Bairro de Fátima

Um passeio pela Praça Presidente Aguirre Cerda e a Avenida Nossa Senhora de Fátima, a principal do bairro A Praça Presidente Aguirre Cerda vista do alto de uma das escadarias que a circundam, no Bairro de Fátima: oásis em meio ao caos do Centro. por Pedro Paulo Bastos Uma praça de desenho circular, com trânsito […]

Um passeio pela Praça Presidente Aguirre Cerda e a Avenida Nossa Senhora de Fátima, a principal do bairro


A Praça Presidente Aguirre Cerda vista do alto de uma das escadarias que a circundam, no Bairro de Fátima: oásis em meio ao caos do Centro.

por Pedro Paulo Bastos


Uma praça de desenho circular, com trânsito no sentido rotatório, rodeada de prédios residenciais antigos bem conservados. Duas pequenas ruelas a circundam, uma de cada lado, finalizadas por duas escadarias. Arborização abundante, aconchego como consequência. O panorama poderia se encaixar perfeitamente em algum cantinho bucólico de Laranjeiras ou do Bairro Peixoto, mas não. A Praça Presidente Aguirre Cerda é o eixo central do simpático Bairro de Fátima, que, para mau conhecedor desse nosso Rio de Janeiro, soaria quase como uma piada ao descobrir que a região em questão está no Centro da cidade, colada à Lapa, mais conhecida pelo seu caótico movimento 24 horas por dia. Aliás, não é só essa questão. Lá pela Rua Riachuelo, por onde se inicia o Bairro de Fátima, além do caos todo que lhe é peculiar, até pouco tempo esse ambiente tinha uma certa promiscuidade, que tem se dissipado ao longo desses últimos anos com a revitalização da Lapa. A cultura do lugar feio, no entanto, ainda paira um pouco pelo ar devido ao aspecto de abandono impregnado aos sobrados do Centro, além de um ou outro mendigo que circula por essas bandas.


Uma das ruelas no entorno da praça, que se originam no alto de Santa Teresa, conectando-se ao Bairro de Fátima por uma escadaria.

Logo, ter essa imagem na mente, que é um estereótipo da parte “velha” do Centro, e se deparar com um bairro tão aprazível como o de Fátima a poucas quadras da muvuca, é uma surpresa agradável. Há muitos anos já tinha ficado surpreendido com a qualidade de vida de lá quando fui estudar no apartamento de uma amiga na Avenida das Graças, uma pequena ruazinha transversal à Avenida Nossa Senhora de Fátima. O prédio excelente; a casa, idem, bem como a vizinhança. Dessa vez, com mais tempo disponível para explorar o local, fiquei bastante contente em constatar como o Rio de Janeiro ainda consegue conservar bairros com jeito de bairros-comunidade, desconsiderando o sentido pejorativo da palavra “comunidade” incorporou. Aquele clima familiar, em que as pessoas se conhecem e se cumprimentam, em que a padaria (e o seu dono) é a mesma há décadas… Enfim, o tipo de lugar em que a praça é a área de congregação.


Apesar do Bairro de Fátima ter uma certa inspiração lusitana, o nome da sua praça principal é em homenagem a Pedro Aguirre Cerda, ex-presidente do Chile na primeira metade do século XX.


Ruas agradáveis para se caminhar com os cãos, embora em todas as árvores haja uma advertência quanto aos bons modos para xixi e cocô.

Se por um lado a gente critica à beça a prefeitura, por qualquer motivo, por outro, pouco elogiamos algumas ações efetivas da parte dela, que têm sido motivo de sucesso. A academia da terceira idade, instalada de norte a sul em um monte de praças, com seus equipamentos de ginástica verdinhos, é um exemplo. Na pracinha do Bairro de Fátima, a Presidente Aguirre Cerda, a academia pareceu ser muito popular e bem utilizada por seus frequentadores, a grande maioria formada por idosos, que compartilham espaço com as crianças que (salve, salve!) têm a oportunidade de se divertirem em um playground bem mantido e aparentemente limpo. A luz do sol incindindo sobre as folhas das árvores emite um verde quase fluorescente, o que permite que muita gente fique ali parada, sentada, vendo o tempo passar, sem muitas preocupações.


A linha C-10, que circula entre o Bairro de Fátima e a Central do Brasil, é a única linha a percorrer a Avenida Nossa Senhora de Fátima.


Churrasco a céu aberto em um dos botequins do bairro. Ao lado, a esquina da Avenida Nossa Senhora de Fátima com a Avenida das Graças.

As escadarias, localizadas nas extremidades de ruelas transversais à praça, como a Rua Guilherme Marconi, levam o pedestre a um bairro também tradicionalíssimo do Rio de Janeiro: Santa Teresa. O alcance à Rua Cardeal Dom Sebastião Leme, ou à parte mais alta da Rua Monte Alegre, é realizado sem muitos esforços por essas escadas, constituídas de poucos degraus em comparação à Escadaria Selarón, na Lapa, que requer certo fôlego, apesar dos azulejos coloridos. Santa Teresa, com seu caráter alternativo-artístico-gringo, colabora com a multimiscignenação de pedestres pela Praça Presidente Aguirre Cerda e ao longo da Avenida Nossa Senhora de Fátima. Por lá, veem-se circulando pessoas com aspecto mais arrumadinho-moderninho em meio a uma galera mais riponga, enquanto senhorinhas passeiam com seus carrinhos de feira entregando esmolas a pedintes, largados e sujos pelas esquinas. Um caucasiano, branco como o leite e louro como o sol, conversa em portunhol com um hermano sul-americano, provavelmente artesão, de traços indígenas com um emblemático corte de cabelo no estilo mullet. O pai ensina ao filho, de no máximo sete anos, a atravessar a rua da maneira correta, antes que a linha C-10 avançasse. No botequim mais próximo, o senhor de idade (short, camiseta e pochete cruzada) celebra a vida aos berros. O copo é de geleia, e claro, quase transbordando de cerveja, e sem o colarinho.


Um detalhe curioso do Bairro de Fátima é que, apesar dos moradores contarem o comércio multivariado da Rua Riachuelo, ele tem seu comércio próprio ao longo da Avenida Nossa Senhora de Fátima. Agências bancárias, lavanderias, salões de beleza e de costura, padaria, clínicas médicas, lanchonetes, uma filial do Mundo Verde, pet shop. Avistei uma lan house também. Os botequins são quase uma regra por lá. A familiaridade é tanta com eles que até churrasco a céu aberto um deles promoveu naquela manhã de sábado. Aquele cheiro de carvão misturado ao tempero das carnes estava irresistível. O falatório aumentava a medida que novas linguiças saim do espeto. Falando em comida, no entorno da Praça Presidente Aguirre Cerda, por exemplo, há restaurantes simples, que servem comida caseira – comumente os que oferecem as melhores comidas! Completando o conjunto, uma escola (a Escola Municipal Guatemala), e o que não podia faltar, uma capela! É ou não um bairro completo, que atende bem as necessidades cotidianas?


O encontro da Avenida Nossa Senhora de Fátima com a Rua Riachuelo, uma das principais vias do Centro e da Lapa, que agora é bairro oficial.

No entanto, a iluminação é escura, quase sombria, em função de tantas árvores altas que ficam juntinhas, como irmãs. Os edifícios ao longo da Avenida Nossa Senhora de Fátima lembram os das ruas transversais de Copacabana. Antigos, com um certo ar de imponência, embora levemente decadentes, o que não os desvaloriza diante da procura animal por imóveis bem localizados na cidade. Senti que parece ser difícil vagar algum espaço pelo Bairro de Fátima. É um oásis em meio ao Centro do Rio, a poucos minutos da zona sul e da zona norte, colado ao desenvolvimento comercial e de entretenimento da Lapa. Quem mora, gosta muito, não sai. Cá entre nós, eu também não sairia.

Curta a página do As Ruas do Rio no Facebook para ver mais fotos da Praça Presidente Aguirre Cerda e da Avenida Nossa Senhora de Fátima!

Para contato direto | asruasdorio.contato@gmail.com

O As Ruas do Rio é parceiro da edição carioca do Wallpeople 2012 (wallpeople.org). Você que curte arte e fotografia, seja amador ou profissional, participe do Wallpeople levando suas criações. Vamos criar um grande mural de fotos, colagens, pinturas, desenhos, etc, relacionados ao tema “Express Yourself (Autoexpressão)”. A ideia é criar uma exposição a céu aberto, intervindo no espaço urbano e promovendo um encontro entre pessoas. Mais de 32 cidades ao redor do mundo estarão participando simultaneamente!

Dia 9 de junho de 2012, das 15h30 às 17h30, na esquina da Avenida Heitor Beltrão com a Rua Alzira Brandão, na Tijuca. Bem ao lado do Teatro Ziembinski, quase em frente à estação São Francisco Xavier do metrô.

Mais informações sobre o evento no Rio de Janeiro aqui. Sobre informações do evento desde sua criação, com entrevista aos criadores, os publicitários espanhóis Pablo Quijano e David Marcos, de Barcelona, assista ao vídeo exclusivo aqui neste link.

Comentários
Deixe uma resposta

Olá, ( log out )

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s