O ano em que a Barra quase saiu do mapa do Rio

27 fevereiro 2012 | 7 comentários

Em 1988, um plebiscito que pretendia emancipar a Barra da Tijuca promoveu polêmica na cidade. Relembre!

A capa do Caderno “Cidade”, do JB de 4/7/88

Não tem jeito. A Barra da Tijuca sempre será um bairro destacado da cidade do Rio de Janeiro pelas suas particularidades. Não que sejam ruins, como muitos costumam afirmar – é tudo uma questão de gosto. O que implica nisso tudo é a paisagem e a funcionalidade de lá, que difere em muito com a urbanização ocorrida nos bairros mais antigos do Rio. A diferença é tanta que, vulgarmente, poderíamos chamar a Barra da Tijuca de outra cidade. Ou pelo menos, de um grande subcentro, que atende em muito a zona oeste. Ultimamente,  tudo vem acontecendo na Barra, não só no que tange às grandes corporações, mas como em serviços e em grandes atrações de entretenimento. Porém, há quase 24 anos, essa imagem da Barra como um local “separado”, ou mais independente, digamos assim, já era percebido. E por pouco ela não sai do mapa do Rio.

Em 3 de julho de 1988 ocorreu, com o apoio da Assembleia Legislativa e da Justiça Eleitoral, o plebiscito que pretendia tornar a Barra da Tijuca em um local emancipado do Rio de Janeiro. A polêmica foi grande e o público ficou bastante dividido. De acordo com os números de votação divulgados em reportagem do Jornal do Brasil de 4 de julho daquele ano, 5 785 pessoas votaram pelo sim, 354 pelo não e 78 corresponderam a votos nulos e brancos. A grande zebra do plebiscito deveu-se ao fato de que o quorum mínimo não fora atingido; eram necessários pelo menos 23 978 votos para que a votação fosse validada, e o total de votantes foi de apenas 6 217.

O Jornal do Brasil ainda comenta sobre o motivo do não comparecimento dos moradores na votação, e sobre um suposto boicote a ela. Diz que o domingo quando ocorreu o plesbiscito foi um belo dia de sol, como há tempos não fazia, o que levou muita gente às praias do bairro. Na TV, o ídolo Ayrton Senna competia com Alain Prost no GP da França de Fórmula Um, “que deixou o eleitor em casa pelo menos até as 11 horas”. Além disso, os torneios de futevôlei que alguns condomínios organizaram, como o Barramares, colaboraram para incentivar o descaso com a votação. A facilidade era tanta para a participação do eleitor que as urnas ficavam na portaria, bastando descer o elevador para votar. Ao longo da Avenida das Américas, ônibus foram disponibilizados para transportar eleitores às seções eleitorais mais afastadas. Mesmo assim, elas ficaram vazias. Quem teve de trabalhar como mesário classificou o plebiscito como “um verdadeiro tédio”.

Militantes do PDT, PMDB, PT, PC do B, PV e PSB trabalharam contra a emancipação, enquanto o Condomínio Nova Ipanema, onde morava o empresário Roberto Medina, era considerado um grade reduto do sim, de acordo com o JB.

 “Plebiscito não tem quorum e Barra continua carioca”, por Oscar Valporto
Jornal do Brasil, 4/7/88 – 1º caderno – 10a

Nenhum emancipacionista esperava ficar tão longe do quorum. Faltaram nada menos que 17 mil 761 votos para que o plebiscito de emancipação fosse válido, o que tonrou a apuração muito mais rápida do que a Justiça Eleitoral esperava. Exatamente às 19h32 de ontem, duas horas e meia antes de sua própria previsão, o juiz Hamilton Lima Barros anunciou o resultado do plebiscito: 5 mil 785 votos sim, 354 votos não, 69 nulos e nove brancos. O total de votantes foi de 6 mil 217, apenas 12.96% dos eleitores da Barra e um número bem abaixo dos 23 mil 978 votos (50% + um) necessários para que o quorum fosse atingido.

A derrota foi acachapante. Não houve sequer uma seção em que a metade dos eleitores aparecesse para votar. O melhor resultado do sim foi na 36ª seção, instalada no condomínio Nova Ipanema, onde mora o empresário emancipacionista Roberto Medina. Ali, votaram 113 pessoas das 500 inscritas na seção: 105 votaram sim e oito votaram não. Na outra ponta desse cabo de guerra, na 674ª seção, em Vargem Grande, votaram três gatos pingados: dois pela emancipação e um contra.

Com um quorum tão baixo, a contagem, feita pelos próprios mesários das seções, foi muito rápida. Às 17h20min, vinte minutos após o fechamento das urnas, o presidente da mesa da 11ª seção, Oswaldo Ferreira Neves, chegava ao Riviera Country Clube – onde os votos foram somados – com a urna debaixo do braço. “Numa eleição com tão pouca gente, nós tínhamos que contar rápido mesmo”, explicou o perito contador Oswaldo. Na sua seção, no condomínio Riviera Del Fiori, votaram 78 eleitores: 76 pelo sim e dois pelo não. Todas as seções têm, em média, 500 eleitores.

Derrotados antes mesmo da contagem, os emancipacionistas demoraram até mesmo a chegar ao salão do clube, que foi colocado à disposição do juiz Hamilton Lima Barros. Cada urna que era entregue aos representantes da Justiça Eleitoral tinha seu mapa conferido e, depois, a mulher do juiz, Berenice Barros, anunciava o resultado.

Para os emancipacionistas, os piores resultados vinham dos subúrbios. Em Vargem Grande, cada urna da escola municipal Professor Teófilo Moreira da Costa trazia uma má notícia. Além dos três votantes da 674ª seção, outras quatro seções – a 678ª, a 677ª e a 675ª – receberam apenas quatro votos cada. Na seção mais procurada de Vargem Grande, a 684ª, votaram 13 eleitores: 10 pela emancipação, dois contra e um anulou o voto. Em Vargem Pequena, o quorum também ficou em torno de 5%. Na seção mais procurada, a 686ª, votaram 35 pessoas (29 sim, 4 não e dois nulos). Na 683ª seção, a menos procurada, só 16 eleitores foram às urnas, 15 pelo sim e um pelo não.

Nem mesmo nos redutos da alta classe média, onde os emancipacionistas depositavam sua esperança, o comparecimento ao plebiscito foi maior. Pouco depois das 18h, o juiz da 7ª Zona Eleitoral, Siro Darlan, chegava ao clube com o resultado das 10 seções de sua zona que participaram do plebiscito e estavam sediadas no Itanhangá Golf Club e no Marina Clube. Dos 4 mil 454 eleitores das seções, votaram apenas 544 (12,2%): 499 pelo sim, 30 pelo não, quatro brancos e 14 nulos.

Os melhores resultados para os emancipacionistas vieram dos grandes condomínios mas mesmo assim o comparecimento foi pífio. Apenas seis seções receberam 100 ou mais eleitores: três em Nova Ipanema, uma no Novo Leblon, uma no Atlântico Sul e uma no Barramares. Era a vitória da estratégia de boicote na casa do adversário. No salão do Country Clube Riviera, os partidários do não antecipavam a festa enquanto esperavam o resultado oficial.

O anúncio final só demorou por causa do próprio desânimo dos emancipacionistas. Os juízes demoraram a encontrar um fiscal do sim para abrir cinco urnas em que os presidentes da seção haviam lacrado o mapa do resultado junto com os votos. Por volta de 19h20min, o juiz Hamilton pegou o microfone, e discursou para elogiar os partidários das duas correntes pelo “procedimento democrático”, a Polícia Militar e a Justiça Eleitoral, lamentar um incidente com uma equipe de TV e, finalmente, anunciar o resultado.

Depois, tudo foi festa. Os partidários do não gritavam “a Barra é do Rio” e o “Rio unido jamais será vencido”. O vice-prefeito Jó Resende, do PSB, abraçava o deputado Vivaldo Barbosa, do PDT. O deputado estadual Milton Temer (PSB) cumprimentava usa companheira de Assembléia, Jandira Feghali (PC do B). A administradora regional da Barra, saiu do salão carregada nos ombros dos vencedores. “Vamos comemorar”, conclamava Vera, enquanto tinha seu nome gritado pelos partidários do não. Com o filho pequeno no colo e a filha pela mão, o juiz Hamilton Barros Lima saiu cansado mas satisfeito com o trabalho. “Não houve sequer uma impugnação. Foi uma vitória da democracia”.

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O carnaval pelas ruas do Rio

24 fevereiro 2012 | deixe seu comentário (0)

Estou há uns bons dias afastados aqui do blog por uma razão compreensível - o carnaval, que me pegou de jeito esse ano. Nunca fui um fã da folia, mas foram tantas as boas companhias que era impossível ficar apenas um dia em casa sem dar uma volta pela cidade. O ambiente era propício para badalação, afinal, o Rio contou com metrô 24 horas, cerveja/refrigerante/água sendo vendidos a cada cinco passos, muita gente bonita, e um clima meio “sem regras” que a uns incomodou bastante, enquanto para outros, foi a deixa ideal para levar o divertimento ao cem por cento.

Aí vão os registros de alguns dos blocos pelos quais passei…

BENÇA! Em plena Avenida Rio Branco, no Centro, o Cordão do Bola Preta pedia passagem ao redor de uma multidão de foliões que se esbarravam o tempo todo, tamanha era a falta de espaço. Estimativas apontam o comparecimento por lá de cerca de 2 milhões de pessoas. Foi um dos blocos mais animados e repleto de figuras inusitadas, como o Preto Velho, que fez o maior sucesso entre a galera que vinha pedir-lhe a bênção.   

SÁBADO ATÍPICO. Observe o Largo da Carioca no mesmo dia em que saiu o Cordão do Bola Preta. O Centro do Rio nunca esteve tão cheio na manhã de um sábado como nesse dia.  

REFRESCA ALI! O clima “sem regras” que imperou na cidade  ficou bem retratado no bloco Sassaricando, que aconteceu na Praça Luiz de Camões, na Glória. O calor era tanto nesse dia (sábado 18) que não houve outra alternativa: o pessoal resolveu se refrescar no espelho d’água do Memorial Getúlio Vargas. Até porque, não havia espaço para tanta gente na praça; adentrar o laguinho foi o escape. A imagem não captou, mas, nessa tarde, alguns garotos também aproveitavam o espelho d’água com uma… boia de praia.  

BEATLES+SAMBA?! Na segunda-feira, o Aterro do Flamengo se viu tomado por uma multidão que foi para lá aproveitar um bloco aparentemente pretensioso, o Sargento Pimenta, que uniu canções dos Beatles ao nosso samba. Foi um dos maiores públicos desse carnaval, e pensar que, ano passado, ele saiu numa ruazinha no Humaitá, que parou a região de Botafogo por completo. Mesmo no Aterro, um parque espaçoso, sem residências nas proximidades, houve quem precisasse subir nas árvores para se acomodar. Eis o caso da Branca de Neve, que certamente dispensou a maçã pela cerveja.

IPANEMA. A tranquilidade da Praça Nossa Senhora da Paz tranformou-se em uma verdadeira festa noturna na noite de sexta, 17. O bloco foi a Rola Preguiçosa, nome que causou risadas em dois amigos suíços ao escutar a tradução. A Visconde de Pirajá ganhou ares de rave, embora o que tenha mais feito falta foram as portas abertas da Chaika, que sempre agraciou os foliões com seus sanduíches, tortas e o toalete salvador da pátria. A casa fechou recentemente.

* As fotos foram gentilmente cedidas pelo meu irmão Felipe, outro blogueiro, que escreve o charmoso Disegno à Milanesa.

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Metrô sem identidade visual

11 fevereiro 2012 | 5 comentários

É tanta a bagunça na organização das linhas e da sinalização que o metrô perde, aos poucos, suas referências


A estação Cinelândia do metrô, no Centro do Rio, passou por uma remodelação interna, com a inclusão de novos letreiros azuis. Mas a estação pertence à Linha Um, mais conhecida pela cor laranja. Afinal, qual a cor representativa?

No fim da década passada, as estações de metrô mais recentes da zona sul já contrastavam em estética e estrutura em relação às mais antigas. A estação Cantagalo, inaugurada em 2007, toda em tonalidades mais claras, esteiras rolantes, fotografias e citações artísticas pelas paredes, deixava a estação Botafogo no chinelo. A tal era simplória, meio cinzenta e com plataformas estreitas – uma das mais antigas do sistema.

Eis que começam as obras de reforma nas estações mais antigas, para igualá-las em aparência junto às novatas, numa forma de embelezar o eixo turístico metroviário. A primeira delas a ser repaginada foi a do Largo do Machado, por volta de 2008. Ganhou novo papel de parede com detalhes coloridos (que lembram fitas e confetes de carnaval, inclusive no assento de algumas composições), além de belas fotografias de atrações relevantes nos arredores, como o trenzinho do Corcovado e o Mercado São José, na Rua das Laranjeiras.

A estação Botafogo antes da “maquiagem”,
em 2009

Agora, o que chamou a minha atenção naquela época foi a mudança do design do letreiro, que são aquelas placas que indicam o nome da estação dentro da plataforma. A cor laranja, representativa da Linha Um do metrô carioca, foi substituída por uma espécie de azul meio claro, ou um ciano escuro. Juro que não entendi o porquê. Desde então, passei a ver com maus olhos essas reformas que, na verdade, não passam de maquiagens, pois em nenhum momento intervieram na estrutura das plataformas nem em escadas rolantes. No Largo do Machado, a velha e inseparável escada dos primórdios continua lá. E o colorido, de péssimo gosto, migrou para a estação Botafogo também.

Os letreiros sofreram uma mudança constante de tipografia. As placas tradicionais das estações mais antigas trazem o nome delas com um formato mais arredondado e, entre essas placas, numa altura mais baixa, instalaram outros letreiros, com outras tonalidades de cores. Isso é mais bem percebido na Linha Dois, onde se utiliza um verde escuro nas placas antigas e outro muito mais claro nas novas. Na reforma das estações Largo do Machado, Botafogo e Cinelândia, a tipografia também é diferente, além do inexplicável azul já comentado. Por que não padronizar?

A gambiarra do metrô, como ficou conhecida a implantação da Linha 1A no fim de 2009, que estica os trens da Linha Dois até Botafogo, também contribuiu para esse mafuá de sinalizações e cores atípicas do Metrô Rio. Diante da confusão diária de passageiros que se amontoam na plataforma da estação Botafogo em direção à zona norte, as plataformas agora são divididas justamente para equilibrar o público e evitar a balbúrdia. Na plataforma central, embarcam os passageiros em direção à Linha Dois, enquanto do outro os que querem manter-se na Linha Um, em direção à Praça Saens Peña.

Adesivos gigantes e coloridos foram colocados nas paredes da parte superior da estação, objetivando sinalizar qual escada o cliente deve tomar para tomar o trem adequado que o levará ao seu destino final. A tentativa é válida, mas questionável. E se o cara quiser ir de Botafogo para Carioca? Ele pode pegar ambos os trens. A partir de agora, fica-se limitado a escolher uma das plataformas – ou seja, uma das composições. Por outro lado, a Linha 1A não funciona nos fins de semana, apenas em casos excepcionais quando há um trem que sai de Ipanema direto para a Pavuna, de meia em meia hora. Deve ser pelo verão, que transporta uma quantidade considerável de cariocas da Linha Dois para a praia do bairro. Mantida a normalidade, a transferência continuaria sendo realizada no Estácio. Como turistas e clientes pouco assíduos do metrô deverão encarar tais sinalizações em Botafogo nos fins de semana e feriados que, efetivamente, só valem para os dias úteis? Jeito para isso tem, mas evidencia à beça a bagunça que é hoje o Metrô Rio.


A reforma da estação Largo do Machado em 2008 migrou para a estação vizinha de Botafogo, dois anos depois. A roupagem colorida remete ao carnaval, com faixas coloridas, mas não representa uma padronização de decoração do Metrô Rio em relação às estações mais novas.

#1 – A incompreensão diante do layout colorido de estações como Largo do Machado, Nova América-Del Castilho, Botafogo e Cinelândia persiste, pois estações mais novatas do sistema não entraram nessa “onda”. A General Osório/Ipanema, inaugurada em 2009, por exemplo, é bem sóbria em cores.

#2 – Em meados do ano passado, as chamadas de “próxima estação” foram modificadas, incluindo o jingle, que agora tem um jeito meio de bossa nova. O curioso é que a bossa nova traz uma sensação de calmaria, conforto, boa vida, que destoa totalmente do panorama do metrô nas horas de rush. Pessoas viajando esmagadas, empurra-empurra na estação Central… Acho que a música mais adequada seria “Eye Of The Tiger”, da banda Survivor, que eternizou o filme “Rocky III” e os episódios de Boxe Internacional, pela TV Globo.

#3 – Por estarmos na época de carnaval, a mesma chamada de “próxima estação” ganhou umas variâncias de jingle, dependendo da estação. Para dar publicidade ao funcionamento do metrô em toda a madrugada nesse período, surge a voz de um cara, no microfone, desse jeito: “próxima estação… Carioca… NOTA DEEEEEZZZ”, exatamente como na apuração do desfile das escolas de samba. Fanfarronice, mas bem divertida!

#4 – Nada fez mudar a decisão do Estado de mudar o projeto do metrô para a Barra via Humaitá-Jardim Botânico. OK, mas alguém acha mesmo que a ligação da Gávea à Ipanema vai ficar pronta até 2015? Tenho minhas dúvidas. Enquanto isso, a futura estação terminal (ou inicial) da Linha Um, Uruguai, na Tijuca, está sendo construída a todo vapor.

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Madureira menos cinza e mais ameno

09 fevereiro 2012 | 4 comentários

Um dos bairros mais simbólicos da zona norte está passando por uma profunda remodelação


Acima, a simulação de como ficará o Parque de Madureira: será o 3º maior parque da cidade, perdendo apenas para o Parque do Flamengo e a Quinta da Boa Vista.

Se nesse verão uma simples caminhada por bairros frescos, à beira da orla, já está insuportavelmente calorenta, experimente então embrenhar-se por regiões mais continentais ao norte carioca. O primeiro local que vem à cabeça como “lugar quente” é Bangu, na zona oeste, já cientificamente (e popularmente) comprovado como, de fato, quente. Porém, outro bairro mais ou menos nas proximidades também conquista o troféu de altas temperaturas com pouca vegetação. Madureira, berço do samba, área de comércio intenso, tem uma das taxas de urbanização mais altas, a de 99,93%, de acordo com matéria do Globo Online de 2010. O aspecto cinza de lá também contribui para que a sensação térmica não seja a das mais refrescantes. Todavia, temos mudanças à vista.

Está previsto ainda para 2012 – se o cronograma das obras não atrasar – a inauguração do Parque de Madureira. Vai ficar num terreno de 113 mil metros quadrados ao longo da Rua Conselheiro Galvão, por onde passa uma das linhas ferroviárias que cruza o subúrbio. Esse mesmo espaço era ocupado até então por uma pequena favela e por torres que sustentavam algumas linhas de transmissão da Light. Para maiores detalhamentos geográficos, o Parque de Madureira vai se espalhar, também, desde as proximidades do famoso Viaduto Negrão de Lima até a Rua Bernardino Andrade, já nos arredores do viaduto da Avenida dos Italianos. A vizinhança com as quadras da Portela e do Império Serrano também promete influenciar na estrutura do parque.


O detalhamento do projeto, que irá mudar consideravelmente a região de Madureira: a favela removida seria reassentada em área apropriada, junto ao parque.

Quiosques, quadras poliesportivas, deques de madeira, lagos, chafarizes, pista de skate, biblioteca, equipamentos de musculação, calçada da fama, heliporto… Eu poderia continuar enumerando todo o mobiliário que vai fazer parte do parque, mas ficaria um pouco cansativo. Acho que as imagens e o vídeo no Youtube já são autoexplicativas: é um projeto audacioso que remodelará profundamente a paisagem de Madureira, estagnada há anos, entregue à degradação urbana. Sem dúvida, um presente para os moradores, que nem sempre são agraciados  por boas conquistas perante a Prefeitura. Agora o grande barato mesmo ficará por conta da vegetação implantada, que poderá diminuir em até 5 graus centígrados a temperatura da região. Serão 21 500 metros quadrados de grama, 432 árvores e 194 palmeiras.

Em tempo: do outro lado do bairro, as obras da Transcarioca já estão modificando a paisagem da Rua Domingos Lopes. Grande parte dos imóveis foi desapropriada para a construção de um dos mergulhões do corredor viário sob o Largo do Campinho, sem mencionar a duplicação do Viaduto Negrão de Lima. De negativo, por enquanto, só o trânsito, que ficou caótico por motivos compreensíveis, embora esteja sendo muito mal administrado pelos controladores de tráfego.


Vista aérea do futuro parque, junto à linha ferroviária. A foto é de Luis Alvarenga, do jornal Extra.

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Um passeio pela Vila da Penha

01 fevereiro 2012 | 3 comentários

Acompanhe a expedição pela “particular” Avenida Meriti e as ruas Professor Paula Aquiles e Paula Barros, na Vila da Penha  


O entorno das ruas fotografadas, que ficam bem próximos à Praça Aquidauana e o Carioca Shopping.

por Pedro Paulo Bastos

Para os maus conhecedores da geografia carioca, os bairros da Penha, Penha Circular e Vila da Penha poderiam ter o mesmo significado e localização. Afinal, “é tudo Penha”. Certo, agora vá falar isso para um morador da Vila da Penha, e veja como ele vai reagir. Já não é mais nem a questão de discordar da afirmação, e sim de agradar ou não ao ego do cara. Isso porque, hoje, a Vila da Penha é um bairro cheio de pompa dentro do subúrbio, um lugar que respira qualidade de vida dentro de uma região da cidade que fora bastante maltratada ao longo dos anos. Não possui a mesma tradição que a Penha, nem o ar meio apagadinho da Penha Circular, mas tem vida própria, um shopping próprio em suas imediações, uma quantidade razoável de lançamentos imobiliários e uma galera bastante orgulhosa de morar onde mora. Um verdadeiro oásis no subúrbio da Leopoldina.

Prédio na Rua Paula Barros,
visto através da Prof. Paula Aquiles

Minha relação com a Vila da Penha é praticamente nula, embora tenha passado muito por lá de carro com o meu pai em função do seu emprego, que o faz rodar toda a cidade. Desde cedo aprendi a diferenciar as paisagens dentro da zona norte pelos bairros. Por vezes, elas parecem homogêneas, muito constantes, e do nada aparece um ou outro lugar mais arrumadinho que chame a atenção. Vicente de Carvalho, por exemplo, tem um aspecto mais favelizado. Desloque-se para os arredores da Praça Aquidauana, bem próximo ao metrô, que a coisa começa a mudar de figura. Por lá é a divisa com a Vila da Penha, com suas transversais ao longo da Avenida Meriti. Tem outra rotina, outro cenário, bem menos depredado que o primeiro. Sempre reconheci isso pela janela do carro, e venho acompanhado desde então, pelos jornais e pela internet, a evolução da qualidade de vida por essas bandas.

A rua mais famosa de lá, sem dúvidas, é Avenida Oliveira Belo, que tem quase a mesma função que o calçadão de Copacabana nos dias de domingo.  A avenida fica fechada e vira espaço para lazer e prática esportiva. Essa, aliás, é uma das minhas memórias (automotivas) pela Vila da Penha. No entanto, para o meu registro fotográfico, eu fui à Rua Professor Paula Aquiles em busca de uma paisagem mais típica e residencial. Comecei a caminhada a partir do seu início, na esquina com a Rua Engenheiro Lafayete Stockler, que tem um paredão cinza cheio de propagandas grafitadas no estilo “Vovó-de-Não-Sei-das-Quantas-traz-seu-amor-em-3-dias”.  É feio, mas um cenário bastante recorrente nos muros do Rio.


O trecho inicial da Rua Professor Paula Aquiles: residências espaçosas, jardins e o Clube Beneficente dos Sargentos da Marinha, em letreiro azul. 


No cruzamento com a Rua Marco Pólo, o típico comércio regional, formado pelo Bar do Kabeça e um açougue.

Exatamente nessa esquina, já se depara em meio a telhados baixos o símbolo dos tempos modernos: um edifício novato, de varandas, voltado para a classe média. Nessa parte da zona norte, a verticalização ainda é tímida, fazendo com que tais edifícios residenciais se sobressaiam por destoarem do padrão. Além disso, acostumado a ver muitas casas pichadas e mal conservadas pelo subúrbio, fiquei surpreendido com a qualidade das residências ao longo da Rua Professor Paula Aquiles nesse primeiro trecho.  São casas grandes e espaçosas, a grande maioria com jardins e muro baixinho. Umas mais modernistas, outras mais tradicionais, com a imagem do santo protetor no topo da fachada. Até mesmo pela calçada há a presença de seguidos canteirinhos com árvores pequenas, que ornamentam a rua de forma simpática. Os poucos edifícios que têm por ali são mais antigos, desses sem elevador, além do Clube Beneficente dos Sargentos da Marinha, que parece agitar a calmaria da rua em dias de eventos.

O cruzamento com a Rua Marco Pólo tem um lado comercial forte, de apelo mais regional. Sob um pequeno prédio velho, cuja fachada mal cuidada acentua ainda mais os anos vividos, funciona um açougue cheio de cartazes informando o preço da margarina e das coxas de frango. As amendoeiras na parte frontal do açougue crescem timidamente com suas raízes pelas calçadas, onde também ficam bicicletas -soltas ou presas- enquanto os fregueses vão às compras. Na calçada ao lado, o Bar do Kabeça anuncia, num painel portátil de lona escrito à giz, os pratos do dia: peixe com legumes ou carne assada com espaguete, por simbólicos R$ 8. O cheiro é bom, mas as mesas ainda estavam vazias. Uma enorme casa amarela faz jus à quantidade de placas ao longo da rua indicando sua localização. Ali funciona a fábrica e o show-room da loja Floresdama, que confecciona flores plásticas, réplicas aquáticas, produtos para pássaros, flaconetes para perfumes e flores em tecido. Dei uma olhada por dentro e realmente o ambiente é espaçoso e convidativo. Fica a dica!


O galpão onde funciona a Floresdama, especialista em flores plásticas, e uma das casas charmosas na vila particular da Avenida Meriti .


O panorama da vila particular situada à Avenida Meriti, que interliga as ruas Professor Paula Aquiles e Paula Barros. À direita, as barras de ferro que sinalizam, de forma improvisada, o caráter particular da rua.

 

O fim da Rua Professor Paula Aquiles é muito mal sinalizado. Aliás, não vi a presença de nenhuma placa-pirulito nos arredores; você tem que caçar as placas de parede para situar-se. Nesse caso, a má sinalização por ali é um pecado pois o que parece ser o trecho final da Professor Paula Aquiles, na esquina com a Avenida Meriti, na verdade, trata-se de uma vila particular. O desenho do mapa pode te fazer entender – o conjunto de ruas está grafado em cinza. A continuação da Rua Professor Paula Aquiles seguiria até a Avenida Meriti, mas justamente esse trecho, inclusive a transversal que finda na Rua Paula Barros, faz parte de um terreno particular, que tem como endereço a Avenida Meriti! Foi muito difícil de entender o porquê disso, pois a rua é aberta ao público, e geralmente vilas são protegidas por portões. De um lado, sim, vê-se um portão, e do outro, nenhum. 

No entanto, no encontro com a Rua Paula Barros, o caráter de “vila particular” é comprovado pela existência de barras de ferro que impedem a passagem de veículos. Enfim, uma dinâmica meio complicada de se entender, mas merecedora de respeito. Por ser vila particular, as casas são ainda melhores e muito bem cuidadas. Muitas delas, já pela fachada, se declaram espaçosas; outras foram construídas em terrenos mais estreitos, o que lhes confere um ar de mais aconchego. Não posso esquecer de elogiar a limpeza dessa rua – acho que o único fator negativo dali seriam os matinhos já razoavelmente altos pelo meio-fio, o que não é tão negativo assim para falar a verdade.

Estiquei meu roteiro pela Rua Paula Barros, essa sim uma rua mais verticalizada, e pela aparência, a transformação é de data recente. Um imponente prédio vermelho margeado por pequenas palmeirinhas bem encaixadas em quadrados verdes abre um clarão (ou um vermelhidão)  à via.  Os prédios se repetem, com a diferença de que a ausência de tráfego exporta todo o som dos apartamentos e casas para a rua. Em uma varanda, escutava-se uma animada conversa telefônica de uma senhora. Na outra, mais adiante, um sambinha em volume considerável ao realizar das tarefas domésticas. Tudo muito saudável. Ciente de que meu passeio já estava concluído, retornei à Avenida Meriti, onde fica o Carioca Shopping, por sinal, e lá, outros sons me detiveram: o das kombis, com o anúncio estridente dos seus itinerários. Isso sim é prejudicial aos ouvidos…

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