Largo Rio de Janeiro, Milão

06 maio 2013 | deixe seu comentário (0)

Mesmo de constituição urbana muito anterior à nossa, a histórica cidade de Milão, na Itália, também homenageia o Rio de Janeiro dando-lhe seu nome a um dos logradouros da comuna


Rio à milanesa. De férias por Milão, deparei-me com o simpático Largo Rio de Janeiro, nos arredores da Cidade Universitária.

por Pedro Paulo Bastos

O que eu menos podia esperar andando pelas ruas da histórica cidade de Milão, na Itália, era um logradouro com o nome de Rio de Janeiro. Veja bem: a comuna, que é capital da Lombardia, conta com prédios incrivelmente antigos em meio a alguns resquícios medievais. Sem falar na estrutura urbana e viária de Milão. Logo, como assim um logradouro – no caso, um largo – receber o nome de uma cidade comparativamente tão recente como o nosso querido Rio? Não cheguei a fazer pesquisas mais profundas, porque isso me tomaria um pouco mais de tempo e algo de complicação. Alguma razão há de existir, afinal, volta e meia também modificamos os nomes de nossas ruas. Além disso, ruas badaladas como o Corso Buenos Aires, corredor de lojas famosas de roupas, acessórios e livrarias, também leva o nome de uma cidade latino-americana. Apenas detalhes curiosos de uma cidade de constituição muito anterior à nossa e que ao mesmo tempo é também muito contemporânea.

O Largo Rio de Janeiro fica nos arredores da Città Studi (Cidade Universitária) que, diferentemente do Rio, se localiza numa área mais integrada à cidade, junto a um conjunto de ruas residenciais razoavelmente próximas do Centro Histórico. Milão conta com praças belíssimas e floridas, especialmente agora na primavera do hemisfério norte, embora o Largo Rio de Janeiro, para o nosso lamento, estava um verdadeiro canteiro de obras. Foi algo excepcional de ter visto com base na minha experiência (e andanças) por Milão nestas duas últimas semanas, em que estive visitando o meu irmão, estudante de mestrado de Design do Politecnico di Milano – ele escreve o Disegno à Milanesa, para quem tiver interesse. A cidade é muito bem estruturada e arrumada, principalmente as praças, muitas rotatórias. Então foi uma infeliz surpresa ver o Largo Rio de Janeiro cheio de tapumes e interdições.


O largo. Observe que na imagem à direita há uma espécie de gradil margeando a calçada, assim como no lado oposto
. É em função das obras no local.


Detalhes. O interfone classudo leva o nome dos proprietários do apartamentos ao invés de números. Ao lado, os “pés” artísticos das varandas.

Tendo em vista este panorama, o Largo Rio de Janeiro é unicamente percorrido por uma via estreita, que beira a simpática Viale Romagna entre as vias Plinio e Andrea del Sarto. O que mais chama a atenção são os edifícios. Não têm um estilo diferente do que é predominante na cidade – eclético, do final do século XIX -, mas são encantadores! Quem vive no Rio tem precisado se acostumar com uma série de lançamentos imobiliários pouco criativos e, por que não, medíocres. Bairros como Ipanema, por exemplo, têm dividido seu espaço urbano com edifícios lindos de meados da década de 50, por exemplo, com outros grotescos de data mais recente baseados em muito espelho e pouca estética. São os “tempos modernos”.

No Largo Rio de Janeiro de Milão, o pedestre depara-se com edifícios fantásticos cheios de detalhes. Na fachada, vêem-se diferentes camadas decorativas preenchidas com uma série de varandinhas que nem sempre estão presentes em todos os pavimentos. Cores neutras, como o pastel, o amarelo e o bege, harmonizam-se junto de arcos e janelonas compridas que dão para a rua. Não há indícios de grades nem portões ocupando o espaço público como medida de segurança. Aqui no Rio vivemos em outro contexto social, é claro, mas não posso deixar de dizer que se não tivéssemos essas portarias seríamos uma cidade bem mais simpática do ponto de vista urbanístico. Um detalhe interessante também são os interfones. Na ausência de porteiros ou zeladores, eles ficam instalados na própria fachada, muitos em estilo classudo, antigão mesmo, na cor dourada. Ao invés do número dos apartamentos, fica em evidência o nome dos proprietários ou das instituições e escritórios que os ocupam.


Interdições. A vista para o largo, que funcionava como uma praça, mas hoje está em interdição e com mato alto
. Ao lado, outro exemplo do estilo dos edifícios na rua. Não há grades e as entradas são monumentais.


Florido. As flores estão na janela dos apartamentos ou no mato ordinário da rua. Dele brotam margaridas ou flores com pelotas que parecem algodão.

Ao longo do estreito caminho que beira o largo, há um gramado de onde brotam margaridas e flores parecidas a bolinhas de algodão. As margaridas em Milão, aliás, são como as nossas ixoras aqui no Rio: surgem em qualquer jardinzinho, em qualquer fiapo de planta. Dá um visual todo romântico à dinâmica da urbe. Não só os jardins é que têm flores – no Largo do Rio de Janeiro, elas aparecem de forma mais tímida em relação à cidade -, mas as janelas também! Parece ser uma prática bastante difundida na Itália a decoração das janelas com vasos de flores de todos os tipos. Os edifícios, mesmo os não tão bem conservados, ganham um ar bem poético. No largo, aquela cor meio ocre dos prédios orquestra-se com a cor viva de rosas e o amarelo de umas florzinhas diminutas.

Fui embora do Largo Rio de Janeiro em êxtase por ver o nome da minha cidade natal estampado nas placas de rua de Milão e nos seus mapas, e principalmente por ser um local bonitinho, não tão fascinante como a vizinhança e outros locais famosos da cidade, embora de arquitetura muito peculiar e apreciável. Minha maior reflexão foi em relação aos nossos valores de conservação e preservação. Esses edifícios, em especial, são tão antigos quanto os outrora elegantes sobrados da Rua do Ouvidor, caindo aos pedaços. No entanto, em Milão eles estão aí firmes e fortes, modernizando-se na medida do possível sem que percam suas características e funções originais. Como já comentei, somos países com contextos socioeconômicos diferentes, não dá para eu ficar lamentando aqui, apesar de acreditar na ideia de que podemos fazer mais pela nossa arquitetura, nossa história, nosso espaço urbano. São os nossos valores, eles, que precisam ser mudados.

Para ver mais referências urbanas cariocas fora do Rio, veja estas outras publicações:

Calle Río de Janeiro: onde o Chile e o Rio se encontram
Um passeio pela “rua” Rio de Janeiro, em Santiago do Chile. Localiza-se num bairro de depósitos têxteis, muros grafitados e alguns cafés. Publicado em 26/06/2012.

A rua é do Rio… mas fica lá em São Paulo!
Nessa postagem, fotografei a Rua Rio de Janeiro, no bairro de Higienópolis, zona de classe média alta da capital paulista. Prédios monumentais, árvores simpáticas e pracinhas com babás uniformizadas. Publicado em 24/05/2011.

O Rio de Janeiro no México
O tema deste post foi a Plaza Río de Janeiro, na Colonia Roma Norte, bairro moderninho da Cidade do México. A praça é rodeada por uma arquitetura que os mexicanos chamam de “porfiriana” (em alusão ao presidente Porfirio Diaz). A praça em si tem um chafariz imponente com uma réplica da estátua de Davi e jardins cheios de cactos. Publicado em 06/08/2010.

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Rua Artidoro da Costa e Rua Padre Francisco Lanna, Vila Isabel

20 fevereiro 2013 | deixe seu comentário (0)

Mais do que ziriguidum, o bairro de Noel tem coisas tão interesses quanto o carnaval para mostrar


Na antiga vila operária. Nos arredores da extinta fábrica de tecidos Confiança, o que restou das residências dos operários na Rua Artidoro da Costa.

por Pedro Paulo Bastos

Essa semana o bairro de Vila Isabel, na zona norte do Rio, ficou mais evidenciado do que de costume pela sua vitória como a melhor escola de samba do carnaval carioca de 2013. Os aplausos ficaram por conta não só pelo belo espetáculo promovido na Marquês de Sapucaí, mas também pela influência que o bairro teve no desenvolvimento da música popular brasileira. Isso tem favorecido e enobrecido o orgulho de ser e/ou morar em Vila Isabel. No entanto, não só de carnaval e MPB vive o bairro de Noel Rosa, ainda que sejam esses seus dois elementos mais célebres. É válido lembrar que um passeio a pé por Vila Isabel resguarda boas surpresas do ponto de vista urbanístico e, consequentemente, histórico. A Vila se assemelha a uma colcha de retalhos, ou seja, é um bairro cheio de descontinuidades paisagísticas. O trecho de uma determinada rua, que tenha uma certa característica aqui, logo na próxima quadra já recebe outro visual e com uma funcionalidade totalmente diferente da vizinha.

“ ’Peguei o bonde’, ‘passei’ no Boulevard
E a ‘Confiança’ é doce recordar
‘Os três apitos’ cantados por Noel
Ainda ecoam pela Vila Isabel”

Unidos de Vila Isabel, samba-enredo de 1994

Foi com base nessa identificação de “descontinuidades” que eu dediquei a manhã do sábado, 16 de fevereiro, a flanar pelos arredores da Companhia de Fiação e Tecidos Confiança Industrial, onde já há muitos anos funciona um hipermercado nos interiores desta antiga fábrica. O edifício, que segue uma tipologia industrial nos moldes dos da Inglaterra, leva tijolos de alvenaria aparente de pedras e é rodeado pela antiga vila operária que ainda permanece nas ruas Piza e Almeida e Artidoro da Costa. As casas padronizadas, entretanto, apesar do caráter histórico e da sua representação como um marco no desenvolvimento urbano do Rio, estão visivelmente em más condições. Talvez nesse sentido o espírito da hierarquia industrial ainda continue por lá: a fábrica Confiança, luxuosa e bonita graças aos cuidados de um grupo empresarial, e as vilas operárias nas adjacências, que mesmo depois de décadas seguem como moradias populares. Ontem, para os operários, e hoje para o que se chama de classe média baixa.


No entorno da fábrica. A extinta fábrica Confiança, imortalizada por Noel Rosa em “Três apitos”, é hoje filial de um hipermercado. Em seguida, o panorama das casas operárias na Rua Artidoro da Costa. Ao fundo, a Rua Souza Franco
.


Detalhes. A fachada das casas segue a regra com a cor amarela, enquanto portas e janelas luzem na cor verde. Ao lado, uma das vilas que restaram.

A Rua Artidoro da Costa é onde as casas operárias se concentram mais, enfurnadas em vilas estreitas ou acessadas diretamente da rua. O estado quase precário delas fez com que a Prefeitura interviesse recentemente na recuperação de suas fachadas, padronizando-as nas cores amarela e verde. Mesmo assim, a importância cultural dali não é explorada, o que se reflete igualmente na má conservação da própria Rua Artidoro da Costa. A ausência de arborização permite que os raios solares do verão carioca incidam sobre o asfalto de maneira horripilantemente insuportável. Se antigamente era da chaminé da Confiança de onde saía a fumaça, hoje em dia a sensação é a de que a fumaça brotará a qualquer momento daquela massa de betume. Nas vilas, em geral revestidas de um passeio que separa os dois lados de casas, é preenchido não só por piscinas de plástico, mas também por bicicletas, velocípedes, entre outros brinquedos.

Já na quadra entre a Rua Piza e Almeida e a Rua Visconde de Abaeté, o que restou da antiga vila operária é constituído por um único edifício loteado de janelas e portas, que mais parecem estalagens do que residências. Apesar da pouca movimentação nas sacadas e no abrir-e-fechar das portas, algumas janelas estavam ocupadas por donas-de-casa, que papeavam animadamente com transeuntes. Cena poética, inspiração para sambas das antigas. Enquanto um par de sapatos velhos pendia de um dos fios dos diversos postes da rua – na falta de árvores, os postes cinzentos as substituem -, um novo emaranhado de fios surge das casas amarelas. Esse cenário torna o espaço aéreo da Rua Artidoro da Costa visivelmente caótico, onde a fiação não segue padrão algum de direção: ora na vertical, ora na horizontal, às vezes em ziguezague. Há quem diga que é daí onde surgem os famosos gatos. Mas a verdade mesmo é que essa é uma confusão de elementos dispensáveis que ofuscam um recanto que deveria ter uma melhor preservação por parte do IPHAN, por exemplo.


Rua Artidoro da Costa. Mais do extenso edifício também pertencente à antiga vila operária, com fiagem desordenada, e os outros estilos de casas que também marcam presença na rua
.


Virando a esquina. As imagens acima são da bifurcação entre as ruas Artidoro da Costa, Visconde de Abaeté e Padre Francisco Lanna, à direita, que já muda totalmente o panorama anterior.

A Rua Artidoro da Costa termina na Rua Visconde de Abaeté, que é supostamente uma rua no estilo sem saída (visualize o mapa aqui para maiores orientações). Os pedestres pouco observadores acreditam que esse trecho cul-de-sac seja de fato parte da Visconde de Abaeté, assim como aqueles que não costumam ler os mapas da cidade – provavelmente a grande maioria. Não faz mal! O que poucos sabem é que esse trecho não leva mais o nome do tal visconde, mas sim o de Padre Francisco Lanna. E é justamente no encontro destas duas ruas com a Artidoro da Costa onde podemos constatar uma das descontinuidades de que eu havia comentado no início desta expedição. Diferente da Rua Artidoro da Costa, que concentra um nível social um pouco mais baixo, a Rua Padre Francisco Lanna muda por completo esse panorama: vizinhança arborizada, os prédios notadamente de classe média, jardinagem e uma pracinha bastante acolhedora. Quem está por dentro do ramo imobiliário afirmaria que esse recanto de Vila Isabel é considerado a mina de ouro do bairro pelo seu clima tranquilo de família. A decadência urbana dos anos 80 e 90 afetou o aspecto estético de muitos lugares da Vila, embora a Padre Francisco Lanna tenha saído vitoriosa por ser uma exceção.

A praça de lá é diminuta mas suficientemente espaçosa para abrigar os aparatos infantis típicos das pracinhas. Ao seu redor, uma coleção de carros estacionados. Diante de uma rua pequena como a Padre Francisco Lanna, essa quantidade absurda de automóveis é absurda e quase claustrofóbica para o pedestre. Os carrinhos de bebê precisam fazer mágica com suas rodinhas para se desvencilharem das passagens estreitas que lhes restam para acessar o centro da praça ou a conexão entre a via e a calçada. O paredão de edifícios oferece sombra junto às suntuosas amendoeiras. Um eventual cheirinho de comida surge de alguma janela e alcança às narinas. Na ausência de tráfego, não se respira o monóxido de carbono usual dos logradouros mais badalados. É um pedaço muito, mas muito calminho. O único ruído que se escuta, e bem ao longe, são dos ônibus passando pela Avenida Engenheiro Otacílio Negrão de Lima, que fica nos fundos.


A ruazinha da pracinha. A Rua Padre Francisco Lanna é um recanto bastante simpático no final da Rua Visconde de Abaeté. Dispõe de bons edifícios e uma pracinha mais voltada para as crianças
.


Grades. Uma das maiores características da Rua Padre Francisco Lanna é a quantidade de grades: proteção medonha em tempos modernos.


Corredor. O corredor da Rua Padre Francisco Lanna é formado por grades, jardins e acesso para os outros edifícios. Chama a atenção por ser uma passagem pública, embora não tenha saída.

Os moradores dali são silenciosos, o que, à primeira vista, faz parecer que não dão às caras de forma alguma. Não obstante, cinco segundos de observação atenta serviram para constatar que o porteiro estava logo ali, varrendo o que lhe convinha. No quarto andar de um edifício, a moradora estava usufruindo da sua rede de tecido branco na compacta varanda do seu apartamento, com as franjas longas da rede capazes de atiçar a qualquer cachorrinho brincalhão. O jardineiro cuidava das ixoras no trecho ainda mais escondido da Rua Padre Francisco Lanna, que mais parece um condomínio fechado do que rua aberta, enquanto o avô jogava bola com o neto na extensão da garagem do prédio onde vivem. Talvez esses personagens não tenham ficado tão expostos ao meu campo visual pela quantidade de grades que existem na Rua Padre Francisco Lanna. Não acho que isso seja particular da rua; infelizmente o país todo ainda precisa desses mecanismos medonhos de proteção.

Uns dias antes de decidir que visitaria a região para o As Ruas do Rio, descobri em leituras de pesquisa que a canção “Três apitos”, de Noel Rosa, fora inspirada na Fábrica Confiança. Preciso nem dizer que o fundo musical para esse passeio foi bem mais significativo do que imaginava. Pode até ser que essa poesia toda não tenha se retratado no texto pela decepção que tive em me deparar com ruas tão mal cuidadas no entorno da fábrica. A grande verdade é que só o encontro ao vivo com o local, guiado pela referência musical que lhes dei, é que proporciona aquele modo ativado de imaginação e de resgate de um tempo passa longe da minha época. O que tiro de conclusão dessa expedição é que as ruas são mais culturais do que podemos imaginar. Um olhar diferenciado permite esse acréscimo de valor cultural, e você não paga nenhum centavinho para ter acesso a isso. Algo que destoa bastante do turismo carioca contemporâneo, cada vez mais mercantilizado e midiático. Parabéns à Vila – é o que me resta a dizer.

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Rua Leite Leal e Rua Sebastião de Lacerda, Laranjeiras

07 fevereiro 2013 | deixe seu comentário (0)

Nos fundos da Rua das Laranjeiras, o charme de uma vizinhança cheia de detalhes para observar


Casas Casadas. Monumento arquitetônico neoclássico em Laranjeiras funcionava como residência multifamiliar; hoje é sede da Riofilme.

por Pedro Paulo Bastos

Por uma fração de segundos tive a impressão de estar em outro lugar que não fosse o Rio de Janeiro. Era o cruzamento da Rua das Laranjeiras com a Rua Leite Leal, onde estão localizadas as Casas Casadas, monumento arquitetônico neoclássico no bairro de Laranjeiras. A sua lateral se assemelha àqueles modelos de residências anglo-saxônicas, que se vêem muito em algumas ruas de Nova York, onde o acesso a cada apartamento é feito através de uma escada – às vezes longa, às vezes curta – que dá diretamente para a rua. Assim como esses modelos residenciais lá dos states, as Casas Casadas também foram originalmente um empreendimento imobiliário de estilo multifamiliar. Por sinal, elas são algo totalmente diferente do que comumente se criou na sua época, 1880, e do que restou nos dias de hoje, 2013. Pelo menos para mim, a ideia de residência multifamiliar sempre beira o imaginário do cortiço de Aluísio de Azevedo, ou então das casas geminadas dos bairros que tinham um caráter mais operário. Não foi à toa que me senti um estrangeiro ao deparar-me com tamanha rara beldade.
 
Quem gosta de imprevisibilidade no espaço urbano deveria fazer uma visita mais apurada por Laranjeiras, um dos mais antigos e tradicionais lugares da cidade do Rio. Mesmo inclusa no rol de bairros nobres – notoriamente os que estão na zona sul -, Laranjeiras surpreende por sua versatilidade, que pode fugir em muito ao estereótipo de “bairro nobre com comércio sofisticado”. A convivência de elementos opostos é bastante acentuada. Veja só: as Casas Casadas ali, cheias de pompa, nem um pouco medíocres, estavam acompanhadas de sacos de lixo abandonados pelas calçadas, à espera de alguém que as recolhesse. Moscas pousam e voam de acordo com os seus instintos. Do outro lado, uma oficina mecânica convive com um prédio de classe média. À primeira vista, poderia ser uma reles oficina mecânica, dessas que imaginamos mal-cheirosa e encardida, o que já bastaria para contrastar com a ideia de “prédio de classe média”. Todavia, um detalhe no topo da sua fachada chama a atenção para sinalizar de que não se trata de um imóvel ordinário: a nomenclatura kühn. O letreiro está acoplado ao prédio, é inerente à sua construção. Consequentemente, outros detalhes acabam ficando em evidência, como a simetria e inclusão das figuras geométricas. É uma fachada que tem estética. Seria um imóvel art déco? Será que houve uma mudança de funcionalidade ou ali já era predestinado para ser uma oficina mecânica? Divago em meio a tantas referências.


Adentrando. O gradeado das Casas Casadas, que, além das escadas, são seguidas por um jardim até o portão de entrada. Ao lado, a fachada da oficina mecânica com nomenclatura
kühn.


Os porões. Duas casas, frente à frente, estados de conservação opostos, ambas com porões.

A sucessão de contrastes prossegue ao longo da pequenina Rua Leite Leal. Uma antiga residência, aparentemente espaçosa e desocupada, mais vertical do que plana, com tijolos à mostra, encara uma outra igualmente contemporânea à sua época. Ela tem seus detalhes preservados e ainda muito bem caracterizados, a cor pastel já um pouco escurecida, mas com dependências nitidamente habitadas, cheias de vida. Um mesmo imóvel deste porte no Centro, berço das construções aqui no Rio, provavelmente já estaria fadado ao desmoronamento. Ambas têm porões. Seja no imóvel mais conservado ou no outro que deveria ganhar uma remodelagem, é incrível como as janelas de porões não perdem o seu caráter obscuro. Na do número 108, parecem dois olhos mal-assombrados prestes a despejar – ou te sugar para dentro de – todas as coisas pavorosas do universo. Se esse imóvel estivesse colado à pedreira que há no final da rua, onde está o condomínio Pomar das Laranjeiras, os elementos se complementariam para formar o cenário ideal de um filme de terror, desses com espíritos rebeldes, candelabros e uivos de lobos. Desculpem-me; dei asas à minha imaginação.
 
A Rua Leite Leal termina onde a tal da pedreira se encontra, e esse trecho final é protegido por uma cancela que, apesar da sua natureza intimidatória, reafirma, com uma singela placa, o direito da livre circulação de pessoas e automóveis pela rua. Ou seja, não é porque conseguiram a autorização da prefeitura para instalar uma cancela que aquele espaço agora é privatizado, regido por leis que não as públicas. Atitude espirituosa e pertinente, digna de cópia para outras ruas fechadas de outros bairros, que insistem no uso da arrogância para limitar o pedestre. É justamente ali, ao lado desta cancela, onde se inicia a Rua Sebastião de Lacerda, a rua-irmã à Leite Leal, que vai desembocar lá na Rua das Laranjeiras novamente. O casario amarelo, na esquina formada pelas duas ruas, chama a atenção pela sua majestuosidade - lá funciona a ONG Sociedade Brasileira para a Solidariedade (SBS) -, embora a grande verdade mesmo é que foi outra coisa que ofuscou a sua beleza tão logo eu adentrei a Rua Sebastião de Lacerda.


Flores. Gosto muito de flores e fiquei procurando por elas ao longo da Rua Leite Leal, como essa flor amarela e a orquídea branca
.


O trecho “cancelado”. A placa avisa que, apesar da cancela, o logradouro é público e, portanto, a circulação é livre. A Rua Leite Leal termina onde há a pedreira.


A rua-irmã. O casario amarelo, onde funciona a ONG Sociedade Brasileira para a Solidariedade, determina o início da Rua Sebastião de Lacerda, que, diferentemente da Leite Leal, tem vista para o Cristo.

Quanto mais rico seja um bairro, mais desenvolvido e organizado ele será, concordam? Entretanto, no Brasil como um todo, ainda sofremos de um mal bastante ultrapassado, peculiar tanto a bairros “ricos” como a  bairros “pobres”: a fiação aérea. É impressionante como na Rua Sebastião de Lacerda o emaranhado de fios dos postes resulta em algo tenebrosamente feio. O pobre do Cristo Redentor, com vista privilegiada para Laranjeiras, aparece aos nossos olhos de maneira sutilmente achavascada. Os fios surgem de geradores e, como que em ziguezague, vão cortando o espaço aéreo da rua. Uns pairam solitários pelas fachadas das casas, enquanto outros atuam em conjunto. Uns rígidos, outros mais frouxos. Infelizmente ainda não se tem previsão alguma de quando a fiação da cidade será toda subterrânea.

A Rua Sebastião de Lacerda é majoritariamente formada por casas, só que menos antigas do que as encontradas na Rua Leite Leal. Os imóveis ali não têm tanta afeição histórica quanto os do logradouro vizinho, o que não os torna desmerecedores de apreciação. No primeiro trecho, até um pouquinho antes da curva, elas seguem um padrão mais verticalizado, onde o térreo não está no mesmo nível que a rua. Já a partir do número 45, as residências são mais simples, estão junto à via, possuem apenas um pavimento e contam com portas que dão de cara para a área pública. Sim, não há muros nem cercas! As prevenções individuais se sustentam no gradeamento das janelas e portarias. As casinhas levam cores vibrantes e são margeadas por calçadas mais estreitinhas, recriando um panorama parecido ao da Rua Duque Estrada, na Gávea, que também tem um desenho sinuoso e uma sucessão de casas geminadas.


A rua dos fios. A maior concentração da fiarada está em frente a essa vila. Em seguida, o estilo das residências no trecho inicial da Sebastião de Lacerda.


Pitoresco. Os azulejos coloridos dão maior poesia à numeração das casas na via, que variam de estilos, como essas, próximas à curva, bastante integradas com o nível da rua.


Já nas Laranjeiras. Outros modelos residenciais com paisagismo sofisticado que deixam a dúvida se são apartamentos ou uma única casa, logo em frente aos grafites do Largo Maria Portugal.

Mesmo dispondo de uma fiação horripilante, a Rua Sebastião de Lacerda consegue ser discretamente poética. A vista para o Cristo conta muito, é claro – em um dos seus melhores ângulos, com os braços abertos diretamente para o bairro -, mas foi na numeração das casas onde encontrei a descontração que a rua precisava: os azulejos com bordas coloridas. Em uma parede encardida da rua, esse modelo de numeração era o elemento ideal para tornar a própria falta de pintura da parede em algo bonito. O que dizer então dos grafites? Estão por grande parte dos muros livres, com dizeres criativos e cartuns caprichados. O Largo Maria Portugal, a praça que conecta a Sebastião de Lacerda com a Rua das Laranjeiras, também é repleto de intervenções artísticas interessantes. Na verdade, ambas as ruas são repletas de intervenções artísticas, de todos os tipos e épocas, independente do trecho que se esteja percorrendo. Resumo da ópera: são ruas cheias de informação.

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O charme (e a funcionalidade) das placas de rua

20 dezembro 2012 | 2 comentários

A sinalização de ruas do município do Rio pode ser considerada uma das mais emblemáticas do país. Mas por que algumas ruas têm esse luxo e outras não?

por Pedro Paulo Bastos

Certa vez estremeci quando adentrei o quarto de um amigo. Num misto de colagens em uma das paredes, luzia o modelo oficial da placa da Avenida Lineu de Paula Machado. Segundo ele, o rio que margeia tal avenida havia alagado em um dia chuvoso e o poste que sustentava a placa caiu, desprendendo a parte azulada em que constam as informações de CEP, numeração, bairro e o significado do nome da via. Por pouco que a correnteza não lhe deu um sumiço. Fiquei louco para ter uma também, e desde esse dia que venho torcendo por novas catástrofes naturais, acidentes automotivos, et cetera… Brincando! Não deu outra. Semana passada vinha caminhando pela Rua Almirante Cochrane quando me deparo com um poste semidestroçado, com as placas – azuladas – caídas. Com medo de me taxarem de vândalo ao cem por cento, consultei uma amiga sobre a ideia, que me incentivou a levá-la. Afinal, a placa estava suja, abandonada, entregue ao Deus-dará. A Comlurb iria passar ali e a jogaria no lixo. É minha, então.

Sou um grande apaixonado pelas placas de ruas. Não é à toa que a placa é símbolo deste blog! Mas eu gosto de vê-las nas ruas, os quatro postezinhos em cada esquina de um cruzamento. Gosto até mais das antigas placas-pirulito, embora também seja aficionado pelo modelo atual da Plamarc. Tem ares mais contemporâneos, retilíneos. Nesse contexto em que os nossos gestores têm de copiar para o Rio todas as referências urbanísticas e artísticas lá de fora, as nossas placas de sinalização de logradouros são um exemplo brilhante de beleza, informação e visibilidade. Não é preciso ir para destinos muito remotos para fazer a comparação. Em Niterói, logo ali do outro lado da Guanabara, as placas não têm o mesmo charme; parecem feitas de material vagabundo. Nossas placas são mais sofisticadas. O triste é que nem todas as ruas têm o privilégio de hospedá-las.

Nas minhas excursões pelo Rio de Janeiro, costumo notar cruzamentos e esquinas sem nenhuma referência identificatória. Num breve cruzamento de dados, percebo que quanto mais rico (ou turístico) for o bairro, maior é o número de placas instaladas. Não há um cruzamento de Copacabana ou do Leblon em que não haja um poste deste tipo. Agora embrenhe-se em ruas de Santa Teresa, do Cachambi, de Vila Valqueire… A incidência será bem menor. A lógica é um pouco contrariada, afinal, se vocês repararem bem num mapa ou tiverem experiência de locomoção, irão perceber que são justamente os bairros formados por rede de arruamento mais complexo e confuso os que precisam de identificação grande, visível e iluminada. Se o critério de prioridade para instalação das placas fosse esse, na teoria, Copacabana e Leblon nem precisariam delas, visto que seu jogo de ruas são de quadras perfeitas.

Eu costumava mapear ruas sem postes pelos bairros em que mais transito e enviava os pedidos através da Ouvidoria da Prefeitura, que funcionava melhor na gestão do ex-prefeito César Maia. Hoje em dia, a seção da Ouvidoria foi extinta no site da prefeitura, sobrando como opção  o 1746, que funciona por telefone ou por aplicativo para smartphones. Em 2008, quando a Plamarc assumiu a prestação deste serviço, entrou em contato comigo um secretário da prefeitura, por telefone. Seu nome não lembro, embora ele trabalhasse junto a esses assuntos. É possível que eu tenha perturbado tanto com mais e mais números de protocolo criados que, eles, finalmente, entraram em contato comigo. Foi-me explicado de que a licitação envolvia a exploração de apenas alguns cruzamentos. Se alguma esquina não contava com este tipo de serviço, não foi por “esquecimento” da empresa, mas sim porque ali não seria uma área abarcada.

As placas envolvem propagandas. É muito mais fácil lucrar com propaganda em postes nas ruas menos movimentadas de Ipanema do que nas de Campo Grande, por exemplo, onde a densidade populacional é muito menor. Há lógica capitalista nesse enredo, mas… é justo isso? Estamos falando de um serviço de interesse público! Mesmo que o critério das propagandas comentado seja apenas um palpite (ninguém me confirmou isso, que fique claro), não considero justo que o acordo para a prestação deste serviço se restrinja a poucas ruas de poucos bairros privilegiados pela economia. Por que uns cruzamentos pouco movimentados de regiões nobres ganham postes enquanto cruzamentos de grande porte nas zonas norte e oeste têm de se contentar com placas de parede, pouco visíveis?

O modelo de placa de ruas da Plamarc para o município do Rio é bonito, tem apelo estético e, sem dúvida alguma, valoriza uma rua. Tomo como caso o cruzamento da Rua Maria Quitéria com a Rua Barão de Jaguaripe, em Ipanema: os seus postes iluminados-azulados parecem flutuar na escuridão. É lindo! Nos bairros de desenhos mais confusos, dezenas de pessoas e prestadores de serviço tendem a se perder num emaranhado de ruas mal sinalizadas que, para piorar, à noite, nem sempre são bem iluminadas. Contudo, é bom lembrar que as placas não são só beleza e propaganda. Elas têm a funcionalidade primordial de orientar uma localização geográfica. Não será fácil, mas se eu fosse você, exigiria a da sua rua. Cidade desenvolvida também é sinônimo de cidade sinalizada. Integralmente.

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Rua Uçá, Jardim Guanabara

29 outubro 2012 | 2 comentários

Uma volta pela rua mais emblemática do Jardim Guanabara, na Ilha do Governador, zona norte do Rio. Acompanhem-me!


O charmoso chafariz da Praça Jerusalém, que fica em frente à Praia da Bica, com o corredor de palmeiras da Rua Uçá, ao fundo.

por Pedro Paulo Bastos

Rua Uçá

Fiquei um bom tempo parado sobre a mureta da Praia da Bica observando a Baía de Guanabara por um ângulo pouco divulgado em jornais e cartões postais – o da Ilha do Governador, na zona norte do Rio. A areia pouco limpa não intimidava quem queria se exercitar na beira da baía. Nem mesmo a água escurecida era motivo de freio àqueles que se propunham a mergulhar de um velho deque. O sol estava incidindo com tanta força em plena primavera que cheguei a sentir inveja da moça indígena do chafariz da Praça Jerusalém, que fica ao lado da praia, sendo privilegiada com consecutivos jatos de água sobre o rosto de bronze. O monumento estava rodeado por um grupo de estudantes de fotografia, que enquadravam-na ora por admiração, ora – acho que também – por sede. A sintonia do chafariz com o seu cenário de fundo, um corredor extenso de palmeiras, promove um visual muito bonito e bastante tropical, típico do nosso Brasil.

O tal corredor de palmeiras em questão é a Rua Uçá, situada no bairro do Jardim Guanabara, dentro da Ilha. Para início de conversa, a Rua Uçá é uma rua de identidade marcante. Além das altas palmeiras que margeiam suas calçadas, é uma rua que faz jus à letra que lhe inicia o nome: ela tem formato em U. É lógico que eu já havia conferido previamente o seu desenho no mapa, assim como já tinha percebido o trabalho caprichado dos urbanistas ao montar um gostoso jogo sinuoso de ruas entre a Estrada do Galeão e a praia. Quem está perdido por ali, provavelmente ficaria ainda mais ao dar-se conta de que o início e o término da Rua Uçá são praticamente os mesmos, separados apenas por uma quadra de distância, às margens da Praça Jerusalém, na Praia da Bica.


O panorama da Praia da Bica na altura da Rua Uçá, que aparece já na imagem seguinte.


A Rua Uçá dispõe de edificações de no máximo três pavimentos, tanto as mais antigas quanto as novatas. Além das palmeiras, é uma rua bastante ajardinada.


A esquina da Rua Uçá com a Rua Engenheiro Rousaro Zambrano.


O trecho da Rua Uçá onde aparecem algumas escolas, tanto de nível fundamental como médio, e algumas residências não tão bem conservadas em relação ao padrão da rua.

Adentrando a Rua Uçá, ressurgiram à memória diferentes sensações e recordações de outros lugares. Acredito que pelo fato do gabarito da região não ultrapassar o de três pavimentos, lembrei logo da minha época de criança na Barra da Tijuca e no Recreio dos Bandeirantes dos anos 90, ainda pouco badalados, e com aquele climinha de cidade pequena praiana. Por outro lado, esse mesmo clima de cidade praiana me fez lembrar os arredores da Prainha, em Arraial do Cabo. E as palmeiras? Inevitavelmente lembrei da Rua Paissandu, no Flamengo, que é também agraciada por altas palmeiras. Não que a Paissandu seja mais importante que a Uçá e tenha de servir de referência e/ou ser endeusada como pioneira; porém, como está numa região mais central e turística, acaba-se criando esse imaginário de que a Rua Paissandu serviu de inspiração para as outras ruas “empalmeiradas”. E, claro, não posso esquecer de citar Paquetá. Afinal, as duas são ilhas, né?

Já no início da minha expedição pela Rua Uçá o detalhe de que mais gostei foi a tranquilidade dali. Tem a coisa toda do clima de cidade pequena praiana como já comentei, embora haja também um fluxo baixíssimo de automóveis pela sua via. Nas áreas mais centrais do Rio, essa é uma dinâmica impensável. Foi um privilégio poder circular pela Rua Uçá sem muita preocupação com o trânsito. Em alguns momentos, eu caminhava até mesmo por onde os carros deveriam estar passando, no meio da via. Emperrava ali, levantava a cabeça, e ficava alguns segundos vislumbrando o penteado das palmeiras láááá em cima, sem prédio algum para competir com elas em altura. É tudo tão tranquilo que, além de ficar parado lá esquecendo da vida, ainda dava tempo para mentalizar as diferenças entre coqueiros e palmeiras (pensamentos aleatórios, confesso), mas paralelamente atento a qualquer outro ruído que não fosse o dos sons de dentro dos apartamentos ou das aves.


Outro panorama da Rua Uçá, com casas, prédios e o início da curvinha, já prestes a desdobrar-se.


O imóvel onde funciona uma casa de festas e a esquina com a Rua General Bandeira de Melo.


Nos arredores da Praça do Grego, onde há uma lanchonete-ambulante, está também uma simpática casa com fachada em moisaco de azulejos.


Algumas das palmeiras da Rua Uçá foram, infelizmente, vítimas do vandalismo, como essas na esquina com a Rua Engenheiro Rousaro Zambrano, já na outra parte da rua. Ao lado, os fundos da Capela Imperial e o início da Praia da Bica.

Outro aspecto curioso em relação à arquitetura da Rua Uçá é que, em geral, os prédios transmitem uma sensação de isolamento. Cada qual dentro do seu próprio apartamento, enclausurado, não se vê nada. Como lá eles não são altos e muitos na modalidade de um por andar, existe uma integração do apartamento com a rua. Escuta-se facilmente as conversas e sons vindos de dentro das residências. Os muros baixos também favorecem essa conexão. Já as casas, que aparecem mais perto do encontro com as ruas Manoel Magioli e General Bandeira de Melo, são amplas e pouco verticalizadas. Variam em formas, estilos e funções. O número 392, por exemplo, onde funciona a casa de festas Caza Blanca, conta com um chafariz pintado de branco na sua área externa cercada por um desenho elegante de grades. Já em frente à Praça do Grego, uma residência se destaca pela sua fachada sofisticada: um mosaico de azulejos criando figuras geométricas de peixes em tons rosados e roxeados.

Essa curva em U da Rua Uçá é incrível porque exibe um panorama ao pedestre realmente de exploração. É aquela sensação de não saber o que vem pela frente, coisa que as ruas retilíneas não conseguem proporcionar. É claro que o enfileiramento das palmeiras também ajuda muito nessa admiração. E quando menos esperava, já estava de volta à Praia da Bica – desta vez, nos fundos da Capela Imperial. Fiquei bastante satisfeito de ter conhecido melhor essa parte do Rio, especialmente de ter ratificado, com os meus próprios olhos, o que os meus amigos da Ilha do Governador diziam sobre o bairro, sempre muito orgulhosos. O engraçado é que o argumento-padrão que eles vinham me dando para confirmar as maravilhas do Jardim Guanabara era o de que ele faz parte, junto da Gávea e do Leblon, do grupo dos três bairros com maior IDH da cidade. Na boa, se eu fosse eles, não ficaria mais na sombra e na fama dos bairros chiques da cidade para atestar o quão agradável é o Jardim Guanabara. Simplesmente apontaria suas particularidades e qualidades, que já são suficientemente consistentes para honrar a merecida posição que lhe cabe no ranking.

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