Travessa Guimarães Natal & Rua Assis Brasil

26 abril 2012 | deixe seu comentário (0)

Coladas ao Parque Estadual da Chacrinha, essas duas ruas de Copacabana esbanjam bucolismo e silêncio em meio ao trânsito da Rua Tonelero


A Travessa Guimarães Natal, em Copacabana, é uma rua pequena e estreita, que se inicia numa curvinha no final da Rua Guimarães Natal, onde está a entrada para o Parque Estadual da Chacrinha.

por Pedro Paulo Bastos


“Misericórdia, parece que você tomou um banho!”, exclamou uma senhorinha de cabelos brancos ao me ver. Eu vestia uma camisa social toda engomadinha, azul, de tonalidade escura. Raios de sol bem nocivos ao humor de qualquer pessoa incidiam diretamente sobre a Travessa Guimarães Natal, em Copacabana, e, consequentemente, sobre todas as cabeças de pedestres que passavam ali naquela hora. A camisa estava colada ao corpo, favorecida pela mochila preta que eu carregava nas costas. A calça caqui já apresentava a evidência de filetes de água pelas pernas. A câmera, presa ao pescoço, fugia à regra. Era uma manhã de quarta-feira, eu é quem não podia fugir à regra de vestir qualquer roupa para ir à faculdade, e logo depois, ao trabalho. Essa transpiração toda em poucos minutos de chegada ao local. O motivo é: a Travessa Guimarães Natal é uma ladeirona. Sem árvores – logo, mais assoleada do que deveria -, e com paralelepípedos que dificultam um pouco a caminhada se você não subi-la pela estreita calçada. Mas que é a exceção da exceção da exceção das ruas de Copacabana, ah, isso é.

Apesar de ela estar colada ao Parque Estadual da Chacrinha, uma área aberta ao público, o seu acesso intimida a quem não mora ali porque a Rua Guimarães Natal (não confundir a travessa com a rua), sua vizinha, tem bem uma cancela na esquina com a Rua Tonelero. Uma medida necessária em tempos violentos como esse, ainda mais para ruas escondidas em bairros movimentados. Quem quiser visitar, no entanto, é passe livre, eu tirei a prova. Às vezes sou barrado em alguns lugares e por isso fico tão na defensiva… Tinha muita curiosidade de desbravar melhor essas ruas na encosta de Copacabana. Elas são bem diferentes das transversais à Barata Ribeiro e à Nossa Senhora de Copacabana. Muito mais bucólicas, calminhas e de clima muito familiar.

A Travessa Guimarães Natal, além disso, contém casas, coisa pouco comum pela zona sul. E pelo que pude comprovar, ela também faz jus ao padrão mais ou menos estabelecido de que são nas ruas mais interioranas de Copa onde está quase toda a totalidade de albergues (hostels). O trânsito de gente loira por ali era recorrente no momento em que percorri a via. Até eu me acostumar com a ideia de que a Guimarães Natal não era bem uma rua residencial, me surpreendia quando os gringos saíam de uma porta de madeira verde, que se confundia ao paredão da casa coberto por heras. No caso, o paredão do King George Hostel. Mais adiante, o Cabana Copa Backpacker Rio Hostel prolongou a altura do seu muro amarelo com bambus. Resultou num visual bem bonito.


Chão de paralelepípedo, pouca sombra efetiva e edifício antigo na Travessa Guimarães Natal.


Repare no topo da fachada dos edifícios à esquerda, que, interessantemente, vem em detalhes simétricos. Ao lado, o Copacabana Vert, recém-construído na esquina com a Rua Assis Brasil.

O lado ímpar da Travessa Guimarães Natal é todo constituído de prédios antigos, muitos com janelas venezianas. Um detalhe interessante de quatro prédios, nos números 7, 9, 11 e 13, é o topo deles, em formato simétrico, com três degraus – ou pelo menos uma espécie de – em cada lado. As luminárias chamativas contrastam com as portarias simplórias, como a do Edifício Tanucha, por exemplo. Agora o que entra em constraste mesmo com o resto da rua, que tem um aspecto mais de subúrbio, é o Copacabana Vert. É um edifício moderníssimo, com varandas espelhadas e um bom paisagismo de entrada. Foi construído em cinco pavimentos – quem checar pelo Google Street View verá que em janeiro de 2010 ele estava em fase de construção. Preciso nem dizer que o último andar, a cobertura, deve ter uma vista incrível para o bairro e para o Parque Estadual da Chacrinha, no terreno de trás.

À esquerda da Travessa Guimarães Natal começa a Rua Assis Brasil, uma das ruas mais requisitadas de Copacabana pela sua calmaria, bom nível imobiliário e proximidade com a estação Cardeal Arcoverde do metrô. Se vocês repararem nas fotos seguintes, esse pedaço que percorri é uma colcha de retalhos. Na Assis Brasil se vê um monte de nesgas de sol, tamanha a arborização da rua. Bem diferente da Guimarães Natal, que é praticamente um deserto do Saara. Esse panorama foi melhor apreciado através do trecho vazio da Rua Assis Brasil, à direita da Travessa Guimarães Natal, onde estão os fundos do Copacabana Vert e o Parque Estadual da Chacrinha. O aclive fica tão íngreme ali que em dias de chuva eu não me arriscaria descer, pela calçada de pedras portuguesas, com qualquer tipo de sapato. É sério!


A Rua Assis Brasil, no seu trecho superior, colado ao Morro de São João: sol, sombras, árvores e muitas plantas. Veja também que, diferentemente da maioria dos prédios do bairro, nos condomínios dali contam com vários andares de garagem.


Na esquina, o simpático edifício Montesano e, ao fundo, o restante da Rua Assis Brasil em direção à Rua Tonelero.

A Rua Assis Brasil compartilha seu espaço com edifícios antigos e outros mais recentes, como o do número 143, que é um megacondomínio, onde estacionamento parece ser o que não falta. Inclusive um dos acessos para a garagem lembra bem o de um shopping, margeado por um bonito jardim, com diferentes espécies de plantas. Toda a Assis Brasil é assim, embora nesse pedaço, particularmente, a presença de elementos da natureza seja mais forte, não só pelas árvores altas bem como pela proximidade com o Morro de São João logo atrás. O desenho curvilíneo da rua deixa em evidência a beleza e o posicionamento das árvores, além, claro, do contraste entre o paralelepípedo da via e as pedras portuguesas da calçada.


Um portal sob um dos prédios abre caminho para uma travessa que se conectará à Rua Otaviano Hudson.


Ao longo da Rua Assis Brasil é possível ver diferentes intervenções nos troncos das árvores, como ninhos improvisados, gaiolas e flores avulsas.

O restante da rua é previsível e retilíneo, mas não menos bonito. É um mar de prédios, típico da “Princesinha do Mar”, com muitas janelas e portarias bem arrumadas. Como a rua é parcialmente fechada, e a segurança, reforçada, não houve a necessidade de se colocar portões e grades nas calçadas, sem destinar um espaço público à exclusividade dos condomínios. Assim, as portarias, muitas delas de vidro, estão unicamente separadas da via por pequenos degraus. Ademais, um portal branco abre espaço sob um dos prédios da Assis Brasil, conectando-a com a Rua Otaviano Hudson por uma ruazinha também bastante simpática e residencial.

Na Assis Brasil, graças às sombras abundantes, a minha camisa social já voltava ao estado sólido após quase cinquenta minutos de puro encharque. Eu me misturava aos outros moradores que desciam a rua em direção aos seus trabalhos. Grande parcela dos homens tinha aquele jeito de executivo. Uns preocupados nas conversas telefônicas em seus iphones, enquanto outros, distraídos com o som de seus ipods, ajeitavam a mochila Wöllner nas costas. As mulheres, também com cara e roupa de meio empresarial, marchavam pelas calçadas da Rua Assis Brasil de maneira com que ouvíssemos bem o atrito de seus saltos com o chão. Os porteiros, de vassoura na mão, cumprimentavam com um “Bom dia!” a quem lhes acenasse, e os poodles, em coleiras, latiam amistosamente ao encontrarem outros mascotes. Um cenário de boa vizinhança, sem dúvida.


O encontro da Rua Assis Brasil, com sua cancela, e a Rua Tonelero, bem em frente à Praça Cardeal Arcoverde. Atente para a árvore de esquina, floridaça.

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As clássicas luminárias de Santa Teresa estão ameaçadas

18 abril 2012 | 2 comentários

 Santa Teresa poderá perder seus antigos postes de iluminação, contra a vontade dos moradores: desrespeito ao patrimônio da cidade?


A base das antigas luminárias do Estado da Guanabara, na Rua Triunfo, em Santa Teresa: luminárias em ameaça.

Na postagem do dia 27 de março foi publicado um especial sobre as ruas Fonseca Guimarães, Filadélfia e Triunfo, onde ressaltei a beleza dos postes antigos aqui do município, ainda preservados nesse trecho de Santa Teresa. Aliás, na maioria dos bairros no entorno da região central é possível avistar algumas dessas luminárias clássicas, embora em Santa Teresa elas se encontrem de forma mais abundante.

Desde então passei a receber e-mails de alguns moradores, como a Flávia Assis e a Gisela Flinte, que me avisaram sobre a ação da Rioluz em remover as tais luminárias  para substituí-las por outras mais modernas e eficientes. A troca dos postes faria parte de um programa da Rioluz em parceria com o Governo Federal, com a instalação de iluminação à base de vapor de sódio em detrimento dos pontos de luz a mercúrio. Além disso, outro argumento apresentado foi o de que essas antigas luminárias estão em processo de corrosão e que não seriam mais fabricadas nem disponíveis no mercado. Apontou-se ainda que o sistema de iluminação delas é obsoleto e de difícil manutenção. Disso ninguém pode negar.

A polêmica criada fica por conta da preservação do patrimônio histórico, que será desrespeitado. Essa situação tem criado um conflito de interesses e funcionalidades no que tange às medidas – afinal, o que seria mais importante, a manutenção das luminárias ou a implementação de uma nova iluminação? Uma iluminação reconhecidamente mais fraca, embora historicamente preservada, ou uma iluminação mais modernosa e eficaz, mas de estética duvidosa, que destoaria do ambiente urbano de lá? Ambas as questões são importantes para o Rio, tanto para o turismo como para a qualidade de vida da população.

Este é um assunto que deveria ser melhor conversado com os moradores e simpatizantes do bairro, que são contrários à remoção. A reação é compreensiva; depois da extinção dos bondes, no ano passado, será que outro símbolo de Santa Teresa também será perdido?


Protesto pela volta dos bondes, no Largo dos Guimarães.

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Avenida Gastão Sengés

16 abril 2012 | 3 comentários

Conheça mais da rua com paisagismo impecável no coração da Barra


Essa é a Avenida Gastão Sengés, na Barra da Tijuca, que conta com poucos prédios e pouco movimento, mas com muitos jardins, palmeiras, entre outras espécies de plantas e flores

por Pedro Paulo Bastos


Não tem jeito. A Barra da Tijuca, na zona oeste, é realmente uma cidade à parte. Essa semana mesmo saiu uma reportagem fictícia-piadista, do portal Sensacionalista, do Multishow, com a manchete: “Barra da Tijuca é decretada oficialmente outro país” (vale a pena ler, é divertido). Não digo isso exatamente pelo fato de ser um bairro mais luxuoso e sem favelas por perto, o que não é comum por aqui, mas sim pelo ponto de vista mais estrutural. É incrível como o desenho das ruas é diferente do resto da cidade. Eu vivo na parte “velha” do Rio de Janeiro, onde todas as ruas são estreitas para o padrão das grandes urbes. Logo, para um apaixonado por ruas como eu, fico sempre embasbacado em ver como a Barra é toda planejadinha (para o automóvel, diga-se de passagem), cheia de pistas largas, canteiros centrais, retornos, tudo direitinho… Enfim, tudo o que uma cidade grande altamente rodoviarista necessita para fluir.

Na Barra, até mesmo as ruas residenciais têm porte de avenida grande. Um exemplo é a Avenida Gastão Sengés, onde fui fotografar no sábado, sob um sol de rachar. Ela fica nos fundos do Barra Garden Shopping. Sua entrada é loteada de canteiros centrais bem arrumados, um paisagismo digno de revista. As palmeiras só não são mais altas que os espigões modernosos da rua, cada qual bem afastado um do outro. Eis uma diferença da parte “velha” do Rio, onde todos os edifícios colam-se uns aos outros, formando aquele corredor de prédios típico da Rua Barata Ribeiro. Na Barra eles ficam mais afastados pois estão dentro de condomínios, com mil e um aparatos de lazer, sem mencionar as garagens à ceu aberto.


Com canteiro central impecável, a Avenida Gastão Sengés tem porte de avenida com grande fluxo de trânsito, mas ela é calminha à beça. À direita, a entrada para o condomínio Jardim Ibiza.


O shopping Home Facilities Center concentra lojas pequenas de conveniência, de importância regional.

Na Gastão Sengés, entretanto, a atração principal mesmo é o canteiro central, como eu já havia comentado. Eu imagino que eles sejam mantidos por iniciativa privada, porque, não querendo falar mal, mas já falando, a Prefeitura do Rio, até onde minha experiência permite dizer, não tem muito essa capacidade de cuidar, com esmero, dos jardins urbanos. Quem é carioca sabe. Adiciona-se a isso a questão da educação também das pessoas em preservar ou não, e aí nesse ponto eu imagino que na Barra as pessoas sejam mais conscientes. É só ver como são bonitinhos e bem cuidados os jardins da Avenida Gastão Sengés. Vi muitos tipos de flores e plantas diferentes por lá, todas bem posicionadas. Um belo trabalho de paisagismo, de verdade.

O perfil de pedestres pela Avenida Gastão Sengés era praticamente o mesmo: quase todos com algum tipo de prática esportivas. Bicicleta, corrida, patins, skate. Tinha também os praieiros, é claro, figurinhas carimbadas pelos bairros da orla em dias abafados como esses últimos. A exceção populacional consistia em poucos gatos pingados, como eu, de máquina na mão, abordado pelo menos umas três vezes. “Você é paparazzi?”, perguntou um gaiato, aos berros, quando me viu do outro lado da calçada. Em outro trecho da rua, se aproximou uma moça, com sua filha pequena. “Que legal, você é fotógrafo?”. Respondi que, profissionalmente, não… “Ah tá, é que meu sonho é fazer um book“. Sorri. Já nos jardins perto da Rua Rosalina Brand, uma outra moça, dessa vez loira, bonita e despretensiosamente bem vestida, se abraçava às árvores e às flores enquanto um amigo a fotografava com a câmera do celular. A graça ali foi confirmar o que eu já tinha achado – os jardins da Gastão Sengés realmente são lindos, dignos de fotografias.


O estilo dos prédios da Avenida Gastão Sengés é modernoso, assim como é a Barra da Tijuca, de urbanização mais recente do que o resto da cidade. A proximidade com a praia e o ambiente bucólico favorece a prática de atividades físicas e a despretensão ao vestir-se.


Novamente os jardins da avenida, em dois momentos. Ali há uma variedade respeitável de espécies vegetais, todas bem posicionadas, algo não muito comum para as ruas do Rio.

Desculpem-me os barrenses, sei que vocês não aguentam mais ouvir essa piadinha dos anos 90, quando se falava que a Barra era a Miami do Rio, os Estados Unidos na América do Sul, que a Barra era uma “Beverly Rio’s”… Desculpa mesmo, mas não tem como não dizer o quão americanizado o bairro de vocês é. O estilo é legal, mas… os nomes dos lugares também incorporam esse american way of life. Além do Barra Garden Shopping, nas proximidades, com nome bem longe da língua portuguesa, encontra-se também por ali o Home Facilities Center. Assim mesmo, em inglês – Home Facilities Center. É uma espécie de shopping-galeria com lojinhas de apelo regional, compras de última hora e lanches. Até o estilo arquitetônico é americanizado, nem parece que você está no Rio de Janeiro. Mas… Home Facilities Center, assim, mesmo?!?! Pior que se isso fosse traduzido e implantado em português haveria gente dizendo que é “brega”. Já pensou um Centro de Facilidades para o Lar escrito no letreiro o impacto esquisito que provocaria? A questão é que não há nada mais cafona do que usar palavras e frases em inglês em território brasileiro assim, desnecessariamente. Opinião minha. Não sou radical, muito menos antiamericano, embora me considere um grande defensor do nosso idioma. Momento desabafo, pessoal, voltamos à nossa programação normal!


O encontro da Avenida Gastão Sengés com a Rua Rosalina Brand e a Avenida Prefeito Dulcídio Cardoso, onde está o canal da Lagoa de Marapendi.

A nossa rua de hoje desemboca lá na Avenida Prefeito Dulcídio Cardoso, que margeia a Lagoa de Marapendi. O que posso dizer para vocês, com muita sinceridade, é que esse trechinho é um dos lugares mais bonitos aqui do Rio no que diz respeito ao espaço urbano. Além dos jardins lindos, como vocês podem ver pelas imagens, essa avenida, a Prefeito Dulcídio Cardoso, comporta uma ciclovia compartilhada, com muitas árvores e ainda mais jardins! O diferencial ali, imbatível, fica por conta da lagoa, que nesse trecho é estreita, mais parecendo um canal. Uma pequena e simpática ponte verde conduz pedestres, devidamente autorizados, a embarcar no barquinho que os transportará à outra porção de terra da Barra da Tijuca, separada pelo canal. É neste outro lado onde está a Avenida Sernambetiba (atual Avenida Lúcio Costa, mas ninguém lembra…), a praia e a parte sul do Oceano Atlântico. O Leblon que se cuide, mas de luxo a Barra entende bem.

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Rua Coronel Aristarco Pessoa

01 abril 2012 | 13 comentários

No caminho para o Alto da Boa Vista é possível passear por ruas tipicamente residenciais, sem indício de comércio e verticalização. Eu passeei por uma delas!


A região da Usina retratada em três momentos: o terminal rodoviário, com o Maciço verdinho ao fundo; violetas no início da Rua Coronel Aristarco Pessoa; e, por último, o tradicional ponto de táxis do Largo da Usina. Atente para o fusquinha!

por Pedro Paulo Bastos

A Usina já não é mais lembrada como um bairro nem pelos mapas nem pelos cariocas, mas ainda está muito presente nos letreiros de alguns ônibus que circulam pela cidade. Ela já não é mais caminho dos bondes que vão para o Alto da Boa Vista, embora ainda seja possível avistar os seus antigos trilhos, ora expostos, ora cobertos por um novo pedaço de calçada. Já não tem a elite como classe dominante, mas as belíssimas residências continuam lá, paradinhas, todas com traços nobres. Apesar da proximidade com favelas, grande parte do morro que abraça a região é bem verdinho. Em certas épocas, chega-se a ver até mesmo o deslize de água das chuvas na parede das rochas, nem sempre próximas.


Já tinha tempo que eu queria caminhar pelas ruas vizinhas à Avenida Edson Passos, que corta todo o agradável bairro do Alto da Boa Vista. Até pouco tempo, essa parte da cidade estava muito insegura, mas com a pacificação das favelas da Tijuca, a calmaria parece ter voltado para lá. Pelo menos minha última vez a pé pelo Largo da Usina, em 2005, foi um corre-corre dos grandes. Nessa época eu estava no ensino médio, e fui com um grupo de amigos fazer um trabalho da escola na casa de uma amiga, que morava na Rua Conde de Bonfim. Já era final da tarde no momento em que íamos tomar nosso ônibus no terminal rodoviário que existe ali quando um bando de garotos veio correndo atrás de nós, com pedras e pedaços de madeira nas mãos. Conseguimos escapar, mas o terror demorou a passar. Foram tempos difíceis para a Usina, que, felizmente, acabaram, acredito eu…

Dei uma breve caminhada pelo Largo da Usina e por algumas ruas, como a Marechal Pilsudski e Raiz da Serra, até adentrar a Rua Coronel Aristarco Pessoa, onde fica o famoso ponto de táxi da Usina. Se não for o único, é um dos raros lugares no Rio de Janeiro onde ainda se encontram fuscas-táxis. Os moto-táxis também são comuns, além de uma opção mais barata para quem não pretende subir a pé as ladeiras da região. A Coronel Aristarco Pessoa, para quem vem do Largo da Usina, é um suave declive, com algumas casas mais maltratadas no seu início. Dum certo ponto em diante, só se vê belezura.

De cara posso afirmar que o grande diferencial dessa rua é o verde. Tudo bem que ela está colada ao Maciço da Tijuca, mas a quantidade de árvores e flores, principalmente flores!, é impressionante para os padrões cariocas. Avistei, pelo menos, umas seis espécies diferentes ao longo da via. Violetas e azaleias são as que eu sei de nome. Uma das casas, nesse primeiro trecho, comporta duas árvores floridíssimas, o maior barato. Muito bonito, muito colorido. Uma mistura de flores em cor-de-rosa e roxas, com o verde das folhas, tudo em abundância.


O primeiro trecho da Rua Coronel Aristarco Pessoa, que também pode receber a grafia de
Aristarcho: flores coloridas.


Aí está a Rua Rocha Miranda, a única que se inicia na Coronel Aristarco Pessoa. Observe o nível das residências. Uma toda trabalhada em pedra, tem jeito de casa de vó; a outra é mais glamurosa, típica construção grandiosa lusitana.


Embora o bairro de Rocha Miranda esteja bem longe dali, a única rua que se inicia na Coronel Aristarco Pessoa leva o nome do dito-cujo. É um ladeirão, de verdade. Perguntei a uma senhora da vizinhança sobre a extensão da Rua Rocha Miranda, onde ela desembocaria, e, claro, sobre o nível de segurança. Afinal, estava redesbravando a Usina depois de um episódio meio traumático. “Ela só é perigosa se você tiver asma, coisa do tipo. Não tá vendo que é um ladeirão? Ninguém aguenta subir!”, respondeu ela, bem humorada. Ufa! De fato a Rua Rocha Miranda é bem extensa. Trazê-la para o As Ruas do Rio fica para uma próxima ocasião, porém não posso deixar de publicar aqui as fotos – e algumas palavrinhas – sobre o quão bucólica e simpática ela é, especialmente nas redondezas da Rua Coronel Aristarco Pessoa.

Não é preciso subir muito a Rua Rocha Miranda para ter-se uma vista tímida, mas espetacular dos morros da Usina. Não se vêem favelas – apenas muitas árvores, rochas (vulgo pedras), árvores, árvores e mais árvores. Tudo muito verde. Assim como no post anterior, sobre Santa Teresa, o silêncio ali é tão poderoso quanto Portugal foi um dia para o Brasil. E na melhor das combinações típicas dos centros urbanos, natureza e edificações se complementam. Até agora estou encantado com uma das residências da Rua Rocha Miranda. Não sei descrever, mas é de uma imponência e amplitude de bater palmas. A portada é muito linda, com colunas de azulejos e detalhes sinuosos, um pouco religiosos, e muito artísticos. Confio às fotos a tarefa de descrição. As casas de esquina também são muito bonitas, com parte da fachada trabalhada em pedra. Os muros baixos são muito atrativos, e as janelas azuis, de madeira, sem grades, mais ainda. Que sossego!


O último trecho da Rua Coronel Aristarco Pessoa. Muitas residências e muito verde. No final da via, veja que há um paredão coberto por vegetais e o único edifício mais alto dali, no número 203.
 


A última casa da rua, com o morro verdinho ao fundo, e o jardim florido do edifício no número 203.

Voltando à Rua Coronel Aristarco Pessoa, circulo com a câmera entre alguns gatos pela calçada. Uns me perseguem, amistosamente, outros aproveitam a tranquilidade dali para dar seguimento à sesta. Olham-me desconfiados, com aquele ar blasé peculiar de todo felino. O único ruído um pouco mais constante é o de motoqueiros. Às vezes eles são moto-táxis, às vezes entregadores de pizza. Em pouco mais de uma hora que estive pela rua, duas famílias encomendaram pizza para o almoço. Não me chamem de enxerido, é que a Coronel Aristarco Pessoa é tão parada, no melhor dos sentidos, que a única atração mundana é ver quem chega e quem sai.

Ela é uma rua sem saída. Não me atrevi a pular o muro coberto por plantas, nem mesmo para saber o que havia por trás dele. A única construção mais verticalizada fica ali, o prédio de número 203, que eu fiquei namorando um tempão. Adoro prédios que emitem ares de aconchego, e esse me passou uma sensação do tipo. Pudera, com um jardim bonitão daquele da portaria, rodeado de árvores e morros verdinhos, imagina como devem ser gostosas as noites de inverno num apartamento, assim, mais no alto. Até mesmo no verão deve ser mais ameno. Acredito na possibilidade de mosquitos, mas para que estragar nossas ilusões, né? Curta a página do As Ruas do Rio no Facebook para ver mais fotos da rua. Vou colocar lá tão logo essa postagem vá ao ar!

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