Demolição à vista na Tijuca

30 outubro 2011 | 15 comentários

Prédio histórico do batalhão da PM será posto abaixo em função do “Projeto Batalhão-Padrão”


Foto: site da PMERJ
O prédio, inaugurado em 1907, servia inicialmente ao exército, até que por decreto do presidente Afonso Pena transformou-se em batalhão. (Foto: PMERJ)

 

O edifício onde funciona o 6º Batalhão da Polícia Militar, localizado na Rua Barão de Mesquita, na Tijuca, zona norte do Rio, está com os dias contados. Ele será o primeiro a ser enquadrado no Projeto Batalhão-Padrão, criado pela própria PMERJ, que pretende transformar por total a estrutura e o funcionamento das suas unidades. A ideia é que os batalhões, a partir de 2012, operem em prédios modernos que valorizem conceitos autossustentáveis, ecológicos e tecnológicos. Dentro desse conjunto, a remodelação incluiria paredes de vidro, reaproveitamento da água da chuva e da luz solar e uma área aberta à população, através de espaços que poderão ser alugados por lojas e quiosques.

De acordo com o jornal Extra, a mudança pretende, acima de tudo, criar uma espécie de “UPP no asfalto”, numa forma de promover a aproximação entre a corporação e os moradores. Em suma, ocorrerá a integração de uma área até então militarizada ao espaço público. A escolha do 6º BPM, na Tijuca, é devido ao sucesso das Unidades de Polícia Pacificadora nas comunidades carentes da região e por localizar-se em uma área estratégica, onde está o estádio do Maracanã.

O Projeto Batalhão-Padrão, apesar de ser baseado em modelos iguais já implantados em Israel, França e Inglaterra, ainda não captou bem minha compreensão e visualização do todo. Apesar disso, a proposta parece ser, no mínimo, inovadora e interessante.

A única lamentação aqui fica por conta da demolição do prédio histórico do 6º BPM, de estilo eclético, construído em 1908, nas proximidades da Barão de Mesquita com Rua Uruguai. A PMERJ alega que o edifício encontra-se em condições muito precárias e que por isso será a primeira unidade a ser reformada. No caso, reconstruída. Do zero.

Resta o dilema: é mais válido preservar a nossa história ou entregá-la às transformações contemporâneas? Tem culpa o prédio de estar em um estado crítico por não ter recebido a atenção devida ao longo desses cem anos? Até que ponto as ideias de hoje têm autonomia para apagar as obras do passado?

É um assunto que merecia ser discutido. Vocês têm alguma opinião sobre isso?


O 6º BPM (Tijuca) hoje, nas proximidades da Rua Uruguai: prestes a desaparecer. (Foto: Anjos Guardiões)


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Aníbal

27 outubro 2011 | 3 comentários

A Rua Aníbal de Mendonça explica um pouco o porquê de Ipanema ser um dos bairros mais cobiçados do Rio



Ruas com jeito de alameda faz do bairro um dos mais procurados por cariocas e turistas

 

Pegue um mapa do Rio e um lápis. Sinalize, agora, com a ponta dele, o local dos seus sonhos aqui no município, aquele que faz o seu coração bater mais forte, que integra todo tipo de entretenimento adorável. Provavelmente o seu lápis deslizará para a faixinha de terra entre a Lagoa Rodrigo de Freitas e o oceano Atlântico. Gosta de praia? Vai, posiciona esse lápis melhor, até que ele fique mais próximo ao Posto 10. Sugestão? Pule a Garcia D’Ávila e meta-se logo à Rua Aníbal de Mendonça, o core de Ipanema, onde está o melhor do seu burburinho. Sem mais puxa-saquismos, pretendo apenas ratificar o charme e a bossa desse lugar, que é o sonho de consumo de muitos cariocas e turistas, sem dúvida.

De antemão, já temos um símbolo magnífico na Rua Aníbal de Mendonça, que é a sua esquina com a Vieira Souto, a mais invejada das avenidas. O valor estratosférico do metro quadrado é justificado, claro, pela presença do marzão que a margeia. A relação da praia com a nossa rua em questão é que ela se inicia exatamente no melhor trecho da Vieira Souto, ou melhor, na melhor parte da praia de Ipanema. Pelo menos em minha opinião o Posto 10 é imbatível, longe de quaisquer tipos de bagunça. Percepção e preferência minha, há quem possa discordar.

Além disso, para gostar da Rua Aníbal de Mendonça você tem que simpatizar-se, acima de tudo, com as coisas sofisticadas – entre elas, muito comércio no estilo frufru. Delicatessens e lanchonetes, dessas tituladas de comidinhas rápidas, funcionam no modelo “bunda de fora”. Uma maneira inteligente de comportar um empreendimento por um custo mais razoável em um mercado sedento por novidades. Aliás, o nicho comercial da Aníbal é um prato cheio para empresários que apostam no foco em diferenciação. O público é variado e disposto a pagar mais por produtos triviais entre outros de melhor qualidade, como pizzas artesanais e roupas de grife. Assim, o cara pão-duro deve passar longe de lá, pois uma garrafa de água consegue custar o dobro (ou o triplo) do que na Uruguaiana ou até mesmo no vizinho bairro de Copacabana.

Um dos detalhes mais adoráveis da Aníbal de Mendonça são os jardins suspensos. Em todas as quadras, desde a Vieira Souto até a Epitácio Pessoa, o tronco das árvores foram cuidadosamente enfeitados com pequenos vasos de flores, na altura perfeita para livrá-los do vandalismo típico de alguns cidadãos. Aliás, são essas flores que dão o toque todo especial a rua, que não conta com muitos jardins por suas calçadas. Pelo menos não tão bem cuidados quanto os do Leblon, em grande parte mantidos por lojistas da Ataulfo de Paiva. A verdade é que o colorido das flores é um diferencial e por mais que nos deparemos com situações pouco agradáveis pelo caminho (leia-se cocô de cães), a presença das ditas cujas é suficiente para injetar, de forma imaginária, um perfume de jasmim nessas agruras urbanas.

A sofisticação da Rua Aníbal de Mendonça tem mais a ver com o comportamento de quem circula por lá, pelo comércio instalado e pela pouca quantidade de sujeira tão peculiar às ruas do Rio do que pela sua arquitetura. Os prédios de Ipanema não chegam aos pés dos de Copacabana, bairro-símbolo da arquitetura glamurizada, típica dos anos 40 e 50. Ipanema, apesar de sua condição de bairro favorito hoje, verticalizou-se em um momento de mediocridade arquitetônica. Os novatos são moldados no perfil de edifícios da Barra da Tijuca, com varandas espelhadas. É o hit dos lançamentos imobiliários e o carioca valoriza esse modelo. Eu não. Aqueles levantados na década de 70 fazem o estilo insosso, não têm nada muito chamativo; são apenas blocos de concreto com janelas. Por sua vez, algumas joias podem ser encontradas lá pelas ruas Redentor e Nascimento Silva, assim como a presença de poucas e graciosas casas convertidas em butiques.

Voltando ao tópico “comércio”, é preciso reconhecer que as lojas de nível mais alto são um chamariz de pessoas elegantes e, como efeito, muito bonitas. A elegância dos que circulam por Ipanema é diferente, por exemplo, das também elegantes senhoras que circulam pela Oscar Freire, em São Paulo. É um elegante informal, suave, que cai bem com o perfil do bairro, mas que não combina, por exemplo, com o climão do Centro do Rio. Ou seja, como prega a mídia, Ipanema dita moda e uma é inerente a outra.

Bom, conclui-se que não é à toa que todos querem Ipanema. Diante do panorama meio decadente e largado dos outros bairros da cidade, uma imersão pela Rua Aníbal de Mendonça é colírio para os olhos.


O charme dos jardins suspensos e as lanchonetes em estilo “bunda de fora”.

 

O cruzamento da Aníbal de Mendonça com a Rua Prudente de Moraes e a esquina com a Visconde de Pirajá, onde há uma colorida venda de flores e plantas.

 


O trecho nas imediações da Rua Redentor é calmo e com ares de cidade do interior.

 

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Sábado de protesto em Ipanema

22 outubro 2011 | 3 comentários

A Praça Nossa Senhora da Paz virou ponto de encontro para moradores contra a futura estação de metrô do local


“Não queremos metrô”: assim gritavam, em coro, os moradores e simpatizantes do manifesto na manhã deste sábado, 22.

por Pedro Paulo Bastos

Aproveitando o embalo da postagem anterior, aconteceu na manhã desse sábado um protesto na Praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, contra a estação de metrô que se construirá no local como expansão da Linha Um para a Barra. O evento foi liderado pelo Projeto de Segurança de Ipanema, que é um movimento voluntário criado pelos próprios moradores para preservar os valores tradicionais do bairro.

Ocorreu distribuição de panfletos, abaixo-assinado, “abraço” coletivo ao monumento central da praça e a presença de muitas equipes de reportagem. O encontro, no entanto, não foi agraciado com a adesão de muitos participantes, contrariando o percentual declarado pelo PSI de que 91,37% da população de Ipanema não tem posição favorável em relação à estação Nossa Senhora da Paz. O perfil de quem estava por lá era, majoritariamente, de mulheres e idosos, fortalecendo o argumento defendido pelo grupo de que a praça é um espaço de lazer para a terceira idade.

Eu sou contra a construção da estação do metrô considerando o fato de que defendo a preservação da linha original, licitada em 1998, pelo Humaitá e Jardim Botânico. Porém, como não há nada mais a mudar – o Estado já mostrou-se irredutível quanto a manter tal traçado para 2015 -, mostro-me favorável à construção de uma parada na Praça Nossa Senhora da Paz.


Manifestantes consideram o tombamento da praça como uma das razões para que não se intervenha por lá com as obras do metrô.

As associações de moradores oficiais e não-oficiais têm um papel muito importante na luta pela preservação dos bairros e na defesa dos seus interesses. O problema é  saber o limite entre interesse individual e coletivo, levando-se em conta diversos critérios de avaliação. Ipanema, além de residencial, é um bairro turístico, comercial e, por que não, empresarial. É gerador de empregos, um centro financeiro periférico. O metrô ali pode realmente não atender preferencialmente aos moradores, mas vai oferecer uma maior comodidade às pessoas que, de alguma forma, são ligadas à Ipanema. Pessoas que prestam serviços ao comércio e aos consultórios médicos do bairro; pessoas que curtem a praia e que também querem aproveitá-la; outras, inclusive, que se deslocam em busca de boas opções gastronômicas. Turistas, então, que facilidade para eles! Enfim, toda uma variedade de pessoas que contribui para o destaque de Ipanema como lugar badalado e financeiramente ativo.

Segundo o governo estadual, “a opinião de algumas poucas pessoas sobre uma obra que beneficiará milhares de usuários diariamente não representa a vontade da população do Rio de Janeiro”. E é verdade. Lutar pelos interesses do bairro não pode confundir-se com a ideia de que os moradores sejam donos dele. O papel dos moradores de Ipanema deve ser o de cobrar detalhes do projeto, como se realizará e como resultará. De que maneira serão preservadas as árvores, o mobiliário público, os monumentos. O que será feito para minimizar o impacto ambiental. Quais as medidas para conter possíveis desordens urbanas. São atitudes mais cabíveis no momento e a população de Ipanema tem força e apelo para tais exigências.


Para as pessoas que trabalham aqui e chegam de metrô, ou para aqueles que têm dificuldade de locomoção, ainda teremos o ônibus de integração. Este presta um ótimo serviço em menos de cinco minutos“, diz um dos panfletos entregue no evento. A questão é que, após a finalização do trecho General Osório-Gávea, o metrô na superfície deixa de existir,  pois não faria mais sentido. E os ônibus convencionais (ainda) não são integrados ao transporte metroviário.

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Por que os bairros ricos têm tanto medo do metrô?

21 outubro 2011 | 16 comentários

Saiba de que forma o metrô, ao longo dos anos, abalou o status dos bairros mais tradicionais da cidade 


Praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema: estação de metrô gerou polêmica.

por Pedro Paulo Bastos

Há alguns meses tivemos a oportunidade de acompanhar pelos jornais a polêmica instaurada em Higienópolis, região nobre de São Paulo, que estava por receber uma nova estação de metrô na Praça Buenos Aires, exatamente no centro geográfico do bairro. Grande parte dos moradores se mostrou contra o projeto. Em entrevista, uma moradora de Higienópolis alegou que uma estação na Avenida Angélica traria uma série de coisas negativas para o bairro, como tumulto, violência, mendigos, “gente diferenciada”. Outros apontaram que o bairro era muito residencial, que não havia necessidade de outra estação visto que já está por ser inaugurada uma outra na vizinha Rua da Consolação, podendo atender muito bem a demanda de passageiros de-e-para Higienópolis.

Aqui no Rio a situação anda um pouco parecida, principalmente após o anúncio de que a Linha Quatro (a que vai para a Barra) não passaria mais pelo Jardim Botânico, e sim pelos bairros da orla. Entre a estação terminal General Osório e a estação Gávea haverá mais três paradas metroviárias, exatamente numa das faixas de terra mais caras da cidade: Praça Nossa Senhora da Paz, Jardim de Alah e Leblon.

A contrariedade é grande e incide na defesa do traçado original da Linha Quatro em detrimento das estações novatas. Porém, outras razões têm sido apontadas para validar a iniciativa de que não se construa uma estação na Praça Nossa Senhora da Paz: “(…) Não somos contra o metrô, até porque Ipanema já tem uma estação. O problema é que mais uma vai descaracterizar o bairro. A Praça, além de ser tombada, é o pulmão de Ipanema, onde vão os velhinhos e as crianças. Imagina um metrô ali. Não dá“, alegou a coordenadora do PSI, Ignez Barreto, à coluna do Joaquim Ferreira dos Santos, de O GLOBO (20/10/11). Outro motivo defendido é o de que “o bairro é famoso pelo charme, comércio de alto nível e serviços sofisticados” e que a estação “afetará a segurança pública”.

Outros argumentos foram apontados na reportagem do GLOBO-Zona Sul, mas não pretendo discuti-los nem criticá-los. A minha indagação é a seguinte: por que os bairros ricos têm tanto medo do metrô?

Não posso falar por São Paulo, como no caso de Higienópolis, mas sinto-me hábil para fazer uma retrospectiva da evolução do metrô aqui no Rio. E, nesse caso, acho até que o temor do Projeto de Segurança de Ipanema tenha algum fundamento, já que a perspectiva dos não-moradores pode considerá-lo elitista e tudo mais.


O “churrasco da gente diferenciada”, protesto que aconteceu esse ano em Higienópolis, São Paulo, contra os moradores do bairro, que não foram à favor da estação Angélica.

Um breve apanhado histórico. Limitando-me à Linha Um, que é a linha do metrô que contorna a parte mais rica da cidade como um todo, presenciou-se um acentuado processo de decadência de diversos bairros. Bairros esses tidos como tradicionais, de elite no século XX, que foram os primeiros a receber estações do metrô carioca ao longo desses trinta e pouco anos de existência dele. Como exemplos, tem-se aí o Catete e o Largo do Machado, o Flamengo, a Tijuca, a Cinelândia, e, posteriormente, Copacabana. Eram bairros dos “bons”: bom comércio, boa gastronomia, bons tipos de entretenimento, boa gente, boas moradias. Nessa época, Ipanema e Leblon eram bem mais residenciais.

Medo 1. O metrô possibilitou uma maior circulação de pessoas por esses lugares. O aspecto de “ilha”, ou de “comércio exclusivo para moradores”, perdeu-se. A expansão da Linha Dois integrou bem mais o subúrbio com as “zonas ricas”, permitindo que seus habitantes desfrutassem, com maior facilidade, dos serviços de melhor qualidade desses bairros da Linha Um. Daí vem o tal do conceito paulistano de “gente diferenciada” que, na realidade carioca, poderia aplicar-se à possibilidade dos ”suburbanos” (no sentido pejorativo, como taxam) de irem à praia de Copacabana num dia de domingo. O preconceito com bairros menos favorecidos, seus moradores, hábitos e aparência, ainda existe, só que de forma bem mais velada do que no passado.

Medo 2. Acho que a inauguração do metrô no Rio coincidiu com uma das piores épocas já vividas pela cidade. Entre a década de 80 e os anos 2000, a questão da violência urbana ficou mais séria do que imaginávamos. A sensação de insegurança era imensa. Alinhado a isso, crise financeira do país, época de desestatização, de administrações municipais e estaduais beirando o péssimo. Isso se refletiu no espaço urbano com o abandono de praças, jardins, mobiliários públicos, monumentos. As ruas encheram-se de mendigos, camelôs e muita sujeira. O comércio da classe média mudou-se para os shoppings, bem como os cinemas de rua, resultando no abandono de diversos imóveis. Muitos deles históricos, inclusive.


Uma das primeiras ilustrações do metrô do Rio, em 1973, mostra o traçado previsto da Linha Um: Nossa Senhora da Paz já estava nos planos.

Logo, os bairros com a maior quantidade de serviços e comércio foram os mais afetados. Justamente esses no entorno da Linha Um. Leblon e Ipanema, diante disso, conseguiram se sobressair como lugares mais “civilizados” e “tranquilos” de se morar. E agora encontram-se confrontados com a ideia de serem preenchidos, quase que por completo, pelas mesmas estações de metrô que assassinaram um dia lugares também tombados, charmosos e elegantes.

Diante do que foi exposto, o argumento utilizado pelo PSI sobre a destruição da praça com a abertura do metrô faz algum sentido, sim, se for levado em conta esse panorama antigo do Rio. No entanto, eu penso que estamos vivendo uma outra época, muito mais favorável à nossa qualidade de vida do que há dez anos. O governo deixa a desejar em muitos aspectos ainda, mas é nítido o esforço em fazer mais pela cidade, principalmente nas questões urbanísticas. Sem falar que os grupos de moradores de Ipanema (e de outros bairros da zona sul) têm a sorte de participar muito mais ativamente das decisões governamentais, dada a importância que o bairro tem perante à economia da cidade, do que os de bairros menos badalados, que nem muito espaço na mídia conseguem.

Dessa forma, eu, particularmente, acho que os moradores de Ipanema não deveriam se preocupar quanto a esses problemas relatados, de descaracterização e violência; eles têm bastante poder de intervenção no que tange ao acompanhamento das obras, na sua fiscalização e na exigência de que seja realizado um trabalho decente. Da mesma forma, o Estado não seria tão burro de destruir sua “galinha dos ovos de ouro”, afinal, é interesse público que Ipanema se mantenha do jeito que é. Ipanema é fonte de grandes receitas.

Um metrô na Praça Nossa Senhora da Paz realmente não é primordial no momento. Porém, já que está muito difícil de impedir ou mudar o traçado para o original, porque não abraçar a ideia e voltar às atenções para a concepção do projeto, desde a sua parte estética até a social? Essa também é uma forma de preservação da praça.

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Frio no Rio

17 outubro 2011 | deixe seu comentário (0)

Uma pequena análise da rotina do carioca e da cidade com as atuais (e futuras) mudanças bruscas de temperatura


por Pedro Paulo Bastos

O que é considerado frio pelo carioca?

O frio é uma sensação muito relativa, principalmente entre pessoas de culturas e lugares diferentes. A maior evidência disto é comprovada ao avistarmos aquele bando de gringos andando pela cidade de sandália, regata e short em pleno mês de julho. Uma indumentária mais apropriada para o verão, nos nossos 17ºC, causa um pouco de estranheza, vamos combinar… Citando um exemplo mais abrasileirado, 20ºC é diferente para paulistanos e cariocas, mesmo se considerarmos todos os elementos variáveis da sensação térmica. Para eles é agradável, quase abafadinho; para nós, um iminente alerta de que já já aquele agasalho de moleton deverá sair do armário.

O carioca idolatra o calor e a praia, discursa contra os dias nublados, mas basta que a previsão do tempo anuncie uma frente fria que ele já terá a tiracolo o tal do agasalho de moleton – ou qualquer outra espécie de roupa mais quentinha. Veste-o feliz da vida, de maneira ansiosa e até meio exagerada. A falta de intimidade com temperaturas mais baixas faz com que percamos a noção de dosagem entre o que vestir e quantas peças inserir. As combinações também caminham para esse lado. Usar casaco com bermuda e chinelo faz algum sentido?

Por outro lado, há os que aproveitam a temporada “glacial” para usar todos aqueles apetrechos mais elegantes, pouco cabíveis ao nosso dia-a-dia em função justamente do clima predominante. Chance única de mostrar seus suéteres, jaquetas, blazers, coturnos, aquela capa ou sobretudo garimpados na sua última viagem internacional…

Não importa se não está frio de fato. No Rio, chover é sinônimo de esfriar. Um entendimento criado pela própria sociedade carioca, sem ter, necessariamente, uma atestação científica quanto à correlação entre essas duas ideias. E como a chuva vai embora rápido, e o sol chega novamente como quem foi à esquina, é preciso aproveitar esse intervalo. A programação do fim de semana muda completamente e deve encaixar-se no contexto. Hora de desmarcar o chopp no bar para se reunir em casa com os amigos. O menu? Fondue, claro. Lá fora, 19ºC.

Ou então, hora de se mandar para o shopping.

O carioca se adapta fácil a esses contratempos climáticos. E aproveita as vantagens oferecidas.

——
Em fevereiro de 2011, o estado de Oklahoma, nos Estados Unidos, teve o seu recorde máximo de temperatura mínima em toda a sua história, de -31F, o que equivale a, aproximadamente, 35ºC negativos. O fato foi um tanto curioso por lá, afinal, as temperaturas no centro-sul do país são bem mais elevadas do que no norte, parecidas com as do Brasil. Comentários de internautas em fóruns diziam que é tudo culpa do global warming (aquecimento global), o ocasionador dessas bizarrices naturais, se assim poderia dizer.

Pergunto-me o que aconteceria no Rio de Janeiro se acontecesse um episódio parecido a esse. Sei lá, uma nevasca num final de tarde chuvoso, após uma rápida transição de ventos, granizo e neblina. A Baía de Guanabara congelada como o Charles River no inverno de Boston; o Pão de Açúcar coberto de neve – ou melhor, de “açúcar”; os telhados das casinhas baixas de Água Santa esbranquiçados, quase um cenário de Natal hollywoodiano; filas e mais filas nas Casas Bahia para a compra de aquecedores; Cinelândia virando pista de patinação enquanto as montanhas inabitadas da zona oeste se transformariam em pistas de esqui, trazendo tal modelo desportivo até então inédito no país.

Por outro lado, muitos ônus, em especial às questões da pobreza.

Por vezes vejo-me imaginando e fantasiando situações absurdas como essa, dentro da minha realidade, que é o Rio de Janeiro. Digam o que quiserem dizer, mas um momento de banalidades como esse pode ser um perfeito exercício para repensarmos que novo valor agregaríamos à cidade, às suas funções, ao seu cotidiano. Um exercício para repensar como lidaríamos com os problemas sociais  – e, logo, econômicos – diante desse novo panorama da natureza, cada vez mais instável.

Não só o Rio bem como todas as cidades do mundo deveriam ter suas gestões voltadas para, além da sustentabilidade, uma versatilidade geoespacial, capaz de se adaptar naturalmente a diferentes circunstâncias, sem muito alarde. Afinal, a incerteza em relação aos acontecimentos da natureza é a única certeza que temos.

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Postagem de hoje foi uma singela homenagem à mudança de temperatura entre a semana passada e o início dessa. Para os amantes da chuva e do tempo mais “frio”, como eu, que presente!


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