Rio de Janeiro, graças à amizade deste que vos escreve (modéstia à parte, é claro). Eu não podia ter companhia melhor para explorar o bairro de Santa Teresa, no centro do Rio, e uma de suas ruas, a Bernardino dos Santos.

A rua se inicia nas proximidades do Largo do Curvelo, uma das tradicionais paradas do extinto bonde de Santa Teresa. A praça que lhe serve de esquina descortina um dos mais belos cartões postais da cidade: a Baía de Guanabara e o Pão de Açúcar. Não é à toa que vários pedestres tornam este pedaço como ponto de parada – ou de encontro, entre uma atração turística e outra. A sombrinha é refrescante, a paisagem – não preciso relembrar -, alucinante. A cúpula de uma espécie de castelo surge entre o verde volumoso das árvores enquanto uma rara brisa passa por entre os nossos braços. Atinge as folhas, que, balançantes, nos mandam de volta o frescor tão faltante nesse mundo urbanoide em que vivemos.


Aclive de início. Panorama de início da Rua Bernardino dos Santos, na esquina com a Rua Dias de Barros e o Largo do Curvelo
.


Detalhes. No primeiro “clarão” da rua, avista-se a cúpula do que seria um castelinho (me falaram que é uma igreja ortodoxa). Em seguida, o gradil elegante da portada de um edifício.

A ausência de carros pelos arredores mostra-se presente ao ouvir-se o atrito da sola do tênis com o chão de paralelepípedo. Como o trecho inicial da Rua Bernardino dos Santos é constituído por um aclive, resistência física é bem-vinda, mas só até atingir a parte plana da rua que, aliás, vai se desembestar a descer novamente. Altos e baixos. Quanto mais alto o trecho, melhor a vista. Ela aparece de forma imprevisível – às vezes no intervalo entre um prédio e outro, às vezes através de casas abaixo do nível da rua. O sol bate forte por ali, muito forte, e à medida que eu e a Déborah desbrávamos a rua, percebia que o grande atrativo da Bernardino dos Santos não está na sua arquitetura, mas sim nos detalhes menos apreciados.

“Quando vier morar de vez no Rio, já sei onde morar”, apontou a Déborah para um portão de grades verticais azuis com duas circunferências, também de metal, centralizadas. A observação curiosa da entrada desta residência é que ela é uma continuação da calçada, ou seja, o pedestre teria de andar pelo meio da via para acessar a sua possível continuação ou seguir pelo lado oposto. Como Santa Teresa não é portadora de grande tráfego de veículos motorizados, a caminhada pelo meio da via é uma ação automática. Talvez este pedaço da Bernardino dos Santos seja o mais simpático, não só pela entrada insólita da casa onde a Déborah quer morar bem como pelo detalhe de azulejos na residência ao lado. As referências lusitanas são incríveis.


A casa (ou a rua) dos sonhos. Trecho simpático da Rua Bernardino dos Santos com acesso à residência como continuação da calçada. No lado oposto, azulejos
. Adiante, a rua volta a descer.


Privilégio. Pelos altos e baixos do bairro, as casas tendem a estar muito acima ou muito abaixo do nível da rua. No entanto, a vista para cartões postais tradicionais, como o Pão de Açúcar, é coisa fácil de se conseguir em ambos os casos.

Santa Teresa respira arte. Se ao longo da Rua Almirante Alexandrino, a rua principal do bairro, ela é comercializada através de pintores e artesãos independentes e de lojas especializadas, na Rua Bernardino dos Santos são as paredes as portadoras de cores e desenhos. Porém, a sua arte depende bastante dos aspectos negativos do espaço urbano para que sua graça tenha efeito. Neste conjunto incluo o encardido, a parede descascada, a calçada de pedra desnivelada, as grades enferrujadas, os afloramentos entre uma pedra e outra.  Por exemplo: os caquinhos de vidro coloridos ao longo do topo de um muro estavam em uma singela harmonia com as cores vibrantes de um grafite com os dizeres “paz e amor”. Só uma observação atenta, digna geralmente de quem está acostumado a flanar, é que permite visualizar esta interrelação. O mesmo para uma parede branca em tons de cinza. A princípio parecia sujeira. Vendo de pertinho, era o desenho de uma mulher com formas angelicais.

“Pausa para ajudar gringos a se coordenarem geograficamente.
Não é nada difícil de esbarrar com eles pelas ruas do bairro.”

 

Would you guys help me please?” Pausa para ajudar gringos a se coordenarem geograficamente. Não é nada difícil de esbarrar com eles pelas ruas do bairro. Diz a lenda que Santa Teresa está virando um bairro de imigrantes franceses, mas a verdade é que vê-se pessoas de todos os lugares do mundo por ali com câmeras potentíssimas presas ao pescoço. Déborah teve uma identificação imediata com a gringa, talvez por ela também ser uma. Sentimento de “família” em terras estrangeiras. Papo vai, papo vem, descobrimos que a menina era de Barcelona, o que nos fez mudar o idioma do inglês para o espanhol na mesma hora. Afinal, para nosotros latinos, brasileiros ou franceses, o espanhol é muito mais fácil. “Gracias por la ayuda. Creo que ya sé como hacerlo”, despediu-se.


Respiro de arte. A rua abriga tanto grafites coloridos com dizeres otimistas bem como desenhos imperceptíveis. Percebe-se claramente que mesmo com a tentativa de repintura do muro à direita, a arte prevaleceu
.


O lado sinistro. Pouco antes de chegar no encontro com a Rua Cândido Mendes, a Rua Bernardino dos Santos resguarda joias arquitetônicas em meio a um ambiente sombrio, com paredões e muita sombra.

Assim como na praça no início da Rua Bernardino dos Santos, na esquina com a Dias de Barros, um novo clarão de paisagens brota ao longo do passeio. Desta vez, ainda mais “aberto”, vasto e alucinante. O Pão de Açúcar e a Baía de Guanabara aparecem agora ao fundo, com uma série de telhados, fiações, fachadas históricas, árvores e favelas em primeiro plano. Quem é carioca e/ou visita o Rio com frequência, está acostumado a avistar os cartões postais a partir de perspectivas-padrões. Em Santa Teresa, ou neste caso da Rua Bernardino dos Santos, cada mirante oferece uma percepção diferente da cidade. Mesmo naqueles em que a paisagem de fundo é o Centro e a zona norte, vistas comumente mal apreciadas pelas pessoas.

“Em Santa Teresa, ou neste caso da Rua Bernardino dos Santos, cada mirante oferece uma percepção diferente da cidade.”

 

Um pouco antes do encontro com a Rua Cândido Mendes, bem na divisa entre a Glória e Santa Teresa, a Rua Bernardino dos Santos adquire aspectos sombrios e sinistros. O paredão de pedra, que apenas pela sua altura já provoca certos tipos de sensações macabras, é coberto por uma camada de vegetação espessa. Dali podem sair muitos bichos e insetos sem qualquer anúncio. Para medrosos como eu, isto é algo muito relevante. Do outro lado da calçada, um casarão com porões tem janelas que, aparentemente, não são abertas há muito tempo. Não considero somente o visual detonado dos fundos; levo em conta a energia também. No último edifício da rua, que devia ser um cobiçado endereço residencial nos anos cinquenta, se apresenta com tonalidades encardidas de branco, algumas pichações e a sua suposta entrada funcionando como depósito de entulho.


Glória-Santa Teresa. O encontro das ruas Bernardino dos Santos e Cândido Mendes marca a divisa entre os bairros da Glória e de Santa Teresa
.


Fim da expedição. Na Rua Cândido Mendes, a aura comercial de Santa Teresa começa a pipocar com lojinhas de artesanato e prédios monumentais. A placa aérea agradece a visita ao bairro e/ou dá as boas-vindas para quem chega via Glória.

De lá em diante seguimos a Rua Cândido Mendes. Após uma subida e um declive na Bernardino dos Santos, embarcamos novamente em uma nova ladeira. O caminhão da Comlurb passava por ali com dificuldade, pela largura da via e pelo motor pouco potente para inclinações como aquela. Diferindo-se da Rua Bernardino dos Santos, a Cândido Mendes tem uma aparência mais preservada e aconchegante. O tipo de edifício de pastilhas azuis e brancas, tão comum nos bairros originalmente mais verticalizados, entra em contraste com o prédio de fachada monumental e grande paredão rochoso. Alcançando a bucólica pracinha no encontro das ruas Cândido Mendes e Santa Cristina, um novo clarão promove visão privilegiada da Baía de Guanabara. Privilégio momentâneo dos pedestres, privilégio diário dos moradores.

A aura comercial de Santa Teresa ressurge com lojinhas de artesanato, pequenos restaurantes e os trilhos do extinto bonde, ainda preservados sobre o asfalto da Rua Almirante Alexandrino. “Você está em Santa Teresa”, avisa a placa. “Área de interesse turístico”, “Área histórica de preservação”, “Bonde transitando”. Quem dera! Viramos à direita em direção ao Largo do Curvelo para encontrar o Guga, que estava à nossa espera. No caminho, um esbarrão, desses típicos dos distraídos. Era a espanhola novamente. Disse que desistiu de ir em busca do que procurava optando por caminhar sem rumo pelo bairro. Eu e meus amigos também. Dia de boa comida, boas risadas e de muita cultura.  

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Rua Artidoro da Costa e Rua Padre Francisco Lanna, Vila Isabel

20 fevereiro 2013 | deixe seu comentário (0)

Mais do que ziriguidum, o bairro de Noel tem coisas tão interesses quanto o carnaval para mostrar


Na antiga vila operária. Nos arredores da extinta fábrica de tecidos Confiança, o que restou das residências dos operários na Rua Artidoro da Costa.

por Pedro Paulo Bastos

Essa semana o bairro de Vila Isabel, na zona norte do Rio, ficou mais evidenciado do que de costume pela sua vitória como a melhor escola de samba do carnaval carioca de 2013. Os aplausos ficaram por conta não só pelo belo espetáculo promovido na Marquês de Sapucaí, mas também pela influência que o bairro teve no desenvolvimento da música popular brasileira. Isso tem favorecido e enobrecido o orgulho de ser e/ou morar em Vila Isabel. No entanto, não só de carnaval e MPB vive o bairro de Noel Rosa, ainda que sejam esses seus dois elementos mais célebres. É válido lembrar que um passeio a pé por Vila Isabel resguarda boas surpresas do ponto de vista urbanístico e, consequentemente, histórico. A Vila se assemelha a uma colcha de retalhos, ou seja, é um bairro cheio de descontinuidades paisagísticas. O trecho de uma determinada rua, que tenha uma certa característica aqui, logo na próxima quadra já recebe outro visual e com uma funcionalidade totalmente diferente da vizinha.

“ ’Peguei o bonde’, ‘passei’ no Boulevard
E a ‘Confiança’ é doce recordar
‘Os três apitos’ cantados por Noel
Ainda ecoam pela Vila Isabel”

Unidos de Vila Isabel, samba-enredo de 1994

Foi com base nessa identificação de “descontinuidades” que eu dediquei a manhã do sábado, 16 de fevereiro, a flanar pelos arredores da Companhia de Fiação e Tecidos Confiança Industrial, onde já há muitos anos funciona um hipermercado nos interiores desta antiga fábrica. O edifício, que segue uma tipologia industrial nos moldes dos da Inglaterra, leva tijolos de alvenaria aparente de pedras e é rodeado pela antiga vila operária que ainda permanece nas ruas Piza e Almeida e Artidoro da Costa. As casas padronizadas, entretanto, apesar do caráter histórico e da sua representação como um marco no desenvolvimento urbano do Rio, estão visivelmente em más condições. Talvez nesse sentido o espírito da hierarquia industrial ainda continue por lá: a fábrica Confiança, luxuosa e bonita graças aos cuidados de um grupo empresarial, e as vilas operárias nas adjacências, que mesmo depois de décadas seguem como moradias populares. Ontem, para os operários, e hoje para o que se chama de classe média baixa.


No entorno da fábrica. A extinta fábrica Confiança, imortalizada por Noel Rosa em “Três apitos”, é hoje filial de um hipermercado. Em seguida, o panorama das casas operárias na Rua Artidoro da Costa. Ao fundo, a Rua Souza Franco
.


Detalhes. A fachada das casas segue a regra com a cor amarela, enquanto portas e janelas luzem na cor verde. Ao lado, uma das vilas que restaram.

A Rua Artidoro da Costa é onde as casas operárias se concentram mais, enfurnadas em vilas estreitas ou acessadas diretamente da rua. O estado quase precário delas fez com que a Prefeitura interviesse recentemente na recuperação de suas fachadas, padronizando-as nas cores amarela e verde. Mesmo assim, a importância cultural dali não é explorada, o que se reflete igualmente na má conservação da própria Rua Artidoro da Costa. A ausência de arborização permite que os raios solares do verão carioca incidam sobre o asfalto de maneira horripilantemente insuportável. Se antigamente era da chaminé da Confiança de onde saía a fumaça, hoje em dia a sensação é a de que a fumaça brotará a qualquer momento daquela massa de betume. Nas vilas, em geral revestidas de um passeio que separa os dois lados de casas, é preenchido não só por piscinas de plástico, mas também por bicicletas, velocípedes, entre outros brinquedos.

Já na quadra entre a Rua Piza e Almeida e a Rua Visconde de Abaeté, o que restou da antiga vila operária é constituído por um único edifício loteado de janelas e portas, que mais parecem estalagens do que residências. Apesar da pouca movimentação nas sacadas e no abrir-e-fechar das portas, algumas janelas estavam ocupadas por donas-de-casa, que papeavam animadamente com transeuntes. Cena poética, inspiração para sambas das antigas. Enquanto um par de sapatos velhos pendia de um dos fios dos diversos postes da rua – na falta de árvores, os postes cinzentos as substituem -, um novo emaranhado de fios surge das casas amarelas. Esse cenário torna o espaço aéreo da Rua Artidoro da Costa visivelmente caótico, onde a fiação não segue padrão algum de direção: ora na vertical, ora na horizontal, às vezes em ziguezague. Há quem diga que é daí onde surgem os famosos gatos. Mas a verdade mesmo é que essa é uma confusão de elementos dispensáveis que ofuscam um recanto que deveria ter uma melhor preservação por parte do IPHAN, por exemplo.


Rua Artidoro da Costa. Mais do extenso edifício também pertencente à antiga vila operária, com fiagem desordenada, e os outros estilos de casas que também marcam presença na rua
.


Virando a esquina. As imagens acima são da bifurcação entre as ruas Artidoro da Costa, Visconde de Abaeté e Padre Francisco Lanna, à direita, que já muda totalmente o panorama anterior.

A Rua Artidoro da Costa termina na Rua Visconde de Abaeté, que é supostamente uma rua no estilo sem saída (visualize o mapa aqui para maiores orientações). Os pedestres pouco observadores acreditam que esse trecho cul-de-sac seja de fato parte da Visconde de Abaeté, assim como aqueles que não costumam ler os mapas da cidade – provavelmente a grande maioria. Não faz mal! O que poucos sabem é que esse trecho não leva mais o nome do tal visconde, mas sim o de Padre Francisco Lanna. E é justamente no encontro destas duas ruas com a Artidoro da Costa onde podemos constatar uma das descontinuidades de que eu havia comentado no início desta expedição. Diferente da Rua Artidoro da Costa, que concentra um nível social um pouco mais baixo, a Rua Padre Francisco Lanna muda por completo esse panorama: vizinhança arborizada, os prédios notadamente de classe média, jardinagem e uma pracinha bastante acolhedora. Quem está por dentro do ramo imobiliário afirmaria que esse recanto de Vila Isabel é considerado a mina de ouro do bairro pelo seu clima tranquilo de família. A decadência urbana dos anos 80 e 90 afetou o aspecto estético de muitos lugares da Vila, embora a Padre Francisco Lanna tenha saído vitoriosa por ser uma exceção.

A praça de lá é diminuta mas suficientemente espaçosa para abrigar os aparatos infantis típicos das pracinhas. Ao seu redor, uma coleção de carros estacionados. Diante de uma rua pequena como a Padre Francisco Lanna, essa quantidade absurda de automóveis é absurda e quase claustrofóbica para o pedestre. Os carrinhos de bebê precisam fazer mágica com suas rodinhas para se desvencilharem das passagens estreitas que lhes restam para acessar o centro da praça ou a conexão entre a via e a calçada. O paredão de edifícios oferece sombra junto às suntuosas amendoeiras. Um eventual cheirinho de comida surge de alguma janela e alcança às narinas. Na ausência de tráfego, não se respira o monóxido de carbono usual dos logradouros mais badalados. É um pedaço muito, mas muito calminho. O único ruído que se escuta, e bem ao longe, são dos ônibus passando pela Avenida Engenheiro Otacílio Negrão de Lima, que fica nos fundos.


A ruazinha da pracinha. A Rua Padre Francisco Lanna é um recanto bastante simpático no final da Rua Visconde de Abaeté. Dispõe de bons edifícios e uma pracinha mais voltada para as crianças
.


Grades. Uma das maiores características da Rua Padre Francisco Lanna é a quantidade de grades: proteção medonha em tempos modernos.


Corredor. O corredor da Rua Padre Francisco Lanna é formado por grades, jardins e acesso para os outros edifícios. Chama a atenção por ser uma passagem pública, embora não tenha saída.

Os moradores dali são silenciosos, o que, à primeira vista, faz parecer que não dão às caras de forma alguma. Não obstante, cinco segundos de observação atenta serviram para constatar que o porteiro estava logo ali, varrendo o que lhe convinha. No quarto andar de um edifício, a moradora estava usufruindo da sua rede de tecido branco na compacta varanda do seu apartamento, com as franjas longas da rede capazes de atiçar a qualquer cachorrinho brincalhão. O jardineiro cuidava das ixoras no trecho ainda mais escondido da Rua Padre Francisco Lanna, que mais parece um condomínio fechado do que rua aberta, enquanto o avô jogava bola com o neto na extensão da garagem do prédio onde vivem. Talvez esses personagens não tenham ficado tão expostos ao meu campo visual pela quantidade de grades que existem na Rua Padre Francisco Lanna. Não acho que isso seja particular da rua; infelizmente o país todo ainda precisa desses mecanismos medonhos de proteção.

Uns dias antes de decidir que visitaria a região para o As Ruas do Rio, descobri em leituras de pesquisa que a canção “Três apitos”, de Noel Rosa, fora inspirada na Fábrica Confiança. Preciso nem dizer que o fundo musical para esse passeio foi bem mais significativo do que imaginava. Pode até ser que essa poesia toda não tenha se retratado no texto pela decepção que tive em me deparar com ruas tão mal cuidadas no entorno da fábrica. A grande verdade é que só o encontro ao vivo com o local, guiado pela referência musical que lhes dei, é que proporciona aquele modo ativado de imaginação e de resgate de um tempo passa longe da minha época. O que tiro de conclusão dessa expedição é que as ruas são mais culturais do que podemos imaginar. Um olhar diferenciado permite esse acréscimo de valor cultural, e você não paga nenhum centavinho para ter acesso a isso. Algo que destoa bastante do turismo carioca contemporâneo, cada vez mais mercantilizado e midiático. Parabéns à Vila – é o que me resta a dizer.

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Rua Leite Leal e Rua Sebastião de Lacerda, Laranjeiras

07 fevereiro 2013 | deixe seu comentário (0)

Nos fundos da Rua das Laranjeiras, o charme de uma vizinhança cheia de detalhes para observar


Casas Casadas. Monumento arquitetônico neoclássico em Laranjeiras funcionava como residência multifamiliar; hoje é sede da Riofilme.

por Pedro Paulo Bastos

Por uma fração de segundos tive a impressão de estar em outro lugar que não fosse o Rio de Janeiro. Era o cruzamento da Rua das Laranjeiras com a Rua Leite Leal, onde estão localizadas as Casas Casadas, monumento arquitetônico neoclássico no bairro de Laranjeiras. A sua lateral se assemelha àqueles modelos de residências anglo-saxônicas, que se vêem muito em algumas ruas de Nova York, onde o acesso a cada apartamento é feito através de uma escada – às vezes longa, às vezes curta – que dá diretamente para a rua. Assim como esses modelos residenciais lá dos states, as Casas Casadas também foram originalmente um empreendimento imobiliário de estilo multifamiliar. Por sinal, elas são algo totalmente diferente do que comumente se criou na sua época, 1880, e do que restou nos dias de hoje, 2013. Pelo menos para mim, a ideia de residência multifamiliar sempre beira o imaginário do cortiço de Aluísio de Azevedo, ou então das casas geminadas dos bairros que tinham um caráter mais operário. Não foi à toa que me senti um estrangeiro ao deparar-me com tamanha rara beldade.
 
Quem gosta de imprevisibilidade no espaço urbano deveria fazer uma visita mais apurada por Laranjeiras, um dos mais antigos e tradicionais lugares da cidade do Rio. Mesmo inclusa no rol de bairros nobres – notoriamente os que estão na zona sul -, Laranjeiras surpreende por sua versatilidade, que pode fugir em muito ao estereótipo de “bairro nobre com comércio sofisticado”. A convivência de elementos opostos é bastante acentuada. Veja só: as Casas Casadas ali, cheias de pompa, nem um pouco medíocres, estavam acompanhadas de sacos de lixo abandonados pelas calçadas, à espera de alguém que as recolhesse. Moscas pousam e voam de acordo com os seus instintos. Do outro lado, uma oficina mecânica convive com um prédio de classe média. À primeira vista, poderia ser uma reles oficina mecânica, dessas que imaginamos mal-cheirosa e encardida, o que já bastaria para contrastar com a ideia de “prédio de classe média”. Todavia, um detalhe no topo da sua fachada chama a atenção para sinalizar de que não se trata de um imóvel ordinário: a nomenclatura kühn. O letreiro está acoplado ao prédio, é inerente à sua construção. Consequentemente, outros detalhes acabam ficando em evidência, como a simetria e inclusão das figuras geométricas. É uma fachada que tem estética. Seria um imóvel art déco? Será que houve uma mudança de funcionalidade ou ali já era predestinado para ser uma oficina mecânica? Divago em meio a tantas referências.


Adentrando. O gradeado das Casas Casadas, que, além das escadas, são seguidas por um jardim até o portão de entrada. Ao lado, a fachada da oficina mecânica com nomenclatura
kühn.


Os porões. Duas casas, frente à frente, estados de conservação opostos, ambas com porões.

A sucessão de contrastes prossegue ao longo da pequenina Rua Leite Leal. Uma antiga residência, aparentemente espaçosa e desocupada, mais vertical do que plana, com tijolos à mostra, encara uma outra igualmente contemporânea à sua época. Ela tem seus detalhes preservados e ainda muito bem caracterizados, a cor pastel já um pouco escurecida, mas com dependências nitidamente habitadas, cheias de vida. Um mesmo imóvel deste porte no Centro, berço das construções aqui no Rio, provavelmente já estaria fadado ao desmoronamento. Ambas têm porões. Seja no imóvel mais conservado ou no outro que deveria ganhar uma remodelagem, é incrível como as janelas de porões não perdem o seu caráter obscuro. Na do número 108, parecem dois olhos mal-assombrados prestes a despejar – ou te sugar para dentro de – todas as coisas pavorosas do universo. Se esse imóvel estivesse colado à pedreira que há no final da rua, onde está o condomínio Pomar das Laranjeiras, os elementos se complementariam para formar o cenário ideal de um filme de terror, desses com espíritos rebeldes, candelabros e uivos de lobos. Desculpem-me; dei asas à minha imaginação.
 
A Rua Leite Leal termina onde a tal da pedreira se encontra, e esse trecho final é protegido por uma cancela que, apesar da sua natureza intimidatória, reafirma, com uma singela placa, o direito da livre circulação de pessoas e automóveis pela rua. Ou seja, não é porque conseguiram a autorização da prefeitura para instalar uma cancela que aquele espaço agora é privatizado, regido por leis que não as públicas. Atitude espirituosa e pertinente, digna de cópia para outras ruas fechadas de outros bairros, que insistem no uso da arrogância para limitar o pedestre. É justamente ali, ao lado desta cancela, onde se inicia a Rua Sebastião de Lacerda, a rua-irmã à Leite Leal, que vai desembocar lá na Rua das Laranjeiras novamente. O casario amarelo, na esquina formada pelas duas ruas, chama a atenção pela sua majestuosidade - lá funciona a ONG Sociedade Brasileira para a Solidariedade (SBS) -, embora a grande verdade mesmo é que foi outra coisa que ofuscou a sua beleza tão logo eu adentrei a Rua Sebastião de Lacerda.


Flores. Gosto muito de flores e fiquei procurando por elas ao longo da Rua Leite Leal, como essa flor amarela e a orquídea branca
.


O trecho “cancelado”. A placa avisa que, apesar da cancela, o logradouro é público e, portanto, a circulação é livre. A Rua Leite Leal termina onde há a pedreira.


A rua-irmã. O casario amarelo, onde funciona a ONG Sociedade Brasileira para a Solidariedade, determina o início da Rua Sebastião de Lacerda, que, diferentemente da Leite Leal, tem vista para o Cristo.

Quanto mais rico seja um bairro, mais desenvolvido e organizado ele será, concordam? Entretanto, no Brasil como um todo, ainda sofremos de um mal bastante ultrapassado, peculiar tanto a bairros “ricos” como a  bairros “pobres”: a fiação aérea. É impressionante como na Rua Sebastião de Lacerda o emaranhado de fios dos postes resulta em algo tenebrosamente feio. O pobre do Cristo Redentor, com vista privilegiada para Laranjeiras, aparece aos nossos olhos de maneira sutilmente achavascada. Os fios surgem de geradores e, como que em ziguezague, vão cortando o espaço aéreo da rua. Uns pairam solitários pelas fachadas das casas, enquanto outros atuam em conjunto. Uns rígidos, outros mais frouxos. Infelizmente ainda não se tem previsão alguma de quando a fiação da cidade será toda subterrânea.

A Rua Sebastião de Lacerda é majoritariamente formada por casas, só que menos antigas do que as encontradas na Rua Leite Leal. Os imóveis ali não têm tanta afeição histórica quanto os do logradouro vizinho, o que não os torna desmerecedores de apreciação. No primeiro trecho, até um pouquinho antes da curva, elas seguem um padrão mais verticalizado, onde o térreo não está no mesmo nível que a rua. Já a partir do número 45, as residências são mais simples, estão junto à via, possuem apenas um pavimento e contam com portas que dão de cara para a área pública. Sim, não há muros nem cercas! As prevenções individuais se sustentam no gradeamento das janelas e portarias. As casinhas levam cores vibrantes e são margeadas por calçadas mais estreitinhas, recriando um panorama parecido ao da Rua Duque Estrada, na Gávea, que também tem um desenho sinuoso e uma sucessão de casas geminadas.


A rua dos fios. A maior concentração da fiarada está em frente a essa vila. Em seguida, o estilo das residências no trecho inicial da Sebastião de Lacerda.


Pitoresco. Os azulejos coloridos dão maior poesia à numeração das casas na via, que variam de estilos, como essas, próximas à curva, bastante integradas com o nível da rua.


Já nas Laranjeiras. Outros modelos residenciais com paisagismo sofisticado que deixam a dúvida se são apartamentos ou uma única casa, logo em frente aos grafites do Largo Maria Portugal.

Mesmo dispondo de uma fiação horripilante, a Rua Sebastião de Lacerda consegue ser discretamente poética. A vista para o Cristo conta muito, é claro – em um dos seus melhores ângulos, com os braços abertos diretamente para o bairro -, mas foi na numeração das casas onde encontrei a descontração que a rua precisava: os azulejos com bordas coloridas. Em uma parede encardida da rua, esse modelo de numeração era o elemento ideal para tornar a própria falta de pintura da parede em algo bonito. O que dizer então dos grafites? Estão por grande parte dos muros livres, com dizeres criativos e cartuns caprichados. O Largo Maria Portugal, a praça que conecta a Sebastião de Lacerda com a Rua das Laranjeiras, também é repleto de intervenções artísticas interessantes. Na verdade, ambas as ruas são repletas de intervenções artísticas, de todos os tipos e épocas, independente do trecho que se esteja percorrendo. Resumo da ópera: são ruas cheias de informação.

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Rua da Carioca

09 janeiro 2013 | deixe seu comentário (0)

O drama de uma rua histórica e temerosa quanto ao seu futuro


Protesto. Faixas na Rua da Carioca anunciam a insatisfação de seus lojistas e locatários acerca da venda dos imóveis para um banco de investimento.

por Pedro Paulo Bastos

Avistar faixas e cartazes pelas ruas é sempre motivo de curiosidade para qualquer pedestre. Podem ser os anúncios do Rock in Rio ou a advertência da Prefeitura sobre a interdição de Copacabana no 31 de dezembro, não importa. Aqueles pedaços de pano (às vezes são de plástico), com letras garrafais, pendem de um poste ao outro, bem no campo de visão do motorista. E a verdade é que é bem fácil de reconhecer o teor da mensagem – boa ou ruim – mesmo sem a leitura. Na Rua da Carioca, no Centro do Rio, por exemplo, mesmo quem não lê os jornais e se depara com a quantidade de cartazes pela via consegue reconhecer que o clima não tem sido dos melhores por lá.
 
Era véspera da véspera de Natal quando fui percorrer a Rua da Carioca. Um sábado atípico para o Centro, com uma quantidade anormal de pessoas saindo da estação Carioca do metrô, sob o Convento de Santo Antônio, em direção às ruas Uruguaiana e Alfândega, pólo comercial popular da cidade. Quem deixou para comprar os presentes na última hora, o Centro foi a opção, levando um mar de gente às suas ruas que só é visto em dias úteis em horário bancário. O calor não perdoava, enquanto um grupo de indígenas embalava como fundo musical daquele cenário urbanoide a suave e doce melodia das suas flautas. Como nada é harmônico em uma grande metrópole como o Rio, em outro canto da antiga Praça Estado da Guanabara, uma caixa de som ecoava os sucessos sertanejos de 2012.
 


Corredor arquitetônico. A Rua da Carioca concentra uma grande quantidade de imóveis históricos do Centro do Rio, descaracterizados para abrigar estabelecimentos comerciais nos seus térreos.


Atrativos. O café, no número 10 da rua, retoma ares vintages dignos do Centro Antigo, enquanto pedestres circulam em busca do melhor presente de Natal no sábado, 22 de dezembro.

 
A Rua da Carioca faz parte de um corredor viário do Centro, constituído pela Avenida Nilo Peçanha e as ruas da Assembleia, Visconde do Rio Branco, Frei Caneca e, mais ao longe, Salvador de Sá e Estácio de Sá, na periferia central. A Rua da Carioca não tem grandes atrativos comerciais como a Uruguaiana, região adjacente, embora naquela véspera da véspera de Natal o seu panorama resumisse bem o quanto a economia brasileira anda de vento em popa como anunciam os jornais. O consumo estava às alturas. Já tinha notado em outros bairros comerciais do Rio como as lojas têm estado cheias, como as livrarias de grande porte têm acumulado filas diante de suas caixas registradoras, como o ar condicionado não tem dado conta de tantos consumidores inseridos num mesmo metro quadrado. Todos estão ávidos por compras. Só acreditava que a avidez fosse segmentada por lojas e produtos populares, coisas de uso corriqueiro, pechinchas.

Com todo o respeito às demais, são três estabelecimentos comerciais que fazem as honras na Rua da Carioca por suas tradições e “tempo de estrada”: A Guitarra de Prata, Vesúvio e Bar Luiz. Ocupadas em casarões centenários, A Guitarra de Prata, por exemplo, especializada em instrumentos e aparatos musicais, estava lotada, um entra-e-sai de pessoas que se percebia que vieram de longe para ir exclusivamente até lá. Em tempos de compras online, de centros comerciais modernosos – o Village Mall é o mais novo da praça – e de bairrismos exarcebados, uma loja modesta, de mais de cem anos de existência no Centro, num sábado de manhã, estava requisitadíssima. A vizinha Vesúvio, especialista em guarda-chuvas e guarda-sóis simpáticos, tinha a sua vitrine admirada pela clientela e por transeuntes, divididos entre brasileiros e turistas, notadamente europeus pela pele rosada e o cabelo loiro-liso quase esbranquiçado.


Tradição. A loja Vesúvio, especializada em guarda-chuvas e guarda-sóis, vizinha à centenária A Guitarra de Prata, de instrumentos musicais.


Outras tradições. Templo da saliência, o Cine Íris é popular entre o público masculino que circula pelo Centro nos dias úteis. Já o Bar Luiz, à direita, figura como um dos restaurantes mais antigos e tradicionais da cidade, mesmo com ares decadentes.

Mais do que um corredor viário, a Rua da Carioca é um corredor arquitetônico. Fica difícil enumerar todos os estilos ou detalhes embutidos nos edifícios que lá se encontram – além da variabilidade, não sou especialista em arquitetura. Tenho de me restringir às impressões pessoais, aos meus gostos. Não faz parte da minha rotina de passear pelo Centro aos fins de semana. Durante os dias de trabalho, todos passamos tão depressa por suas ruas, concentrados em desviar-nos dos constantes choques de corpos na multidão de trabalhadores, que raramente olhamos para o alto – a não ser para limpar o rosto molhado por aquela gota de ar condicionado despejada lá de cima. A Rua da Carioca hoje, no nível da rua, está vulgarizada, e não me refiro ao Cine Íris, mas sim por um monte de estabelecimentos comerciais que não se encaixam com a sua conjuntura histórica. São letreiros de gostos duvidosos, descaracterizações arquitetônicas que berram, sem mencionar a sujeira e o cheiro de urina exalado pelas suas esquinas, principalmente nos arredores da Avenida República do Paraguai.
 
No entanto, o levantar-de-cabeça na Rua da Carioca pode ser supreendente. Se da metade para o térreo dos casarios imperam as lamentações daqueles que amam a cidade, na parte superior, pelo menos, há algum tipo de compensação. Muitos desses imóveis passaram por uma remodelação minuciosa na sua fachada. A grande maioria foi contemplada com um novo jogo de cores, não tão pitorescas quanto as exuberantes do Caminito, na capital argentina, embora suficientemente alegres (e sóbrias, ao mesmo tempo) para recuperar os detalhes das nossas origens residenciais. Os anos de construção se exibem nos topos pomposos dos prédios, apesar das conservadas e arqueadas janelas e portas não apresentarem vida, tampouco aparição alguma de personagem com vestes de outrora nas sacadas. A pintura é um fato, embora a fragilidade e o aspecto carente destes casarios também o sejam.


Diferenças. Em função do alargamento da Rua da Carioca, no início do século XX, o estilo arquitetônico mostra-se diferente de um lado para o outro da calçada.


Rio pra quem? Casario amarelo na esquina com a Rua Ramalho Ortigão, e a intervenção artística em um muro nos arredores da Avenida República do Paraguai, bastante condizente com o drama que a Rua da Carioca tem vivido.

Sabe-se que a manutenção destes imóveis tem um alto custo para os seus proprietários, mesmo para as grandes corporações. A detentora dos imóveis na Rua da Carioca era a Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Penitência que, sem condições de arcar com as despesas de manutenção, vendeu suas posses por R$ 54 milhões ao Opportunity Fundo de Investimento em meados do ano passado, 2012. Os temores de despejo e do aumento do aluguel das lojas tradicionais persistem, mesmo com o aviso do banco sobre o “relax, take it easy”, de que apenas algumas exigências serão feitas aos inquilinos, como o estímulo à preservação dos espaços e o compromisso de reajuste do valor do aluguel de acordo com o que se tem praticado no mercado.
 
Outras faixas menores, amarradas sobre as fachadas recém-remodeladas, não expressam conformismo, agradecimentos ou espirituosidade. “A Rua da Carioca é patrimônio nacional”, anuncia um dos cartazes. Em tempos de preparativos para Copa do Mundo e Olimpíadas, onde nem uma premiada escola municipal – a Friedenreich, no Maracanã – escaparia das demolições impostas pelo interesse de um pequeno grupo de pessoas, todo cuidado é pouco para a sofrida Rua da Carioca.

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