Saiba de que forma o metrô, ao longo dos anos, abalou o status dos bairros mais tradicionais da cidade

Praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema: estação de metrô gerou polêmica.
por Pedro Paulo Bastos
Há alguns meses tivemos a oportunidade de acompanhar pelos jornais a polêmica instaurada em Higienópolis, região nobre de São Paulo, que estava por receber uma nova estação de metrô na Praça Buenos Aires, exatamente no centro geográfico do bairro. Grande parte dos moradores se mostrou contra o projeto. Em entrevista, uma moradora de Higienópolis alegou que uma estação na Avenida Angélica traria uma série de coisas negativas para o bairro, como tumulto, violência, mendigos, “gente diferenciada”. Outros apontaram que o bairro era muito residencial, que não havia necessidade de outra estação visto que já está por ser inaugurada uma outra na vizinha Rua da Consolação, podendo atender muito bem a demanda de passageiros de-e-para Higienópolis.
Aqui no Rio a situação anda um pouco parecida, principalmente após o anúncio de que a Linha Quatro (a que vai para a Barra) não passaria mais pelo Jardim Botânico, e sim pelos bairros da orla. Entre a estação terminal General Osório e a estação Gávea haverá mais três paradas metroviárias, exatamente numa das faixas de terra mais caras da cidade: Praça Nossa Senhora da Paz, Jardim de Alah e Leblon.
A contrariedade é grande e incide na defesa do traçado original da Linha Quatro em detrimento das estações novatas. Porém, outras razões têm sido apontadas para validar a iniciativa de que não se construa uma estação na Praça Nossa Senhora da Paz: “(…) Não somos contra o metrô, até porque Ipanema já tem uma estação. O problema é que mais uma vai descaracterizar o bairro. A Praça, além de ser tombada, é o pulmão de Ipanema, onde vão os velhinhos e as crianças. Imagina um metrô ali. Não dá“, alegou a coordenadora do PSI, Ignez Barreto, à coluna do Joaquim Ferreira dos Santos, de O GLOBO (20/10/11). Outro motivo defendido é o de que “o bairro é famoso pelo charme, comércio de alto nível e serviços sofisticados” e que a estação “afetará a segurança pública”.
Outros argumentos foram apontados na reportagem do GLOBO-Zona Sul, mas não pretendo discuti-los nem criticá-los. A minha indagação é a seguinte: por que os bairros ricos têm tanto medo do metrô?
Não posso falar por São Paulo, como no caso de Higienópolis, mas sinto-me hábil para fazer uma retrospectiva da evolução do metrô aqui no Rio. E, nesse caso, acho até que o temor do Projeto de Segurança de Ipanema tenha algum fundamento, já que a perspectiva dos não-moradores pode considerá-lo elitista e tudo mais.

O “churrasco da gente diferenciada”, protesto que aconteceu esse ano em Higienópolis, São Paulo, contra os moradores do bairro, que não foram à favor da estação Angélica.
Um breve apanhado histórico. Limitando-me à Linha Um, que é a linha do metrô que contorna a parte mais rica da cidade como um todo, presenciou-se um acentuado processo de decadência de diversos bairros. Bairros esses tidos como tradicionais, de elite no século XX, que foram os primeiros a receber estações do metrô carioca ao longo desses trinta e pouco anos de existência dele. Como exemplos, tem-se aí o Catete e o Largo do Machado, o Flamengo, a Tijuca, a Cinelândia, e, posteriormente, Copacabana. Eram bairros dos “bons”: bom comércio, boa gastronomia, bons tipos de entretenimento, boa gente, boas moradias. Nessa época, Ipanema e Leblon eram bem mais residenciais.
Medo 1. O metrô possibilitou uma maior circulação de pessoas por esses lugares. O aspecto de “ilha”, ou de “comércio exclusivo para moradores”, perdeu-se. A expansão da Linha Dois integrou bem mais o subúrbio com as “zonas ricas”, permitindo que seus habitantes desfrutassem, com maior facilidade, dos serviços de melhor qualidade desses bairros da Linha Um. Daí vem o tal do conceito paulistano de “gente diferenciada” que, na realidade carioca, poderia aplicar-se à possibilidade dos ”suburbanos” (no sentido pejorativo, como taxam) de irem à praia de Copacabana num dia de domingo. O preconceito com bairros menos favorecidos, seus moradores, hábitos e aparência, ainda existe, só que de forma bem mais velada do que no passado.
Medo 2. Acho que a inauguração do metrô no Rio coincidiu com uma das piores épocas já vividas pela cidade. Entre a década de 80 e os anos 2000, a questão da violência urbana ficou mais séria do que imaginávamos. A sensação de insegurança era imensa. Alinhado a isso, crise financeira do país, época de desestatização, de administrações municipais e estaduais beirando o péssimo. Isso se refletiu no espaço urbano com o abandono de praças, jardins, mobiliários públicos, monumentos. As ruas encheram-se de mendigos, camelôs e muita sujeira. O comércio da classe média mudou-se para os shoppings, bem como os cinemas de rua, resultando no abandono de diversos imóveis. Muitos deles históricos, inclusive.

Uma das primeiras ilustrações do metrô do Rio, em 1973, mostra o traçado previsto da Linha Um: Nossa Senhora da Paz já estava nos planos.
Logo, os bairros com a maior quantidade de serviços e comércio foram os mais afetados. Justamente esses no entorno da Linha Um. Leblon e Ipanema, diante disso, conseguiram se sobressair como lugares mais “civilizados” e “tranquilos” de se morar. E agora encontram-se confrontados com a ideia de serem preenchidos, quase que por completo, pelas mesmas estações de metrô que assassinaram um dia lugares também tombados, charmosos e elegantes.
Diante do que foi exposto, o argumento utilizado pelo PSI sobre a destruição da praça com a abertura do metrô faz algum sentido, sim, se for levado em conta esse panorama antigo do Rio. No entanto, eu penso que estamos vivendo uma outra época, muito mais favorável à nossa qualidade de vida do que há dez anos. O governo deixa a desejar em muitos aspectos ainda, mas é nítido o esforço em fazer mais pela cidade, principalmente nas questões urbanísticas. Sem falar que os grupos de moradores de Ipanema (e de outros bairros da zona sul) têm a sorte de participar muito mais ativamente das decisões governamentais, dada a importância que o bairro tem perante à economia da cidade, do que os de bairros menos badalados, que nem muito espaço na mídia conseguem.
Dessa forma, eu, particularmente, acho que os moradores de Ipanema não deveriam se preocupar quanto a esses problemas relatados, de descaracterização e violência; eles têm bastante poder de intervenção no que tange ao acompanhamento das obras, na sua fiscalização e na exigência de que seja realizado um trabalho decente. Da mesma forma, o Estado não seria tão burro de destruir sua “galinha dos ovos de ouro”, afinal, é interesse público que Ipanema se mantenha do jeito que é. Ipanema é fonte de grandes receitas.
Um metrô na Praça Nossa Senhora da Paz realmente não é primordial no momento. Porém, já que está muito difícil de impedir ou mudar o traçado para o original, porque não abraçar a ideia e voltar às atenções para a concepção do projeto, desde a sua parte estética até a social? Essa também é uma forma de preservação da praça.
asruasdorio.contato@gmail.com

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