Meu Aterro

26 novembro 2011 | 1 comentário

O final do Aterro do Flamengo, para quem vem da zona sul, na altura do MAM.

O nascimento do Aterro: Reidy e Burle Marx.

Ainda recordo como se fosse ontem aqueles letreiros em neon no topo dos edifícios da Avenida Augusto Severo, no Centro. Mesbla e Melitta são as primeiras marcas que me vêm à cabeça, as que eu definitivamente não consigo esquecer. Havia relógios digitais também, realçados melhormente pelo roxo do início da noite, oferecendo um aspecto todo luminoso de cidade grande a uma paisagem monumental, verde, nada cinzenta. A luzinha dos faróis, pertencentes aos carros enfileirados, num intenso movimento de volta para casa, também ficavam em evidência através da janela traseira do carro do meu pai. Eu podia vê-las todas assim de longe, graças à sinuosidade da Avenida Infante Dom Henrique, a que margeia o Aterro do Flamengo.

Na chegada à Enseada de Botafogo, mais luzes, mais outdoors, mais carros. O Botafogo Praia Shopping não existia ainda, mas lembro-me perfeitamente do Mourisco, de novos letreiros digitais (um da antiga ATL, se não me engano, e outro do Itaú) e dos ciclistas, tão abstraídos daquele estresse pós-expediente. Na minha cabeça de criança, achava curioso aquele bando de gente correndo, se exercitando, ou relaxando, ao lado de um outro bando, mas esse cheio de gente preso em seus carros, aflito para chegar nos seus locais de destino. No Aterro era ainda mais instigante por ser uma pista expressa, como se não combinasse a integração de uma área de lazer com uma de automóveis em alta velocidade. Quando o trânsito pesava na Enseada de Botafogo, em direção ao túnel que leva à Lauro Sodré, meu entretenimento era observar essa galera toda “do lado de lá”, ao som de alguma estação de rádio no estilo notícias+músicas calmas, ainda que a pista sentido Centro estivesse ocupando parcialmente meu campo de visão.

As viagens entre o Centro e a zona sul eram mais interessantes (e até mesmo poéticas) quando optávamos seguir pelo Aterro ao invés dos túneis. E a minha fascinação por ruas da cidade foi só vir à tona na adolescência. O Aterro continuou sendo um dos meus lugares preferidos para admirar, agora, bem mais da janela dos ônibus do que do carro do meu pai. Sair do mergulhão da Praça XV, ultrapassar o Santos Dummont e vislumbrar aquele horizonte aberto, cheio de árvores e monumentos diferentes, é de tirar o fôlego, ainda que eu não admita. É uma paisagem levemente desconcertante, que faz com que eu largue qualquer livro que esteja lendo para apreciar melhor o que há pela frente. Se alguém ousar conversar comigo nesse momento, perceberá meu incômodo ao ter de compartilhar minhas atenções.

É um lugar já visto dezenas de vezes e que nunca causa-me indiferença em percorrê-lo uma vez mais.

As passarelas ao longo do Parque Brigadeiro Eduardo Gomes, vulgo Aterro, são de uma tremenda delicadeza, principalmente à noite, quando recebem iluminação própria. Luz verde, se não me engano. Até pouco tempo era assim. É certo que provoca uma certa comoção ao passar por debaixo delas. Na verdade, aflição encaixa-se melhor no contexto. De tão baixinhas, a dúvida se a altura de um ônibus ou caminhão lhes é compatível é bastante recorrente. No final, óbvio, dá tudo certo e a dinâmica do Aterro se mantém. As quadras poliesportivas continuam cheias de garotos descamisados aos berros, abafados pela imensidão desse grande parque, bem como os janelões dos prédios tradicionais da Praia do Flamengo seguem abertos e abrilhantados pelos seus lustres às vistas de quem está de passagem pelo Aterro.

Unir lembranças infantis, adolescentes e às de hoje sobre o Aterro é um tanto quanto nostálgico. Principalmente quando não vejo mais os letreiros em neon; eles, agora, na sua grande maioria, são painéis, meio ordinários, pouco impactantes. Sem falar que não tem mais Mesbla, outro ícone da infância. O Aterro retrô tem mais a minha cara, mas ainda continua imbatível. Não tem para ninguém, nem para a Lagoa Rodrigo de Freitas.

Quem dera toda avenida-expressa fosse tão agradável quanto o Aterro. Fica a dica para as linhas Amarela, Vermelha e Avenida Brasil.


Com canteiros centrais impecáveis, o Aterro é um das minhas paisagens/avenidas preferidas no Rio.

 


Em tempo: Para quem se interessa por arquitetura e urbanismo carioca, não deixem de assistir ao documentáiro “Reidy – A Construção da Utopia“. Conta a obra de Affonso Eduardo Reidy, um dos pioneiros da arquitetura moderna, com projetos notáveis como o Conjunto Habitacional do Pedregulho e o Museu de Arte Moderna, é narrada por meio de depoimentos de Paulo Mendes Rocha, Lúcio Costa, Carmen Portinho e Roland Castro.

Está em cartaz apenas no Unibanco Arteplex, em sessão única por dia, às 20h. Fica na Praia de Botafogo 316.
Não encontrei informação sobre até quando o documentário estará em cartaz, mas você pode ligar para lá e consultar: [21] 2559.8750.

 

 


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É alto, tem boa vista e faz jus ao nome

21 novembro 2011 | 1 comentário

O relato de uma manhã de domingo no bairro mais frio da cidade, o Alto da Boa Vista

Ciclistas no acesso às Paineiras, pela Rua Amado Nervo: rotina comum no Alto da Boa Vista aos domingos


O Alto da Boa Vista é um daqueles bairros que ninguém sabe exatamente em que zona fica, se é norte, sul ou oeste. Pudera, com suas características tão peculiares, é difícil agrupá-lo em um conjunto de bairros que mais ou menos se pareçam. Lá é inigualável, fresco e uma das principais conexões entre as zonas oeste e norte. E, claro, conta ainda com um atalho para o Horto, no Jardim Botânico, de onde surgem dezenas de ciclistas devidamente equipados à base de suas pernas superpotentes. É preciso força para pedalar naquelas ruas, cheias de altos e baixos, que te levam também para a incrível Estrada das Paineiras, caminho para o nosso tão querido Corcovado.

O Alto é assim. Desde a Tijuca, onde começa, até o Itanhangá, onde termina, é formado por uma estrada sinuosa e contínua, com algumas ramificações em seu percurso, onde escondem-se casas bastante confortáveis e alguns poucos edifícios baixinhos. As curvas são agraciadas por espaços verdes com lagos sobrepassados por minipontes. Alguns deles contam com fontes artificiais e, dependendo da proximidade, cascatas. Tudo com um ar levemente abandonado, é válido dizer, mas ainda muito vivo e esplendoroso, graças às árvores monumentais que embelezam o Alto da Boa Vista.

No que parece ser o “pico do Alto”, ou pelo menos a sua parte mais plana, a 350 metros do nível do mar, está a praça-símbolo, a mais importante, tal qual todo bairro tem ou deveria ter. A Praça Afonso Vizeu, como chama, foi construída em 1903 como Largo da Boa Vista na gestão municipal de Pereira Passos. O antigo coreto, no entanto, deu lugar ao chafariz de Grandjean de Montigny, renomado arquiteto francês que contribuiu em muito para o desenvolvimento urbano aqui no Rio, que ficava na antiga Praça Onze, no Centro. Foi removido de lá em virtude da abertura da Avenida Presidente Vargas. Hoje, é um chamariz para uma caminhada mais vagarosa pela Afonso Vizeu. Foi o que me aconteceu – gosto muito desses passeios.

As nuvens deram uma trégua nesse domingo, brindando um maior espaço para que o sol se reapresentasse a nós, cariocas e agregados. Já tinha até esquecido como era sentir calor, ainda mais seco desse jeito. No Alto é diferente. Um simples deslocamento entre as partes mais urbanizadas da Tijuca até a Praça Afonso Vizeu pode diminuir substancialmente as sensações térmicas. É o ar condicionado natural em mode on, tudo o que nós cariocas desejamos. Como nada é perfeito, os mosquitos são personagens importantes no Alto da Boa Vista. O café da manhã dos clientes do Bar da Pracinha, o simpático restaurante dali, era compartilhado por edições de domingo do O Globo, óculos escuros e repelentes Off!.

O charmoso chafariz do francês Grandjean de Montigny no centro da Praça Afonso Vizeu. Ao fundo, o restaurante Bar da Pracinha, referência gastronômica no Alto.


Espaço de lazer pra lá de arborizado, a praça é boa tanto para crianças que queiram brincar como para adultos que queiram relaxar ou ler um livro.

 

Os ciclistas seguem dois caminhos: ou vão para as Paineiras, através da Rua Amado Nervo, ou para Floresta da Tijuca, que tem entrada exatamente pela Praça Afonso Vizeu. Alguns param e sentam-se aos bancos do local para reabastecer as energias enquanto outros simplesmente passam direto, apenas figurantes em meio a esse bucolismo. Essa praça é um lugar para ser apreciado mais calmamente, ideal para crianças. É difícil achar uma área de lazer “lá para baixo” que seja tão limpa quanto a Afonso Vizeu. De verdade – não tem lixo, pichação e nem brinquedos depredados. Se há coliformes fecais nos minúsculos grãos de areia da praça, que dividem o espaço do chão com pétalas despedaçadas de flores, já não sei, mas ela é bem confiável aos olhos para deixar seu filhote solto sem muitas preocupações mundanas.

Um ponto interessante do Alto da Boa Vista é a arquitetura. Existem muitas casas naquele estilo suíço, que conferem um aspecto bastante sulista a um bairro de uma cidade do sudeste brasileiro, como o Rio. Representam a passagem de uma época em que esse estilo era muito valorizado e copiado pela elite, até no formato do telhado, todo moldado para reter a neve (que neve é essa, cara pálida?!) e saída para chaminé. Devem ter associado a construção dessas casas com o clima serrano do Alto. Hoje em dia, uma ou outra coisa já foi descaracterizada, embora ainda se veja muitos casarões antigos, de aparência um pouco colonial, e outras em estilo eclético. Uma delas, aliás, está muito bem mantida. A dúvida é saber se são residências ou casas de festa.

Comprei uma lata de refrigerante e sentei sobre um muro baixinho, que separa a rua e a passagem de um pequeno rio, que vinha de dentro da Floresta da Tijuca. O barulho de água corrente, sem nenhuma buzina por perto, é aconchegante. Deixei-me embalar por essa trilha sonora um pouco mais, admirando as flores, nas suas mais diversas cores, aparentes entre um ou outro arbusto. Foi aí que decidi esticar um pouco mais o passeio e caminhar lá para dentro, até a famosa Cascatinha.

Manhã agradável, desestressante e quase sem custo nenhum, se não for o traslado.
Visitem o Alto da Boa Vista. Esse lugar é especial, vai por mim.

Uma das casas na Praça Afonso Vizeu: essa foi construída em 1865 pelo inglês Barlett-James, junto à entrada da Floresta da Tijuca.

 

Em tempo
# 1 – Afonso Vizeu, o homenageado pelo nome da praça, foi gaúcho e grande comerciante de tecidos no Rio, apesar da infância pobre. Além de filantropo e presidente da associação comercial, foi amigo de conhecidos na roda social e de políticos influentes. Morava exatamente na praça, no imóvel onde hoje funciona a casa de festas Vila Cabral. Curiosamente, a casa pertencia ao Barão do Lavradio nos primórdios e tem aquele estilo suíço que eu comentei.
# 2 – Além de largo e, posteriormente, de praça, ali também já foi chamado de Jardim do Alto da Boa Vista. No momento de sua inauguração, houve grande festa com a presença do presidente – na época, Rodrigues Alves -, além do prefeito, ministros, senadores, deputados. Foram transportados até a praça por um bonde saído do Largo de São Francisco, no Centro. Já no Alto da Boa Vista, tomaram café e biscoitos na Vista Chinesa, almoço ao ar livre no Hotel White, que ficava próximo à praça, e um passeio pela Floresta e Cascatinha.
# 3 – Retomando o início da postagem, o Alto da Boa Vista pertence oficialmente à zona norte do Rio de Janeiro.

Fonte
OLIVEIRA, Lili Rose Cruz. Tijuca, de rua em rua / Lili Rose Cruz Oliveira, Nelson Aguiar – Rio de Janeiro: Ed. Rio, 2004.

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Quais serão os novos ares cariocas?

19 novembro 2011 | 10 comentários

Com os investimentos feitos na zona oeste, os cariocas continuarão preferindo morar próximos ao Centro ou irão aderir a um novo modelo de subúrbio?

Abertura do Túnel da Grota Funda: integração e desenvolvimento de bairros da zona oeste.

 

“A Copacabana começa a despertar a atenção e a curiosidade. Já se fala e se discute a respeito da linha de bondes que vai servi-la. Faz pouco, a viagem de Botafogo até o Leme se fazia em 20 minutos”. (ano 1881, p. 146)

“O assunto que está nas folhas e na boca do povo é o da construção da linha de bondes para a chamada Copacabana. Publicam-se as condições do edital referentes à construção das linhas e abertura de túneis para a zona sul. No Leme e no Rio Comprido. A firma Duvivier & Cia. pede prorrogação do prazo para apresentar estudos e planos. A iniciativa – como ocorre sempre – é criticada pela imprensa e o público”. (ano 1883, p. 170)

 

Os trechos acima pertencem ao livro “O dia-a-dia no Rio de Janeiro – segundo os jornais (1870-1889)”, de Delso Renault, cujo qual estive relendo nesses últimos dias e sublinhando passagens interessantes como essa. Primeiro de tudo, ler sobre Copacabana como um balneário distante, de aspecto duvidoso mas instigante, ainda totalmente separada do seu, então, badalado bairro vizinho de Botafogo, é quase uma piada para os dias de hoje, não é mesmo? Em segundo lugar, Renault aponta que já desde 1883, a população repreende qualquer decisão ou medida tomada por empresas prestadoras de serviço ao Estado. Ou seriam elas ineficientes desde sempre? Curioso e ainda bastante contemporâneo o comportamento de ambas as partes, mas isso é só um detalhe.

Esses fragmentos capturados do livro fizeram-me recordar uma conversa que tive com um amigo a respeito do futuro do Rio de Janeiro daqui a uns 100 anos. Menos, talvez, porque nos imaginávamos vivos ainda, como vovôs. A questão central era: continuarão sendo os lugares importantes de hoje, na cidade, os mesmos no futuro? Que funcionalidade um bairro Y, hoje, terá amanhã?

Essa é uma tendência já comprovada pela nossa história, até então. Com o desenvolvimento urbano carioca, a Rua do Ouvidor, por exemplo, deixou de ser a rua das butiques e chapelarias para entrar em um processo gradual de ordinarização no qual pouco lembra as suas origens. Em acirrada competição, Botafogo venceu São Cristóvão nos aspectos aristocráticos, tornando-o uma região industrial no século XX. Gávea e Jardim Botânico, bairros operários, sofreram uma “varredura arquitetônica e social” em função da valorização dos terrenos na zona sul.

Quando vejo a construção acelerada do Túnel da Grota Funda, na zona oeste, por exemplo, começo a esboçar um pequeno panorama de como poderemos enxergar o Rio nas próximas gerações. Consideremos aí também os investimentos nos acessos viários e de transporte à Guaratiba, Sepetiba, Santa Cruz, Campo Grande.  Não que estejamos falando de áreas inabitadas, como era a Copacabana do século XIX, hoje o maior símbolo na cidade de urbanização – exagerada, convenhamos –, mas sim de locais pouco explorados, tanto pelo poder público como pela mídia.

Uma das hipóteses discutidas nessa conversa – fruto da nossa imaginação, sem nenhum embasamento científico, embora ordenadas por uma certa lógica – é a de que o Rio sofrerá um novo processo de suburbanização. Não no sentido pejorativo, como o que foi adquirido o conceito de subúrbio por aqui; é a questão mesmo de se morar mais “distante” do Centro, incorporando um modelo estadounidense de moradia, em que o “Centro” é local para trabalhar,  e o “subúrbio”, o para se morar.

Como na maioria das cidades latinoamericanas, o núcleo central da cidade concentra, desde sempre, os melhores serviços públicos, de transporte, moradia, saúde e de entretenimento. Pobres e ricos tendem a viver dentro desse núcleo em busca de comodidade, o que se reflete na favelização e na verticalização excessiva no entorno do Maciço da Tijuca. Uma vez que a acessibilidade de bairros distantes melhore, acoplada ao recebimento de todos (todos mesmo, sem parcialidade) os serviços necessários e desejados por um cidadão a determinado lugar, ficaria ele tentado a mudar-se de bairro?

Por mais atraente que seja morar nesse tal núcleo central do Rio (centro, zona sul, parte da zona norte), existe um ônus enfrentado que só é abstraído pelo fato de que “não há lugares mais cômodos e práticos para se viver”. Residências cada vez menores e mais caras; ausência de áreas públicas livres, que poderiam tornar-se praças ou parques; formação das ilhas de calor, com o levantamento de prédios; engarrafamentos de veículos e de pedestres pelas calçadas; além de outros pequenos fatores que assistimos no nosso dia-a-dia. Mesmo assim, ainda acho que o fator econômico pesa na hora da decisão.

Analisando as suburbanizações recentes, como o povoamento da Barra e do Recreio dos Bandeirantes, na zona oeste, podemos dizer que, sim, eles deram certo. Atualmente, figuram entre os bairros mais famosos da cidade por uma certa qualidade de vida que oferecem a quem resolve fixar moradia por lá. No entanto, pecaram por pertencerem a projetos de uma época de hipervalorização do transporte individual, sem adaptação para receber um eficiente transporte de massa, que facilitasse o ir-e-vir da população em direção ao local de trabalho. Ou seja, foram projetados para serem bairros exclusivamente automobilísticos. O “erro” está sendo revisto só agora, com a expansão (tímida) do metrô para a Barra. Todavia, ela continua pouco atraente para pedestres. Se nas regiões mais caras da zona sul existe um alto custo de moradia, na Barra, esse custo seria com combustível. Ter automóvel nesse núcleo do Rio é optativo; na Barra e Recreio, é altamente recomendado.

Acredito que esse tenha sido um fator fundamental para que o modelo de bairro como o da Barra não fosse amplamente aceito pelos cariocas, principalmente numa cidade em que as atividades ao ar livre são o maior atrativo. Logo, a suburbanização ainda continua rejeitada. Morar próximo ao Centro é a melhor das opções. Sem falar que o laço cultural dos moradores para com seus bairros de origem ainda é forte. Considera-se também o apelo turístico da zona sul, maior representante da cultura da cidade, que é um motivo de atração pelo seu simbolismo, como as praias e o Cristo Redentor. O carioca valoriza muito a orla como área de lazer, em detrimento dos parques e praças. Esses são outros fatores de aderência à moradia no núcleo.

A expansão para a zona oeste, nessa suburbanização pós-moderna, tem uma importante missão de redesenvolver os bairros de lá com os preceitos contemporâneos de urbanização. Sustentabilidade, arborização, designação de espaços livres e de ocupação, transportes de massa (vide o BRT), oferecimento de serviços públicos e privados de qualidade, enfim, bairros devidamente planejados e que sejam inflexíveis a quaisquer alterações que possam ser feitas em prol de interesses individuais. Um respeito à capacidade de absorção humana desses lugares, que poderão ser atrativos tanto para a elite quanto para as outras classes, seja lá o segmento social que ocupará esses novos subúrbios.

Eu, particularmente, acho que será a elite quem se sentirá atraída para ocupar esses novos sítios, mais cômodos e aprazíveis, como aconteceu em cidades dos Estados Unidos, da Inglaterra, e até mesmo na Barra e no Recreio, para onde foi parte da elite das zonas sul e norte da cidade nas décadas de 80 e 90. Minha aposta é que essa região do Centro e da zona sul carioca se integre, como um único bloco, formando uma área forte de trabalho e de turismo, embora caótico ou claustrofóbico demais para residência fixa.

Investimentos públicos de qualidade na zona oeste poderão melhorar a paisagem do Rio nessas regiões pouco divulgadas pela prefeitura e a imprensa. Em consequência, um ponto de equilíbrio no crescimento desordenado de outras regiões também conseguirá ser alcançado com esses investimentos. Lembrando que investimento não é só levantar prédio ou casa e tchau – o pacote tem que vir completo, não só para ser legal como para ser atrativo.

Da mesma forma que a Lagoa, há pouco mais de cinquenta anos, era local sombrio, pouco habitado, insalubre, eu também acho que Guaratiba ou Grumari, por exemplo, a longo prazo, poderão ser um novo modelo de bairros altamente desejados. Aliás, já a curto prazo, eu também acho que a zona portuária vai ser outro local bastante requisitado, porém mais no sentido turístico e de lazer, como já é o núcleo.

É… Só resta-nos esperar e ver a quais ares o Rio de Janeiro rumará. Quais são suas apostas?


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Linha 524: do lixo ao luxo

09 novembro 2011 | 14 comentários

Linhas de ônibus da zona sul conhecidas pelo mau serviço prestado têm a frota renovada


Linha 524 na Rua Nelson Mandela, em Botafogo: veículo novo em substituição aos antigos.

 

Era uma vez um ônibus velho, cheio de baratinhas, assentos com fendas soltas, ferros internos oleosos e campainha desregulada. Um belo dia, ele reaparece pelas ruas cariocas de roupagem nova: letreiro digital, piso rebaixado, acesso para deficientes e motor traseiro. Eis a pequena história da linha 524 (Metrô Botafogo x Barra da Tijuca), da Intersul, uma das mais rejeitadas em questões de limpeza, frequência e pontualidade da circulação.

Já há cerca de um mês que este novo modelo de ônibus surgiu pelas ruas da zona sul, região pela qual tais veículos começaram a circular inicialmente. Em 2010, quando houve a reorganização do sistema de ônibus por consórcios, designando-lhes cores, uma das exigências era que os ônibus seguissem este padrão, chamado de low entry (esses nomes em inglês são ótimos…), que facilita o acesso de pessoas com deficiência física e idosos. Não só facilita a subida deles, como a de todos os outros passageiros, independente da idade ou condição física. Os degraus dos ônibus “comuns” são muito altos em relação ao nível da rua.

Curiosamente, as linhas, até então, mais asqueirosas em qualidade de serviço e conforto, que circulam pela zona sul, foram as primeiras a receber o novo desenho. Entre elas, além da 524, temos a 176 (Central x São Conrado) e 592 (Leme x Gávea), todas da antiga (e em processo de falência) Amigos Unidos S.A., agora operadas pela Translitorânea Turística Ltda.

Salve, salve.


O piso rebaixado é uma das exigências para os novos ônibus, que estão circulando, por enquanto, em caráter experimental em apenas algumas linhas. É, também, o padrão de ônibus para o BRT.


# 21.11.11 – Agradecimento ao Dimithri Vargas, pela correção do nome da nova empresa que faz a gestão das três linhas citadas e do número de uma delas, a 176 (Central x São Conrado), antiga 175.


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Saens Peña sem grades

09 novembro 2011 | 9 comentários

A praça tijucana iniciou a semana com a remoção de seu cercamento

Praça Saens Peña sem grades
A retirada das grades na Praça Saens Peña começou na segunda-feira, dia 7/11.

 

Houve um período no passado onde uma simples caminhada pela rua era carregada de diferentes sensações negativas. A violência que imperou na cidade no fim do século XX (e início deste) contribuiu para muitos reflexos no espaço urbano. Um deles, o cercamento de diversas praças na cidade, como forma de deter o vandalismo e sinalizar proteção ao pedestre.

Uma delas, a Saens Peña, no bairro da Tijuca, zona norte, tem vivido décadas amargas após o fechamento de todos seus cinemas e estabelecimentos tradicionais, como o Café Palheta. A praça, outrora aprazível, virou nada mais que uma grande área livre cercada por grades pouco convidativas, que obstruem a passagem de quem transita entre as ruas Conde de Bonfim e Desembargador Isidro.

Com base no novo panorama da cidade, loteada por UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) e UOPs (Unidades de Ordem Pública), que têm favorecido a segurança pública e a redução da desordem urbana, o prefeito Eduardo Paes autorizou à secretaria de conservação que retirasse as grades que circundam hoje a Praça Saens Peña. O objetivo é, justamente, de romper um paradigma ultrapassado: praças com grades não se encaixam mais no contexto de melhorias na qualidade de vida que vêm acontecendo no Rio e que prometem perpetuar-se.

A retirada das grades foi uma reivindicação da Associação Comercial e Industrial da Tijuca (ACIT) em reunião com o prefeito Eduardo Paes, no fim de outubro deste ano. Além disso, um projeto de remodelação da praça foi entregue ao escritório Burle Marx.

No entanto, há controvérsias. Em reportagem do RJTV desta semana, frequentadores da praça, na sua maioria idosos, mostraram-se contrários à decisão da prefeitura. Alegam que “as grades transmitem sensação de segurança”. Já alguns moradores, em comentários feitos às reportagens do Globo Online, acreditam que o descercamento favorecerá a atuação de meliantes no centro da praça alinhado a um maior acúmulo de lixo no lago, como ocorria antes do gradeamento.

Por meio da imprensa,  foi divulgado que a próxima praça a ser discutida sobre a remoção das grades será a General Osório, em Ipanema.

 


O prefeito Eduardo Paes aposta na remoção de grades de praças da cidade como um triunfo ante a insegurança pública das décadas passadas.

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