Essas passarelas…

31 janeiro 2012 | 6 comentários

… que são mal cuidadas, sujas, sucateadas e que em nada ajudam a valorizar o visual carioca


As barras superiores de uma das passarelas da Avenida Radial Oeste: encardidas.

É quase um consenso entre os cariocas de que as famosas passarelas são uma agressão ao paisagismo da cidade. Usadas como travessia de pedestres sobre avenidas largas e de grande movimento, as passarelas não seguem lá muito os critérios de estética. São projetadas e encaixadas no local de necessidade, apenas isso. Uma alternativa a elas são as passagens subterrâneas. No Rio, a maioria está concentrada em Botafogo, na zona sul, como a passagem sob a Avenida Lauro Sodré (a do shopping Rio Sul) e outra sob a Praia de Botafogo, interligando as diversas pistas até a Enseada.

Um ponto em comum entre as passarelas e as passagens subterrâneas, além do propósito, é o mal que atinge às duas: a falta de conservação. Da zona norte à zona sul, ambas estão sujeitas à má administração de equipamentos urbanos importantes como esse.

Inaugurada há dez anos, em 2002, a passarela que conecta o bairro do Maracanã à estação São Cristóvão do metrô, sobre a Avenida Radial Oeste, nasceu com um aspecto modernoso, clean e confiável. Porém, nos dias atuais, as barras de ferro brancas estão mergulhadas em poeira das pretas, muito densa, conferindo-lhe uma aparência encardida, cheia de marca de mãos. Por toda a estrutura é possível avistar a descamação da tinta branca com a consequente deterioração do ferro. Pela ação da água, as vigas receberam um tom meio alaranjado, o que evidencia a má qualidade do material utilizado. Já na parte debaixo, próximo à Rua General Canabarro, a base da passarela parece ter sido completamente pichada. Houve o conserto do vandalismo, é válido dizer, que não passou de uma mãozinha de tinta cinza, numa passarela que é branca. Brincadeira, não é?

Na zona sul, as passagens subterrâneas de Botafogo estão tão encardidas quanto a do Maracanã. Mesmo a do Rio Sul, outrora sinônimo de segurança e limpeza, anda em estado um pouco lamentável; pede socorro porque já passou do prazo de validade. Enquanto isso, no subúrbio, o famoso “Buraco do Padre”, que liga os dois lados do Engenho Novo cortados pela via férrea, continua o mesmo já há, pelo menos, umas cinco décadas.

Não tem rua do Rio que fique bonita com esses monstros.

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Se essa calçada não fosse minha…

23 janeiro 2012 | 5 comentários

De acordo com a Lei das Calçadas, o proprietário é o responsável pela conservação da parte frontal da “sua” calçada. Isso é justo?



Pedras portuguesas, cimento, placas de concreto, tijolinhos, degraus desnivelados… As calçadas cariocas são constituídas de diversos materiais que lhes atribuem diferentes tamanhos e estilos. Não que a variabilidade de modelos seja um fator de ajuda ao nosso título de cidade bonita, multifacetada, versátil… Pelo contrário. Isso acontece porque o Decreto nº 29.237 de 29/04/2008 reforça a obrigação dos condomínios e proprietários em manter a conservação e limpeza de suas calçadas nas áreas frontais aos imóveis. Ou seja, o passeio de pedestres não está sob responsabilidade da prefeitura, mas sim do particular, que vai cuidar (ou não) do que lhe é obrigatório. E, mesmo assim, se o fizer, recorrerá a um profissional qualquer, que realizará seu trabalho da forma como achar melhor. Eis a razão deste carnaval urbanístico.

Em geral, ruas mais verticais do que horizontais (isto é, prédios versus casas) costumam ter calçadas mais bem cuidadas pela facilidade que os condomínios têm em arrecadar dinheiro dos moradores para tais reparos. Em ruas onde se predominam as casas, a situação pode ser calamitosa, pois os custos são inteiramente individuais. Mesmo em bairros de classe média, onde se supõe que o proprietário possa arcar com as despesas, por vezes, as calçadas ficam abandonadas. Descaso? Pode até ser, embora em muitas das situações o descaso seja menor do que o temor em ver o investimento “perder-se” no tempo.

Tendo em vista que, tanto a rua como a calçada, são passagens públicas (salvo em algumas situações), cobra-se de nós o reparo delas uma vez em que não está ao nosso mesmo alcance a sua conservação/manutenção justamente porque ela é… pública! Acabei de germinar o canteiro em frente à minha residência, nivelei o piso, removi as tão nocivas pedrinhas portuguesas, fiz tudo bonitinho. Como impedir que um cidadão não destrua tudo isso, como costumam fazer certos vândalos, se não tenho força para coibir? Como deter esse pessoal mal educado que leva seus cãezinhos para passeio e deixam as “lembrancinhas” bem na calçada do seu prédio ou casa? Antes que me chamem de injusto: como impedir que a prefeitura ou qualquer empresa prestadora de serviços à sociedade não interfira na minha calçada, com postes, fiações, bueiros, entre outros et ceteras? É o que mais acontece. E nem sempre o proprietário é reembolsado ou recebe um serviço igual ao anterior, realizado com o dinheiro saído do bolso dele.

 

Grande parte das calçadas no subúrbio é como você pode ver na imagem acima. Observe a que margeia a linha ferroviária, quase inexistente. Quem é o responsável? Por que não padronizá-las? 

 

Ressaltando a observação inicial, as calçadas costumam ser menos piores nos bairros mais ricos e organizados, e péssimos nos bairros menos privilegiados. Contudo, no último dezembro, a Secretaria Municipal de Obras (SMO) andou intervindo nas calçadas do Recreio dos Bandeirantes, na zona oeste do Rio, com o objetivo de padronizá-las. O novo passeio, que incluiu pavimentação, drenagem e serviços de urbanização para 18 ruas de lá, passou a contar com altura pré-determinada em relação à via, placas de concreto, e tijolos vermelhos enfileirados, preenchidos por areia e compactação. A medida, no entanto, não agradou aos moradores do bairro, que alegaram tal obra ser um “desperdício de dinheiro público”, já que as calçadas estavam em perfeitas condições. A SMO, em resposta, disse que “é um pacote de melhorias para o bairro”.

Sem questionar o tipo de material usado (se é perigoso ou não, devido ou indevido, essas coisas), a padronização das calçadas é um tipo de ação que deveria se alastrar para toda a cidade. Da mesma forma que foi a polêmica sobre a padronização dos fradinhos, que não vingou muito, essa Lei das Calçadas deveria ser revista não só por motivos de segurança do pedestre, mas também por questões de estética e de controle da ordem urbana. Não que eu defenda a ocupação de mesas e cadeiras de restaurantes nas calçadas, mas se esse é um trecho que pertence ao proprietário, que direito, na teoria, tem a prefeitura de intervir nessa expansão dos bares em Ipanema, por exemplo? São ideias conflituosas.

Outro conflito é o da padronização de calçadas no Recreio dos Bandeirantes. É certo que, aparentemente, as obras se deram por intervenção da prefeitura em questão de urbanização mesmo, já que o bairro teve uma ocupação mais tardia em relação aos demais. A questão que se deve atentar é ao fato de que o Decreto nº 29.237 de 29/04/2008 exige do proprietário a manutenção das calçadas, que isso é dever dele. Logo, qualquer intervenção padronizadora em calçadas pela prefeitura em outros bairros do Rio, sem uma razão relevante por trás, precisa ser fiscalizada pela população e exigida a sua expansão para todas as outras regiões. Todos querem “melhorias”, da Gávea à Mariópolis, de Santa Cruz à Santa Teresa. Ainda mais em calçadas, esse pedacinho da rua que é nosso (se eu pago, é meu, oras) e que, incrivelmente, todo mundo destrata.

——–

* Originalmente previsto na Lei Municipal nº 1.350, de 1988, e emitido em razão da ineficácia do Decreto nº 18.571, de 2000, que regulamentou o dever dos proprietários em conservar as calçadas diante de seus imóveis. O Decreto nº 29.237 reforça essa exigência sem prever multa cabível na hipótese de conservação inadequada, embora haja a possibilidade de aplicação de multa, conforme a redação do Artigo 1°, § 4°, do Decreto 29.237. 

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Ciclovias em túneis – é possível?

15 janeiro 2012 | 4 comentários

Essa é uma das perguntas que mais tenho feito a mim mesmo desde que adquiri minha primeira bicicleta pós-infância, há poucas semanas. Desbravar as ruas do Rio sob outra perspectiva, a da bike, é fantástico. Por outro lado, esbarra-se em problemas urbanos ignorados pelos não-adeptos-do-melhor-transporte-do-mundo, que é a insuficiência do número de ciclovias, o pouco respeito entre motoristas, ciclistas e pedestres, e o uso da bicicleta para fins além do lazer.

Uma das questões que permeiam as discussões de que as cidades sejam mais sustentáveis é o abandono gradual dos veículos poluentes em favorecimento da bicicleta, tal como se faz em Amsterdã e Copenhague. No Rio, embora nossa estrutura para bicicletas nas ruas seja muito ruim, já existe essa preocupação, não só pelo apelo de cidade-natureza que temos, bem como pelos agravantes índices de engarrafamento já notados nos últimos anos.

Recomenda-se o uso da bicicleta para ir e voltar ao trabalho, e as empresas mais descoladas já estão instalando bicicletários e vestiários para os funcionários. “Descoladas” porque, sim, a bicicleta ainda é vista como um meio de transporte exótico quando utilizada para compromissos importantes do dia-a-dia. Também, pudera! Grande parte das ciclovias se restringe a margear a orla, principalmente porque sua principal malha, em escala macro, está concentrada nos bairros banhados pela Baía de Guanabara e pelo Oceano Atlântico. Mesmo assim, essas ciclovias não se conectam com as ruas internas dos bairros, nem com o Centro da cidade, nem com outras zonas. O mesmo acontece com as novas (e tímidas, mas não menos bacanas) ciclovias que estão sendo construídas nas zonas norte e oeste. É o típico caminho que não é contínuo; conta apenas com uma placa de retorno ou um bicicletário ao término da faixa exclusiva. Sua parada final.

Partindo da hipótese de que estamos crescendo nossa malha de ciclovias, que em poucos anos esta triplicará, que estamos construindo um modelo de cidade mais sustentável, resgato o título deste texto: por que não adaptar os túneis para o uso das bicicletas? Se a ideia é que se pedale para quaisquer tipos de compromissos, os túneis cariocas deveriam preparar-se para esse novo tipo de veículo que passaria a percorrê-los. Afinal, um dos grandes baratos da bicicleta é a certeza de que ela não ficará presa em engarrafamentos, como os carros. Faz-se percursos em menor tempo, e, por vezes, encurta distâncias, pela facilidade de locomoção em função do tamanho diminuto. E quem melhor do que os túneis para colaborar no encurtamento das distâncias?

Esse é um palpite meu, de quem acredita que é possível, nas próximas gerações, unir tecnologia com ciclovias. E com ambientes fechados, como os túneis, que são altamente poluentes. Imagina um ciclista atravessar o Túnel Rebouças em toda sua extensão, de 2 800 metros, com aquelas paredes encardidas, cheias de fuligem. Começo a tossir só de pensar nessa experiência. Mas que seria uma opção de caminho (muito) mais rápida para quem mora na região da Lagoa ir para o Centro ou o Maracanã, e vice-versa, sim, seria. Contudo, do jeito que é, chega a ser  impossível pensar numa ciclovia ali. O mesmo com todos os túneis do Rio tão extensos quanto, muito antigos, todos moldados sob a ótica da política rodoviarista de transporte.

Agora, uma coisa que eu não consigo entender é como as obras mais recentes na cidade, como a do Túnel da Grota Funda, prestes a ser inaugurado, não contemplará ciclovias no seu interior. Pelo menos não se comentou nada à respeito até agora. O motivo do meu não entendimento é justamente por estarmos em 2012, numa época onde as tecnologias estão cada vez mais avançadas, e o discurso da “cidade sustentável” mais forte do que nunca. Falando em tecnologia, o próprio túnel vai ser o mais moderno da cidade, com toda uma parafernália de acessórios simpática e necessária para que passagens subterrâneas sob morros sejam menos claustrofóbicos e limpos. Ideal para ciclistas. Ainda mais numa região onde se supõe que o uso de bicicletas seja bastante comum – Recreio dos Bandeirantes e Barra de Guaratiba, dois bairros litorâneos.

A esperança para os próximos anos é de que a inclusão dos túneis no caminho das ciclovias, mesmo os de maiores comprimentos, como o Rebouças, Santa Bárbara e Zuzu Angel, seja efetiva. Ou melhor, que se desenvolvam pesquisas (se é que já não existem) no que tange à melhor adequação de ciclistas em ambientes fechados, seus impactos na saúde e como atenuá-los. Para isso, uma grande remodelação desses se fará necessária, e estão mais do que na hora, pois são velhos e sujos demais. Quanto aos túneis novos, é imperdoável que ainda não se tenha pensado nisso.

Post-scriptum: O ciclista da ilustração no topo do post é de autoria da Alline Pontes, que gentilmente me emprestou  a sua imagem para que eu pusesse aqui. Ela é de São Paulo, desenhista industrial, habilitada em programação visual, e faz várias animações com desenhos simpáticos como esse.

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Uma “gringa” que sabe à beça de Rio

10 janeiro 2012 | 3 comentários
Reprodução do “questões estrangeiras”, da Flora

Um dos blogs mais divertidos que eu vinha acompanhando nesses últimos meses era o “questões estrangeiras“, que acabou no último dia 3 de janeiro. Era escrito pela estudante americana da Princeton University (e intercambista no Rio) Flora Thomson-DeVeaux, no site da revista “Piauí”. Os textos, em inglês, apesar do ótimo português da Flora, relatavam suas peripécias pela cidade maravilhosa, seu relacionamento com os cariocas, e interessantes análises sobre cultura popular brasileira dos anos 20, tema de sua pesquisa acadêmica.

Identificava-me com grande parte do que ela escrevia, principalmente quando se metia a falar das ruas do Rio, como em 6 de dezembro, na postagem “Stuck in traffic” (Preso no trânsito). Através da janela de um ônibus, tomado na Rio Branco às 18h30, Flora foi descrevendo as alterações de paisagens, sons e sensações ao longo de todo o percurso até chegar ao seu destino, algum bairro da zona sul, onde esteve morando. Mesmo que tenha o dom de escrever bem, a essência genuinamente carioca captada por ela é fantástica. Poucos turistas/intercambistas têm uma percepção mais apurada da cidade, menos superficial, pelo menos de todos os que eu tive a oportunidade de conhecer até agora. Flora é crítica, mas não é chata; vê nossas particularidades sociais e urbanas como… particularidades. Merecedoras de respeito.

Agora, o grande barato do recente-extinto “questões estrangeiras” foi a postagem de 13 de outubro, “The true meaning of children’s day” (O verdadeiro significado do dia das crianças). Foi um de seus textos mais longos, e dos mais empolgantes para um flâneur como eu. Ultrapassando qualquer barreira cultural e geográfica, superando quaisquer expectativas e estereótipos do “gringo” clássico que, à zona norte, só vai ao máximo tirar uma fotinho no estádio do Maracanã, Flora foi fazer uma visita à Igreja da Penha. Sozinha, instigada pela curiosidade de saber que castelo em cima de uma colina era aquele, avistado pela Linha Vermelha no seu caminho ao Galeão.

O relato foi ácido, mas sem preconceitos. Pelo contrário; Flora fez uma análise bastante verdadeira sobre as diferenças entre zona sul versus zona norte, não no sentido de “nossa, que lugar horroroso” como muitos discursam, mas sim na forma como a paisagem urbana e os serviços se constituem distintamente. Muuuui distintos. Como ela mesmo disse, “(…) whenever I catch a train out of Central do Brasil, I’m newly stunned by the vast span of the city. And Zona Norte is a different city“. A partir daí, rolam descrições apuradas sobre a sua chegada ao alto da igreja, novamente suas sensações, o atendimento um pouco negligente dos funcionários, o perfil dos visitantes, e o museu decadente, despreparado.

Aliás, reclamações sobre museus, até mesmo na zona sul, foram constantes no blog da Flora, e com razão. A menina vem para cá pesquisar sobre Carmen Miranda, quase seu país natal, e se depara com um decepcionante, minúsculo e pouco divulgado centro cultural, que até eu, carioca de carteirinha, desconhecia. Se esse, que fica na Avenida Rui Barbosa, é assim, imagina o Casa dos Milagres, no alto da Penha.

Enfim, há muitos textos bacanas escritos por ela que valem a leitura (dificuldades com a língua inglesa podem ser resolvidas com o nosso amigo Google Tradutor!). Para quem acompanhou a polêmica, ela é a autora da crônica que descrevia a rotina numa universidade brasileira, mais especificamente a PUC, onde esteve como intercambista. Foi um estardalhaço (relembre aqui), começaram a “meter bala” no nosso sistema educacional, fizeram reportagens com outros estrangeiros para que eles dessem suas opiniões sobre, e a conclusão, já suspeitada, foi a de que faculdade aqui parece festa. A poeira abaixou e as clássicas choppadas universitárias não cessaram.

Meus respeitos e singelos elogios à Flora, que mesmo participando de tantos feriados, festas, com pessoas irresistivelmente hospitaleiras (como nós!), e um sem-fim de atrações que o nosso Rio oferece, ao que tudo indica, conseguiu levar a sério seus estudos e pesquisas por aqui. E ainda deixou um legadaço, que foram seus textos e, que curioso!, suas dicas de lugares no Rio. Eu nunca fui ao Real Gabinete Português de Leitura – ela sim, e escreveu à respeito de lá, assim como dezenas de outros locais que eu ignorava. Minha perspectiva em relação ao Rio ficou mais ampla, graças a uma “gringa”. Obrigado, Flora.

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Samuel Morse, Senador Euzébio e Cruz Lima

03 janeiro 2012 | 3 comentários

Conjunto de ruas no coração do Flamengo conserva e retrata bem os tempos áureos do Rio


O ano é 2012, mas a paisagem de algumas ruas do Rio ainda poderia corresponder aos anos 30 e 40 se não fossem os automóveis do século XXI e o vestuário descolado dos pedestres. Basta jogar um efeito vintage do Photoshop em fotos atuais da Rua Samuel Morse, no Flamengo, que o leitor poderá se convencer rapidamente de que o registro se passaria perfeitamente como antigo. Não, não é. Graças à belíssima arquitetura do conjunto de ruas formado pela Samuel Morse, Senador Euzébio e Cruz Lima, é possível caminhar por um Rio de Janeiro daqueles tempos áureos, que esbanja história, sem precisar de máquina do tempo.

A esquina da Rua Samuel Morse com a Avenida Osvaldo Cruz, para mim, é uma das mais simpáticas da cidade. Não só porque a iluminação local parece estar sempre nublada, devido ao mar de árvores que proporciona sombras em todas as épocas do ano, como também pelo desenho ímpar dos edifícios do Flamengo. Na citada esquina, a imponência da portaria do edifício que fica ali me causa certa excitação pela beleza estonteante. Sustentada por duas colunas, tem um vão interno por onde supostamente passariam os automóveis a fim de que os passageiros desembarcassem. O desenho do portão de ferro é todo moldado em detalhes sinuosos, agraciado por uma escadaria de quatro degraus que vai se abrindo de cima para baixo, margeada por corrimãos de bronze. Edifício muito classudo. Desse tipo, só se vê no Flamengo ou em Copacabana, lá pelos lados da Avenida Rainha Elizabeth.

A Rua Samuel Morse é bem pequenina e termina na confluência das ruas Gabriela Mistral, outra ruazinha simpática e bem miúda, e Senador Euzébio, por onde continuei minha expedição, embasbacado pelo que via adiante. Desculpem-me os pouco apreciadores de arquitetura, mas não posso deixar de falar dos edifícios gêmeos Hicatú e Itaiúba, construídos em 1933, que são os mais bonitos e elegantes que já vi do gênero art déco. Uma vez li sobre um arquiteto que falava sobre a hipervalorização da arquitetura antiga em detrimento da atual, principalmente nessa polêmica das grandes urbes em demolir ou não imóveis antigos para levantar novos. Que não era bem assim, que o que se projeta e constrói hoje tambem é digno de valor e de beleza. Há controvérsias, é claro, e depois desse relato eu comecei a ser mais tolerante com esses blocos de concreto espelhados que andam pululando pelo Rio. Mas nada, nada vai tirar nem substituir o charme do art déco carioca, por mais ultrapassada e pouco sustentável a sua estrutura possa ser para a época de agora.



E não é só a fachada dos edifícios que te traz a sensação de estar no Rio de meados do século XX. Esse pedaço do Flamengo, apesar do luxo exaltado, tem cheiro e cores de ruas velhas, que beiram a decadência. Os próprios gêmeos, Hicatú e Itaiúba, por exemplo, carregam um aspecto encardido, e mesmo assim são os dois cheios de pompa. Quanto ao olfato, o odor do velho lembra naftalina, paira no ar e torna-se mais acentuado quando os portões das garagens se abrem ou fecham. É como se fosse bafejado um hálito nostálgico de dentro desses prédios. Isso contamina toda a Rua Senador Euzébio, já escurecida pela ação dos anos em suas marquises e postes. Essa essência não é captada facilmente, e talvez nem exista, podendo ser fruto da minha imaginação. Como eu me aprofundo demais em cada detalhe das ruas que visito – só na Samuel Morse, a rua pequenininha, fiquei uns 30 minutos olhando, olhando e olhando –, meus sentidos acabam ficando mais aguçados, modéstia à parte.

No final da Rua Senador Euzébio, vê-se o resquício de uma antiga luminária toda cheia de estilo, destoando dos postes cinzentos e feios mais atuais, e a fachada do Hotel Argentina, bonitinho, mas pouco badalado. Aliás, os hotéis do Flamengo têm esse aspecto meio low budget. Gosto de todos eles, principalmente do Paysandú, na rua de mesmo nome, que serviu de hospedagem para a seleção do Uruguai na copa de 50. Se fosse turista no Rio, optaria por quartos nessa região do Flamengo. Não tem jeito, meu lado conservador fala mais alto nessas horas.

Entrei, por fim, na Rua Cruz Lima em direção à Praia do Flamengo. Essa rua também é tão bacana e aconchegante quanto as outras percorridas. No entanto, diferente do Hotel Argentina, temos ali o Golden Age Intelligent Flat, mais modernoso na aparência e no nome, em inglês – idioma obrigatório nessa “arquitetura contemporânea”. A sensação de velharia voltou logo em seguida ao passar pela vitrine do antiquário-brechó Andaças e Lembranças, no número 25 da Cruz Lima. Meti discretamente o rosto para dentro da simpática loja e por um momento pensei: “tudo o que esses prédios antigos do Flamengo já abrigaram de objetos e vestuários luxuosos devem estar aí”. São muitas roupas, castiçais e algumas bonecas de porcelana. À mulherada que curte, acho que vale a pena dar uma passeada por lá.

Chegando ao final da Cruz Lima, a calçada fica estreitinha, coberta por um antigo desenho de pedras portuguesas. Duas margens de pedras pretas recheadas por uma sucessão de losangos na cor vinho, realçadas pelo fundo branco das pedras brancas. De um lado, um fusca vermelho. E na minha frente, uma autêntica luminária antiga – dessa vez, inteirona! Não é possível… Que belezinha! Tudo combinando com o Edifício Dumont, o dono do pedaço, charmosão, mas meio decadente. O contraste da portaria elegante com os fios soltos de uma antiga lâmpada da própria fica ainda mais triste com a sujeira do entorno. Não faz mal, ele é bonito de qualquer jeito! E a luminária-belezinha, mais ainda. Saí de lá com várias fotos dela, de todos os ângulos.

 

 

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