Avenida Presidente Vargas & Paseo de la Reforma
21 setembro 2011 | 3 comentáriosAvenida na Cidade do México poderia servir de exemplo inspirador para uma remodelação da Presidente Vargas
Paseo de la Reforma, a avenida financeira e hoteleira da Cidade do México, tem o porte da Presidente Vargas e poderia servir-lhe de inspiração para a sua tão esperada revitalização
por Pedro Paulo Bastos
Uma das coisas que mais me impressiona aqui no Rio é o obsoletismo da Avenida Presidente Vargas, no Centro. É certo que esse panorama tende a mudar; aliás, já está mudando, apesar dela ter vivido por muito tempo ao Deus dará. A quantidade de novos prédios que por lá tem brotado é cada vez mais ascendente, principalmente nas proximidades da Cidade Nova. Diria até que a passarela do metrô é o símbolo de que essa tão importante avenida sofrerá boas mudanças nesta nova década.
A minha única observação quanto a isso é que o (re)desenvolvimento da Presidente Vargas não está se dando muito pela vontade, de fato, de desenvolvê-la. É apenas uma maneira encontrada de levantar prédios (que obrigatoriamente precisam ser construídos para reproduzir as necessidades empresariais) numa área imediatamente próxima à região mais visada e desenvolvida, que é esse pedaço do Centro que chamamos de Castelo unida à toda zona sul. O meu argumento se confirma até mesmo pela polêmica estabelecida há pouco tempo sobre a qualidade estética dos edifícios levantados na Cidade Nova, queixa de muitos arquitetos e urbanistas defensores de uma melhor adequação dos projetos à convivência dos elementos históricos da cidade.
A minha última semana foi dedicada a explorar, pela segunda vez, a Cidade do México. Aproveitei um recesso do meu estágio e me mandei para lá, onde tenho amigos muito queridos, além de que aprecio bastante a cultura do país. Existe um certo preconceito dos brasileiros para com os nossos hermanos, em grande parte no que se refere à qualidade de vida das cidades off Rio de Janeiro aqui na América Latina. Pura bobagem. Mesmo sendo uma das mais caóticas, barulhentas e populosas cidades do mundo, o distrito federal mexicano sabe aproveitar bem os seus espaços urbanos centrais. E aí vem a minha ponte com o exemplo da Presidente Vargas, comentado no início desta postagem.
Principal conector dos bairros ao oeste com o Centro Histórico da capital, o Paseo de la Reforma é uma avenida bastante semelhante à Presidente Vargas. O número de pistas é quase o mesmo, sem falar que tem uma leve inspiração nos Champs-Élysées, evidenciado pelas rotondas ao longo do seus 3,7 km entre o Bosque de Chapultepec (parque nos moldes do Ibirapuera, em SP) e a Alameda Central, um simpático pequeno parque que lembra muito o nosso Campo de Santana, em especial no aspecto histórico.
Comparação cartográfica entre as duas avenidas. O Paseo de la Reforma tem desenho mais pomposo por ter-se inspirado no Champs-Élysées, a exemplo das rotondas. A Presidente Vargas foi constituída a partir de linhas retas que, por outro lado, facilitam o tráfego. Mesmo assim, o porte das duas é semelhante, principalmente em relação às áreas verdes, como o Bosque de Chapultepec e o Campo de Santana, ambos à esquerda dos seus respectivos mapas.
O Paseo de la Reforma é uma avenida altamente empresarial. É o coração financeiro da Cidade do México. Conta com muitos hotéis, desde o Hilton, passando pelo Sheraton até o Four Seasons. Um modernoso shopping, iluminado pela luz do sol, no número 222, é o ponto central de encontro para compras, cinema e gastronomia. Isso porque o paseo já conta com dezenas de filiais de lanchonetes, restaurantes bem gabaritados, muitos Starbucks (como há!), outros cafés, um Cinepólis de rua, como o que temos na Lagoa, sem mencionar as empresas, bancos e novos condomínios residenciais. O consulado americano está lá, bem como diversas estações das ecobicis, o mesmo sistema de bicicletas públicas que temos aqui.
Além disso, as suas calçadas são verdadeiras áreas de convivência social. O mobiliário urbano foge às padronizações impostas pela secretaria de urbanismo da cidade para abrigar obras de arte em forma de bancos, lixeiras e jardins. Em certo trecho, um conjunto de sofás de dois lugares moldados à base de bronze (ou ferro?) serve de descanso e lazer para amigos e casais. Em outro canto, um banco inusitado em forma de baralho de cartas adorna o pesado trânsito da capital. O canteiro central também é muito original, atrativo e estratégico para impedir a travessia fora da faixa de pedestre. Um tremendo obstáculo, embora muito do charmoso.
Impressiona-me o porte do Paseo de la Reforma e a maneira como o espaço urbano é bem aproveitado. É óbvio que estou tratando de uma das mais importantes regiões da cidade (se não a mais!), como aqui no Rio Ipanema e Leblon representam-se. A questão é que (vou recorrer a um velho clichê…) o Rio precisa reinventar-se. A zona sul sempre será linda e muito procurada enquanto se preservem suas belezas naturais, não precisa de mais investimento – o que é diferente de conservação.
Bistrô no Paseo de la Reforma. As pistas laterais da avenida são compartilhadas por ciclovias, usadas tanto por jovens como por executivos.

À esquerda, padronização do piso das calçadas e do modelo de ajardinado entre caules. Na imagem seguinte, as ecobicis, que funcionam em um sistema parecido ao nosso.

Mobiliário urbano com arte. Sofás artificiais de bronze são um dos assentos inusitados no Paseo de la Reforma.
Apoio por completo a ideia de que o Rio de Janeiro precisa explorar outras facetas. Uma paulistanização a la carioca, se me permitem o termo, pode ser um bom caminho para recuperar áreas distantes do balneário e que não contam com nenhum atrativo mais social, intimista. A Avenida Presidente Vargas poderia ser muito bem a nossa Avenida Paulista – ou o nosso próprio Paseo de la Reforma. Ela já conta com toda uma estrutura que, se bem tratada, chamaria a atenção do pedestre: um lindo parque, o Campo de Santana; o sambódromo, prestes a reinaugurar-se; a igreja da Candelária, outra bela produção arquitetônica.
Observem as fotos da avenida mexicana e tentem transferir todas as suas melhores características para a nossa tupiniquim. Imaginem uma Presidente Vargas repleta de comércio voltado para entretenimento, maior arborização, jardinagem, policiamento… Digo e repito: temos um baita de um tesouro urbano, pra lá de maltratado, que poderia muito bem ser sede das principais transações financeiras do país, além de uma segunda opção de passeio ao ar livre para nós, cariocas, fora da orla.
A iniciativa privada é fundamental nesses casos aqui pelo Rio. Sem ela, não acredito na recuperação da Presidente Vargas e nem de quase nenhum outro espaço. Mas é essencial que haja um projeto urbanístico acoplado às construções, para que o público e o particular interajam e sejam parceiros, com o intuito de favorecer o cidadão. Por enquanto, a Presidente Vargas não está vivenciando isso.
Numa das rotondas do Paseo de la Reforma está o monumento ao anjo (el ángel) da independência mexicana. Fiz uma alusão ao nosso exemplo da Presidente Vargas, o monumento a Zumbi dos Palmares. Sim, as duas avenidas podem ter muito em comum.
asruasdorio.contato@gmail.com
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