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Resenha por Rafael Teixeira

Logo na primeira cena da peça Incêndios, Marcio Vito, no papel do tabelião Hermile Lebel, faz um reiterado convite: "Entrem, entrem, entrem, não fiquem na passagem". A fala, pelo que indica o texto, deveria ser direcionada a outros dois personagens: os gêmeos Simon (Felipe de Carolis) e Jeanne (Keli Freitas), que estão ali, na porta do escritório do seu interlocutor, para saber o que diz o testamento da mãe, Nawal Marwan, vivida por Marieta Severo. Nesta montagem, entretanto, o chamado é dirigido claramente à plateia. Nessa solução cênica do diretor Aderbal Freire-Filho, simples mas carregada de simbolismo, os espectadores é que são convocados a entrar - não no escritório de Lebel, naturalmente, mas na história. De fato, o público embarca sem reservas na convocação. O resultado pode ser constatado ao fim de cada apresentação, quando, comovida pela pungente interpretação de Marieta, boa parte das pessoas cai em prantos despudoradamente.

Explicar por que determinada obra de arte emociona não é tarefa fácil. No caso de Incêndios, porém, nota-se que, embora haja pequenas ousadias, como a mistura de passado com presente em cena, não é exatamente por inovações formais que o espectador é fisgado. Ao contrário, sua força avassaladora está naquilo que o teatro clássico sempre fez muito bem: provocar catarse. O termo, derivado do grego katharsis, significa purificação ou purgação e foi utilizado por Aristóteles em sua obra Poética, há cerca de 2300 anos, para definir o objetivo final da encenação de tragédias. Através da trajetória do herói, suscita-se no espectador terror e piedade com a finalidade de destilar os sentimentos em uma descarga emocional. O espectador mais familiarizado com o assunto vai encontrar em Incêndios ecos de diversas tragédias de Ésquilo, Eurípides e Sófocles - desse último, especialmente Édipo Rei -, e dizer mais do que isso seria comprometer o prazer de acompanhar a encenação até o final revelador.

Escrito pelo libanês Wajdi Mouawad, radicado no Canadá desde o início dos anos 80, o texto é a segunda parte de uma tetralogia que inclui as peças Litoral (1997), Florestas (2006) e Céus (2009). Das quatro, Incêndios é a mais conhecida, graças ao longa-metragem homônimo de 2010, dirigido pelo canadense Denis Villeneuve, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Encenado originalmente em 2003, com direção do próprio Mouawad, o espetáculo conquistou uma série de prêmios importantes e foi montado em mais de quinze países, êxito ancorado em um poderoso enredo sobre a tragicidade da condição humana. Na história, Nawal passa seus últimos cinco anos de vida em estado próximo da catatonia, sem razão aparente. Em todo esse tempo, ela não pronuncia uma única palavra - a não ser uma frase enigmática, dita certa vez a uma enfermeira. Após a sua morte, o testamento impõe uma desnorteante missão aos filhos, a matemática Jeanne e o boxeador Simon. A ela é dada uma carta, que deve ser entregue ao pai dos dois, que se acreditava estivesse morto havia anos. O rapaz recebe outra correspondência, destinada ao irmão de ambos, que eles jamais souberam que existia. As missivas são o ponto de partida para uma busca que levará os irmãos à terra onde nasceu Nawal - a julgar pela biografia do autor, presume-se que seja o Líbano. As referências ao local exato, porém, não são explícitas. O país nunca é citado e as cidades, com uma única exceção que passa despercebida do espectador, têm nome inventado. Os eventos que permeiam a história da protagonista evocam a Guerra Civil Libanesa, ocorrida entre 1975 e 1990, embora todas as passagens que remetem à história real tenham a data trocada. Essa brilhante opção de Mouawad resulta em uma universalidade que permite uma identificação ainda maior com a plateia.

Ficha técnica

Duração: 120 minutos

Recomendação: 14 anos

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