Calle Río de Janeiro: onde o Chile e o Rio se encontram

26 junho 2012 | 1 comentário

Uma pausa nas ruas exclusivamente cariocas para conhecer a Calle Rio de Janeiro, em Santiago do Chile


Pequeno armazém na Calle Río de Janeiro, em Santiago do Chile: o blog interrompe excepcionalmente sua programação para mostrar ruas tão cariocas quanto as nossas só que lá fora

por Pedro Paulo Bastos

Um dos meus entretenimentos mais particulares quando viajo para o exterior é procurar referências brasileiras no lugar de visita. Da mesma forma que deve ser divertido para um peruano se deparar com a Rua República do Peru, em Copacabana, acho excitante a ideia de estar passeando pela Little Brazil Street, em Nova Iorque, por exemplo. Rola uma identificação evidente, boba e inexplicável. No caso dos nossos hermanos da América Latina, é facilíssimo encontrar bairros com o nome do nosso Brasilzão e até mesmo ruas ou praças com o nome da nossa cidade, Rio de Janeiro. Já encontrei uma vez a Plaza Río de Janeiro, na Cidade do México, e após uns diazinhos em Santiago do Chile, semana passada, fiz um registro da Calle Río de Janeiro, no Barrio Patronato. Quem curte as ruas “do Rio” independente da sua localização geográfica, convido-o para que me acompanhe até o final desta crônica de caráter excepcional. 

O Barrio Patronato fica próximo ao centro de Santiago e às margens do Rio Mapocho. Apesar de estar no eixo turístico, se difere um pouco dos bairros ajardinados da capital, como Providencia e Las Condes, dando espaço às suas ruas a uma predominância de lojas de roupas e confecções. O clima é de Rua da Alfândega mesclado à ambiência alternativa de Bellavista, bairro vizinho onde há a famosa casa de Pablo Neruda, no sopé do Cerro San Cristóbal, e mais um bando de bares e cafés da moda que reúnem muitos universitários e turistas. Na Calle Río de Janeiro, os bares são mais tímidos, mas ainda assim é possível avistar algumas mesas e cadeiras customizadas sobre as calçadas. É possível até mesmo encontrar alguma ou outra padaria-bistrô perdida entre depósitos moveleiros e gráficas.

Um dos aspectos mais marcantes da Calle Río de Janeiro são suas paredes e muros. A má preservação em que estão foi paralelamente substituída por pinturas e grafites para lá de criativos, graças a artistas que intervêm diretamente no espaço urbano com as suas propostas. O jogo de cores passa longe do Caminito, de Buenos Aires, mas contribui em muito para resgatar o charme perdido do Barrio Patronato, hoje loteado de calçadas quebradas e de vendedores ambulantes. O interessante de lá foi ver a circulação, por suas calçadas, de estudantes impecavelmente uniformizados. É quase um padrão para todas as escolas – gravata, uma espécie de paletó azul-marinho e calça cinza. Até os pequenininhos aderem às gravatas. Suo só de pensar se tivéssemos de seguir essa regra aqui pelo Rio. Precisa nem de explicações, não é?

Em meio a certa desordem, a Calle Río de Janeiro se parece um pouco com ruas antigas de Botafogo, aquelas próximas do cemitério São João Batista. Sabe o tipo de rua que não tem nenhum atrativo mas que, do nada, você consegue avistar o Corcovado ou algum morro verdinho e a graça do passeio volta num piscar de olhos? Pois bem, na rua chilena, o “Corcovado” de lá fica sob a responsabilidade do Cerro San Cristóbal, parte de um conjunto de montanhas que formam parte do Parque Metropolitano de Santiago, onde, no seu topo, há um monumento da Virgem Maria. Em outras palavras, a Virgem está para eles assim como o Cristo Redentor está para as ruelas de Botafogo. Apesar de estar no Chile, a Calle Río de Janeiro não poderia ser mais carioca.

Curta a página do As Ruas do Rio no Facebook!

Para contato direto | asruasdorio.contato@gmail.com

Tags: | Publicado em: Arquitetura e Paisagismo

Wallpeople Rio de Janeiro foi um sucesso!

17 junho 2012 | 1 comentário

O evento de arte urbana internacional, sediado em Barcelona, teve sua edição carioca no sábado (16), na Tijuca


O Wallpeople Rio de Janeiro revitalizou uma das praças abandonadas ao longo da Avenida Heitor Beltrão, na Tijuca.

por Pedro Paulo Bastos

Ao longo das últimas três semanas anunciei no final de cada postagem aqui no As Ruas do Rio sobre o Wallpeople. Ele é um evento que acontece anualmente em diferentes cidades ao redor do mundo, tendo se originado em Barcelona, em 2009, sob a égide da dupla de amigos publicitários Pablo Quijano e David Marcos. A proposta do Wallpeople é intervir em um muro abandonado no espaço urbano com quaisquer tipos de artes: fotografias, pinturas, colagens, caricaturas, poesias, origamis, roupas, frases, post-its. Uma forma de construir uma espécie de galeria de arte a céu aberto, reunindo pessoas com interesses afins, independente do sexo, religião, etnia, idade ou classe social. Em tempos de relacionamentos puramente virtuais, o Wallpeople congrega pessoas fisicamente no espaço público.


O tema universal para as edições de 2012 do Wallpeople foi “Express Yourself” que,
em bom português, significa autoexpressão. (Fotos: Flávia Fafiães)


A colagem do material trazido por cada um começou por volta das 15h30.
(Última foto: Flávia Fafiães)

Esse ano, 2012, eu tive a oportunidade de coordenar junto de um grupo de amigos a edição carioca do Wallpeople, que por pouco ficou fora do circuito brasileiro, já que o Rio de Janeiro foi a única cidade a abrigar o evento! Estava previsto para acontecer simultaneamente com as outras cidades, no último dia 9 de junho, data oficial do Wallpeople em 2012, mas, por causa do mau tempo que assolou a cidade nesse fim de semana, transferimos excepcionalmente o evento para ontem, dia 16.

Ele aconteceu numa das praças subutilizadas ao longo da Avenida Heitor Beltrão, na Tijuca, resultantes das obras do metrô no bairro na década de 70. A proposta de fazer o Wallpeople na Tijuca foi, não só por questões afetivas, mas também uma maneira de contemplar a região com eventos culturais de qualidade, já que quase tudo acontece sempre pelas bandas da zona sul e, mais recentemente, na Lapa. A ideia deu certo à beça: o Wallpeople Rio de Janeiro contou com cerca de 80 participantes de diferentes bairros da cidade, inclusive gente da região metropolitana e serrana. Famílias estiveram por lá, casais, estudantes, fotógrafos, cinegrafistas, crianças! Até mesmo outras nacionalidades estiveram presentes por lá, como um grupo de mexicanos, argentinos e portugueses que estão morando na cidade maravilhosa.

A sinalização pelas ruas no entorno da estação São Francisco Xavier do metrô começou cedo, por volta das 13 horas. Pouco a pouco, as pessoas foram chegando à praça, que fica na esquina da Rua Alzira Brandão. A colagem do logotipo central do Wallpeople deu a largada para que cada um colasse ao muro grafitado suas obras artísticas, sendo o tema desse ano “Express Yourself”, isto é, autoexpressão, em português. Já prestes a escurecer, era possível ver imagens incríveis – desenhos muito bem feitos e bolados, frases de impacto, um vestidinho todo bem trabalhado e cheio de referências, fotografias expressivas, poesias, cartoons. Após a tomada da foto do muro completo, os participantes trocaram entre si as coisas que mais tinham gostado, promovendo, dessa forma, interação e criação de novas amizades.


O evento aconteceu em mais de 30 cidades ao redor do mundo no último dia 9 de junho, e, no Rio,
ontem, 16, devido ao mau tempo de semana passada. (Foto da esquerda: Flávia Fafiães)


Mais do Wallpeople Rio de Janeiro, na Tijuca: gente talentosa, profissionais ou não, expondo materiais
artísticos de alta qualidade. (Foto da esquerda: Flavia Fafiães)

A repercussão do evento foi a melhor possível pelas redes sociais. Quem foi, gostou; quem não pode ir, provavelmente irá na próxima edição. O Wallpeople, no contexto do Rio de Janeiro, foi mais uma prova de que somos uma cidade versátil o suficiente para promover eventos de alto nível qualitativo, congregando pessoas de grande talento, para uma reunião simples, sadia e, principalmente, cidadã. A pracinha, antes abandonada, se encheu de vida conosco.


O muro antes de receber as colagens para o Wallpeople. Créditos à Flávia Fafiães.

Curta a página do As Ruas do Rio no Facebook! Para saber mais do Wallpeople, visite wallpeople.org

Para contato direto | asruasdorio.contato@gmail.com

Tags: Publicado em: Intervenções Urbanas | Parques e Praças

Rua Saturnino de Brito

11 junho 2012 | 2 comentários

Quem não se lembra da rua do antigo Teatro Fênix?


A entrada da Rua Saturnino de Brito pela Avenida Borges de Medeiros, na Lagoa.

por Pedro Paulo Bastos

Quem foi criança nas décadas de 80 e 90 deve lembrar bem de uma parte dos programas da Xuxa em que ela fazia o sorteio de cartas. A apresentadora, com as pernocas semicobertas por botas coloridas, quase se afundava em um mar de envelopes, cujos quais eram jogados para cima e escolhidos aleatoriamente na hora da queda. O felizardo ganhava diferentes tipos de prêmios. Para que a cartinha pudesse chegar até o programa, um emblemático endereço fora exaustivamente repetido pela loura: “Rua Saturnino de Brito 74. Jardim Botânico, Rio de Janeiro. O CEP, 22470″. Sim, naquela época o CEP ainda não tinha os três últimos dígitos atuais. A Rua Saturnino de Brito marcou o imaginário de muita criança. O bairro, Jardim Botânico, mais ainda – símbolo da Tv Globo.

Hoje o Teatro Fênix já não existe mais, embora a rua continue firme e forte como uma das principais vias do Jardim Botânico e da Lagoa, apesar da sua curta extensão. Começa na Avenida Borges de Medeiros, terminando na Rua Jardim Botânico, sendo continuada pela Rua Lopes Quintas. De rua dos artistas, dos carrões, e de certa muvuca em dias de gravações, a Saturnino de Brito e seu entorno transformaram-se em mais um pedaço da zona sul explorado pelo setor imobiliário. Edifícios residenciais foram levantados no local do extinto teatro, que, na verdade, tinha entrada oficial pela Avenida Lineu de Paula Machado.


O início da Rua Saturnino de Brito é constituído por jardins muito bem cuidados em meio a prédios altos e baixos.


A vista para o Corcovado e o Cristo Redentor também é um ponto alto da rua. Aliás, de todo o bairro do Jardim Botânico.

Nem a Xuxa, nem o Faustão, muito menos o Chacrinha, passam mais pela Rua Saturnino de Brito. Porém, nos domingos de sol, as figurinhas carimbadas por lá são os ciclistas. Não apenas os ciclistas por diversão; me refiro aos profissionais, principalmente. As bicicletas super bem equipadas, eles com cotoveleiras e capacetes. Vêm aos bandos da Lagoa em direção à Rua Lopes Quintas. Há uma razão nisso tudo: a Rua Saturnino de Brito é um dos caminhos para o Horto, um dos principais redutos da cidade para ciclismo, trilhas, contato com a natureza e mirantes de tirar o fôlego, como a Vista Chinesa.

Na primeira quadra, entre a Lagoa e Avenida Lineu de Paula Machado, o que mais chama a atenção são os jardins, fartos e bem cuidados. Graças ao empenho dos condomínios na manutenção deles, a Rua Saturnino de Brito ganha ares bem aconchegantes em meio a tanto verde, de diferentes espécies. Quem me acompanha no blog sabe que sou péssimo para nomear plantas e flores, por pura ignorância, mas se percebe que há um trabalho paisagístico embutido ali. Ou seja, não foi só encher de planta e acabou, o que também já teria sido ótimo. Há um conceito por trás daquilo, que se harmoniza coletivamente. Eu adoro jardins urbanos. Fico sempre babando. Fotografo de todos os ângulos possíveis…


A quantidade de jardins, plantas e flores por lá torna-a uma rua aconchegante e bucólica.


O cruzamento com a Avenida Lineu de Paula Machado. À direita, o local onde se situava o Teatro Fênix, hoje ocupado por um conjunto de edifícios residenciais.

Uma das coisas mais interessantes do Jardim Botânico é o fato de ser um dos bairros na zona sul que mais conserva suas origens – arquitetônicas, em especial. Analisando Leblon e Ipanema, que são densamente ocupados e retransformados, essa região do Jardim Botânico e da Gávea ainda conserva algumas casinhas mais humildes, daqueles tempos operários, em que a Lagoa Rodrigo de Freitas era um lugar de baixa renda e pantanoso, há menos de cem anos. Rodeado de prédios bonitões na Lineu de Paula Machado e na quadríssima, os lados para a Rua Jardim Botânico são mais antigos. Com exceção de uma ou outra casa, como a Mamma Jamma, pizzaria inaugurada em 2009, com design totalmente reformulado, a sua vizinha, no número 30, por exemplo, parece sobreviver aos tapas em meio a alucinante procura por terrenos. O mesmo digo para o posto de gasolina Esso. Na zona sul, posto tem sido quase igual a achar água no deserto.


Ciclista equipado na Rua Saturnino de Brito, com uma floricultura improvisada e o trânsito livre, típico dos finais de semana.


A pizzaria Mamma Jamma, já na altura da Rua Jardim Botânico, onde a Rua Saturnino de Brito termina.

Esse trabalho de fotografar as ruas do Rio pode parecer fácil e prazeroso (e é, não posso mentir!), embora também tenha o seu lado cansativo. Não no sentido do deslocamento, mas sim no desgaste emocional. Fotografar as ruas do Rio, atividade aparentemente individualista, também faz com que eu tenha de lidar com pessoas. Num mesmo percurso posso receber elogios, questionamentos e até mesmo agressões verbais por parte de quem cruze o meu caminho no momento, com a máquina pendurada no pescoço.

Na Saturnino de Brito, foi o caso clássico. Uma senhora só faltou apertar as minhas bochechas – para ela, eu era uma “gracinha” (palavras da própria, hein!), independente do trabalho que estivesse fazendo. Na esquina com a Lineu de Paula Machado, um homem perguntou por que razão eu fotografava tanto o “nada”. Expliquei do que se tratava. “Ah”, suspirou ele, indo embora. Já nas proximidades com a Rua Jardim Botânico, um senhor, descontrolado, queria chamar a polícia, pois o que eu estava fazendo era um “absurdo”. Supôs que eu estivesse fotografando-o entrando em casa, como se eu fosse um paparazzi, e ele, uma dessas celebridades aí que a mídia insiste em etiquetar. Farpas trocadas, segui meu caminho. Não recebi até agora intimação alguma da polícia, que, se foi acionada, deve estar ocupada, rindo do episódio.

Curta a página do As Ruas do Rio no Facebook para ver mais fotos da Rua Saturnino de Brito.

Para contato direto | asruasdorio.contato@gmail.com

Atenção! O Wallpeople Rio de Janeiro, em função do mau tempo, foi transferido do dia 9 para o dia 16 de junho!

O As Ruas do Rio é parceiro da edição carioca do Wallpeople 2012 (wallpeople.org). Você que curte arte e fotografia, seja amador ou profissional, participe do Wallpeople levando suas criações. Vamos criar um grande mural de fotos, colagens, pinturas, desenhos, etc, relacionados ao tema “Express Yourself (Autoexpressão)”. A ideia é criar uma exposição a céu aberto, intervindo no espaço urbano e promovendo um encontro entre pessoas. Mais de 32 cidades ao redor do mundo estarão participando simultaneamente!

Dia 16 de junho de 2012, das 15h30 às 17h30, na esquina da Avenida Heitor Beltrão com a Rua Alzira Brandão, na Tijuca. Bem ao lado do Teatro Ziembinski, quase em frente à estação São Francisco Xavier do metrô.

Mais informações sobre o evento no Rio de Janeiro aqui. Sobre informações do evento desde sua criação, com entrevista aos criadores, os publicitários espanhóis Pablo Quijano e David Marcos, de Barcelona, assista ao vídeo exclusivo aqui neste link.

Tags: | | Publicado em: Bairro a Bairro | Canteiros e Jardins | Rua a Rua

Bairro de Fátima

04 junho 2012 | 6 comentários

Um passeio pela Praça Presidente Aguirre Cerda e a Avenida Nossa Senhora de Fátima, a principal do bairro


A Praça Presidente Aguirre Cerda vista do alto de uma das escadarias que a circundam, no Bairro de Fátima: oásis em meio ao caos do Centro.

por Pedro Paulo Bastos


Uma praça de desenho circular, com trânsito no sentido rotatório, rodeada de prédios residenciais antigos bem conservados. Duas pequenas ruelas a circundam, uma de cada lado, finalizadas por duas escadarias. Arborização abundante, aconchego como consequência. O panorama poderia se encaixar perfeitamente em algum cantinho bucólico de Laranjeiras ou do Bairro Peixoto, mas não. A Praça Presidente Aguirre Cerda é o eixo central do simpático Bairro de Fátima, que, para mau conhecedor desse nosso Rio de Janeiro, soaria quase como uma piada ao descobrir que a região em questão está no Centro da cidade, colada à Lapa, mais conhecida pelo seu caótico movimento 24 horas por dia. Aliás, não é só essa questão. Lá pela Rua Riachuelo, por onde se inicia o Bairro de Fátima, além do caos todo que lhe é peculiar, até pouco tempo esse ambiente tinha uma certa promiscuidade, que tem se dissipado ao longo desses últimos anos com a revitalização da Lapa. A cultura do lugar feio, no entanto, ainda paira um pouco pelo ar devido ao aspecto de abandono impregnado aos sobrados do Centro, além de um ou outro mendigo que circula por essas bandas.


Uma das ruelas no entorno da praça, que se originam no alto de Santa Teresa, conectando-se ao Bairro de Fátima por uma escadaria.

Logo, ter essa imagem na mente, que é um estereótipo da parte “velha” do Centro, e se deparar com um bairro tão aprazível como o de Fátima a poucas quadras da muvuca, é uma surpresa agradável. Há muitos anos já tinha ficado surpreendido com a qualidade de vida de lá quando fui estudar no apartamento de uma amiga na Avenida das Graças, uma pequena ruazinha transversal à Avenida Nossa Senhora de Fátima. O prédio excelente; a casa, idem, bem como a vizinhança. Dessa vez, com mais tempo disponível para explorar o local, fiquei bastante contente em constatar como o Rio de Janeiro ainda consegue conservar bairros com jeito de bairros-comunidade, desconsiderando o sentido pejorativo da palavra “comunidade” incorporou. Aquele clima familiar, em que as pessoas se conhecem e se cumprimentam, em que a padaria (e o seu dono) é a mesma há décadas… Enfim, o tipo de lugar em que a praça é a área de congregação.


Apesar do Bairro de Fátima ter uma certa inspiração lusitana, o nome da sua praça principal é em homenagem a Pedro Aguirre Cerda, ex-presidente do Chile na primeira metade do século XX.


Ruas agradáveis para se caminhar com os cãos, embora em todas as árvores haja uma advertência quanto aos bons modos para xixi e cocô.

Se por um lado a gente critica à beça a prefeitura, por qualquer motivo, por outro, pouco elogiamos algumas ações efetivas da parte dela, que têm sido motivo de sucesso. A academia da terceira idade, instalada de norte a sul em um monte de praças, com seus equipamentos de ginástica verdinhos, é um exemplo. Na pracinha do Bairro de Fátima, a Presidente Aguirre Cerda, a academia pareceu ser muito popular e bem utilizada por seus frequentadores, a grande maioria formada por idosos, que compartilham espaço com as crianças que (salve, salve!) têm a oportunidade de se divertirem em um playground bem mantido e aparentemente limpo. A luz do sol incindindo sobre as folhas das árvores emite um verde quase fluorescente, o que permite que muita gente fique ali parada, sentada, vendo o tempo passar, sem muitas preocupações.


A linha C-10, que circula entre o Bairro de Fátima e a Central do Brasil, é a única linha a percorrer a Avenida Nossa Senhora de Fátima.


Churrasco a céu aberto em um dos botequins do bairro. Ao lado, a esquina da Avenida Nossa Senhora de Fátima com a Avenida das Graças.

As escadarias, localizadas nas extremidades de ruelas transversais à praça, como a Rua Guilherme Marconi, levam o pedestre a um bairro também tradicionalíssimo do Rio de Janeiro: Santa Teresa. O alcance à Rua Cardeal Dom Sebastião Leme, ou à parte mais alta da Rua Monte Alegre, é realizado sem muitos esforços por essas escadas, constituídas de poucos degraus em comparação à Escadaria Selarón, na Lapa, que requer certo fôlego, apesar dos azulejos coloridos. Santa Teresa, com seu caráter alternativo-artístico-gringo, colabora com a multimiscignenação de pedestres pela Praça Presidente Aguirre Cerda e ao longo da Avenida Nossa Senhora de Fátima. Por lá, veem-se circulando pessoas com aspecto mais arrumadinho-moderninho em meio a uma galera mais riponga, enquanto senhorinhas passeiam com seus carrinhos de feira entregando esmolas a pedintes, largados e sujos pelas esquinas. Um caucasiano, branco como o leite e louro como o sol, conversa em portunhol com um hermano sul-americano, provavelmente artesão, de traços indígenas com um emblemático corte de cabelo no estilo mullet. O pai ensina ao filho, de no máximo sete anos, a atravessar a rua da maneira correta, antes que a linha C-10 avançasse. No botequim mais próximo, o senhor de idade (short, camiseta e pochete cruzada) celebra a vida aos berros. O copo é de geleia, e claro, quase transbordando de cerveja, e sem o colarinho.


Um detalhe curioso do Bairro de Fátima é que, apesar dos moradores contarem o comércio multivariado da Rua Riachuelo, ele tem seu comércio próprio ao longo da Avenida Nossa Senhora de Fátima. Agências bancárias, lavanderias, salões de beleza e de costura, padaria, clínicas médicas, lanchonetes, uma filial do Mundo Verde, pet shop. Avistei uma lan house também. Os botequins são quase uma regra por lá. A familiaridade é tanta com eles que até churrasco a céu aberto um deles promoveu naquela manhã de sábado. Aquele cheiro de carvão misturado ao tempero das carnes estava irresistível. O falatório aumentava a medida que novas linguiças saim do espeto. Falando em comida, no entorno da Praça Presidente Aguirre Cerda, por exemplo, há restaurantes simples, que servem comida caseira – comumente os que oferecem as melhores comidas! Completando o conjunto, uma escola (a Escola Municipal Guatemala), e o que não podia faltar, uma capela! É ou não um bairro completo, que atende bem as necessidades cotidianas?


O encontro da Avenida Nossa Senhora de Fátima com a Rua Riachuelo, uma das principais vias do Centro e da Lapa, que agora é bairro oficial.

No entanto, a iluminação é escura, quase sombria, em função de tantas árvores altas que ficam juntinhas, como irmãs. Os edifícios ao longo da Avenida Nossa Senhora de Fátima lembram os das ruas transversais de Copacabana. Antigos, com um certo ar de imponência, embora levemente decadentes, o que não os desvaloriza diante da procura animal por imóveis bem localizados na cidade. Senti que parece ser difícil vagar algum espaço pelo Bairro de Fátima. É um oásis em meio ao Centro do Rio, a poucos minutos da zona sul e da zona norte, colado ao desenvolvimento comercial e de entretenimento da Lapa. Quem mora, gosta muito, não sai. Cá entre nós, eu também não sairia.

Curta a página do As Ruas do Rio no Facebook para ver mais fotos da Praça Presidente Aguirre Cerda e da Avenida Nossa Senhora de Fátima!

Para contato direto | asruasdorio.contato@gmail.com

O As Ruas do Rio é parceiro da edição carioca do Wallpeople 2012 (wallpeople.org). Você que curte arte e fotografia, seja amador ou profissional, participe do Wallpeople levando suas criações. Vamos criar um grande mural de fotos, colagens, pinturas, desenhos, etc, relacionados ao tema “Express Yourself (Autoexpressão)”. A ideia é criar uma exposição a céu aberto, intervindo no espaço urbano e promovendo um encontro entre pessoas. Mais de 32 cidades ao redor do mundo estarão participando simultaneamente!

Dia 9 de junho de 2012, das 15h30 às 17h30, na esquina da Avenida Heitor Beltrão com a Rua Alzira Brandão, na Tijuca. Bem ao lado do Teatro Ziembinski, quase em frente à estação São Francisco Xavier do metrô.

Mais informações sobre o evento no Rio de Janeiro aqui. Sobre informações do evento desde sua criação, com entrevista aos criadores, os publicitários espanhóis Pablo Quijano e David Marcos, de Barcelona, assista ao vídeo exclusivo aqui neste link.

Tags: | Publicado em: Bairro a Bairro | Rua a Rua