Rua Bernardino dos Santos, Santa Teresa

10 março 2013 | deixe seu comentário (0)

… E percorremos um trechinho da Rua Cândido Mendes também!


No alto da colina. Além das paisagens belíssimas, a Rua Bernardino dos Santos é cheia de intervenções artísticas.

por Pedro Paulo Bastos

A Déborah é francesa e está no auge dos seus 20 anos de idade. É estudante de intercâmbio de Sociologia pela PUC. Virou minha amiga através do Guga, outro amigo meu de longa data, quem me a apresentou após tê-la conhecido em Toulouse, quando ela ainda estava no outro lado do Atlântico. Ele, por sua vez, também era intercambista na época.

Apresentações à parte, o que há de comum entre nós? A resposta é… A paixão pelo Rio! Ambos com suas percepções, gostos e referências.

A Déborah ainda tem um sotaque carregado, embora tenha aprendido a falar português assustadoramente rápido. Há bem menos de um ano ela mal sabia conjugar os verbos no presente e agora já faz uso de gírias e expressões com uma incrível espontaneidade. Independente, explora o Rio de norte a sul. Já o Guga tem se mostrado um ótimo conhecedor do nosso Rio de Janeiro, graças à amizade deste que vos escreve (modéstia à parte, é claro). Eu não podia ter companhia melhor para explorar o bairro de Santa Teresa, no centro do Rio, e uma de suas ruas, a Bernardino dos Santos.

A rua se inicia nas proximidades do Largo do Curvelo, uma das tradicionais paradas do extinto bonde de Santa Teresa. A praça que lhe serve de esquina descortina um dos mais belos cartões postais da cidade: a Baía de Guanabara e o Pão de Açúcar. Não é à toa que vários pedestres tornam este pedaço como ponto de parada – ou de encontro, entre uma atração turística e outra. A sombrinha é refrescante, a paisagem – não preciso relembrar -, alucinante. A cúpula de uma espécie de castelo surge entre o verde volumoso das árvores enquanto uma rara brisa passa por entre os nossos braços. Atinge as folhas, que, balançantes, nos mandam de volta o frescor tão faltante nesse mundo urbanoide em que vivemos.


Aclive de início. Panorama de início da Rua Bernardino dos Santos, na esquina com a Rua Dias de Barros e o Largo do Curvelo
.


Detalhes. No primeiro “clarão” da rua, avista-se a cúpula do que seria um castelinho (me falaram que é uma igreja ortodoxa). Em seguida, o gradil elegante da portada de um edifício.

A ausência de carros pelos arredores mostra-se presente ao ouvir-se o atrito da sola do tênis com o chão de paralelepípedo. Como o trecho inicial da Rua Bernardino dos Santos é constituído por um aclive, resistência física é bem-vinda, mas só até atingir a parte plana da rua que, aliás, vai se desembestar a descer novamente. Altos e baixos. Quanto mais alto o trecho, melhor a vista. Ela aparece de forma imprevisível – às vezes no intervalo entre um prédio e outro, às vezes através de casas abaixo do nível da rua. O sol bate forte por ali, muito forte, e à medida que eu e a Déborah desbrávamos a rua, percebia que o grande atrativo da Bernardino dos Santos não está na sua arquitetura, mas sim nos detalhes menos apreciados.

“Quando vier morar de vez no Rio, já sei onde morar”, apontou a Déborah para um portão de grades verticais azuis com duas circunferências, também de metal, centralizadas. A observação curiosa da entrada desta residência é que ela é uma continuação da calçada, ou seja, o pedestre teria de andar pelo meio da via para acessar a sua possível continuação ou seguir pelo lado oposto. Como Santa Teresa não é portadora de grande tráfego de veículos motorizados, a caminhada pelo meio da via é uma ação automática. Talvez este pedaço da Bernardino dos Santos seja o mais simpático, não só pela entrada insólita da casa onde a Déborah quer morar bem como pelo detalhe de azulejos na residência ao lado. As referências lusitanas são incríveis.


A casa (ou a rua) dos sonhos. Trecho simpático da Rua Bernardino dos Santos com acesso à residência como continuação da calçada. No lado oposto, azulejos
. Adiante, a rua volta a descer.


Privilégio. Pelos altos e baixos do bairro, as casas tendem a estar muito acima ou muito abaixo do nível da rua. No entanto, a vista para cartões postais tradicionais, como o Pão de Açúcar, é coisa fácil de se conseguir em ambos os casos.

Santa Teresa respira arte. Se ao longo da Rua Almirante Alexandrino, a rua principal do bairro, ela é comercializada através de pintores e artesãos independentes e de lojas especializadas, na Rua Bernardino dos Santos são as paredes as portadoras de cores e desenhos. Porém, a sua arte depende bastante dos aspectos negativos do espaço urbano para que sua graça tenha efeito. Neste conjunto incluo o encardido, a parede descascada, a calçada de pedra desnivelada, as grades enferrujadas, os afloramentos entre uma pedra e outra.  Por exemplo: os caquinhos de vidro coloridos ao longo do topo de um muro estavam em uma singela harmonia com as cores vibrantes de um grafite com os dizeres “paz e amor”. Só uma observação atenta, digna geralmente de quem está acostumado a flanar, é que permite visualizar esta interrelação. O mesmo para uma parede branca em tons de cinza. A princípio parecia sujeira. Vendo de pertinho, era o desenho de uma mulher com formas angelicais.

“Pausa para ajudar gringos a se coordenarem geograficamente.
Não é nada difícil de esbarrar com eles pelas ruas do bairro.”

 

Would you guys help me please?” Pausa para ajudar gringos a se coordenarem geograficamente. Não é nada difícil de esbarrar com eles pelas ruas do bairro. Diz a lenda que Santa Teresa está virando um bairro de imigrantes franceses, mas a verdade é que vê-se pessoas de todos os lugares do mundo por ali com câmeras potentíssimas presas ao pescoço. Déborah teve uma identificação imediata com a gringa, talvez por ela também ser uma. Sentimento de “família” em terras estrangeiras. Papo vai, papo vem, descobrimos que a menina era de Barcelona, o que nos fez mudar o idioma do inglês para o espanhol na mesma hora. Afinal, para nosotros latinos, brasileiros ou franceses, o espanhol é muito mais fácil. “Gracias por la ayuda. Creo que ya sé como hacerlo”, despediu-se.


Respiro de arte. A rua abriga tanto grafites coloridos com dizeres otimistas bem como desenhos imperceptíveis. Percebe-se claramente que mesmo com a tentativa de repintura do muro à direita, a arte prevaleceu
.


O lado sinistro. Pouco antes de chegar no encontro com a Rua Cândido Mendes, a Rua Bernardino dos Santos resguarda joias arquitetônicas em meio a um ambiente sombrio, com paredões e muita sombra.

Assim como na praça no início da Rua Bernardino dos Santos, na esquina com a Dias de Barros, um novo clarão de paisagens brota ao longo do passeio. Desta vez, ainda mais “aberto”, vasto e alucinante. O Pão de Açúcar e a Baía de Guanabara aparecem agora ao fundo, com uma série de telhados, fiações, fachadas históricas, árvores e favelas em primeiro plano. Quem é carioca e/ou visita o Rio com frequência, está acostumado a avistar os cartões postais a partir de perspectivas-padrões. Em Santa Teresa, ou neste caso da Rua Bernardino dos Santos, cada mirante oferece uma percepção diferente da cidade. Mesmo naqueles em que a paisagem de fundo é o Centro e a zona norte, vistas comumente mal apreciadas pelas pessoas.

“Em Santa Teresa, ou neste caso da Rua Bernardino dos Santos, cada mirante oferece uma percepção diferente da cidade.”

 

Um pouco antes do encontro com a Rua Cândido Mendes, bem na divisa entre a Glória e Santa Teresa, a Rua Bernardino dos Santos adquire aspectos sombrios e sinistros. O paredão de pedra, que apenas pela sua altura já provoca certos tipos de sensações macabras, é coberto por uma camada de vegetação espessa. Dali podem sair muitos bichos e insetos sem qualquer anúncio. Para medrosos como eu, isto é algo muito relevante. Do outro lado da calçada, um casarão com porões tem janelas que, aparentemente, não são abertas há muito tempo. Não considero somente o visual detonado dos fundos; levo em conta a energia também. No último edifício da rua, que devia ser um cobiçado endereço residencial nos anos cinquenta, se apresenta com tonalidades encardidas de branco, algumas pichações e a sua suposta entrada funcionando como depósito de entulho.


Glória-Santa Teresa. O encontro das ruas Bernardino dos Santos e Cândido Mendes marca a divisa entre os bairros da Glória e de Santa Teresa
.


Fim da expedição. Na Rua Cândido Mendes, a aura comercial de Santa Teresa começa a pipocar com lojinhas de artesanato e prédios monumentais. A placa aérea agradece a visita ao bairro e/ou dá as boas-vindas para quem chega via Glória.

De lá em diante seguimos a Rua Cândido Mendes. Após uma subida e um declive na Bernardino dos Santos, embarcamos novamente em uma nova ladeira. O caminhão da Comlurb passava por ali com dificuldade, pela largura da via e pelo motor pouco potente para inclinações como aquela. Diferindo-se da Rua Bernardino dos Santos, a Cândido Mendes tem uma aparência mais preservada e aconchegante. O tipo de edifício de pastilhas azuis e brancas, tão comum nos bairros originalmente mais verticalizados, entra em contraste com o prédio de fachada monumental e grande paredão rochoso. Alcançando a bucólica pracinha no encontro das ruas Cândido Mendes e Santa Cristina, um novo clarão promove visão privilegiada da Baía de Guanabara. Privilégio momentâneo dos pedestres, privilégio diário dos moradores.

A aura comercial de Santa Teresa ressurge com lojinhas de artesanato, pequenos restaurantes e os trilhos do extinto bonde, ainda preservados sobre o asfalto da Rua Almirante Alexandrino. “Você está em Santa Teresa”, avisa a placa. “Área de interesse turístico”, “Área histórica de preservação”, “Bonde transitando”. Quem dera! Viramos à direita em direção ao Largo do Curvelo para encontrar o Guga, que estava à nossa espera. No caminho, um esbarrão, desses típicos dos distraídos. Era a espanhola novamente. Disse que desistiu de ir em busca do que procurava optando por caminhar sem rumo pelo bairro. Eu e meus amigos também. Dia de boa comida, boas risadas e de muita cultura.  

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Rua Artidoro da Costa e Rua Padre Francisco Lanna, Vila Isabel

20 fevereiro 2013 | deixe seu comentário (0)

Mais do que ziriguidum, o bairro de Noel tem coisas tão interesses quanto o carnaval para mostrar


Na antiga vila operária. Nos arredores da extinta fábrica de tecidos Confiança, o que restou das residências dos operários na Rua Artidoro da Costa.

por Pedro Paulo Bastos

Essa semana o bairro de Vila Isabel, na zona norte do Rio, ficou mais evidenciado do que de costume pela sua vitória como a melhor escola de samba do carnaval carioca de 2013. Os aplausos ficaram por conta não só pelo belo espetáculo promovido na Marquês de Sapucaí, mas também pela influência que o bairro teve no desenvolvimento da música popular brasileira. Isso tem favorecido e enobrecido o orgulho de ser e/ou morar em Vila Isabel. No entanto, não só de carnaval e MPB vive o bairro de Noel Rosa, ainda que sejam esses seus dois elementos mais célebres. É válido lembrar que um passeio a pé por Vila Isabel resguarda boas surpresas do ponto de vista urbanístico e, consequentemente, histórico. A Vila se assemelha a uma colcha de retalhos, ou seja, é um bairro cheio de descontinuidades paisagísticas. O trecho de uma determinada rua, que tenha uma certa característica aqui, logo na próxima quadra já recebe outro visual e com uma funcionalidade totalmente diferente da vizinha.

“ ’Peguei o bonde’, ‘passei’ no Boulevard
E a ‘Confiança’ é doce recordar
‘Os três apitos’ cantados por Noel
Ainda ecoam pela Vila Isabel”

Unidos de Vila Isabel, samba-enredo de 1994

Foi com base nessa identificação de “descontinuidades” que eu dediquei a manhã do sábado, 16 de fevereiro, a flanar pelos arredores da Companhia de Fiação e Tecidos Confiança Industrial, onde já há muitos anos funciona um hipermercado nos interiores desta antiga fábrica. O edifício, que segue uma tipologia industrial nos moldes dos da Inglaterra, leva tijolos de alvenaria aparente de pedras e é rodeado pela antiga vila operária que ainda permanece nas ruas Piza e Almeida e Artidoro da Costa. As casas padronizadas, entretanto, apesar do caráter histórico e da sua representação como um marco no desenvolvimento urbano do Rio, estão visivelmente em más condições. Talvez nesse sentido o espírito da hierarquia industrial ainda continue por lá: a fábrica Confiança, luxuosa e bonita graças aos cuidados de um grupo empresarial, e as vilas operárias nas adjacências, que mesmo depois de décadas seguem como moradias populares. Ontem, para os operários, e hoje para o que se chama de classe média baixa.


No entorno da fábrica. A extinta fábrica Confiança, imortalizada por Noel Rosa em “Três apitos”, é hoje filial de um hipermercado. Em seguida, o panorama das casas operárias na Rua Artidoro da Costa. Ao fundo, a Rua Souza Franco
.


Detalhes. A fachada das casas segue a regra com a cor amarela, enquanto portas e janelas luzem na cor verde. Ao lado, uma das vilas que restaram.

A Rua Artidoro da Costa é onde as casas operárias se concentram mais, enfurnadas em vilas estreitas ou acessadas diretamente da rua. O estado quase precário delas fez com que a Prefeitura interviesse recentemente na recuperação de suas fachadas, padronizando-as nas cores amarela e verde. Mesmo assim, a importância cultural dali não é explorada, o que se reflete igualmente na má conservação da própria Rua Artidoro da Costa. A ausência de arborização permite que os raios solares do verão carioca incidam sobre o asfalto de maneira horripilantemente insuportável. Se antigamente era da chaminé da Confiança de onde saía a fumaça, hoje em dia a sensação é a de que a fumaça brotará a qualquer momento daquela massa de betume. Nas vilas, em geral revestidas de um passeio que separa os dois lados de casas, é preenchido não só por piscinas de plástico, mas também por bicicletas, velocípedes, entre outros brinquedos.

Já na quadra entre a Rua Piza e Almeida e a Rua Visconde de Abaeté, o que restou da antiga vila operária é constituído por um único edifício loteado de janelas e portas, que mais parecem estalagens do que residências. Apesar da pouca movimentação nas sacadas e no abrir-e-fechar das portas, algumas janelas estavam ocupadas por donas-de-casa, que papeavam animadamente com transeuntes. Cena poética, inspiração para sambas das antigas. Enquanto um par de sapatos velhos pendia de um dos fios dos diversos postes da rua – na falta de árvores, os postes cinzentos as substituem -, um novo emaranhado de fios surge das casas amarelas. Esse cenário torna o espaço aéreo da Rua Artidoro da Costa visivelmente caótico, onde a fiação não segue padrão algum de direção: ora na vertical, ora na horizontal, às vezes em ziguezague. Há quem diga que é daí onde surgem os famosos gatos. Mas a verdade mesmo é que essa é uma confusão de elementos dispensáveis que ofuscam um recanto que deveria ter uma melhor preservação por parte do IPHAN, por exemplo.


Rua Artidoro da Costa. Mais do extenso edifício também pertencente à antiga vila operária, com fiagem desordenada, e os outros estilos de casas que também marcam presença na rua
.


Virando a esquina. As imagens acima são da bifurcação entre as ruas Artidoro da Costa, Visconde de Abaeté e Padre Francisco Lanna, à direita, que já muda totalmente o panorama anterior.

A Rua Artidoro da Costa termina na Rua Visconde de Abaeté, que é supostamente uma rua no estilo sem saída (visualize o mapa aqui para maiores orientações). Os pedestres pouco observadores acreditam que esse trecho cul-de-sac seja de fato parte da Visconde de Abaeté, assim como aqueles que não costumam ler os mapas da cidade – provavelmente a grande maioria. Não faz mal! O que poucos sabem é que esse trecho não leva mais o nome do tal visconde, mas sim o de Padre Francisco Lanna. E é justamente no encontro destas duas ruas com a Artidoro da Costa onde podemos constatar uma das descontinuidades de que eu havia comentado no início desta expedição. Diferente da Rua Artidoro da Costa, que concentra um nível social um pouco mais baixo, a Rua Padre Francisco Lanna muda por completo esse panorama: vizinhança arborizada, os prédios notadamente de classe média, jardinagem e uma pracinha bastante acolhedora. Quem está por dentro do ramo imobiliário afirmaria que esse recanto de Vila Isabel é considerado a mina de ouro do bairro pelo seu clima tranquilo de família. A decadência urbana dos anos 80 e 90 afetou o aspecto estético de muitos lugares da Vila, embora a Padre Francisco Lanna tenha saído vitoriosa por ser uma exceção.

A praça de lá é diminuta mas suficientemente espaçosa para abrigar os aparatos infantis típicos das pracinhas. Ao seu redor, uma coleção de carros estacionados. Diante de uma rua pequena como a Padre Francisco Lanna, essa quantidade absurda de automóveis é absurda e quase claustrofóbica para o pedestre. Os carrinhos de bebê precisam fazer mágica com suas rodinhas para se desvencilharem das passagens estreitas que lhes restam para acessar o centro da praça ou a conexão entre a via e a calçada. O paredão de edifícios oferece sombra junto às suntuosas amendoeiras. Um eventual cheirinho de comida surge de alguma janela e alcança às narinas. Na ausência de tráfego, não se respira o monóxido de carbono usual dos logradouros mais badalados. É um pedaço muito, mas muito calminho. O único ruído que se escuta, e bem ao longe, são dos ônibus passando pela Avenida Engenheiro Otacílio Negrão de Lima, que fica nos fundos.


A ruazinha da pracinha. A Rua Padre Francisco Lanna é um recanto bastante simpático no final da Rua Visconde de Abaeté. Dispõe de bons edifícios e uma pracinha mais voltada para as crianças
.


Grades. Uma das maiores características da Rua Padre Francisco Lanna é a quantidade de grades: proteção medonha em tempos modernos.


Corredor. O corredor da Rua Padre Francisco Lanna é formado por grades, jardins e acesso para os outros edifícios. Chama a atenção por ser uma passagem pública, embora não tenha saída.

Os moradores dali são silenciosos, o que, à primeira vista, faz parecer que não dão às caras de forma alguma. Não obstante, cinco segundos de observação atenta serviram para constatar que o porteiro estava logo ali, varrendo o que lhe convinha. No quarto andar de um edifício, a moradora estava usufruindo da sua rede de tecido branco na compacta varanda do seu apartamento, com as franjas longas da rede capazes de atiçar a qualquer cachorrinho brincalhão. O jardineiro cuidava das ixoras no trecho ainda mais escondido da Rua Padre Francisco Lanna, que mais parece um condomínio fechado do que rua aberta, enquanto o avô jogava bola com o neto na extensão da garagem do prédio onde vivem. Talvez esses personagens não tenham ficado tão expostos ao meu campo visual pela quantidade de grades que existem na Rua Padre Francisco Lanna. Não acho que isso seja particular da rua; infelizmente o país todo ainda precisa desses mecanismos medonhos de proteção.

Uns dias antes de decidir que visitaria a região para o As Ruas do Rio, descobri em leituras de pesquisa que a canção “Três apitos”, de Noel Rosa, fora inspirada na Fábrica Confiança. Preciso nem dizer que o fundo musical para esse passeio foi bem mais significativo do que imaginava. Pode até ser que essa poesia toda não tenha se retratado no texto pela decepção que tive em me deparar com ruas tão mal cuidadas no entorno da fábrica. A grande verdade é que só o encontro ao vivo com o local, guiado pela referência musical que lhes dei, é que proporciona aquele modo ativado de imaginação e de resgate de um tempo passa longe da minha época. O que tiro de conclusão dessa expedição é que as ruas são mais culturais do que podemos imaginar. Um olhar diferenciado permite esse acréscimo de valor cultural, e você não paga nenhum centavinho para ter acesso a isso. Algo que destoa bastante do turismo carioca contemporâneo, cada vez mais mercantilizado e midiático. Parabéns à Vila – é o que me resta a dizer.

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Rua da Carioca

09 janeiro 2013 | deixe seu comentário (0)

O drama de uma rua histórica e temerosa quanto ao seu futuro


Protesto. Faixas na Rua da Carioca anunciam a insatisfação de seus lojistas e locatários acerca da venda dos imóveis para um banco de investimento.

por Pedro Paulo Bastos

Avistar faixas e cartazes pelas ruas é sempre motivo de curiosidade para qualquer pedestre. Podem ser os anúncios do Rock in Rio ou a advertência da Prefeitura sobre a interdição de Copacabana no 31 de dezembro, não importa. Aqueles pedaços de pano (às vezes são de plástico), com letras garrafais, pendem de um poste ao outro, bem no campo de visão do motorista. E a verdade é que é bem fácil de reconhecer o teor da mensagem – boa ou ruim – mesmo sem a leitura. Na Rua da Carioca, no Centro do Rio, por exemplo, mesmo quem não lê os jornais e se depara com a quantidade de cartazes pela via consegue reconhecer que o clima não tem sido dos melhores por lá.
 
Era véspera da véspera de Natal quando fui percorrer a Rua da Carioca. Um sábado atípico para o Centro, com uma quantidade anormal de pessoas saindo da estação Carioca do metrô, sob o Convento de Santo Antônio, em direção às ruas Uruguaiana e Alfândega, pólo comercial popular da cidade. Quem deixou para comprar os presentes na última hora, o Centro foi a opção, levando um mar de gente às suas ruas que só é visto em dias úteis em horário bancário. O calor não perdoava, enquanto um grupo de indígenas embalava como fundo musical daquele cenário urbanoide a suave e doce melodia das suas flautas. Como nada é harmônico em uma grande metrópole como o Rio, em outro canto da antiga Praça Estado da Guanabara, uma caixa de som ecoava os sucessos sertanejos de 2012.
 


Corredor arquitetônico. A Rua da Carioca concentra uma grande quantidade de imóveis históricos do Centro do Rio, descaracterizados para abrigar estabelecimentos comerciais nos seus térreos.


Atrativos. O café, no número 10 da rua, retoma ares vintages dignos do Centro Antigo, enquanto pedestres circulam em busca do melhor presente de Natal no sábado, 22 de dezembro.

 
A Rua da Carioca faz parte de um corredor viário do Centro, constituído pela Avenida Nilo Peçanha e as ruas da Assembleia, Visconde do Rio Branco, Frei Caneca e, mais ao longe, Salvador de Sá e Estácio de Sá, na periferia central. A Rua da Carioca não tem grandes atrativos comerciais como a Uruguaiana, região adjacente, embora naquela véspera da véspera de Natal o seu panorama resumisse bem o quanto a economia brasileira anda de vento em popa como anunciam os jornais. O consumo estava às alturas. Já tinha notado em outros bairros comerciais do Rio como as lojas têm estado cheias, como as livrarias de grande porte têm acumulado filas diante de suas caixas registradoras, como o ar condicionado não tem dado conta de tantos consumidores inseridos num mesmo metro quadrado. Todos estão ávidos por compras. Só acreditava que a avidez fosse segmentada por lojas e produtos populares, coisas de uso corriqueiro, pechinchas.

Com todo o respeito às demais, são três estabelecimentos comerciais que fazem as honras na Rua da Carioca por suas tradições e “tempo de estrada”: A Guitarra de Prata, Vesúvio e Bar Luiz. Ocupadas em casarões centenários, A Guitarra de Prata, por exemplo, especializada em instrumentos e aparatos musicais, estava lotada, um entra-e-sai de pessoas que se percebia que vieram de longe para ir exclusivamente até lá. Em tempos de compras online, de centros comerciais modernosos – o Village Mall é o mais novo da praça – e de bairrismos exarcebados, uma loja modesta, de mais de cem anos de existência no Centro, num sábado de manhã, estava requisitadíssima. A vizinha Vesúvio, especialista em guarda-chuvas e guarda-sóis simpáticos, tinha a sua vitrine admirada pela clientela e por transeuntes, divididos entre brasileiros e turistas, notadamente europeus pela pele rosada e o cabelo loiro-liso quase esbranquiçado.


Tradição. A loja Vesúvio, especializada em guarda-chuvas e guarda-sóis, vizinha à centenária A Guitarra de Prata, de instrumentos musicais.


Outras tradições. Templo da saliência, o Cine Íris é popular entre o público masculino que circula pelo Centro nos dias úteis. Já o Bar Luiz, à direita, figura como um dos restaurantes mais antigos e tradicionais da cidade, mesmo com ares decadentes.

Mais do que um corredor viário, a Rua da Carioca é um corredor arquitetônico. Fica difícil enumerar todos os estilos ou detalhes embutidos nos edifícios que lá se encontram – além da variabilidade, não sou especialista em arquitetura. Tenho de me restringir às impressões pessoais, aos meus gostos. Não faz parte da minha rotina de passear pelo Centro aos fins de semana. Durante os dias de trabalho, todos passamos tão depressa por suas ruas, concentrados em desviar-nos dos constantes choques de corpos na multidão de trabalhadores, que raramente olhamos para o alto – a não ser para limpar o rosto molhado por aquela gota de ar condicionado despejada lá de cima. A Rua da Carioca hoje, no nível da rua, está vulgarizada, e não me refiro ao Cine Íris, mas sim por um monte de estabelecimentos comerciais que não se encaixam com a sua conjuntura histórica. São letreiros de gostos duvidosos, descaracterizações arquitetônicas que berram, sem mencionar a sujeira e o cheiro de urina exalado pelas suas esquinas, principalmente nos arredores da Avenida República do Paraguai.
 
No entanto, o levantar-de-cabeça na Rua da Carioca pode ser supreendente. Se da metade para o térreo dos casarios imperam as lamentações daqueles que amam a cidade, na parte superior, pelo menos, há algum tipo de compensação. Muitos desses imóveis passaram por uma remodelação minuciosa na sua fachada. A grande maioria foi contemplada com um novo jogo de cores, não tão pitorescas quanto as exuberantes do Caminito, na capital argentina, embora suficientemente alegres (e sóbrias, ao mesmo tempo) para recuperar os detalhes das nossas origens residenciais. Os anos de construção se exibem nos topos pomposos dos prédios, apesar das conservadas e arqueadas janelas e portas não apresentarem vida, tampouco aparição alguma de personagem com vestes de outrora nas sacadas. A pintura é um fato, embora a fragilidade e o aspecto carente destes casarios também o sejam.


Diferenças. Em função do alargamento da Rua da Carioca, no início do século XX, o estilo arquitetônico mostra-se diferente de um lado para o outro da calçada.


Rio pra quem? Casario amarelo na esquina com a Rua Ramalho Ortigão, e a intervenção artística em um muro nos arredores da Avenida República do Paraguai, bastante condizente com o drama que a Rua da Carioca tem vivido.

Sabe-se que a manutenção destes imóveis tem um alto custo para os seus proprietários, mesmo para as grandes corporações. A detentora dos imóveis na Rua da Carioca era a Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Penitência que, sem condições de arcar com as despesas de manutenção, vendeu suas posses por R$ 54 milhões ao Opportunity Fundo de Investimento em meados do ano passado, 2012. Os temores de despejo e do aumento do aluguel das lojas tradicionais persistem, mesmo com o aviso do banco sobre o “relax, take it easy”, de que apenas algumas exigências serão feitas aos inquilinos, como o estímulo à preservação dos espaços e o compromisso de reajuste do valor do aluguel de acordo com o que se tem praticado no mercado.
 
Outras faixas menores, amarradas sobre as fachadas recém-remodeladas, não expressam conformismo, agradecimentos ou espirituosidade. “A Rua da Carioca é patrimônio nacional”, anuncia um dos cartazes. Em tempos de preparativos para Copa do Mundo e Olimpíadas, onde nem uma premiada escola municipal – a Friedenreich, no Maracanã – escaparia das demolições impostas pelo interesse de um pequeno grupo de pessoas, todo cuidado é pouco para a sofrida Rua da Carioca.

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O charme (e a funcionalidade) das placas de rua

20 dezembro 2012 | 2 comentários

A sinalização de ruas do município do Rio pode ser considerada uma das mais emblemáticas do país. Mas por que algumas ruas têm esse luxo e outras não?

por Pedro Paulo Bastos

Certa vez estremeci quando adentrei o quarto de um amigo. Num misto de colagens em uma das paredes, luzia o modelo oficial da placa da Avenida Lineu de Paula Machado. Segundo ele, o rio que margeia tal avenida havia alagado em um dia chuvoso e o poste que sustentava a placa caiu, desprendendo a parte azulada em que constam as informações de CEP, numeração, bairro e o significado do nome da via. Por pouco que a correnteza não lhe deu um sumiço. Fiquei louco para ter uma também, e desde esse dia que venho torcendo por novas catástrofes naturais, acidentes automotivos, et cetera… Brincando! Não deu outra. Semana passada vinha caminhando pela Rua Almirante Cochrane quando me deparo com um poste semidestroçado, com as placas – azuladas – caídas. Com medo de me taxarem de vândalo ao cem por cento, consultei uma amiga sobre a ideia, que me incentivou a levá-la. Afinal, a placa estava suja, abandonada, entregue ao Deus-dará. A Comlurb iria passar ali e a jogaria no lixo. É minha, então.

Sou um grande apaixonado pelas placas de ruas. Não é à toa que a placa é símbolo deste blog! Mas eu gosto de vê-las nas ruas, os quatro postezinhos em cada esquina de um cruzamento. Gosto até mais das antigas placas-pirulito, embora também seja aficionado pelo modelo atual da Plamarc. Tem ares mais contemporâneos, retilíneos. Nesse contexto em que os nossos gestores têm de copiar para o Rio todas as referências urbanísticas e artísticas lá de fora, as nossas placas de sinalização de logradouros são um exemplo brilhante de beleza, informação e visibilidade. Não é preciso ir para destinos muito remotos para fazer a comparação. Em Niterói, logo ali do outro lado da Guanabara, as placas não têm o mesmo charme; parecem feitas de material vagabundo. Nossas placas são mais sofisticadas. O triste é que nem todas as ruas têm o privilégio de hospedá-las.

Nas minhas excursões pelo Rio de Janeiro, costumo notar cruzamentos e esquinas sem nenhuma referência identificatória. Num breve cruzamento de dados, percebo que quanto mais rico (ou turístico) for o bairro, maior é o número de placas instaladas. Não há um cruzamento de Copacabana ou do Leblon em que não haja um poste deste tipo. Agora embrenhe-se em ruas de Santa Teresa, do Cachambi, de Vila Valqueire… A incidência será bem menor. A lógica é um pouco contrariada, afinal, se vocês repararem bem num mapa ou tiverem experiência de locomoção, irão perceber que são justamente os bairros formados por rede de arruamento mais complexo e confuso os que precisam de identificação grande, visível e iluminada. Se o critério de prioridade para instalação das placas fosse esse, na teoria, Copacabana e Leblon nem precisariam delas, visto que seu jogo de ruas são de quadras perfeitas.

Eu costumava mapear ruas sem postes pelos bairros em que mais transito e enviava os pedidos através da Ouvidoria da Prefeitura, que funcionava melhor na gestão do ex-prefeito César Maia. Hoje em dia, a seção da Ouvidoria foi extinta no site da prefeitura, sobrando como opção  o 1746, que funciona por telefone ou por aplicativo para smartphones. Em 2008, quando a Plamarc assumiu a prestação deste serviço, entrou em contato comigo um secretário da prefeitura, por telefone. Seu nome não lembro, embora ele trabalhasse junto a esses assuntos. É possível que eu tenha perturbado tanto com mais e mais números de protocolo criados que, eles, finalmente, entraram em contato comigo. Foi-me explicado de que a licitação envolvia a exploração de apenas alguns cruzamentos. Se alguma esquina não contava com este tipo de serviço, não foi por “esquecimento” da empresa, mas sim porque ali não seria uma área abarcada.

As placas envolvem propagandas. É muito mais fácil lucrar com propaganda em postes nas ruas menos movimentadas de Ipanema do que nas de Campo Grande, por exemplo, onde a densidade populacional é muito menor. Há lógica capitalista nesse enredo, mas… é justo isso? Estamos falando de um serviço de interesse público! Mesmo que o critério das propagandas comentado seja apenas um palpite (ninguém me confirmou isso, que fique claro), não considero justo que o acordo para a prestação deste serviço se restrinja a poucas ruas de poucos bairros privilegiados pela economia. Por que uns cruzamentos pouco movimentados de regiões nobres ganham postes enquanto cruzamentos de grande porte nas zonas norte e oeste têm de se contentar com placas de parede, pouco visíveis?

O modelo de placa de ruas da Plamarc para o município do Rio é bonito, tem apelo estético e, sem dúvida alguma, valoriza uma rua. Tomo como caso o cruzamento da Rua Maria Quitéria com a Rua Barão de Jaguaripe, em Ipanema: os seus postes iluminados-azulados parecem flutuar na escuridão. É lindo! Nos bairros de desenhos mais confusos, dezenas de pessoas e prestadores de serviço tendem a se perder num emaranhado de ruas mal sinalizadas que, para piorar, à noite, nem sempre são bem iluminadas. Contudo, é bom lembrar que as placas não são só beleza e propaganda. Elas têm a funcionalidade primordial de orientar uma localização geográfica. Não será fácil, mas se eu fosse você, exigiria a da sua rua. Cidade desenvolvida também é sinônimo de cidade sinalizada. Integralmente.

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Rua Oto de Alencar e Praça André Rebouças

13 novembro 2012 | deixe seu comentário (0)

No bairro do Maracanã, uma rua leva o nome de Oto de Alencar, mas poderia chamar-se tranquilamente de rua dos estudantes


Hora da saída. Estudantes lotam a Rua Oto de Alencar, via residencial no bairro do Maracanã, zona norte do Rio de Janeiro.

por Pedro Paulo Bastos

As ruas estavam mais alegres nessa manhã de segunda-feira, mais coloridas do que de costume. A vitória do Campeonato Brasileiro pelo Fluminense fez com que moradores e comerciantes expusessem na janela de seus apartamentos, nas fachadas de suas casas e nos vidros de seus carros a bandeira do time tricolor. Os jornais esportivos se sobressaíam com manchetes coloridas na banca de jornal que fica na Rua Oto de Alencar quase esquina com a Praça André Rebouças, no Maracanã. Um gaiato andava de um lado para o outro com um recém-comprado pôster do time a fim de que o conhecido da esquina, flamenguista fervoroso, desse uma checada no grande feito do seu Fluzão. Ele, claro, revidou o aceno com uma piada manjada, enquanto muitos outros têm levantado o dedo do meio sorridentemente como resposta a tantos outros gaiatos que vagam por tantas outras ruas e bairros.

O burburinho concentrava-se nessa esquina já comentada, a Rua Oto de Alencar com a Praça André Rebouças. Na verdade, não há nenhuma praça ali. É um largo com antigas casas pomposas e arborizadas – uma delas é, hoje, um centro cultural – e alguns edifícios antigos meio cinzentos pela falta de pintura. Há também uma pequena quitanda e muitos, muitos carros estacionados. O espaço livre do largo, que deveria ter sido aproveitado como área de lazer no passado ou como construção para uma praça de fato, é um baita de um estacionamento a céu aberto comandado por flanelinhas. Na primeira aparição de um cliente em potencial, a movimentação passa de morosa para hiperativa. Os papos de bola e de zombarias ficam de lado enquanto uma leva de estudantes uniformizados surgem pelos cruzamentos e calçadas.


A praça que é um largo. O panorama da Praça André Rebouças, onde funciona a Casa Moro Café e Cultura, em um elegante imóvel.


O início da rua. A banca de jornal, na esquina com a Praça André Rebouças, estava movimentada com pôsteres do Fluminense. No outro lado da calçada, uma turma do Pedro II animava o ambiente com risadas e conversas espirituosas.

A Rua Oto de Alencar está localizada em uma região de alta concentração de escolas, servindo até mesmo de fundos para algumas delas. Da categoria de escolas públicas grandes e tradicionais, aparecem quatro: Pedro II, Colégio Militar, CEFET e Ferreira Viana. Das particulares, uma se destaca: o Colégio Nossa Senhora da Ressurreição, de importância mais regional. Como já era próximo da hora de saída – ou como diria um simpático senhor que me cochichou em tom de reprovação: “essa é a hora da gazeta!” -, os estudantes utilizavam a Rua Oto de Alencar como uma extensão do pátio de seus respectivos colégios, com a diferença de que, ali, era permitido o encontro e a mistura de uniformes, posturas e relacionamentos, sem inspetores para coibir qualquer movimento inadequado aos padrões educacionais. A cena parece ser corriqueira, nem um pouco exclusiva do instante em que eu estive passeando por lá.

Cada fradinho, cada jardim, cada muro lhes era de serventia para algo. A área de passagem livre em frente a um ajardinado edifício residencial permitia a reunião de um bando de garotos desgrenhados com camisas-de-botão amarrotadas. A amizade que todos mostravam ter um pelo outro era exibida através de socos de mentirinhas e gravatadas. As meninas andavam em grupinhos; umas mais mirradas, outras mais corporalmente desenvolvidas. Saias transformadas em minissaias, meias brancas esticadas até o joelho, pés calçados em sapatilhas. Minha intenção era em prestar mais atenção nos elementos da rua do que neles, mas como disassociá-los, se toda a dinâmica da Rua Oto de Alencar estava regida por esses jovens?


Os apartamentos. A rua é harmonizada vertical e horizontalmente, embora os prédios sejam mais bem cuidados do que as casas.


A turma da gazeta? A concentração de estudantes é alta pela Oto de Alencar. Em cada trecho ou canto da rua é possível encontrar um grupinho nessa hora da manhã. À direita, o Colégio Ressurreição, o único particular em meio aos públicos-tradicionais, como o Pedro II e o Militar.

Fora a arquitetura mista da rua, composta por algumas casas centenárias e mais contemporâneas, prédios de classe-média e muitos muros pichados, o grande atrativo da rua é a sua arborização. As amendoeiras são altas, promovendo sombras extensas nos dias escaldantes, enquanto convivem com árvores de folhas mais exóticas e palmeiras que não cresceram mais do que três metros. Uma jaqueira exibia toda orgulhosa os seus frutos, cuidadosamente protegidos pelo porteiro do prédio em frente. Os canteiros, singelos, não foram moldados com base em nenhum projeto paisagístico recente. As plantas foram simplesmente crescendo através dos anos, e se hoje estão bonitas, isso é graças à ação da mãe-natureza, que sabe harmonizar perfeitamente onde começa o espaço de uma urtiga e onde termina o de uma trapoeraba roxa. E o melhor, influencia até mesmo na forma como elas se interagem, resultando num bonito visual.

O olhar de pescoço erguido não alcança só as folhas e galhos das árvores da rua; acaba-se avistando o topo das fachadas também. Nas casas centenárias, muitas delas mal conservadas, os respectivos anos de construção já não aparecem, embora edifícios como o do número 34, por exemplo, surpreendam o pedestre com adoráveis azulejos azulados emoldurados por camadas onduladas artisticamente trabalhadas em massa branca. Numa das janelas, uma daquelas namoradeiras, que até pouco tempo atrás era o tipo de artesanato mais badalado de Tiradentes, em Minas Gerais, dava o toque especial para deixar o conjunto da obra ainda mais aconchegante e elegante. Mesmo com toda a pompa aérea, é preciso tomar cuidado para não esbarrar com o que está pela frente. De novo, os estudantes!


Paisagismo. Em meio a uma variedade de árvores e flores, mostro aqui uma jaqueira, cuidadosamente mantida pelo porteiro do prédio em frente, e hibiscos-amarelos caídos pelo asfalto.


Panoramas. O edifício no número 34, com o topo semi-coberto por azulejos azulados – herança lusitana. Em seguida, o passeio livre, tomado, apenas, por um casal de estudantes.
Love is in the air, já diria o refrão da música de John Paul Young


O final da rua. Na calçada, mesas e cadeiras da padaria e mercadinho Alvorada, que fica na esquina com a Rua General Canabarro, de onde sai um cheiro maravilhoso de frango rodando na maquineta.

Expulsas por algum carro que precisou estacionar no lugar onde estavam, um grupo de três meninas agora estão sentadas com as pernas esticadas pelo chão no recuo que serve de entrada/saída para a garagem de um edifício. Parecia-me tão incômoda a posição em que estavam que achei graça justamente por estarem tão à vontade, com Coca-Cola despejada em copos de plástico em punho. Dou uma olhada em volta e o número de adolescentes aumenta. Os do Colégio Militar seguem impecáveis com suas boinas e sapatos engraxados, mais bem comportados que os do Pedro II. Alguns deles paravam em frente à padaria na esquina com a Rua General Canabarro só para ver aqueles frangos tostados de cheiro delicioso e inconfundível rodando na maquineta. Quase em frente à jaqueira, um jovem casal se amassava, aos beijos, contra a grade verde que vinha sendo pintada de branco a poucos metros de distância por um porteiro. Fiquei quase uma hora pela Rua Oto de Alencar. Em nenhum momento vi suas bocas desgrudadas.

Peguei minha bicicleta de volta para casa, desviando-me da garotada e de outros ciclistas que vinham na contra-mão. Dei um adeus para uma senhora que tinha me parado anteriormente para conversar sobre a vida, detendo a bicicleta novamente para recolher gentilmente a bandeira tricolora que havía voado da mão de um garoto sardento, com uniforme de colégio que não identifiquei. Pedalei recordando meus tempos de estudante, em especial de uma crônica que li, naquela época, do Affonso Romano de Sant’Anna chamada “Porta de Colégio“. Resgatei o livro na minha prateleira assim que cheguei em casa, quando me surpreendi logo com o primeiro parágrafo, que resumia bem tudo o que eu havia sentido nesse passeio pela Rua Oto de Alencar. Lá, tive uma percepção muito mais humana do que urbana, como é de praxe. “Passando pela porta de um colégio, me veio uma sensação nítida de que aquilo era a porta da própria vida. Banal, direis. Mas a sensação era tocante. Por isto, parei, como se precisasse ver melhor o que via e previa.”

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